João e Maria
2 Que sorte a minha!
'Pai, já tá super tarde… Você tem certeza que prefere ficar aí cortando plantinha ao invés de ir dormir?' Bianca estava terminando de servir um copo d’água enquanto tentava animar seu pai.
'Plantinha não! Já falei, são bonsais! Mais respeito, por favor.'
A menina sorriu e foi até o pai.
'Paizinho, até a Ka já desistiu de ficar vendo luta e foi dormir… Você também tem que descansar para dar aula amanhã, não é?' Gael apoiou a tesoura na mesa e virou-se, carinhoso, para Bianca.
'Filha... Vai dormir. Eu vou ficar por aqui mais um pouco.' Bianca ergueu a sobrancelha e ele se justificou. 'Não tenho sonhado com nada que presta, melhor mesmo ficar acordado.'
Bianca olhou-o compreensiva e decidiu não perguntar o que incomodava-o. Em parte porque ela já sabia e em parte porque não queria constranger seu pai. Desde que eles haviam avistado Dandara beijando René as noites de seu pai tinham se transformado em pesadelos.
'Vê se não demora muito, tá?'
'Pode deixar. Boa noite, Bi. Dorme bem.' Ele abraçou-a com um braço e deu um beijo em sua testa. Assistiu a filha ir em direção ao quarto e caminhou até a poltrona, onde se jogou, admitindo o cansaço. A verdade é que ele não podia dormir sem sonhar com Dandara. Ele estava apaixonado e desde que começaram a sair, ela estava presente em seus sonhos...
Desde que sua ex-mulher, Ana, se fora, ele nunca havia sido enfeitiçado desse jeito por mulher alguma. Houveram algumas paixões que duraram pouco tempo, mas todas perdiam a graça após a consumação… Ninguém havia sido importante o suficiente para ser apresentada a suas filhas… Mas com Dandara foi diferente.
Ela sempre lhe chamou atenção, desde que chegara para dar aulas na Ribalta, mas ele nunca considerou ter chance com ela. Era uma espécie de amor impossível que ele gostava de pensar quando precisava se aliviar ou destrair a cabeça. Aquela professora de canto… Artista… Que dava aula na escola que ele tanto odiava… Essa sim, conheceu suas filhas e acabou morando na casa dele. Por algumas boas noites, dividindo a mesma cama.
Gael não conseguia deitar naquele colchão e esquecer o contorno do corpo dela do outro lado da cama. Ela tinha curvas perfeitas, e o fascinava em todos os sentidos. Com Dandara, a primeira noite havia sido somente a descoberta do prazer. Ele constantemente desejava-a de novo e de novo, e imaginava cenários onde estariam os dois, sem crianças, somente pertencendo um ao outro.
'Mas agora ela pertence àquele… René Spinelli…' Gael conversava com seus bonsais. 'Porque as mulheres que eu amo ficam atrás daquele palhaço de olhos azuis?' Em um movimento quase animal, Gael sacudiu a cabeça a fim de afastar os pensamentos de Dandara nos braços de outro cara. Não adiantava mais ficar pensando nela. Ele errara e perdera-a. Agora era hora de se contentar com a vida que sempre teve… Antes dela. 'Quem sabe um X-Gael?' ele considerou, mas a verdade é que não tinha fome.
Bianca estava certa, ele deveria esquecer aquilo tudo e ir dormir. Encaminhou-se para seu quarto, mas ao olhar a cama, seus pensamentos levaram-no a Dandara novamente, e ele nem tentou resistir. Revivia a memória como se estivesse num filme. Ela diante dele, a larga blusa laranja já desabotoada, revelando o colo de seus seios protegidos por uma fina lingerie preta… Sentada na cama ela sorria e convidava-o para se aproximar...
'Merda!' Ele não resistiu em pronunciar e com força fechou a porta atrás de si. Ele precisava pensar em outra coisa. De volta à sala, jogou-se no sofá, e ligou imediatamente a televisão na continuação da luta. Como nas noites anteriores, a exaustão levou-o a adormecer ali, em frente à tv.
**
De manhã na academia, Gael se arrependia de não ter resistido às memórias e ido dormir na sua cama. Sentia dores no corpo e seus olhos, cansados, pediam arrego.
'Fabi!' Gritou, vendo a aluna tentar uma sequência de socos. 'Jab, direto, cruzado! O que é que é isso que você tá fazendo? Vambora cambada! Quer me enganar, me da jujuba!'
'Nossa, Ka,' Marcão sussurou pra Karina 'O mestre hoje tá com a macaca!'
'Aff,' respondeu a menina irritada, 'nem fala. Tá assim desde cedo. Hoje de manhã ele fez questão de comer todos os ovos sozinho. Nem pra Bianquinha ele aliviou… Não sei o que deu nele.'
'Tá reclamando do que? Kariná? Quer fofocar, vai pro salão!' Gael fazia o sinal de 'to de olho' para Karina enquanto Duca se aproximava da menina, preocupado.
'Galera, vamos aliviar com o Mestre hoje, tá?' E adicionou em voz baixa 'Depois eu converso com ele mas agora vamos treinar…’ Reparando que Gael o observava adicionou em voz alta 'Ô-ô Zé, não adianta fingir que eu to de olho, vamos lá! Jab! Direto! Cruzado!'
Gael sorriu, cúmplice, para o pupilo.
'Duca, eu vou só ali lavar o rosto, dá uma olhava nesse bando de perna de pau aí pra mim, pode ser?' Duca assentiu e Gael se encaminhou para o banheiro. Com as mãos em formato de concha, Gael jogava água em seu rosto tentando acordar. 'Que droga! Por que você tem que ser tão burro e virar a noite pensando em mulher?' Gael dava tapas em sua própria cabeça quando a porta do banheiro se abriu e um homem entrou no banheiro.
'Ah não…' Gael não resistiu. 'Que sorte a minha! René Spinelli!'
René fechou a porta do banheiro atrás de si, mas ao encarar Gael titubeou no lugar, sem saber se entrava ou saia. Gael, por sua vez, respirou fundo. Ele não iria perder a cabeça com aquele cara de novo. Ele não podia. Qualquer reação bruta só iria piorar a situação com Dandara. Ele prometera que ia tentar se acalmar… Sem direcionar o olhar a René ele encarou a si mesmo no espelho, levemente bufando de raiva.
'Bom dia, Gael' Exclamou René, decidindo por entrar no vestiário.
'Só se for pra você.' Retrucou Gael sem se segurar. 'Um dia bom pra mim é um dia que eu passo sem a sua ilustre presença.' Ele poderia até ficar calmo, mas segurar o sarcasmo seria demais...
'Gael, eu achei que a gente já tinha passado dessa fase… Pra que ficar arranjando inimizade? Aqui a gente divide o mesmo espaço—'
'Pelo visto não é só o espaço que você quer dividir comigo, né?' E virou-se para encarar o rival. 'Que foi? Quer ficar amiguinho agora?'
'Gael, não foi isso o que eu disse… Só estou dizendo que eu nunca te fiz nada—'
'Nunca me fez nada? Só foi amante da minha mulher, só isso. Não fez nada. Ah, René, faça-me o favor!' Era melhor essa conversa terminar, pois ele não iria se aguentar…
'Gael, essa história de novo não! Pela milésima vez, eu não tive nada com a Ana!'
'Só chegou com ela de moto toda…' Gael estava enojado. Lembrar disso tudo o deixava triste, com desgosto. 'toda descabelada… Mas não aconteceu nada! Vai me dizer também que você não tava beijando a Dandara no meio da praça? Que ali também não aconteceu nada?'
'Ah, então é por isso que estamos nervosos!'
Gael voltou-se ao espelho e levou as mãos ao rosto escorrendo a água que ainda cobria-o enquanto tentava prestar atenção na respiração. Ele não queria ter falado sobre Dandara.
'Olha, Gael, eu nunca iria negar isso.' Gael manteve o olhar reto, evitando contato visual com René. 'Já te falei inúmeras vezes que eu não tive nada com a Ana. Nós éramos somente parceiros em cena. A Ana te amava, cara.' Gael abriu a torneira com força para que o barulho da água superasse a voz de René. Era melhor esse cara parar de falar ou ele não iria se segurar por muito mais… 'Mas com a Dandara a história é diferente. Ela era minha mulher, ela mãe do meu filho--'
'É, você teve a oportunidade e você perdeu.' Gael não se segurou e virou-se para René' Você teve a Dandara e deixou ela em casa, grávida enquanto você saía pra pegar a minha mulher!'
'Gael, pelo amor de Deus,--'
'Não fala!' Gael esticou o dedo na frente de René que deu um passo para trás. 'Não fala mais nada que eu to me segurando pra não te dar um soco desde que você entrou aqui! Você machucou a Dandara e a abandonou! E nem vem aqui com essa história de que cheguei primeiro porque você não merece ela!'
'Eu não merecia, é verdade.' René suava um pouco e agora falava firme e se esforçava para continuar a encarar o lutador. 'Mas to me esforçando pra merecer... E você também fez ela sofrer. Eu sei das coisas que você falou pra ela quando vocês terminaram... Eu nunca chamaria-a de irresponsável ou outras coisas que você disse. Eu mudei e eu vou merecer outra chance.'
'Sabe o que eu acho que você merece? Umas boas pancadas!'
'Você não aprende, né, Gael? Acha que é dono da verdade e depois fica surpreso quando a Dandara não te quer... Olha só,' René fechou a torneira que ainda estava aberta e se debruçou sobre a piada 'eu não tive nada com a Ana, é verdade, mas com a Dandara eu tive. Tive e se depender de mim, eu vou ter de novo.'
'Seu filho da mãe...' Gael deu um passo a frente e René esticou os braços mantendo uma distancia entre os dois.
'Você teve a sua chance. E eu não vou desistir de ter a minha. A Dandara é a mulher mais fascinante que eu conheço e eu vou lutar para tê-la de volta.'
'Você lutar?' Gael zombou. 'Quer lutar agora?' Ele mostrou os punhos e René deu um passo para trás.
'Não preciso lutar com você. Você já está perdendo sem eu nem fazer nada...' E com isso se virou e saiu antes que Gael pudesse chegar até ele.
'Aaaaaaaaah!' Gael urrou de raiva e socou a porta do banheiro. Como ele odiava aquele René… Se não bastasse o histórico com a Ana, a insegurança que tomava conta de Gael ao olhar para seu rosto e ver a possibilidade de perder a Karina, agora ele tinha de ver o galã conquistar sua ex-namorada. Gael deu outro soco na porta.
René estava certo! Mais um soco. Ele havia estragado tudo, estava entregando-a de bandeja para os braços daquele filho da mãe. Outro soco e a porta reagiu. Duca entrou no banheiro, franzindo a testa para Gael.
'Mestre? Tudo certo por aqui?' e abaixando o olhar até a mão de Gael, adicionou, preocupado. 'Mestre, você está sangrando.'
Gael olhou para seu punho que estava sujo de sangue e colocou a mão debaixo d’agua corrente enquanto ainda sacudia a cabeça com raiva.
'Não foi nada, Duca.'
'Mestre, eu te conheço, o que aconteceu?'
'Duca, posso te pedir uma coisa?'
'Claro, mestre.'
'Cuida da sua vida?'
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