Notas iniciais
Dedo confundido com um osso? ta bom...

Assim que terminou de comer João levantou-se sacudindo os farelos de pão da roupa.

-Muito obrigado pela comida. Será que você poderia me arrumar uma cama? Estou quebrado.

A senhora estranhou um pouco a comodidade do garoto, enquanto Maria já ia terminando de comer e colocava as louças na pia ele pedia uma cama? Mas não disse nada, apenas apontou com a cabeça para sua própria cama, a única da casa.

João acenou com a cabeça e foi até a cama. Logo os lençóis brancos ficaram amarelados pela sujeira do garoto.

-Senhora, me desculpe, mas como é seu nome?

A velhinha ainda fitava João em sua cama, então voltou-se para a garotinha com um sorriso.

-Nora, pode me chamar de Nora.

Maria sorriu para a velha mulher e se dirigiu a pia, começando a lavar as louças. A mulher retirava o que restava sobre a mesa e terminava de limpar a bagunça do café da manhã. Após isso pegou um pano de prato e começou a enxugar a louça, enquanto Maria a lavava.

-Termine e vão embora, acho que seus pais deve estar preocupados.- A velha falava enquanto enxugava um copo.

-Não... não temos pais, somos órfãos.- De certa forma eram, e não importava no momento a maneira que haviam ficado neste estado.

Nora ficou em silêncio por alguns segundos.

-Bem... se quiserem ficar aqui.- Ela disse sorrindo.- Eu já estou velha, e sempre quis ter uma filha como você para me ajudar nos afazeres de casa.

Maria a olhou maravilhada.

-A senhora está falando sério? Eu adoraria.

As duas sorriam uma para a outra, a partir daquele momento os trabalhos de casa pareceram ficar mais interessantes.

Depois da louça varreram o chão e bateram os tapetes. João ainda dormia, resolveram não acordá-lo. Fizeram o almoço e almoçaram juntas. Maria finalmente tinha conseguido uma mão, ou mesmo uma avó, que gostava dela.

A tarde, como já haviam feito todos os trabalhos de casa, Nora decidiu ensinar a Maria a arte da escultura em argila. Maria não podia estar mais feliz.

João acordou por volta das quinze horas. Estava aparentemente de mal humor. Levantou-se e foi mexer nas panelas, uma coxa de frango foi fisgada com uma das mãos encardidas.

Nora estava ensinando Maria a modelar um vaso quando ele se aproximou das duas.

-Vamos Maria?- Ele disse e deu uma dentada na coxa.

-João, a Nora disse que nós podemos morar com ela, vamos ficar.- Maria disse sorrindo. Nora não sorria, mas não demonstrava o desprezo que sentia pelo garoto.

-Ah, você que sabe, mas quando ela começar a bater na gente não venha chorar para mim.

Foi a gota d’água para Nora.

-Escuta aqui mocinho...- Nora ia ralhar com ele, mas ele simplesmente ignorou.

-Vou lá fora, dar uma volta.- E saiu pela porta de madeira.

Nora virou-se, seu rosto estava vermelho e os dentes serrados.

-Cama Nora, ele é assim mesmo.- Maria dizia tentando acalmá-la.

-É bom que mude se quiser continuar aqui em casa!- Nora agora respirava fundo, estava mais controlada.- Por que ele não é como você meu anjinho.- A velha disse, voltando a sorrir.

-Espere, vou falar com ele.- Maria disse, e retirando o avental sujo de argila, saiu atrás do irmão.

Nora estava feliz consigo mesma. Não havia se descontrolado com João. Havia finalmente encontrado a criança perfeita, segundo ela, para lhe ajudar, para lhe servir como herdeira, mas parece que ela havia vindo com um irmão adicional que era exatamente o contrário do que Nora queria.

Mas parecia que Maria gostava do irmão, então Nora faria o possível para suportá-lo.

Maria encontrou o irmão no “jardim” da casa. Estava jogando alguma coisa na direção das árvores, com certeza pedras.

-João...

O menino olho para a irmã. Estava com um olhar diabólico.

-Maria... O que acha de morarmos sozinhos?

-Do que você está falando João? Nós agora temos a Nora. – Maria parecia não entender o irmão.

-Que se dane essa velha! Eu não gosto dela... Acho que ela merece o mesmo que o papai e a Minerva.

-João! Ela é boa, não podemos matá-la.- a garota se desesperou, não queria Nora morta.

-Não estou dizendo que vou matá-la, só estou dizendo que acho que seria melhor se morássemos sozinhos. Logo a Nora vai querer mandar em nós.

A porta da casa se abriu, a velhinha apareceu nela.

-João... Maria... Venham tomar banho...- Ela gritou para os dois.

-Tá vendo.

-Não enche João.- Maria disse, então virou-se para Nora.- Já vamos Nora.- E voltou para João.- Vamos João, você está mesmo precisando de um banho.

João fez uma cara de irritado, mas seguiu a irmã para dentro da casa.