João E Maria
4 Quatro
Notas iniciais
Assim que terminou de comer João levantou-se sacudindo os farelos de pão da roupa.
-Muito obrigado pela comida. Será que você poderia me arrumar uma cama? Estou quebrado.
A senhora estranhou um pouco a comodidade do garoto, enquanto Maria já ia terminando de comer e colocava as louças na pia ele pedia uma cama? Mas não disse nada, apenas apontou com a cabeça para sua própria cama, a única da casa.
João acenou com a cabeça e foi até a cama. Logo os lençóis brancos ficaram amarelados pela sujeira do garoto.
-Senhora, me desculpe, mas como é seu nome?
A velhinha ainda fitava João em sua cama, então voltou-se para a garotinha com um sorriso.
-Nora, pode me chamar de Nora.
Maria sorriu para a velha mulher e se dirigiu a pia, começando a lavar as louças. A mulher retirava o que restava sobre a mesa e terminava de limpar a bagunça do café da manhã. Após isso pegou um pano de prato e começou a enxugar a louça, enquanto Maria a lavava.
-Termine e vão embora, acho que seus pais deve estar preocupados.- A velha falava enquanto enxugava um copo.
-Não... não temos pais, somos órfãos.- De certa forma eram, e não importava no momento a maneira que haviam ficado neste estado.
Nora ficou em silêncio por alguns segundos.
-Bem... se quiserem ficar aqui.- Ela disse sorrindo.- Eu já estou velha, e sempre quis ter uma filha como você para me ajudar nos afazeres de casa.
Maria a olhou maravilhada.
-A senhora está falando sério? Eu adoraria.
As duas sorriam uma para a outra, a partir daquele momento os trabalhos de casa pareceram ficar mais interessantes.
Depois da louça varreram o chão e bateram os tapetes. João ainda dormia, resolveram não acordá-lo. Fizeram o almoço e almoçaram juntas. Maria finalmente tinha conseguido uma mão, ou mesmo uma avó, que gostava dela.
A tarde, como já haviam feito todos os trabalhos de casa, Nora decidiu ensinar a Maria a arte da escultura em argila. Maria não podia estar mais feliz.
João acordou por volta das quinze horas. Estava aparentemente de mal humor. Levantou-se e foi mexer nas panelas, uma coxa de frango foi fisgada com uma das mãos encardidas.
Nora estava ensinando Maria a modelar um vaso quando ele se aproximou das duas.
-Vamos Maria?- Ele disse e deu uma dentada na coxa.
-João, a Nora disse que nós podemos morar com ela, vamos ficar.- Maria disse sorrindo. Nora não sorria, mas não demonstrava o desprezo que sentia pelo garoto.
-Ah, você que sabe, mas quando ela começar a bater na gente não venha chorar para mim.
Foi a gota d’água para Nora.
-Escuta aqui mocinho...- Nora ia ralhar com ele, mas ele simplesmente ignorou.
-Vou lá fora, dar uma volta.- E saiu pela porta de madeira.
Nora virou-se, seu rosto estava vermelho e os dentes serrados.
-Cama Nora, ele é assim mesmo.- Maria dizia tentando acalmá-la.
-É bom que mude se quiser continuar aqui em casa!- Nora agora respirava fundo, estava mais controlada.- Por que ele não é como você meu anjinho.- A velha disse, voltando a sorrir.
-Espere, vou falar com ele.- Maria disse, e retirando o avental sujo de argila, saiu atrás do irmão.
Nora estava feliz consigo mesma. Não havia se descontrolado com João. Havia finalmente encontrado a criança perfeita, segundo ela, para lhe ajudar, para lhe servir como herdeira, mas parece que ela havia vindo com um irmão adicional que era exatamente o contrário do que Nora queria.
Mas parecia que Maria gostava do irmão, então Nora faria o possível para suportá-lo.
Maria encontrou o irmão no “jardim” da casa. Estava jogando alguma coisa na direção das árvores, com certeza pedras.
-João...
O menino olho para a irmã. Estava com um olhar diabólico.
-Maria... O que acha de morarmos sozinhos?
-Do que você está falando João? Nós agora temos a Nora. – Maria parecia não entender o irmão.
-Que se dane essa velha! Eu não gosto dela... Acho que ela merece o mesmo que o papai e a Minerva.
-João! Ela é boa, não podemos matá-la.- a garota se desesperou, não queria Nora morta.
-Não estou dizendo que vou matá-la, só estou dizendo que acho que seria melhor se morássemos sozinhos. Logo a Nora vai querer mandar em nós.
A porta da casa se abriu, a velhinha apareceu nela.
-João... Maria... Venham tomar banho...- Ela gritou para os dois.
-Tá vendo.
-Não enche João.- Maria disse, então virou-se para Nora.- Já vamos Nora.- E voltou para João.- Vamos João, você está mesmo precisando de um banho.
João fez uma cara de irritado, mas seguiu a irmã para dentro da casa.
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