Jovens e Gigantes
6 De volta à terra dos Celtics
Notas iniciais
Boston não estava certa. Ao menos, assim parecia a Dan.
O táxi seguia o fluxo matutino pela Arlington Street, passando por aqueles prédios antigões que o menino já vira milhares de vezes, que abrigavam grifes e restaurantes no térreo e sabe-se lá o que nos outros andares, porque eles nunca tiveram o dinheiro que dava o direito de entrar e descobrir. A Tiffany ainda estava lá, assim como a Burberry e o The Melting Pot no porão do Boston Park Plaza. As bandeiras ainda tremulavam ao vento em postes na lateral das construções. Pessoas caminhavam e pedalavam pelas largas calçadas. Eles passaram pelo castelo Back Bay e se viram instantaneamente numa área mais simples, com mais céu e menos andares. Aquela rachadura ainda estava ali. E aquela desgastada pichação em vermelho no asfalto. O que estava errado? Por que ele não se sentia confortável?
Para sair ou chegar no bairro do aeroporto da cidade, era preciso pegar um dos túneis que passavam debaixo da enseada. Dan sempre achara irada a ideia, tipo, era uma rua debaixo d’água! Ele só tinha feito o percurso umas duas ou três vezes, mas era uma das pérolas preferidas dele na cidade. Só que, naquele dia, ele não tinha ficado animado como de costume. Na verdade, tinha parecido tão… chato. Depois de se espremer em todos aqueles lugares durante a caça pelas 39 Pistas, muitos deles ilegais, e de quase morrer tantas vezes, ele não via as coisas antigas da mesma maneira… Que droga.
O vôo de Glasgow pra Boston tinha durado quase onze insuportáveis horas. A irmã dele dormira tranquilamente a maior parte do tempo. Nellie tinha sentado a duas fileiras de distância ao lado de um cara de barba grisalha que olhou esquisito para o cabelo bicolor dela assim que se sentou e pediu para ela baixar o volume do fone de ouvido, então o garoto presumia que ela também tentara cochilar, por mero tédio. Mas Dan não. Ele não pregara o olho um minuto. Não conseguia. Todas aquelas pessoas o deixavam desconfiado. Em vez disso, ele assistira a uma maratona de Senhor dos Anéis. Assim, a perspectiva estranhamente triste de voltar ao apartamento alugado pelo menos era amaciada com a certeza de que ele tiraria uma soneca de horas.
Eles tinham comprado passagens no primeiro voo possível. Por mais que o menino quisesse se livrar dos Cobra, entrar naquele avião de volta para Boston teve um gosto de fim de festa… E ele também sabia que os veria muito em breve, já que tinham o julgamento de Isabel e Natalie estava sendo enviada para a porcaria de Cambridge! Sinceramente, o menino nem se permitiu ficar animado. Em todo caso, eles voltaram ao hotel depois que o helicóptero decolou com a garota, pegaram Saladin e as mochilas nos quartos e fizeram o check-out, se separando pouco depois. Ele sabia que era o momento perfeito para fazer uma piada sobre a separação de Ian e Amy, mas, surpreendentemente, lhe faltara vontade. O Cobra iria a Londres de trem com o Sr. McIntyre e tio Fiske, pra resolver alguma coisa na New Scotland Yard, e os irmãos voltariam com Nellie para Massachusetts. Dan sempre quisera entrar na Yard — como consultor, não como suspeito —, e pensar nisso apenas fazia o caminho de volta ao pequeno 14B muito mais desagradável.
As fachadas em tijolo bruto ladeavam a estreita rua Piedmont, e ele se lembrou de como tia Beatrice odiava o fato de se permitir o estacionamento ali. Também pudera, ela era uma motorista horrível. E então, ali estavam: Rua Melrose. As altas árvores, a pista remendada, os prédios geminados praticamente iguais. Alguns eram mais bem cuidados, com portas e janelas chiques e novas, mas outros tinham beirais com a cal descascada e portinholas de madeira tortas. Era o caso do deles.
— Pode parar aqui, senhor. — Nellie pediu ao motorista. Ele encostou e sorriu em despedida quando ela o pagou.
Saindo no carro, eles se alinharam em frente ao número 14. Nada havia mudado muito. A Srta. Silverstein, do térreo, ainda tinha cortinas que não combinavam e o cão do casal Jennings, do terceiro andar, latia como se programado pra anunciar a chegada deles, fazendo o gato chiar dentro da gaiola. O cheiro também era o mesmo. Apesar de toda a familiaridade do local, Dan sentiu um peso no estômago e uma sensação de errado.
— Não dá pra acreditar que estamos de volta. — Amy comentou, atravessando a rua.
Dan lembrava-se da noite após o funeral de Grace: de como tivera a sensação de que nunca mais voltaria àquele lugar e tentara colocar todos os seus pertences na sacola. De algum modo, ele talvez tivesse guardado isso como verdade, porque parecia inapropriado eles estarem ali. Boston ainda era Boston, mas parecia ter seguido em frente sem eles e isso o magoava, o que não era um sentimento nem racional nem simpático. Eles tinham passado tanto tempo longe, e toda a ação fazia o tempo parecer muito maior… Bom, agora estavam de volta.
Eles abriram a porta e se viram no hall apertado. À direita ficava a porta azul da vizinha e o mural de avisos, que ninguém usava. Em frente, a escada de madeira clara e gasta levava aos apartamentos superiores. Eles fizeram a entrada em câmera lenta, como se tudo fosse um cenário, frágil ao toque. Dan estava imerso em uma outra dimensão, tinha que estar. O degrau da curva rangeu como sempre e o corrimão de ferro, infinitamente arranhado, ainda mostrava o “D.A.C” que ele marcara com a chave de casa dois anos antes… Era como se a Busca nunca tivesse acontecido, como se eles tivessem feito um rasgo no espaço-tempo e voltado para julho.
Por mais esquisito que o caminho até o segundo andar tenha sido, abrir a porta de casa foi muito mais. Ele esperava (com certo pesar) encontrar tudo como estava quando foram dormir no hotel no centro — Ai, meu Deus, será que eu deixei o Playstation ligado esse tempo todo?! —, e talvez uma bagunça de correspondências no chão da entrada. Porém, embora essa última fosse verdade, nunca, nem em um zilhão de anos, Dan adivinharia que entrariam em um apartamento vazio.
— Quê?!
— Mas que merda…?!
— Minha nossa!
Não sobrara absolutamente nada.
Os ganchos para casacos na parede do corredor de entrada haviam sumido e deixado só os buracos de pregos no lugar. O console da lareira estava vazio, não havia mais aparador no corredor. O menino correu em choque pelo pequeno espaço e abriu a porta da minúscula cozinha, como se fosse descobrir seus pertences escondidos em algum lugar. Até o velho fogão tinha sumido. Os armários estavam abertos, também sem nada dentro.
O que estava acontecendo?!
— O-onde… Onde estão nossas coisas?! — Amy exclamou do meio da sala, onde antes ficava a mesinha redonda de jantar, sua voz ecoando.
Nellie pousara a gaiola de Saladin e estava parada perto da porta, passando uma vista pelos envelopes que tinha recolhido do chão. O menino abriu a porta da salinha de TV: nada; a do quarto de Amy: nada; o próprio quarto: nada. Suas armas da Guerra Civil não estavam mais embaixo da cama, porque não havia mais cama. Os pôsteres de ninja do teto haviam sumido. Os decalques de túmulos do canto da parede, as coleções no armário… A mancha de tinta verde que ele deixara pintando uma cartolina pra aula de História era a única coisa que indicava que alguém morara ali. Bom, isso e o cheiro de velho.
— Como isso aconteceu?! Não podem ter roubado tudo! — Dan exclamou, voltando para a sala onde estavam as outras duas. — Minhas coleções valem ouro, mas o sofá?! E o fogão! Quem rouba um fogão com uma boca quebrada?
— Aqui diz… — Nellie começou, lendo um envelope amarelo e grande — …“Para o futuro novo inquilino”.
— Novo inquilino? — Amy repetiu. O sangue havia deixado seu rosto no susto, mas pontinhos cor de rosa despontavam nas bochechas. — E os antigos inquilinos? Eles nos… despejaram?
— Não tem nenhuma ordem de despejo aqui. — Nellie indicou os papeis em sua mão.
— Mas então como o contrato pode…?
— Oh, eu imaginei ter ouvido seus pés leves pelo teto, Dan! — uma voz risonha interrompeu. — O que estão estão fazendo aqui?
A Srta. Silverstein sorria da porta que eles deixaram aberta. Ela era uma solteirona de uns trinta e tantos anos, um pouco rechonchuda, com cabelos loiros passando dos ombros e uma boca cheia do que a tia-avó dos meninos chamava de “dentes saudáveis demais para alguém que nunca se deu ao trabalho de casar”, o que quer que isso signifique. Seu primeiro nome era Rachel, mas o menino se sentia constrangido em chamar uma mulher como ela pelo nome. Ela era, em geral, amigável — um pouco fofoqueira, também. Alguns hábitos barulhentos de Nellie e Dan balançavam a relação entre os dois apartamentos um pouco, mas nada que a impedisse de oferecê-los brownies recém-assados nos feriados.
Como era estranho estar de frente para ela novamente.
— Srta. Silverstein! — Amy exclamou, sorrindo de volta. — Que bom vê-la!
— É muito bom vê-la, também, Amy, querida. — Ela se aproximou. — A todos vocês! Eu pensei que nunca mais os veria!
— Como assim? — Nellie perguntou, enquanto Dan forçava um sorriso.
— Ué, eu pensei que haviam se mudado! — Ela olhava confusa de um para o outro. — Não se mudaram? Eu não os vejo desde… Oh!, desde o velório da avó de vocês! Eu lamento muito.
— Não, não… Obrigada, e não nos mudamos. — Dan disse, tentando lembrar rapidamente da história que havia pensado no avião para um momento como esse. — A gente ‘tava fazendo uma viagem. Uma viagem de família, sabe. Último desejo da Grace e tudo mais. Pra uns lugares que ela visitou… no passado… da vida dela.
— Ah, que interessante! — disse a mulher. — Bom, mas isso não faz sentido. Por que ela traria um caminhão aqui se…
— Caminhão? — Amy indagou.
— Sim, o caminhão da mudança! Sua tia-avó veio com um deles, acho que… cerca de duas semanas depois daquele dia. Pensei logo quem da rua ia se mudar, mas aí vi aquele cabelo azul horroroso… — Ela se interrompeu, os olhos arregalados como se tivesse cometido uma gafe — Opa, desculpem, eu não queria…
— Sem problemas, é horroroso mesmo. — Dan meneou a mão.
A Srta. Silverstein contou como tia Beatrice chegou com alguns homens de uma empresa de mudança, subiu as escadas com caixas de papelão, invadiu o apartamento deles com a chave que tinha e, depois de algumas horas, todas as coisas dos meninos estavam virando a esquina dentro de um caminhão. Não há palavras para descrever o quão indignado Dan estava e, aparentemente, sua irmã e Nellie também. Ela havia tocado nos decalques de túmulo dele?! Ah, mas se ela os tivesse amassado ela ia ver só…
— Eu não acredito nisso! — Amy exclamou. — Por que ela levaria nossas coisas? Para onde ela levaria nossas coisas? Ela já nos faz morar com au-pairs porque não quer ver a gente!
Depois de um minuto de silêncio, em que Dan trabalhava sua raiva batendo o pé e olhando para o chão, ele se assustou com o tom brusco de Nellie, e no segundo seguinte percebeu que ela falava para o celular que segurava a sua frente:
— Srta. Cahill! Aqui é Nellie Gomez! Precisamos conversar.
Bizarro chamar uma mulher de trocentos anos de “senhorita”? Com certeza. Ela exigia que fosse endereçada assim por todos, já que não era casada. Dan ouvira histórias de que ela já tivera diversos maridos, mas, como ele não conhecera nenhum — e não conseguia imaginar o fato —, desenvolvera um apreço especial pelo pronome, porque significava que ninguém fora louco, desesperado ou ameaçado o suficiente para permanecer relacionado com a velha.
— Alô! Nellie quem? — Veio a resposta do aparelho em viva-voz. A conhecida voz de taquara rachada fez a pele do menino formigar. — Olhe, garota, eu não tenho tempo para…
— Ah, tem tempo sim, minha querida. — A jovem continuou, de uma maneira que, se ela ainda precisasse do dinheiro de Beatrice, estaria ferrada. — O meu nome não dispara nenhum sino? A senhora me paga uma merreca para cuidar dos seus sobrinhos-netos.
— …Ah! É você, a punkzinha… — tia Beatrice soou com impaciência e desdém — Quer dizer que terminou aquela asneira que minha irmã inventou? E vocês estão de volta agora, huh? Eu bem que…
— Tia Beatrice, onde estão nossas coisas? — Amy cortou, antes que ela pudesse falar qualquer coisa que os comprometesse na frente da Srta. Silverstein.
— Você esperava que eu continuasse a pagar seu aluguel e todas as outras contas enquanto vocês estavam fora? Como se eu não tivesse despesas o bastante! Bah! Encerrei o contrato e devolvi o apartamento, é claro. Vendi os móveis e…
— VOCÊ FEZ O QUÊ?! — Dan gritou, sem acreditar.
— Eu sabia lá quando, se vocês iriam voltar! Pelo que eu sabia, poderiam estar mortos! (Essa parte arrancou um arquejo indignado da Srta. Silverstein) E depois do que fizeram com aquele testamento…! Não era mais da minha conta, era?
— Você vendeu nossas coisas?! — Dan repetiu, revoltado por ela se achar no direito de reclamar por eles não terem aceitado os dois milhões de dólares, que ela confiscaria assim que deixassem a sala onde o testamento fora lido. Ela realmente achava que ele estavam errados?! Ela os ameaçara deserdar e provavelmente já o tinha feito.
— Eu vendi a mobília, garoto. Sua tranqueira está em um depósito. U-Haul — Mudanças e Armazenamento. É muito mais lógico pagar por isso do que os $1.500,00 daquele sobrado. Podem ir lá buscar, se quiserem, eu vou ligar e cancelar o aluguel…
— Ótimo… — Nellie começou, mas tia Beatrice a interrompeu.
— … Mas eu digo uma coisa: a partir do momento que vocês aceitaram participar daquela caça ao tesouro ridícula, vocês feriram o direito de permanecer sob a minha custódia e agora, serão os órfãos indigentes que eu prometi que seriam. Então, srta. Gomez, pode muito bem dar adeus a seu salário e a esses garotos. Vão pegar os seus pertences na Massachusetts e levar para o buraco que vocês quiserem, eu repito, não é mais da minha conta e não contem mais com meu apoio!
Antes que qualquer um deles pudesse dizer mais alguma coisa, ela encerrou a ligação.
— Mas que senhorinha desagradável! — comentou a Srta. Silverstein.
— É… — Nellie resmungou. — Bom, vocês ouviram a carcaça: o depósito fica na Avenida Massachusetts. Vamos pegar nossas coisas. Foi muito bom ver a você de novo, Rachel.
Obviamente, ela queria encerrar logo o encontro. A Srta. Silverstein sorriu de volta e deu um abraço em cada um, deixando Dan bastante desconcertado. Depois das despedidas, ela deixou-os sozinhos para “um último momento com o apartamento”, o que foi desnecessariamente dramático para a opinião dele, mas fez outra pedra cair em seu estômago — se alguém perguntasse, Dan negaria até a morte ter acontecido.
Eles olharam o apartamento em silêncio por um tempo. A vida que eles levaram ali parecia estranha, irreal. A semana de segunda a sexta era tolerável sob a perspectiva de passarem os fins de semana longe, em Attleboro, com a avó. A autoridade indesejada de Beatrice sobre eles havia aproximado os irmãos mais do que Dan acreditava que irmãos normalmente eram. Ele não podia dizer que haviam sido felizes ali, com a sombra da morte dos pais refletida na decoração coordenada por Beatrice, na sua forma opressora de cuidar deles e nas múltiplas au-pairs. Mas era uma vida mais simples, mais objetiva do que a que teriam agora que descobriram sua verdadeira identidade. Ele não sabia se ia ou não sentir falta do lugar.
— Vamos. — Ele disse, começando a ficar angustiado com a vibe que tomara conta do cômodo. — Vamos pegar nossas coisas. Eu preciso dormir e ficaria muito feliz se fosse no meu pijama de Karate Kid de novo.
— Só tem um problema — Amy disse enquanto fechavam a porta e desciam as escadas —: nós vamos pegar nossas coisas e levar pra onde? Não temos mais casa!
— Não, mas nós temos dinheiro, Amy. — Dan disse. — Eu imagino o que tia Beatrice vai dizer se descobrir que somos quatro vezes mais ricos do que ela, agora…
— Mesmo com dinheiro, idiota, não dá pra fazer uma casa aparecer do nada.
— É para isso que existem hotéis, querida irmã. Sério, parece até que você esqueceu o que a gente andou fazendo nas últimas semanas…
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