Julgamentos
2 Pensamento nas núvens
No outro dia, Shura, Camus e Afrodite entreolhavam-se todas as vezes que os outros agiam de forma suspeita. A sala em que os rapazes trabalhavam havia grandes cortinas que cobriam as três grandes janelas. Naquele dia, o sol estava fortíssimo, e as cortinas quase não ajudavam a aliviar o calor e a grande claridade. Mas Milo gostava do sol do jeito que estava, e ele com certeza não iria ficar sem. Afrodite era meio sensível ao sol e todos sabiam disso. Milo se levantou e puxou as cortinas de forma que o sol batia em Afrodite e nele mesmo. Afrodite ficou surpreso, não sabendo se fora de propósito, ou não. Ninguém pareceu notar e Afrodite, incomodado, usou folhas sulfite para improvisar uma sombra. Camus logo percebeu a atitude do amigo e foi fechar a cortina.
- Obrigado Camus. Pelo menos você se importa comigo. — Disse Afrodite, esperando que sua indireta causasse alguma reação, mas ninguém disse nada.
- De nada, Dite. — sorriu.
\"Hm. Como é que eu ia saber que estava incomodando ele? Vai entender esse povo!\" pensou Milo enquanto digitava alguma coisa.
De repente, Saga saiu de sua sala e veio dar um anúncio.
- Senhores, hoje vocês estão liberados uma hora mais cedo.
Ninguém se manifestou até que Saga voltasse à sua sala, mas depois que ele fechou a porta, eles comemoraram, não de um jeito para chamar a atenção, mas o bastante. Saga era um diretor sério, parecia às vezes um professor que os alunos temem, mas costumava fazer algumas piadinhas quando estava bem humorado.
- Milo, Aiolia, Mu, vamos ao cinema hoje? — Shaka convidou.
Uma coisa que Shaka gostava mesmo de fazer era ir ao cinema, gostava de filmes de todos os tipos e se dedicava a colecionar e constantemente ia ao cinema. Shura brincava, dizendo que \"daqui uns tempos, esse aí vai morar dentro do cinema!\". Mas naquela situação não houve brincadeiras, nem parecia que todos ali eram amigos, mas sim que eram divididos em grupinhos rivais.
Camus passou um bilhetinho para Shura, o cubículo deste era bem perto do de Camus mas Aiolia ficava entre eles, escrito o seguinte:
\"Shura! Você viu? Esses PSs(1) do caramba já estão até marcando encontro com o novato!\"
Shura deu uma breve risadinha e escreveu com uma caneta,
\"Não esquenta. Adivinha onde eles vão? Ao cinema, é claro, pra variar! Mesmo se me convidassem, eu nem ia. Afffffff, ir no cinema? Parece que a vida deles gira em torno disso! cinema, cinema, filme, filme, só isso! Que saco! Mas foi mancada nem ter convidado.\"
Camus teve uma idéia e aproveitou o momento.
- Shura, Dite, vamos jantar na minha casa hoje? Aí depois a gente vai para algum lugar legal! — sorriu maliciosamente.
- Claro, Camus, será muito divertido! — Afrodite percebeu sua intenção e logo concordou. Shura só fez um sinal de aprovação com a cabeça e voltaram a trabalhar. Essa vez foi a vez de Shaka, Aioria e Mu entreolharem-se, Milo nem se importou.
Chegado o final do expediente, os rapazes que iam ao cinema saíram, quase saltitantes, discutindo sobre os filmes que estavam disponíveis naquela tarde. Camus pegou seu casaco e chamou os outros para sua casa. Quando eles chegaram lá, Camus, como de costume ofereceu um copo de whisky a eles e pediu comida chinesa pelo telefone, Shura e Afrodite sentaram no largo sofá preto e conversavam sobre assuntos que não tinham grande importância e Camus se juntou a eles enquanto o pedido não chegava.
- Vocês viram hoje? O imbecilzinho já está lá faz duas semanas e ele ainda não sabe que você não pode ficar exposto à luz do sol por muito tempo? Isso todo mundo deveria saber desde o primeiro dia! Será que ele não fez de propósito? — questionou Shura.
- Mas Shura, pega leve com o cara também! Vai ver que ele é muito santinho e não sabe de nada! — Afrodite certamente não gostava de julgamentos superficiais.
- Santinho, Dite? O cara não deve ser tão tapado assim! Pra conquistar os outros em tão pouco tempo, mostra que ele não é tão \"inocente\" quanto você acha. — Camus tomou um gole de seu whisky.
- Eu acho que não custava nada convidar a gente também. Afinal, eles conhecem mais a nós. — disse Shura.
- Sim, sim, convidar por educação. Eles não podem simplesmente fingir que nós não existimos. — Camus tomou outro gole. A campainha do apartamento tocou, era a entrega. Depois que Camus voltou com as caixinhas, a conversa deste tema cessou e os rapazes não tocaram mais no assunto pelo resto da noite.
Enquanto isso, os outros estavam em uma pequena fila do cinema, conversando.
- Mu, o que é que o Afrodite teve hoje? — perguntou Milo.
- Hmm, eu não vou saber te explicar muito bem, mas parece que ele tem uma certa sensibilidade ao sol forte.
- Ah, por isso então. Mas por que será que ele disse que só o Camus se importava com ele aquela hora?
- Provavelmente ele queria fazer um dos seus \"showzinhos\", o Dite é muito dramático. Creio que logo você vai se acostumar com todo mundo, mas vou te dizer uma coisa, acho que eles estão com ciúmes de você...
- E por que você acha isso? — Milo olhou para Mu, com uma expressão confusa.
- Gente, chega de falar sobre trabalho, vocês não querem ver o filme? Deixem isso pra depois, seus chatos do caramba! — Aioria, antes que Mu pudesse responder qualquer coisa, fez com que a conversa deles acabasse naquele instante.
Mostraram seus ingressos e seguiram para a sala do filme.
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- Diga-me Shura, o que você acha que deveríamos fazer? — perguntou Camus, mais uma vez. Já estava um tempo fazendo essa pergunta a seu amigo.
- Ignorá-lo, meu amigo. Isso é o que esse tipinho mais odeia, ser ignorado. — Shura disse com um tom de sábio, Camus e Shura beberam mais do que planejavam e estavam em um estado nada agradável, Afrodite, o único que quase não tinha bebido, deu uma desculpa e logo foi embora, depois de jantar. Afrodite não era uma pessoa mal-intencionada, ao contrário, tinha bom coração e não gostou de ver que Camus e Shura ficavam planejando coisas desagradáveis para fazer com o rapaz novo. Ainda achava que os dois iam acabar se dando muito mal por esses planos. Mas ele ainda tinha uma esperança, quem sabe um dia eles não tornassem a ser os melhores amigos?
- Mas Shura, e se aquele cara virar amiguinho do diretor também, e começar a espalhar mentiras sobre nós, o que a gente faz? — serviu mais um pouco de bebida para o amigo e para si mesmo.
- Como você me disse um dia, Camus, que ele vá pro inferno. Que todo mundo vá pro inferno, e que Hades dê um jeito neles! — e riram alto, brindando.
- Shura, você é genial! Não poderia ter arrumado amizade melhor, espero que juntos nós possamos derrubar aquele playboyzinho.
E continuaram conversando a noite inteira, bebendo e revirando o apartamento de Camus. Dormiram na sala mesmo, mas no outro dia tinham que voltar a trabalhar. Shura acabou emprestando roupas de Camus, e chegaram um pouco tarde. Afrodite olhou para eles e acenou de sua cadeira quando chegaram até a sala, e os outros só olharam para eles. O clima no trabalho não estava nos melhores, mas tudo parecia ir tranqüilamente. Uma hora, Milo se levantou, e andando até a mesa de Camus com alguns papéis, olhou para o ruivo e perguntou:
- Camus? Não estou te atrapalhando agora, estou?
- De maneira alguma Milo.
- Bom, preciso de uma ajudinha sua, pode ser agora?
- Claro. Diga-me, o que é?
- Ah, são estes projetos aqui, estão atrasados já faz uma semana, e eu não tenho idéia de como entregá-los ao diretor.
Camus levantou uma sobrancelha discretamente, por que Milo veio pedir ajuda justo a ele? Mas aceitou ajudar o rapaz. Ficaram envolvidos naquilo por algum tempo, mas tinha um certo clima pesado entre eles, parecia que Milo queria agradar Camus de algum jeito, mas Camus não mostrava nenhum tipo de reação com suas atitudes, isso deixava Milo impaciente, será que Camus era sempre assim? Não tinha emoções, nada? Precisava se concentrar mais no trabalho e esqueceu por alguns momentos esses pensamentos que frequentemente lhe cruzavam a mente e o deixavam tão confuso. A hora do almoço se aproximava e Milo decidiu que ia convidar Camus para almoçar com ele, quem sabe Camus não o surpreenderia com alguma coisa?
- Camus, fugindo um pouco do assunto de projetos, mas, você gostaria de ir almoçar comigo e os outros lá no restaurante perto do banco? — tentou sorrir, mas a expressão fria de Camus parecia que tinha tanto efeito em Milo, que este nem conseguia dar um sorriso direito.
- Hmmm, pode ser. — a simples resposta já surpreendeu Milo. Para ele, já era um bom começo. Camus nem sabia por que tinha aceitado o convite, talvez fosse por educação ou algo assim, sentiu na hora uma grande vontade de dar um fora em Milo, mas não conseguiu. Chegou quase a ter dó do rapaz, parecia que Milo estava suplicando que ele fosse, e se recusasse, talvez se sentiria arrependido depois. Camus levantou, pegou seu casaco e foi andando. Afrodite e Shura até estranharam e lançavam olhares para Camus, mas ele nem percebeu, Milo, por sua vez também foi chamar Afrodite e Shura, que aceitaram, mas foi só para ver como Camus se comportava. Todos foram andando, não era uma grande distância, e logo chegaram lá. Camus, pensativo, não dizia uma palavra. Eles almoçaram, e Milo tentava descobrir algumas coisas sobre o ruivo. Fazia milhões de perguntas a ele, mas Camus dava mínima importância, e jogava respostas curtas para o loiro, mas sem o tratar com grosseria.
- E Camus, o que você gosta de fazer nas horas vagas? — outra tentativa.
- Ler, fotografar...
- Eu gosto de ler também, o meu gênero preferido é terror, e as vezes até vai uma comédia, mas eu não sou muito afim de comédias, tem algumas que são tão patéticas... — o loiro continuou falando e falando sobre livros, e Camus nem fazia um esforço para prestar atenção. Olhava para a janela, via as pessoas andando, fingia que estava interessado.
\"E quem te perguntou?\" pensou Camus. Já estava se irritando com o jeito tagarela do rapaz. Só mesmo Aioria que vencia. Shura estava sentando ao lado de Camus, e cada vez que alguém dizia alguma coisa que era \"suspeita\" ele dava um leve chute na perna de Camus. O almoço então acabou e os rapazes voltaram ao edifício. Camus ao chegar em sua mesa, sentou-se e deu uma leve ajeitada em sua gravata. Milo se aproximou outra vez com os projetos.
- Camus, você poderia por favor revisar os projetos para mim? — Camus era conhecido por ter excelente gramática e escrevia os melhores projetos de toda a empresa, ele até poderia ser um ótimo jornalista se quisesse, mas achava mais interessante trabalhar na empresa, até considerou as possibilidades, mas não conseguia.
- Certo, eu vou revisar, e depois entrego para você, está bem? — disse. Milo nem disse nada, so acenou com a cabeça e voltou para sua mesa, próxima de Camus. Camus corrigiu tudo que foi preciso, até pensou, no começo, aprontar alguma sacanagem com seu colega, mas aquilo era trabalho, não poderia haver brincadeirinhas que lhe custariam depois. Quando finalizou, levantou foi até a mesa de Milo com os papéis. Entregou, e voltou para sua mesa. Quando estava quase lá, Milo o chamou.
\"Mon dieu, que será que ele quer desta vez?\"
- Sim? — ajeitou mais uma vez sua gravata.
- Camus, muito obrigado. — um leve sorriso apareceu.
- De nada, quando precisar de mais alguma coisa, só me dizer. — e voltou para sua mesa.
Afrodite, lixando suas unhas, assistia tudo de sua mesa, esperançoso. Será que seria o começo de uma nova amizade? Mas Camus não pensava assim, só foi gentil e fez um favor para o rapaz, não houve nada de amizades. Olhou para a tela do computador, mas se sentiu desanimado para continuar o trabalho. Revirou os papéis que estavam em cima de sua mesa, como se procurasse alguma coisa, na verdade, queria que o tempo passasse rápido, mas parecia que tudo ia lento demais. Passou a mão nos longos cabelos ruivos e pensou no que faria no dia seguinte, uma sexta-feira. Pensou em ir na praia, mas e se ele encontrasse um \"certo alguém\" lá? Este certo alguém com certeza falaria com ele, e ele não estava com a mínima vontade de falar com Milo, não suportava ficar perto dele, mas, por que ele se importaria com o outro? Não deixaria de fazer algo que gostava por causa de Milo.
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Sexta-feira chegou, e a primeira coisa que Camus fez ao chegar no trabalho, foi pegar um copo de café. Para ele, aquele seria um dia perfeito, e ninguém, mas ninguém mesmo poderia estragá-lo. Ele ligou seu computador e olhou seus e-mails. Tinha um de Afrodite na caixa de entrada, e ele, curioso, já foi abrindo. O e-mail dizia:
\"Camus! Gostei da sua atitude com o novato ontem. Eu acho que vocês seriam ótimos amigos. Vamos, dê uma chance a ele, ele não é tão ruim assim quanto você pensa! Por favor Camus, é muito melhor ter amigos do que inimigos. Você não deveria brigar com ele, ele pode ser muito útil pra você um dia, não menospreze o rapaz!\"
Camus virou os olhos. Aquilo era muito pra ele. Clicou em \"responder\" e digitou,
\"Dite, já que você gosta tanto do Milo, por que VOCÊ não vai lá e vira amiguinho dele? Dite, eu não quero me envolver com gente que só pisa nos outros! Amizade é outra coisa! Mudando de assunto, vamos almoçar juntos hoje, você, o Shura e eu?\"
Deu uma risadinha e enviou. Ficou observando Afrodite por alguns momentos e percebeu que ele havia recebido o e-mail. Afrodite leu ligeiramente e lançou um olhar curioso para Camus, que por sua vez, retribuiu com um sorriso divertido.
\"Esse Camus não tem jeito mesmo..\" pensou Afrodite. O resto da manhã transcorreu normalmente, mas o que Camus não sabia, era que Milo o observava atentamente, mas não sabia exatamente porque. Milo sentia admirado pela frieza de Camus, como será que ele conseguia ser assim? Será que ele era diferente fora do trabalho, ou era a mesma coisa? Tantas perguntas passavam rapidamente na mente de Milo que ele nem conseguia se concentrar no trabalho. Estava com os pensamentos na lua, mas sua atenção voltou logo que sentiu Shaka jogando bolinhas de papel amassadas nele.
- Que foi Milo? Parece zumbi. — brincou Shaka.
- Ahn? Acho que não dormi muito bem esta noite... — deu a primeira desculpa que pensou, Shaka não se convenceu muito, mas aceitou. Milo, por sua vez, voltou a trabalhar, mas continuava pensando. Se levantou e foi até a maquina de café na sala ao lado e deu de cara com Camus lá. Não percebeu que o ruivo tinha ido até lá. Eles apenas se olharam e Camus já ia voltando para sua mesa. Milo continuou olhando para Camus, e pegou um copinho de café. Quando voltou para sua mesa, Shaka olhou para ele e levantou uma sobrancelha. Faltava uma hora para chegar o final do expediente e todos eles já estavam cansados, os céus já estavam escurecendo e uma fina chuva caía nas ruas. Camus anteriormente havia planejado caminhar na praia depois do trabalho, mas andar na chuva e se molhar não o seduzia. Pensou em ir pra casa e fazer alguma coisa lá. Não estava afim de sair com ninguém aquela noite, precisava ficar um tempo sozinho.
Dado o horário do fim do expediente, Camus ajuntou suas coisas e foi saindo. No estacionamento encontrou Shaka, que veio falar com ele.
- Camus? Posso te contar algumas coisas?
- Claro Shaka, estou à sua disposição.
- Bem, é sobre o Milo. Não conte pra ele isso que eu disse, mas ele me confessou que queria ser seu amigo.
- É.. é mesmo? — estava surpreso.
- Sim, — suspirou. — ele me disse que ficava intrigado com seu jeito indiferente de ser, e queria saber se você era sempre assim. — Camus deu uma risadinha ao ouvir o comentário.
- Mas Shaka, eu não sinto vontade nenhuma de conversar com ele. — olhou para o chão.
- Faça um esforço, Camus. Quem sabe vocês não se tornam os melhores amigos? — Shaka então disse que tinha que ir. Os dois se despediram brevemente e cada um seguiu para sua casa. Camus, quando chegou na dele, sentiu um grande alívio, talvez porque não havia ninguém lá para o lembrar que Milo queria tanto ser seu amigo. Uma pequena bolinha de pêlos negros veio a seu encontro, era sua gatinha de estimação.
- Demorei muito hoje, Isis? Venha, vou preparar o jantar para nós dois. — e dizendo isso, pegou o gato nas mãos e foi até a pequena cozinha. Depois de jantar, Camus foi tomar um banho, estava muito cansado depois aquele longo e tedioso dia, mas agora tudo estava indo perfeitamente bem, gostava de ficar em casa com Isis, pois era a única que não lhe irritava sobre certos assuntos desagradáveis. Ligou o chuveiro no mais quente e entrou, aproveitou o banho para relaxar e se sentiu sonolento depois. A chuva que caía parecia só aumentar sua intensidade. Camus colocou roupas mais confortáveis, deitou em sua cama e continuou a ler um de seus livros de poesia. Isis aninhou-se ao seu lado e dormiu enquanto Camus levemente passava a mão em seus pêlos macios.
Depois de muito tempo colocou o livro de volta em uma estante que tinha em seu quarto e voltou para a cama. Deitou e seus pensamentos voltaram às palavras de Shaka. Será que ele conseguiria mesmo fazer um esforço para ter uma boa amizade com Milo?
Notas finais
1: PS é um termo que eu e minha prima inventamos há uns tempos atrás. Significa puxa saco. achei interessante colocar aqui.
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