Maria acordou lentamente com o cantarolar de Nora. Os raios de sol que entravam pela iluminavam-lhe a face e atrapalhavam-lhe a vista.

-Bom dia.- Nora disse, feliz ao ver que sua menininha havia acordado.

-Bom dia Nora... Bom dia Jo...- Ela procurava o garoto pela sala.- Onde está o João Nora?

A face de nora se contraiu. Ela fez um olhar que Maria nunca havia visto e se aproximou de uma pequena mesinha, ao lado do sofá. Pegou um papel que estava sobre ela e levou para Maria.

-Ele foi embora, ontem a noite. Deixou esse bilhete. Eu tentei segui-lo para o fazer voltar, mas o som dos lobos já indicava que ele já não estava mais entre nós.

Maria a fitava com os olhos arregalados, olhos este que não demoraram a se encher de água.

-Por que? Porque ele tinha que sair.- Maria disse, chorando e abraçando Nora.

Se Maria tivesse dado mais atenção ao bilhete, perceberia que a grafia contida nele era muito bela para se de João, mas, em vez disse, apenas o atirou, amassado, para trás enquanto chorava.

-Calma Maria, não chore. Ele fez as escolhas dele.- Ela dizia tentando reconfortá-la.- Vamos levante, eu fiz uma sopa ótima para o café da manha.

Maria sentiu o cheiro da sopa vindo do fogão. Realmente devia estar ótima pois cheirava muito bem.

-Ta... ta bem.- Maria ainda limpava as lágrimas quando sentou-se a mesa.

Nora serviu-lhe a sopa, era de caldo amarelinha, pedaços de legumes e de carne estava misturados nela.

-Está boa Maria?- Nora perguntava enquanto também provava a sopa.

-Está ótima, nunca comi uma carne tão boa quanto esta.

Assim a manhã passou voando. Maria, já esquecida da morte do irmão, brincava de fazer vasos junto com Nora.

-Bem, agora você fique aqui que eu vou levar esses vasos para a fornalha, para que virem cerâmica.

Maria acenou com a cabeça e ficou, olhando pela sala. Nora ia lentamente para dentro da sala, que era bem grande por sinal, para colocar os vasos.

Quando não se tem nada para olhar, acha-se o que olhar. Pelo menos era isso o que Maria estava fazendo. Parou nos vasos sobre o guarda-louças. Cada um contendo um nome em uma bela grafia. Pedro, Antônio, Marcelo, Joaquim, Bernardo, Renato, Sergio e João. Maria demorou um pouco para perceber que o vaso escrito João não estava lá quando ela chegou a casinha. Mas por que Nora faria um vaso com o nome de seu irmão? Será que era uma espécie de homenagem ou algo de tipo?

-Maria, traga-me a vassoura, está uma sujeira aqui dentro, quero limpar este lugar.

Maria levantou-se e jogou de qualquer jeito a vassoura para dentro da fornalha, sem tirar os olhos do vaso com o nome de seu irmão. Aquilo havia lhe encucado.

Com muito esforço a garotinha arrastou a mesa até perto o guarda-louças, colocou então uma cadeira sobre a mesa e pegou o vaso, era pesado, quase o deixou cair.

Desceu-o lentamente até a mesa e retirou a tampa com cuidado. O cheiro ruim se alastrou e chegou a narizinho da menina. Dentro do vaso um saco manchado. A curiosidade de Maria não deixou o saco dentro do vaso.

Ela o retirou e, segurando na parte inferior do saco, derramou seu conteúdo sobre a mesa.

Um soluço surdo saiu de Maria. Do saco caíram milhares de pedacinhos de carne crua, recém cortada, o sangue ensopou a mesa. Mas o que realmente lhe assustou foi ver a cabeça do irmão no meio daquele monte de carne. Na hora veio-lhe a sopa do café da manhã. O vômito foi imediato.

Como Nora podia ter feito aquilo? Ter matado o irmão e depois feito Maria comer sua carne? João tinha razão, teria sido melhor se tivessem matado a velha logo de inicio.

Maria sentia remorso misturado com raiva e nojo. Não conseguia ver Nora como a boa velhinha de antes, agora a via como assassina de seu irmão. Estava na hora de vingar a morte dele.

Maria, emersa em raiva, desceu a mesa e foi na direção da fornalha. Nora a encarou com o sorriso de sempre.

-Só um minuto meu amor, já vamos arranjar algo para comer.- A velha agora dava nojo em Maria.

-Assassina!.- Foi a única coisa que Maria disse e bateu a porta da Fornalha, trancando-a por fora.

A velha correu até a porta e olhou pela janelinha que havia nesta. Gritava lá dentro, mas o som saia extremamente baixo para Maria.

-Espere, o que você....- Nora viu os restos de João sobre a mesa e entendeu.- Não, não foi isso, foram os lobos... Nós estávamos sem comida, você tem que entender.

Maria tinha tamanha raiva que não conseguia entender nada o que a velha dizia.

-Espere Maria, o que vai fazer?- Os olhos de nora se arregalaram quando viu a garota pressionado o botão ao lado da porta, o que ligava a fornalha. – Maria! Não Maria! Desligue!

A mulher gritava freneticamente. Maria apenas andou calmamente até o sofá e ficou ouvindo os gritos de Nora. Sorria, tendo a sensação de serviço bem feito. O irmão estava sendo vingado, e Maria gostava disso.

Não demorou muito para que a velha parasse de gritar. Maria aguardou um pouco mais e finalmente foi verificar a fornalha. O que viu foi apenas um cadáver carbonizado.

-Bem... Parece que vou ter que fazer um vaso para você, não é Nora?- A menina não era mais a mesma.