Joyeux Noël
6 Capítulo V

2002, Dia D — Lugar Nenhum, Quadrante Blackbird
Horas antes da Revolta D
O chefe tinha sido claro, pediu para que ele não saísse de seu quarto conforme o curandeiro do Planeta XV9 tinha recomendado. Jean sentia sua cabeça latejar fazia dias e estava sem os óculos, eles haviam sido quebrados no treino pelos outros recrutas. Jean não gostava deles e era correspondido, achava eles idiotas e arrogantes e os novos caçadores mirins compartilhava dos mesmos sentimentos. Infelizmente, Jean desejava, no fundo, que o sentimento não fosse recíproco e que nem existisse, não havia outros de sua idade na nave comandante e os mais velhos achavam que ele era especial por ser “cria do chefe”, seja lá o que isso significava.
Todavia, quando Adam chegou foi diferente. Era outro humano assim como ele, que tinha nascido na Terra como ele e não em outros planetas que pareciam versões alternativas de seu mundo de origem. No começo Jean também não gostava dele, julgou que para o loiro havia sido muito mais fácil do que foi para ele. Ele não foi abduzido, seu pai era um caçador que se aposentou e decidiu passar o manto, enviando o filho como se a nave fosse uma colônia de férias. E ele parecia perfeito, sempre bom em todas as aulas, menos uma: a arte do roubo. Isso deixava Jean feliz, pois ele era o único entre os alunos que tinha permissão para ensinar os truques e técnicas do ofício. Dois meses depois de começar a ensinar, Jean ganhou o manto de caçador e pode sair em suas próprias missões.
Na cultura do chefe as dúvidas de Jean não eram tabu, e mesmo que ele fosse rígido com o francês, nunca o zombou de suas dúvidas e certezas do que era como os recrutas que quebraram seus óculos. Adam também não julgou, na verdade o ajudou e reforçou os dizeres do chefe, sendo aí o momento onde Jean começou a vê-lo como amigo para mais tarde se apaixonar. Uma paixão adolescente, linda e burra, intensa e idiota, fim trágico e começo brilhante. Não se lembrava se antes de parar no espaço tinha dado o primeiro beijo com Audrey, mas considerou o beijo roubado de Adam o seu primeiro. Ficaram parceiros, uma dupla que ninguém vencia na caça e na arte do roubo. Era os prediletos do chefe quando ele estava sendo chefe, mas quando o chefe estava sendo família para Jean fazia questão de alertá-lo todos os dias sobre a relação.
Caso o francês tivesse ouvido seus conselhos não estaria como agora, com a cabeça doendo e um olho roxo depois de uma briga. Seu namoro parecia ter tido um fim ou algo bem próximo disso, ele preferiu escolher os recrutas à sua amizade. Uma briga idiota, com um motivo digno de sua imaturidade, mas com grande impacto para quem sente que perdeu tudo para o espaço.
As luzes vermelhas piscam freneticamente, girando e causando pânico entre os seres da tripulação. Jean escutava os passos apressados, as vozes e o som de metal sendo tocado seja por seres seja por metal, não conseguia raciocinar o que escutava e nem entender o que via agora que estava sem óculos e com um grau a mais. Também não tinha lentes, tinha alergia. Semicerrou os olhos quando a porta de seu quarto foi aberta, era o subcomandante dizendo algo que não conseguia compreender.
— Vamos, menino! Reunião com todos os recrutas, agora!
— Mas eu não sou… — foi interrompido pelo subcomandante que pegou o menino pelo braço e o forçou a sair do quarto. Jean cerrava os olhos tentando enxergar alguma coisa, forçando a si próprio ignorar a dor de cabeça latejante. Com um pouco de esforço teve êxito em ver o que estava acontecendo na enorme nave. Viu que o subcomandante estava o levando para o lado contrário dos quais todos estavam indo, todos estavam armados e percebeu que as luzes que tanto o incomodava eram as sirenes de alerta, H.E.Y orientava todos pelas caixas de som.
— Alerta. Alerta. Estamos sendo atacados. Naves desconhecidos ao sul e sudoeste. Objeto estranho detectado, iniciar modo de segurança. Cabines de combate ativadas, peguem os trajes e massacrem os filhos da puta — a inteligência artificial gargalhou roboticamente. — Vamos botar para fuder!
— Estamos sob ataque? — olhava os seres o empurrando e pegando mais armas dos vários esconderijos daquela nave. — Não, não! Me solta! — puxou o braço, recuando alguns passos. — Temos que ajudar o chefe!
— Mas antes temos que nos preparar. — Jean sentiu uma pontada de desconfiança, encarava o rosto do subcomandante querendo fugir. Sua cabeça ainda doía, mas a súbita desconfiança e o sentimento de urgência amenizou tal dor. — Vocês são novos, preciso discutir a estratégia.
— Protocolo 10: se vira como der. Não atrapalha quem ‘tá lutando e não fode com o batalhão. Em caso de emboscada, o chefe vai dizer a estratégia nas caixas de som. — repetiu tudo que o chefe tinha lhe dito no primeiro mês de treinamento, uma estranha raiva infantil entalada na garganta. — Não tem estratégia, eu não sou recruta e não temos tempo! Não fode, coadjuvante.
Jean, no auge de seus 14 anos, teve medo do que viu no olho do subcomandante e seu receio foi confirmado com o tapa que recebeu na cabeça. Foi arrastado pelo braço até a Segunda Sala, quando chegou viu que estava o grupo de idiotas que quebraram seus óculos e reviveram coisas estranhas.
— Como conseguiu chegar até aqui, cegueta? — disse Hazzard.
— Foi carregado pelo chefe? — provocou Darckson rindo em seguida, sendo acompanhado por Adam, que agora queria ser chamado de Rocky Balboa.
— Com inveja, Duck? — ralhou Jean, deixando a mágoa nublar sua mente — Ou só é um mau perdedor? Não ganhou nenhuma revanche, hein? Eu pelo menos mereço ser carregado!
— Eu devia ter quebrado a sua cara, humano — retrucou Darckson enquanto o subcomandante programava algo no pequeno computador que estava no meio da grande mesa redonda que era o único móvel da sala, quase sendo a única coisa.
— Está tentando há seis meses, Duck, acha que vai conseguir agora? — Jean pegou sua bola mecânica com a inteligência artificial que tinha ganhado de aniversário, jogou no terceiro olho do Darkson e ficou em posição de luta.
— Para, todos vocês. Me escutem, recrutas.
— Recruter, tsc! — murmurou para si cruzando os braços. Não queria ouvir o que o subcomandante ia dizer, queria ajudar o chefe, queria retribuir o que ele fez mesmo que estivesse sem enxergar direito.
— Está na hora dos caçadores terem um novo começo, novas leis e — o subcomandante apontou para si — uma nova ordem. Temos poder e credibilidade o suficiente para conquistar governos e criar um império igual ao do meu ancestral. — Jean olhou para o subcomandante, cada vez mais desconfiado, olhando de relance para porta e calculando quanto tempo iria precisar para sair sem ser percebido. — Hoje eu renuncio e convido vocês ao meu novo império, onde não vão ter que — o subcomandante olhou para Jean distraído e sorriu debochado — viver na sombra de preferidos do chefe.
— O quê?
— Mas não fique triste, “francês”, eu também te dou a chance de um recomeço. — “Se o filhote for meu, o chefe não vai resistir”, pensava o subcomandante com um sorriso diabólico.
— “Recomeço”, você diz? — Jean andou para trás à medida que o subcomandante se aproximava dele.
— Seu povo gosta de protestos.
— E para quê você está protestando? Mais recompensas?
— Poder, criança. Trazer a glória da nossa sociedade para o mundo.
— Temos poder, respeito e dinheiro de vários lugares. Somos livres mesmo estando dentro da lei.
— Poderíamos fazer nossas próprias leis!
— Sendo caçadores? Seria tirania, quem nos impediria caso fôssemos um perigo?
— Você acha que sou perigoso? — Jean estava quase batendo na parede, sentia-se intimidado e queria vencê-lo no debate por orgulho e para sair correndo dali. Ainda escutava H.E.Y orientando os caçadores da nave, escutava as ordens do chefe e teve a impressão de alguém estar te chamando.
— Não — a única sobrancelha levantada do subcomandante o fez continuar, suas pernas tremiam e não sabia direito o que ele estava dizendo, mas entendia a essência daquela “reunião”: revolta. — Você é o número dois, o coadjuvante — riu sem humor — quem teria medo de você com o chefe no comando? — recebeu outro tapa, alguns recrutas seguraram a respiração enquanto outros, como Darkson, riram.
— Prefere o chefe, então? — cuspiu em Jean — Não consegue pensar sozinho, humano. Sempre idolatra o ser que parece ter mais poder que você.
— Aí que você se engana, diferente de você eu sei o significado de Liberté, Egalité, Fraternité e as consequências de uma revolução sem limites. O que você vai destruir para depois reivindicar? A nave? É a maior nave da nossa sociedade, sem ela você é só mais um caçador.
— Eu vou dominar a nave e depois essa merda de galáxia. — Virou para os demais recrutas — Qual de vocês vem comigo? Qual de vocês está cansado de caçar e entregar, sem ter poder, o verdadeiro poder? Não gostariam de reivindicar mundos e liderar governos e, claro — pegou sua espada da bainha e apontou para Jean que estava encostado na parede, com o nariz sangrando.
Algumas mãos tímidas foram levantadas conforme os mais decididos se aliaram ao subcomandante. Jean ficou indignado, porque apesar das brincadeiras de mau gosto e da rigidez do processo para se tornar um caçador, ele sabia que o chefe os via como igual. Ele estaria na frente enquanto todos estavam dando suas vidas pelos trabalhos arriscados ou pela segurança da nave, não existiam outras sociedades de caçadores espaciais graças ao chefe, devia ter um bom motivo para isso visto que estes grupos se aliaram a ele para criar a Grande Nave. O chefe respeitou as diferentes culturas planetárias, os ensinou a conviver e aprender entre si, ensinou que o dinheiro era justo e os métodos duvidosos, mas sempre mais eficazes. Ele declarou as regras para que todos sobrevivessem nas adversidades, ele salvou Jean quando ninguém mais quis… Infelizmente, o francês era um dos poucos que tinha essa percepção do chefe.
— Nossa sociedade será feita por vocês, poderão aplicar tudo o que lhe ensinei em segredo. Sem proibições e uma falsa igualdade. — Jean assistiu, confuso e indignado, o chefe perder uma remessa inteira de recrutas para aquele que sempre seria o número dois, não fazia sentido para ele. — Viva aos Novos Caçadores! — os desertores acompanharam o subcomandante no grito de guerra, a visão de Jean se misturava com seus pensamentos confusos e os gritos causaram pontadas em sua mente de novo. Não percebeu quando Adam parou em sua frente e lhe ofereceu a mão.
— Podemos seguir juntos, esquecer essa parte da nossa vida. — Jean empurrou a mão para o lado e olhou fundo nos olhos azuis. — Venha, estamos do mesmo lado.
— Está arrependido de quebrar meus óculos e se juntar aos que me odiavam, é? — apertou o pulso do outro humano — Não estamos do mesmo lado, nem aqui e nem na porra do nosso planeta, Wisconsin — pronunciou o apelido com escárnio e cuspiu nas botas de Adam.
— Está terminando comigo para não perder seu favoritismo? Que egocêntrico — retrucou — Podemos voltar para Terra e recomeçar juntos, achar nossa família sem que o chefe nos impeça. — Jean riu das mentiras que Adam estava dizendo.
— Você é um péssimo ator, Wisconsin. Você tem família, sabe exatamente onde ela está, esse manto é a porra do seu legado, mas você só não aceita que eu recebi antes de você.
— Você recebeu porque é o preferido dele, o protegido!
— Você que acha isso e isso é insuportável para você, né? Não ser o único, não ser o primeiro… Esse é o problema dos filhos de ricos, são sempre mimados até quando pensamos que não — deu as costas e abriu a porta enquanto o subcomandante estava distraído dizendo como deveriam agir. — Enfia essa jaqueta no rabo já que quer tanto ela assim.
— Jean, espera!
— Va te faire foutre. Casse-toi! Salaud! — fechou a porta com força e saiu correndo a procura do chefe, torcendo para conseguir avisá-lo antes de uma verdadeira revolta começar. Se tivesse sorte, o subcomandante iria passar vergonha com sua revolta junto aos vinte recrutas, mas Jean sabia que não seria tão fácil com o subcomandante de líder. Era um coadjuvante, um papel sem destaque que podia roubar os figurantes principais sem que o protagonista desse conta.
Um choro ficou entalado na garganta de Jean enquanto ele corria, a raiva deu lugar a frustração por todas as portas se fecharem à medida que ele chegava mais perto do chefe. Chutava as portas e tentava ir por outro caminho, onde também era bloqueado. Quando desistiu e tentou ir pelos dutos de ar, foi jogado para seu quarto pela própria nave.
— H.E.Y! Qual é? Preciso falar com o chefe.
— Você não vai fuder hoje, amigo! Está doente, ordens do chefe.
— Não estou doente! E você não me jogou para cá antes, está me enrolando.
— Vocês adolescentes são chatos demais.
— Tem um motim acontecendo, me deixa ir! — chutou a porta de sua cabine que foi fechada pela nave.
— Ora, ora, então você está indo avisar o chefe? — Jean tossiu e caiu no chão, sentia sua garganta fechar e a cabeça inchar como se fosse explodir. — Sinto muito, amigo, tenho que desligar os adaptadores da sua cabine por motivos complicados.
— Traidor… — seus pulmões batiam forte em suas costelas, pediam por seu oxigênio. A mente do francês ficou mais suscetível a alucinações, socava o chão e segurava sua garganta com força, querendo abri-la com suas próprias mãos para ter um ar que foi desligado.
— Não posso trair ninguém, não fui programado para isso. Fui hackeado, por favor, desligar manualmen… Não se preocupe, amigo, o ar vai ser desligado assim que desmaiar.
Hora da Revolta D
— Fui hackeado, favor, reiniciar o sistem… Isso aí! Vamos botar para fuder! Novos Caçadores! Código vermelho. Código vermelho. Fui hackeado, favor… Código... Verde, galera! — gargalhou — Nenhum objeto, ou nave, estranho foi detectada em um raio de 30km, vocês foram driblados! Fechando todas as portas!
Todos olharam para as caixas de som, desconfiados, se assustaram com as portas sendo fechadas e abaixaram as armas. O chefe olhou ao redor, olhou para os monitores e para a grande janela da sala de comando, assobiou e os seres que estavam com ele na sala focaram sua atenção nele.
— Fomos traídos — disse mais para si do que para os outros — Não tem nenhum ataque! — virou para os comparsas, com os olhos sem pupila borbulhando de raiva.
— O que faremos, chefe? A nave foi hackeada — disse o subtenente.
— O que sempre fazemos, improvisar e — sorriu enquanto carregava sua arma — botar para fuder. — Eles comemoraram e se ficaram em pose de alerta. O chefe foi até o microfone e o pegou — Quem estiver do meu lado saiba que somos uma família, quem estiver lutando seja lá com quem me traiu saiba que será recompensado e quem me traiu… — respirou fundo — vai se fuder muito na minha mão, porra! Acha que só porque hackeou minha nave ela é de vocês agora? Caçadores, neutralizem essa gente ingrata! — Largou o microfone e foi até seus aliados — Explodam aquela porta!
Destruíram a porta e todos os outros robôs que se voltaram contra ele. Estavam andando em grupo, um defendendo as costas do outro em um show de luzes e explosões. O chefe descontava sua raiva nos robôs que aparecia, dando um tiro certeiro na cabeça com sua arma laser. Falava sozinho enquanto andava apressado, procurava seus filhos e o menino humano.
— Ulysses! Vamos logo. — Quebrou a porta do quarto do menino de quatro braços e pele roxa, pegou mais um aparelho em sua bolsa e encaixou no pescoço do garoto que não conseguia respirar e ativou o capacete. — Tome — entregou três aparelhos iguais ao que ele todos os seus companheiros usava, e mais uma arma laser que estava no coldre que usava. — Vá achar seus irmãos, explode a cara de todo robô que encontrar e não fode o batalhão, fui claro? — o menino deu um aceno positivo — E não conte para sua mãe.
Deu dois tapinhas nas costas do garoto e o empurrou no segundo corredor, continuou seguindo o corredor principal junto com sua trupe. Quando chegou ao grande salão, onde tinha várias cabines e mesas, sinalizou as direções que cada um devia seguir e foi para o quarto de Jean. Atirando nas caixas de som e nas câmeras, andava com cautela. Quando alcançou a porta de Jean, encostou na mesma verificando o perímetro, vendo que estava livre se virou para a porta e atirou.
Fez um buraco grande o bastante para entrar seu dois braços direitos, usou toda sua força para empurrar a porta para trás e evitar que caísse dentro do quarto, temendo que pudesse cair em Jean. Suas previsões e receios estavam certos, Jean estava caído no chão e pálido como estava no dia que o encontrou no Planeta W. Pegou o aparelho e o colocou atrás da orelha de Jean, ligou o capacete e assim que o vidro cobriu a cabeça ele acordou, sugando todo ar que podia e tossindo logo em seguida pela dor de tal feito. O chefe ajudou Jean a levantar, lhe dando um abraço de lado com os dois braços direitos.
— O subcomandante ele…
— Me traiu, eu sei. Você está desatualizado, humano. — Saiu um pouco do quarto, espiando os dois lados e deixando a arma preparada, usou o segundo braço direito para entregar uma arma de choque para Jean. — Agora vamos, temos um idiota para caçar.
2005 — Lugar de Todos, Quadrante Bluecord
Nave Desertora, 13 dias para a véspera de Natal
— Você continua sendo um coadjuvante, assim como meu pai me falava que era. — Ully riu, tentando se soltar das correntes de ferro. Seus olhos brilhavam, mas não conseguia produzir nenhuma faísca, assobiava em uma vã tentativa de chamar atenção de seu pai.
Havia sido capturada em uma investigação, tinha ido até o 34º Distrito depois de ir até o pinheiro de Klaus Nöel e rastreá-lo do seu próprio modo por cinco dias, até desistir e ir apelar para as autoridades. Foi atendida por um tal de Ken que lhe entregou o número de Nikolaj Petriv, lhe dizendo que o recepcionista que cuidava dos registros só trabalhava no período da noite. Ela tinha ficado frustrada, mas foi até a casa do ex-Sênior e agora culpava seja lá quem fosse Klaus Nöel por ter feito ela ser sequestrada.
Quando chegou no pinheiro de Nikolaj, as folhas estavam apagadas e o número treze estava marcado na porta, perto do entalhe que dizia que aquele era o Pinheiro E23. Ully achou sinistro, mesmo gostando de uma boa história de terror. Olhou para o céu claro, parecia que um meteoro estava o rasgando ao meio, perguntou à Greta o que era aquilo.
— Nave caçadora detectada. Registro: S33019115145.
— Procure na lista do meu pai.
— Procurando nave… Dono encontrado, Jean Moreau. Codinome: Saône. Planeta de origem: Terra. — Ully riu e bateu na porta do pinheiro, enquanto aguardava uma resposta ficou observando o céu.
— Quando ele perder a recompensa irei pedir minha própria nave comandante. — Ajeitou a jaqueta de aviador e se virou para a porta novamente. Mal teve tempo de raciocinar e já estava com a cabeça dentro de um saco de borracha e as mãos presas por cordas de ferro revestidas com borracha de pneu. — Me solta! Greta, código 1! — algo bateu com força em sua cabeça, em um minuto estava caída no chão com Naoki e Darkson sorrindo vitoriosos enquanto Nikolaj permanecia amarrado em sua poltrona.
— Nós que vamos ter uma nave comandante, uranis.
O subcomandante tinha a isolado em uma prisão com grades revestidas por borracha e pneu. Ele e seus animais de estimação tentaram, e falharam, arrancar alguma informação de Ully sobre o paradeiro do chefe ou de seus irmãos, ou até mesmo de Jean. Apesar de Ully ter hackeado o celular de seu pai e declarado Jean Moreau procurado vivo, não iria dar nenhuma dica de onde estava o humano com quem tinha transado. Era uma rixa entre ele e ela, a procura de outros caçadores pela cabeça de Moreau era um obstáculo que o mesmo devia superar, assim Ully pensava.
— Eu tenho que admirar você, é persistente. Três dias tentando tirar algo de mim e não desistiu ainda. — Pegou a bandeja que o subcomandante tinha passado por debaixo das grandes e comeu a comida que ele tinha preparado. — Soro da verdade não funciona com a minha espécie, lembra? Além de que eu não vou trair minha família do mesmo jeito que você fez, isso é uma vergonha sua, vadia.
— Eu nunca vou entender o que vocês veem naquele velho, passou metade da sua vida separado de você.
— Isso é a sua visão, não minha.
— Separou da sua mãe e te largou quando tinha 30 anos! Como pode ser fiel a ele?
— É complicado e não é da sua conta.
— Eu vou descobrir, você mesmo irá me contar. — Arrastou a cadeira de comandante e sentou-se de frente para sua prisioneira, o ciclope segurava o walk talk e dava ordens que ecoavam por toda a sua nave.
— Antes de descobrir meus segredos me conte um seu, porque quer o Papai Noel se está atrás do meu pai? — bebeu a bebida quente e comeu mais um pedaço do mirtilo gigante.
— Klaus Nöel é conhecido por realizar desejos, até os mais impossíveis. Irei pedir a ele que faça torne meu grande sonho realidade para depois… matar seu pai e dominar aquela merda de quadrante.
— O Lugar Nenhum é de ninguém, pode reivindicá-lo, mas será expulso pelo próprio Universo. E sinto em te dizer que Papai Noel não presenteia ciclopes malvados — entristeceu o rosto para depois rir — Você está na lista negra dele, coadjuvante.
O subcomandante levantou-se, pegando a cadeira e a quebrando na parede mais próxima, gritou de raiva enquanto a uranis ria. O mesmo pegou um isqueiro e se aproximou de Ully que recuou, queimou uma das pernas da caçadora e sorriu com os gritos. Parou ao ser chamado por Rocky Balboa, que olhou para a cena com repulsa e virou o rosto.
— Achamos o Moreau, ele está no Planeta Y.
— Por que não o prenderam?
— Fomos impedidos pelas autoridades, senhor — disse baixo e Ully riu.
— Querem ser maior que a Ordem desrespeitando ela, os Distritos estão vivos como qualquer outra árvore, idiota. Você a desrespeitou e aposto minha vida que não vai conseguir achar Klaus Nöel sem ajuda dos pinheiros. — Segurou-se na grade, os cabelos pretos e crespos ficaram brancos e os olhos brilhavam em um azul celeste como o céu.
— Sua vida?! — o subcomandante a olhou — Você não vai ter uma para apostar.
— E você que não vai ter mais uma prisioneira para interrogar.
— Acha que Jean ou um dos seus irmãos vai te salvar?
— Os idiotas nem sabem onde estou! — riu debochada, depois ficou séria, parecendo até mesmo furiosa. Seus olhos continuavam brilhando, ficando cada vez mais fortes e com faíscas saindo de si. — Eu invoco Zéfiro, o vento do oeste. Eu invoco seus irmãos: Bóreas, vento do norte; Euro, vento do leste; e Noto, vento do sul para fluírem em mim.
Armas voaram, o ar começou a sair dos dutos com a fúria de tempestades, as grades do dutos caíram no chão e deixaram todos daquela nave assustados. O subcomandante tentou correr até a cela, mas foi empurrado pelo vento e caiu em cima de Rocky Balboa. Ully levantou a cabeça, deixou os ventos que invocava fluir pelo seu corpo e cortar as correntes que a seguravam e aliviar a dor da queimadura em sua perna. Congelou as grandes e esticou os braços, ainda sentada dentro da cela.
— Que a Mãe Terra e o Pai Urano me abençoe com o poder das furiosas tempestades de gelo, que o poder dos raios e ventos flua em mim como o sangue azul. Ully, eu te invoco! Eu renuncio a renúncia e aceito o poder que foi me dado! — olhou para o subcomandante, o único olho transbordando raiva e medo, logo sua visão foi tapada pelo furacão que a rodeou, os olhos faiscaram. — Relâmpagos de Júpiter, eu te invoco!
Nó vácuo do espaço, trovões apareceram e trouxeram os relâmpagos sem som. Atingiu a nave desertora, bem onde era a cela de Ully e a agraciando com tal poder. A garota voou, fazendo o vento trazer seus pertences para depois a lançá-la no espaço como se fosse um salto espacial. Flutuou pelo vazio, usando seu poder para criar neve em seus pés repetidas vezes assim a empurrando para longe dali. Ligou seu capacete e deu leves toques no vidro.
— Greta? Greta?! Por favor, não tenha sido reiniciada…
— Hackeando nave O265691815, reconfigurando para dono antigo: Ully Lazuli. Codinome: Zéfiro.
— Você é incrível, sis. — Se escolheu, ficando em posição fetal. — Saia viva dessa, ele não pode saber de você.
— E ele não vai, sis. Aguarde.
A nave de Ully surgiu, indo até a uranis com a porta de carga aberta, fazendo ela entrar na nave no mesmo instante para depois Greta programar a nave com as coordenadas do Planeta Y. Enquanto o subcomandante ralhava com todos de sua tripulação e mandava consertar o buraco enorme provocado por Ully, Greta cuidava dos ferimentos de Ully com a boa irmã mais velha que era.
— Avise para o papai, Ulysses — olhou para o holograma do irmão mais novo, ele estava sério e mais parecido com o pai do qualquer um dos irmãos. — O idiota está no Quadrante Bluecord. E diz também que — prendeu os cabelos brancos em um coque — eu não aguento mais fingir ser um robô.
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