Julia...

1 Capítulo 1: Único.


Notas iniciais
~**~

"Se não fosse pelos males da vida, quem seria a morte?"

Foi em um patamar de loucura que cedi aos encantos de uma pessoa sem alma como ela, Julia. Encantado por tamanha beleza eu me desfazia, contradizia meus votos e caia.

Só Deus sabe o quanto eu me sinto impuro.

Aqueles lábios... Lindos, sedutores, perfeitos e vermelhos. Que deixei pintados de sangue duas horas antes, tão belos, lábios carnudos e perfeitos, eu daria tudo pra beijá-los novamente, apenas mais uma única vez, daria minha vida, minha fortuna, minha alma, eu me venderia. Deus, que desejo obsessivo que me toma! No que estou me tornando pai? Eu não podia estar assim.

Aquela pele, linda, branca e macia, meus dedos a tocaram diversas vezes, momentos mágicos tive com essa carne tão palpável, o perfume que exalava me recordava a inútil infância repleta de negações, abusos e sofrimento que tive, que o bom era apenas o cheiro de baunilha que vinha do quintal, o odor precioso e doce, o cheiro mais excitante que pude sentir, o delicioso odor, o cheiro dela. Mas... Porque hoje... O cheiro é podre?

Aquele castanho inesquecível de seus cabelos, sedosos, encaracolados que caiam como cascata, castanho e loiro, a combinação tão linda que ela tinha, me lembro quando minhas mãos se enrolaram naqueles cabelos, forçando-a, exigindo que ela me engolisse por inteiro, fazendo-a se engasgar com meus fluídos, invadindo aquela boca deliciosa.

Os olhos negros, que várias vezes presenciei chorar, lágrimas puras e cristalinas, salgadas como o mar, que toda vez eu lambia, sim, extremo fetiche que me domava, eu dizia que a dor passaria... Mas eu sei que o sofrimento jamais acabaria, ou teria um final... No entanto, por mais que parecesse estranho... Passou.

Eu a amava, amava seus olhos, eu me afundava neles, toda vez que eu chegava já me concentrava em seu olhar, o medo que me deixava com ereção, ela sabia que quando íamos para o quartinho da igreja, o medo começaria, eu nunca quis machucar ela... Mas seus olhos repletos de lágrimas me faziam ser possuído por alguma entidade maligna.

Mas aquele corpo era o que me fazia perder a sanidade, um corpo farto, repleto de curvas, lindo de mais para alguém como ela, seus seios tão lindos, seus braços tão pequenos, suas pernas tão lindas, suas coxas roliças que tanto apertei deixando marcas roxas e sua cavidade... Que por dias acabei por provar, o gosto de prazer que tinha, de sangue, de angústia, que por várias vezes machuquei e vi se aliviar sobre meus dedos, por mais que pedisse por piedade, por mais que dissesse NÃO, seus gemidos a entregavam, sempre, nunca ouve uma vez que não ouvi sua boca soltar um grito de prazer, um gemido suplicando por mais, pedindo para que minha língua não parasse de girar, de provar seu inocente gosto, eu sempre soube que ela gostava.

O melhor de tudo... Seu rosto... Que vi varias vezes se corar, no qual as coisas que eu mais amava tinha, sua boca, seus olhos, seu cabelo e sua pele.

Eu amava ver o que acontecia ao machucá-la, sua face se transformava, suas sobrancelhas se uniam, seus olhos fechavam, sua boca abria e gemia, sua pele se tingia com um tom de rosa na bochechas e seus cabelos se espalhavam na cama.

Eu amava vê-la sofrer, era um prazer apertar a carne por fora da calcinha no meio das orações e ver a tortura que era para ela se conter, era uma delícia chupar seu sangue após a tortura, era uma delícia ver o quanto ela me odiava e me amava ao mesmo tempo, era uma delícia me apoderar aquele lindo espaço entre seus glúteos, sem preparo algum e sentir suas paredes se contraírem, seu sangue cair em gotas e ver seu rosto pedindo para parar enquanto suas mãos agarravam o lençol.

Eu não queria machucá-la... Só me satisfazer.

Não tinha ideia do que estava fazendo, eu só queria que ela fosse virgem de novo, queria sentir o prazer de ir de novo, sentir ela pela primeira vez novamente, qual era o problema em cortar um pouco de carne e colocar no lugar certo? Eu só queria sentir aquela sensação de ser o primeiro, de fazê-la mulher pela primeira vez, de colocar o meu amor naquela linda cavidade, de ser o seu homem de novo... Eu não queria machucar, não sabia que ia pegar uma veia, eu só queria me satisfazer, juro.

Droga... Qual o problema de pegar você e meter em ti? Eu só queria fazer dela minha princesa intocável, eu sei que doía mas, eu a amava, o amor cura as coisas né? Era isso que mamãe falava... Mamãe... Me lembro de mamãe, me lembro de quantas vezes vi ela ser amada pelo papai, vi ela sendo amada, mas... Amar doía? Ela chorava quando papai dava amor pra ela, ela gritava, mas... Ela o amava, certo? Eu queria ser igual ao papai, dar amor pra Julia, eu só queria que ela fosse feliz, que nem o papai e a mamãe foram...

Mamãe morreu sendo amada pelo papai, me lembro dela deitada, com o papai encima dela, amando ela, mas... Por que ela sangrava? Quando o papai terminou... A mamãe não se mexia, ela só... Sangrava... Amar sangra?

Diga-me Julia... Amar doía? Amar sangra? Amar machuca? Amar te machucava? Eu te amava Julia! Eu te amei muito, tanto que estou te amando agora, não vê? Não vê eu te amando? Eu enfiando meu amor em você? Não vê que eu dou o que você gosta? Que eu te dou prazer? Porque você chora Julia? Porque não sorri e diz que me ama? Julia... Por que és tão ingrata em não retribuir meu amor por ti?

Julia... Sua meretriz! Por que não me ama?


Julia... Por que não se mexe? Por que não respira, Julia? Por que não fala, Julia?
Julia...
Julia...
Julia...
Julia...
Eu te amo, Julia...
Me perdoe, Julia...

Eu tenho que te esconder, mas é por pouco tempo, a polícia, esse país, ninguém entende o que é amor... Eles pensam que eu sou louco! Mas... Te prometo que todos os dias vou vir aqui, no quartinho da igreja e vou te tirar do baú, sei que é desconfortável ficar ai neste lugar tão úmido, tão sujo, tão fétido de sangue, mas eu já fiz o básico, esconder um corpo tão lindo, tão infantil como o teu, desculpe, mas é bem mais fácil te guardar ai em pedaços do que inteira sabia?

Julia, você é tão linda, nem parece que tem nove anos, te daria uns doze ou treze, Julia, me desculpa ter que te deixar ai sozinha e no escuro, mas eu tenho que dar a missa e minha batina está repleta de sangue, te prometo que quando eu fechar a igreja eu volto pra te amar mais, certo?

Julia, amar dói, não é? Mas é verdade, amar é ruim mesmo, eu vejo tantas pessoas se confessarem a mim, me dizerem o quanto choram por amor e elas não sabem o que é amor Julia, só eu e você sabemos...

Eu estava pensando Julia, seus pais vão te procurar e eu era seu responsável durante a catequese, bom eu sou um homem adulto, meus trinta e seis anos serviram pra aprender a mentir... Não me olhe assim! Eu não sou ruim! Não siga meu exemplo! Crianças não devem mentir! Crianças são puras, certo? Deus diz que crianças são anjos do céu.

Vamos lá, temos um roteiro! Um homem apareceu aqui e você o conhecia, então saiu com um estranho, E como você é descuidada Julia, eu poderia até rir, mas você me disse que ele era seu tio... Ah! Julia, você chama todos de tio...

A maioria dos desaparecidos morrem, sabia? Já que você desapareceu, temos que provar que você está morta e assim só ficará comigo, vamos, me dê o dedinho...

Tudo bem... Não vai doer nada. Viu? Só um dedinho e ninguém mais vai te procurar... Calma, não chore. Isso vai acabar, todos vão te esquecer e você vai ser feliz pra sempre comigo, te juro que só sorrisos irão estar em tua boca tão linda Julia, aliás, me diga Julia, porque você é tão linda?

Bom, minha querida, já que és tão linda, não terás medo do escuro né? Meninas bonitas não tem medo, você nunca teve, não é agora que vai ter, eu vou trancar a porta e não quero ouvir barulhos, tudo bem? Eu te amo, adoro quando és obediente...

Espere... Julia, me responda novamente se amar dói. Eu não entendo seu silêncio que me espanta, minha Julia fale comigo, por Deus... Quem fez isso com você? Eu sou o monstro?

Julia! Olha pra mim... Porque tem sangue aqui? Eu sou o culpado?

Julia... Oque fiz com você?

Deus... Pai, o que eu fiz?

Eu não queria...

Seus olhos Julia...

Eles...

Choram...

Julia Oliveira

Nove anos

2005 — 2014

*

*

*

*

Notas finais
Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!