Jovens e Gigantes
5 A localização vem a público
Notas iniciais
A tarde lá fora estava ainda melancólica. As nuvens, se decidindo entre molhar a cidade ou bloquear a visão do azul. Ao longo dos últimos meses, Amy tivera de se aclimatar rapidamente a diferentes lugares, de características muito distintas. O clima de Glasgow possuía uma atmosfera distintamente britânica naquele início de outono, com o céu quase sempre nublado, mas alterando-se constantemente. Era um assunto recorrente entre os habitantes, a garota veio a notar, o tempo indeciso.
Ela, Dan e Nellie estavam no restaurante, o qual tomava todo o andar térreo do Cathedral House. A noite fora fisicamente revigorante, e os três dormiram até pouco depois do meio dia, como a garota imaginara que fariam. Entretanto, os sonhos deixaram-na com certa inquietude. A fusão dos rostos de Isabel e Vikram culminava repetidamente em sangue e explosões.
Dan aparentemente também não dormira bem. Havia passado a noite roncando como um porco, mas se remexia e resmungava constantemente, o que era atípico para o estado em que se encontrava.
Amy estava preocupada com ele. Ela não sabia especificamente qual era o problema, mas algo em seu comportamento a deixava perturbada. Desde que deixaram da ilha, no dia anterior, ele falara pouco, fizera poucas gracinhas, não tivera praticamente nenhuma ideia que testasse os limites do publicamente aceitável. Ela não havia mencionado nada para Nellie, afirmando a si mesma que era apenas cansaço, mas não podia deixar de lançar-lhe olhares furtivos enquanto terminavam a torta de carne, o hambúrguer e o peixe defumado.
— Mas pelo menos aquela psicopata vai ser presa. — Dan disse, depois de ouvir a explicação sobre a matéria da noite anterior. — E provavelmente pelo resto da vida. Isso sozinho deve baixar pra caramba os índices de violência na Europa.
— Só tem um detalhe — Amy começou. — Para ela ser indiciada por todos os crimes que ela cometeu, muitos segredos vão precisar ser revelados. Quer dizer, imagina o que ela deve ter feito em nome dos Lucian ou por alguma Pista! Muita coisa envolve os Cahill.
— Eu tenho a impressão de que McIntyre vai resolver essa parte — Nellie deu um último gole em seu suco e juntou os talheres. — O julgamento pode ser conduzido por um juiz da família… Fiske conhece pessoas de dentro da Polícia Metropolitana, né?
— Falando neles, onde eles estão? — Amy perguntou.
— Oh! No hospital. — A jovem tirou um pedaço de papel do bolso do casaco e colocou em cima da mesa para os irmãos lerem. — Encontrei isso embaixo da porta enquanto vocês escovavam os dentes. Desculpem…
Problemas a resolver.
Quando acordarem, provavelmente estaremos no Royal Infirmary.
Quarto 394.
Venham assim que possível.
O bilhete terminava com uma marca de carimbo em tinta preta, mostrando o brasão dos Madrigal e o contorno de um peixe.
— Qual é a do carimbo? — Dan perguntou, fazendo uma careta.
— Ah, é pra provar autenticidade. Mostrar que ele escreveu de próprio punho, por vontade própria e coisa e tal… Coisa de agente. — Ela balançou a mão em um gesto de espantar mosquito e depois levantou-se. — Eu vou pagar no balcão para a gente ir ao hospital. Esperem um pouco.
Amy recostou-se e observou o irmão terminar o segundo hambúrguer. Também não haviam visto Ian ainda. Ele já deveria estar com Natalie, mas seria bom passar no quarto do garoto para ter certeza. Ela estava genuinamente preocupada com ele também — o que era parcialmente engraçado e esquisito.
Naquela noite, ele havia mostrado um lado que Amy não conhecia. Poucas vezes o vira demonstrar o mínimo que fosse de desespero — Na Australia, quando Isabel ameaçou lançar a garota aos tubarões; No Everest, quando o garoto quase caiu para a morte; e algumas vezes na fortaleza dos Madrigal. Ele era, afinal de contas, um Lucian, britânico, da família Kabra. Mas, ao fim da reportagem, Ian ficara paralisado, com os punhos cerrados e a respiração acelerando. Era possível notar os vários sentimentos se sobrepondo como camadas em seu rosto — choque, incredulidade, ansiedade e, por fim, raiva. Ao ser chamado pelo nome, ele havia esmurrado a parede e largado-se ao chão, enterrando a cabeça nas mãos. Amy e Nellie esperaram em silêncio por alguns minutos, perplexas e aflitas, até a primeira se ajoelhar perto dele e lembrá-lo (também se dirigindo a si mesma) de que tudo só estava começando, que as forças policiais do mundo inteiro estavam atrás de Vikram e que os Madrigal iriam fazer de tudo para proteger o garoto e Natalie. Ele não gostava muito da ideia de ser protegido, isso era evidente, mas a fala parecera fazer o efeito esperado.
Nellie voltou à mesa quando Dan engolia o último pedaço do almoço, e os três se retiraram do restaurante. O céu estava um pouco mais claro do que quando eles haviam entrado, mas começara a ventar mais forte. O som de helicóptero podia ser ouvido por perto. Do outro lado da rua, encostado de braços cruzados na cerca de ferro da praça, estava o próprio Ian. Quando os viu, ergueu o pedaço de papel que segurava.
— Pediram-me para esperá-los antes de ir ao Royal Infirmary.
Era notório que ele não havia dormido direito. A pele cor de bronze continuava imaculada para os padrões da sociedade mortal e o cabelo úmido estava perfeitamente penteado para trás, mas os olhos estavam levemente fundos e emoldurados por um cenho duramente franzido. A garota sentiu um flash de forte compaixão por ele, mas limitou-se a cumprimentá-lo com um aceno de sobrancelhas e um sorriso. Qualquer demonstração amigável além disso seria antinatural e provavelmente o deixaria bem desconfortável. Ela havia aprendido a levantar limites e reservas quando se relacionando com os irmãos Kabra — tanto por respeito a suas personalidade quanto por verdadeiro medo.
— Não podia ter esperado lá dentro? — Nellie perguntou, tomando o papel dele.
— Eu prefiro locais onde meu cabelo recém-lavado não incorpora odores de fritura, obrigado — Ian deu um sorriso sarcástico.
Amy, que parcialmente esperava um comentário maldoso de Dan — ao qual ela responderia com um mini-sermão, recebendo uma língua estirada em troca —, se incomodou bastante com o silêncio do irmão. Ele simplesmente absorveu a fala e continuou andando pela calçada. Isso definitivamente não era normal. Ela fez uma nota mental para conversar com Nellie assim que tivessem uma oportunidade.
Eles andaram até a Castle Street sem conversar, com Nellie murmurando alguma letra de alguma música de alguma banda que ela escutava em seu fone de ouvido. Ali, na esquina da praça, estava a cabine azul da polícia que tirara Amy de sintonia momentaneamente.
Ela passara tanto tempo mergulhada no universo Cahill e na busca pelas trinta e nove pistas que seu lado normal fora empurrado para o fundo de sua mente, e ao bater o olho nela através do chuvisco, ontem, a garota quase engasgara, antes sua consciência recuperar os fatos de que essas cabines eram elementos reais da cultura escocesa e de que ela estava na Escócia e deveria esperar ver uma ou duas delas por aí. Aquelas noites assistindo Doctor Who pareciam tão irreais. Ela costumava estabelecer acordos consigo mesma sempre que ia estudar: se conseguisse terminar todas as tarefas do dia, sem parar para ler, assistiria um episódio dessa ou daquela série. Engraçado como tinha esquecido tudo isso durante os meses que se passaram. Pareciam cenas de um filme que ela não assistia há muito tempo. Ela sorriu para si mesma quando se aproximaram da “Tardis”.
— O que é aquilo lá? — a voz de Dan a tirou de seus pensamentos. Ele estava parado na calçada e olhava para mais adiante da rua, onde um aglomerado de pessoas se espremia. Parecia ser mais ou menos a altura do hospital. Oh, droga. A busca pelas Pistas havia rendido aos irmãos algumas experiências parecidas e não demorou muito para Amy identificá-los…
— Repórteres! — Ela exclamou.
— Como eles já estão aqui?! — Nellie exclamou. — Seu tio-avô disse que a localização dos Kabra era informação sigilosa!
— Alguém nos reconheceu no hospital. — Ian respondeu de imediato. — Nos reconheceu e vendeu a informação para os tablóides…
— Aposto que foi aquela mulher do balcão, ontem. — Dan disse, virando-se para o britânico: — Você precisava chegar e fazer uma cena… Ela ficou louca para descobrir sobre vocês!
— Não é preciso uma comoção para chamar atenção para mim e Natalie, Daniel — ele respondeu, cerrando os olhos. — Nós fazemos parte de um círculo de pessoas bastante elevado e somos figuras consideravelmente renomadas, principalmente na Grã-Bretanha.
— É sério que você vai se gabar disso agora? — Nellie resmungou. — Olha, eu quero saber o que a gente vai fazer! Eu sugiro tentarmos outra entrada.
— O campus desse hospital é enorme, Nellie! — Amy contradisse, lembrando-se dos folders que lera no dia anterior, enquanto esperavam Natalie acordar.
— E, além disso — Ian complementou —, eles provavelmente estão a postos em todas as entradas possíveis. Precisaremos enfrentá-los de qualquer maneira.
Amy começou a ficar muito nervosa nesse momento. A perspectiva de ser o foco a atenção de paparazzis não era muito convidativa. Tudo bem que o foco seria Ian, mas ela estaria ali do lado… O que geraria interesse e curiosidade e talvez ela aparecesse em alguma foto e… Ela sentiu o calor subir pelo tórax e se espalhar nas bochechas.
— Vão à minha frente. — Ian instruiu, olhando de relance para a garota. — Eles não devem ter feito conexões entre nós ainda, é muito cedo. Sem mim no grupo, provavelmente ignorarão vocês.
Os outros trocaram olhares, parcialmente esperando alguém ter uma ideia melhor ou assumir a liderança, mas partiram, Nellie à frente.
Os jornalistas eram muitos. Amy contou pelo menos cinco câmeras de filmagem de emissoras diferentes e seus correspondentes repórteres, além de fotógrafos independentes e camera-men. Os seguranças do Glasgow Royal Infirmary haviam colocado cavaletes de trânsito na calçada, para impedir que eles entrassem e, ao mesmo tempo, abrir passagem para os feridos e doentes. À medida que se aproximavam, tudo o que ela pensava era “Por favor, não. Por favor, não”. Felizmente, eles entraram sem que os profissionais os olhassem duas vezes.
A recepção estava ocupada pela mesma loira que os recebera no dia anterior, a qual digitava freneticamente no computador e levantou os olhos quando entraram. Seu rosto de iluminou de reconhecimento, mas, antes que pudesse falar qualquer coisa, os três já estavam dentro no amplo elevador.
— E alguém por acaso sabe onde é o quarto? — Dan perguntou, olhando o mapa do prédio na parede de metal.
— Bom, o número é trezentos e noventa e quatro. Então deve ser no terceiro andar, né? — Amy respondeu.
— Boa garota. — Nellie afagou o cabelo da menina e apertou o botão.
Quando as portas se abriram novamente, eles se viram em um corredor largo e branco, com piso de mármore encerado e luzes fluorescentes muito fortes. Os ouvidos de Amy captaram vozes urgentes e ela ficou surpresa por um milissegundo (Eu pensava que aqui seria a ala de recuperação!), mas reconheceu algumas das figuras e vozes à esquerda: Fiske e McIntyre, ambos vestindo novos ternos no preto característico, falavam agitados, o primeiro no telefone e o segundo, com dois enfermeiros de uniforme verde a expressões confusas. Enquanto os três se aproximavam, os jovens se retiraram pela porta de um dos quartos.
— Ah, vocês estão aqui. — Sr. McIntyre comentou ao vê-los, unindo as mãos. — Ótimo. Bem a tempo. Onde está o Sr. Kabra?
— Está vindo… — Nellie respondeu, lentamente, retirando os earbuds das orelhas. — McIntyre, o que está acontecendo?
— Estamos removendo a Srta. Kabra.
— Removendo?! — Amy exclamou. Ian não havia dito que a irmã passaria mais uma semana internada? Ela havia pesquisado a respeito de ferimentos de bala. A transfusão de sangue precisava ser acompanhada por pelo menos três dias devido ao fator Rh e o abcesso precisava ser drenado! Ela mal passara doze horas em observação. — Mas, Sr. McIntyre…
— Ela precisa de acompanhamento, Srta. Cahill, mas não necessariamente neste local. — Ele respondeu. — Surgiram algumas dificuldades. Eu acredito que já estejam a par de algumas delas…
— Sim, nós assistimos à reportagem ontem à noite. — Nellie disse.
O advogado assentiu. Atrás dele, o tio-avô dos garotos argumentava energicamente com seu interlocutor, gesticulando em frustração.
— Para ser honesto, esta não equivale a metade das complicações…
— Não é nenhum problema com Natalie, é? — Amy perguntou, subitamente preocupada.
— Ela está respondendo perfeitamente — ele assegurou. — Não se preocupe. Nós apenas…
Nesse momento, a porta do elevador se abriu novamente e Ian emergiu, uma mão no bolso e a outra alisando os cabelos. Ao ver o grupo, seu rosto mudou de estressado para alarmado.
— Qual o problema? — O garoto perguntou.
— Sua irmã está sendo transferida para uma base Ekaterina. — McIntyre afirmou.
— O quê?! Por quê?!
— É o mais seguro nesse momento.
— Como assim “é o mais seguro”? — O menino levantou a voz.
Fiske desligou o telefone e voltou-se para o colega, finalmente notando a presença dos demais Cahills e interrompendo o fluxo consternado de reclamações que Amy previa vir de Ian.
— Eles não me ouviram. — O senhor disse, provocando um resmungo do advogado. — Parecem estar se dividindo, mas nenhum dos lados é favorável a nós.
— O que quer dizer? — o garoto Kabra perguntou.
Fiske se virou para ele.
— Ian, o seu clã não ficou nada satisfeito com o desfecho da Busca pelas pistas e com a prisão da sua mãe — ao som dessa palavra, Amy notou Ian estremecer. — Eles estão bem desestabilizados. Entrei em contato com alguns, e eles se recusam a aceitar que os Madrigal fazem parte da família; Esperávamos por isso, afinal não dispomos da oportunidade de ter um líder intercedendo por nós diante dos Lucian.
“Uma fração deles quer eleger novos líderes. Outros acham que você deve ser nomeado… Nenhum deles, aparentemente, quer libertar Isabel, pelo menos… Mas não parece que vamos ganhar o apoio deles no julgamento, o que é realmente péssimo. Sua atitude na Ilha de Gideon realmente os irritou, Ian. Dois deles exigiram uma retratação imediata. Eu recomendo que o faça.”
Amy não havia parado para pensar em como o resto dos clãs reagiria a tudo o que acontecera no dia anterior. Ela meio que presumira que, estando as famílias no Laboratório como representantes de cada um dos filhos de Gideon, o que eles decidissem valeria automaticamente para os outros membros… Na verdade, ela não havia parado para pensar bem como os clãs funcionavam, e impressionou-se com o nível de formalidade e burocracia que envolvia o relato de Fiske. Eleições, retratações, partidos. Parecia o funcionamento de um Estado nacional.
— Você quer que eu me retrate por ter entregado nossas pistas a Amy e Daniel? — Ian perguntou. — Mas que disparate! Não farei isso!
— Não estou pedindo que realmente se retrate com seus colegas, Ian. — Fiske assegurou. — Porém, eles querem que você se pronuncie. É uma janela que temos. Extremamente oportuna, devo dizer.
Alguns metros adiante, a porta pela qual os enfermeiros haviam entrado se abriu novamente e Natalie foi empurrada sobre uma robusta maca cuidadosamente por um deles, enquanto o outro acompanhava conduzindo um aparelho. A presença dos dois no corredor encerrou a conversa. A perna da menina estava enfaixada e elevada, e era a primeira vez que Amy a via sem maquiagem ou roupas caras, as quais tinham sido substituídas por uma bata branca e folgada com o nome “GLASGOW ROYAL INFIRMARY” escrito em azul no peito. A imagem a chocou levemente, mas ela fez esforço para não deixar transparecer. Dan não teve a mesma preocupação. Ele agarrou o braço da irmã, a boca aberta em surpresa e deleite, e…
— Nem diga uma palavra, Daniel! — A menina alertou de imediato. — Ian, por que demorou tanto? E para onde estão me levando?
— Você está sendo transferida para a melhor instalação de medicina do mundo. — Sr. McIntyre respondeu sucintamente enquanto todos caminhavam para o elevador.
— Estou? Ah, maravilhoso!
Os oito se espremeram com a maca de Natalie no elevador (ainda que fosse largo, não era projetado para tanta coisa), o hálito de fritura de Dan incomodamente próximo do nariz de Amy, e Fiske apertou o botão para o último andar.
— Onde está localizada essa… instalação? — Ian perguntou da parede oposta. Era incrível como ele conseguia manter a pose mesmo precisando encolher a barriga para não tocar na cama.
— Cambridge — o Sr. McIntyre respondeu sucintamente.
— Oh, ótimo. — Natalie exclamou. — Ian, isso não fica longe de Londres. Seja um doce e vá à nossa casa buscar algumas roup…
— Não, Natalie, querida. — Fiske interrompeu, dando um sorrisinho. — Não Cambridge, Inglaterra. Cambridge, Massachussetts.
— MASSACHUSETTS? — o coro das crianças preencheu o ambiente no momento em que as portas do elevador se abriam (felizmente, para o lodo oposto ao que entraram, deixando-os frente a um corredor, não à recepção da atendente fofoqueira).
— Você não pode levar-nos para os Estados Unidos! — Ian protestou para os homens.
— É! — Dan concordou. — Isso é perto de casa! Perto demais de casa!
— Não estamos levando vocês. — McIntyre respondeu, sem desviar os olhos do corredor — Estamos levando ela.
— O QUÊ?
— Nas redondezas da Universidade de Harvard, ela terá o melhor atendimento médico e a melhor segurança que se pode querer. — Fiske disse, em um tom mais delicado, virando uma curva. Sabendo que havia algo sobre os Cahill nas entrelinhas, Amy percebeu como era óbvio que a melhor base dos Ekaterina ficasse perto da melhor universidade do mundo. Se Harvard era o mais competente centro de ensino em medicina, imagine o que os Ekat não teriam de tecnologia médica na sua fortaleza? — Mas, como estávamos falando há pouco, você precisará se apresentar em Paris.
O caminho foi preenchido pelos protestos e contra-argumentos bem elaborados de Ian, Natalie e McIntyre, que somavam ao todo uma conversa bastante esquisita, visto que não podiam mencionar abertamente nada sobre a família Cahill. O inglês hesitava, mas não concordava nada em deixar a irmã na… instalação sendo cuidada por… profissionais que ele não conhecia, sem qualquer supervisão de pessoas mais próximas, ao que Fiske ou Sr. McIntyre o acompanharia a Paris para ele… resolver aquelas coisas. Era visível que ele estava passando por um conflito interno; talvez não quisesse deixá-la. Seguiram com pressa os enfermeiros por uma série de corredores, a maca de Natalie chacoalhando. Será que era seguro ela estar se movimentando e falando tanto menos de um dia depois da cirurgia? Chegando ao estacionamento a céu aberto às costas do prédio, entraram em um outro bloco, de construção muito mais recente e que destoava totalmente da arquitetura georgiana do anterior, e Nellie segurou o garoto pelos ombros.
— Ian, você só vai estar fora por um ou dois dias. E ela vai passar a maior parte do tempo sob efeito de analgésicos e dormindo sonos induzidos.
Ele não respondeu de imediato, recomeçando a andar.
— E o julgamento? Isabel está na Yard.
— Não se preocupe com isso agora.
— Tudo bem. Eu… Quando eu embarco para Paris?
— Hoje à noite, provavelmente. — Fiske respondeu de mais adiante — Ou amanhã. Natalie será recebida por Sinead Starling, que chegou aos Estados Unidos ao alvorecer. Acho conveniente passar por Londres antes. Preciso falar com uma pessoa e você precisa discursar sobre a emancipação para sua mãe, não é?
A sombra de apreensão passou pelos olhos de Ian, mas pode ter sido um engano.
Amy percebeu que nenhum plano estava sendo feito com relação a ela e o irmão, e ou isso significava que subentendiam sua companhia em alguma das duas situações, ou que eles voltariam para Boston logo mais. E para a escola. A nova. O pensamento começou a angustiá-la.
Saindo do elevador no topo do edifício, eles foram assaltados imediatamente pelo vento frio da tarde. Parado na área de toque com as portas abertas, o helicóptero negro tinha uma aparência bem moderna e emanava uma áurea totalmente Madrigal. Uma equipe estava reunida ao redor dele, usando bomber jackets e óculos escuros. A cena era extremamente suspeita, Amy esperava que os enfermeiros não estranhassem nada. Se bem que podia ser uma equipe enviada pela polícia… Natalie foi conduzida pela passarela até a aeronave e o grupo foi atrás.
— Ian… — a menina chamou, após os cumprimentos, enquanto os enfermeiros e a equipe faziam os preparativos para instalá-la.
O irmão se inclinou sobre ela e eles conversaram em um tom baixo, que os outros não podiam ouvir. Entretanto, Amy imaginava sobre o que eles falavam.
— Nellie — ela disse —, por que nós não vamos com ela? Eu sempre quis conhecer Harvard…
— Não, criança. Vocês precisam ir para a escola, lembra?
Como a menina ficou em silêncio, a au-pair puxou-a de lado.
— Está tudo bem, Amy? — a jovem fixou os olhos castanhos delineados nos dela, transmitindo tranquilidade — Você ‘tava animada para começar o Ensino Médio… "Vinte e sete de setembro?! As aulas já começaram há semanas!" e aquela coisa toda.
— Eu… Bom, mais ou menos. — Amy começou a brincar com a costura da blusa. Está tudo bem, Nellie é minha amiga, ela não vai julgar, ela é minha amiga. — É besteira, mas esse lance de Ensino Médio… Eu estou ansiosa para as aulas e tudo, sim… Mas é uma escola nova, maior, com outra… E eu passei tanto tempo fora, os meus colegas talvez não sejam a mesma coisa… E eu vou ser a novata, tipo, todo mundo é novo, mas eu vou ser mais ainda, porque cheguei atrasada. E vai ser estranho voltar à vida de antes. Tipo, eu já era uma Cahill, mas não era uma Cahill…
Quando ela percebeu, ela já estava tagarelando. Acontecia de vez em quando, quando ela se forçava a falar o que sentia, mas ainda assim um calor subiu pelo seu pescoço.
— Desculpe…
— Relaxa, garota. — Nellie sorriu. — Eu entendo. De verdade. Quando eu cheguei no Ensino Médio, cara, você não sabe a imagem que tinham pintado pra mim. Eu pensei que fosse ser uma selva horrível. Mas nem foi. Fiz amigos no segundo dia. No primeiro, não, porque ninguém se falava, todo mundo tinha medo de todo mundo.
“E, sobre esse lance de voltar à vida de antes, fica de boa. Vocês são agentes Madrigal agora. A Busca acabou, mas a vida de vocês não vai ser a mesma nunca mais. A gente já tem esse julgamento aí pra enfrentar. O que você me diz de, quando chegarmos a Boston, a gente ter uma semana pra se reajustar? Eu sei que eu ‘tô precisando. Uma semana sem aulas, sem trabalho, e depois a gente começa de vez.”
— Sério?! Podemos fazer isso?! — Amy se animou.
— Claro que sim! Eu vou ser guardiã de vocês, né? Então, o que eu digo vale.
— Obrigada! — a menina sorriu e puxou a outra em um abraço.
As portas do helicóptero foram fechadas com um estrépito e os meninos se afastaram para permitir a decolagem.
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