Julgamento
1 Julgamento
Julgamento
Um pequeno conto, para todos aqueles que se perguntam “o que vem depois?”.
Numa grande sala, onde tudo era branco e vazio, só havia uma presença, uma aura poderosa o suficiente para se tornar fisica, que lembrava de uma estátua gigantesca na forma de um homem. A grande estatua estava sentada em uma imensa mesa de marfim, sobre a mesa haviam coisas que lembravam muito a mesa de uma secretaria, canetas, livros, uma caneca com o escrito “melhor juiz do mês”, mas havia uma coisa inusitada ali, a única coisa estranha na mesa era uma pequena balança de cobre, daquelas bem antigas. Num de seus braços, repousava uma pluma branca, que dificilmente chegava a pesar o mesmo de uma bola de gude, pelo menos ao olho de um homem. Ao ver de qualquer um, aquele era um gesto um tanto estranho se parar para pensar, a menos que você tenha o conhecimento do exótico, o que, nos dias atuais, é bem dificil.
De frente para mesa, uma fila com centenas de pessoas, que a cada minuto parecia crescer mais e mais, era formada. Como num ato de solidariedade e piedade, uma atrás da outra, as pessoas iam até o pé da grande mesa de marfim e, com a ajuda do gigante, repousavam a frente da grande estatua, se apresentando e então sentando no outro braço balança, oposto ao que segurava a pluma. Com isso a grande estatua, que, com a mesma delicadeza que ajudou as pequenas pessoas a subir, ajudava-as a descer e posiciona-las de frente para um grande portão de pedra lascada, bem antigo, parecia ter sido concebido há eras. Ao lado deste havia um outro portão, com a mesma arquitetura anciã, porém menos acinzentado, qualquer um que o observasse pensaria ser somente mais recente que o outro por algumas decadas.
Muitas pessoas que subiam na balança, além de apresentarem algum machucado, corte, ou hematoma de qualquer gênero, não faziam o outro braço esboçar o mínimo esforço de subir e contrabalancear o peso da pluma. Centenas de pequenas pessoas pálidas iam subindo no braço da balança com o apoio da estátua, até que, uma destas pessoas, um homem de terno, gravata e, por mais absurdo que pareça, com seu pescoço curvado num angulo de exatos 90 graus, parecia bem incomodado por ter que esperar ao lado de tanta gente, começou a se revoltar e desviou-se da grande fila e seguiu direto para a mesa de branquitude celeste.
Ao chegar perto da mesa, o homenzinho, já muito nervoso, gritou:
— Eu exijo uma explicação.
A essa altura não era de se esperar mesmo que ele soubesse o que estava havendo, poucos da fila ousavam, ou tinham os nervos para comentar o que havia acontecido. Mais e mais pessoas iam surgindo da grande fila, a cada minuto uma centena de pessoas surgia, na maioria pessoas de idade mais avançada, com algumas exceções de lacerações e torções.
—Eu exijouma explicação e exijo agora.— disse o homemzarrãozinho, com mais bravura que uma formiga zonza pela insolação.
A estátua, que já estava mais que cansada, pediu, com gentileza, para que o homem se afastasse e voltasse para onde estava na fila, e logo, se não descobrisse por conta própria o que havia lhe acontecido, ele lhe contaria tudo, esclarecendo todas as dúvidas que tivesse. Mas o homem de terno não voltou atras, pelo contrário, avançou contra a grande estatua mais uma vez gritou:
—Eu não saio daqui, a menos que uma explicação me seja fornecida.
O Homem de Pedra levantou-se da cadeira, o que parecia uma atividade que não se repetia muitas vezes no decorrer do dia, pois as articulações de suas pernas faziam um rangido nada amigável para os ouvidos daqueles que ali na fila esperavam, e explicou mais uma vez, só que desta vez não tão gentilmente:
—Senhor, não lhe explicarei nada agora, pois, se eu for explicar para cada um da fila que morreram, e que agora serão julgados e levados para o lugar que é assegurado para vocês como pós vida, assim como fiz semana passada, haverá outra comoção, e desespero daqueles que ainda não...
No momento em que o gigante insinuou que todos ali haviam morrido, o desespero daqueles que ainda não haviam percebido o que estava acontendo foi geral.
—De novo não — Reclamou o gigante depois de perceber a besteira que havia feito de novo — Dessa vez eu me lasquei de verdade.
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