Journey
33 Treinta y tres
Notas iniciais
Sam saiu do palco bastante satisfeito com sua própria performance. Levantou a mão na direção de Ruby, esperando que ela batesse ali, mas tudo que recebeu foi um suspiro de frustração. Virou sua mão, ainda levantada, para Lúcifer, mas ele apenas lhe encarou.
– Cara, não.
Sam só queria um high five.
Deu de ombros e foi procurar seu irmão, que estava justamente afastando o celular da orelha naquela hora, com um suspiro e o olhar perdido.
– Opa, você atendeu? Era o papai? — Dean fez que sim com a cabeça — Como foi?
– Super legal. Falamos sobre a novela e rimos bastante.
– Ele me viu na tv, não viu?
– Aham. Ontem à noite. Nos comerciais. E tem mais, ele está dirigindo desde cedo, pode chegar a qualquer momento pra buscar a gente.
– Você se explicou ou...? — Sam ficou sem resposta — Bem, pelo menos assim a gente já fala com ele logo.
– Esquece, Sam. — Dean desviou os olhos — Não tem mais jeito.
– Anda, Deano! — Gabriel berrou, espantando toda a tensão da conversa dos dois — Tá na hora!
– Você vai se apresentar? — Sam arqueou a sobrancelha
– Não, Sam, eu tô com essa roupa só de sacanagem mesmo. — respirou fundo e estalou o pescoço — Não vai me desejar boa sorte? — tentou arrancar um sorriso do irmão
– Não. — Sam brincou, enquanto Gabriel empurrava Dean para o palco.
A platéia aplaudiu um pouco quando ele entrou, mas só porque era de praxe. A multidão não lhe assustava, apesar de aquele ser o maior público que já havia encarado.
Sentou-se no banquinho e em vez do violão do ensaio, era sua guitarra de dois braços que estava posicionada ali para ser usada. Ficou um pouco confuso sobre como ela foi parar lá, mas logo entendeu tudo quando passou os olhos pela mesa do júri e viu Cas abrindo um largo sorriso.
Mas ele não estava feliz e nem Dean estava feliz.
Dean então começou a tocar os animados acordes de uma das músicas do setlist, mas antes que a platéia pudesse expressar qualquer reação, simplesmente parou de tocar.
Silêncio.
Um cochicho aqui, outro ali e um grito aleatório de vez em quando. Balthazar, que estava ao lado de Cas, não parava de questionar junto com os outros jurados o que estava acontecendo. Cas olhava confuso para Dean. Gabriel provavelmente estava tendo uma crise de asma nos bastidores.
– Desculpa... — Dean disse meio sem jeito — Eu não consigo cantar nada feliz no momento, eu vou... tocar outra coisa.
Balthazar cobriu o rosto com a mão, não acreditando no que estava acontecendo. Dean ignorou e iniciou seu dedilhado.
– I feel unhappy, — gemeu ao microfone — I feel so sad... I've lost the best friend that I've ever had.
Os olhos de Cas eram tristes, enquanto involuntariamente o nome de Dean saía sem som pelos seus lábios.
– Ah não! — Gabriel fechou a brecha de cortina pela qual olhava o palco — Ninguém vai usar meu festival pra encenar essa tragédia grega aí não, eu vou...
– Opa, opa, calma. — Sam falou, com a expressão facial mais reconfortante do mundo — Deixa eles, Gabe. Não tá nada fácil pra esses dois.
– Ai... Tá, tá certo. — suspirou. Ainda se arrepiava em ouvir o apelido vindo da boca de Sam. — Mas é revoltante, esses dois roubando a cena. É como se eu fosse personagem secundário da minha própria história.
Sam encarou-lhe como se estivesse olhando para a câmera num episódio de The Office.
– She was my woman and — Dean se distraíu olhando para Cas e acabou errando o pronome seguinte — I love him so.
Deu uma risadinha quando percebeu, mas fez-se sério para o verso seguinte, mantendo o pronome masculino.
– But it's too late now, I've... let him go.
– I'M GOING THROUGH CHANGES — as pessoas da platéia (e Cas) cantaram o refrão em uníssono e Dean chegou a ficar arrepiado. Ele meio que gostava desses momentos em shows quando todos cantavam em sincronia. E Dean ainda não sabia, mas aquela era uma memória que ficaria guardada com ele pelo resto da vida.
Depois de quinze minutos de músicas suspeitamente relacionadas ao seu estado de espírito, Dean acenou para platéia e depois, deu um aceno mais devagar para Cas, que sorriu ingenuamente, sem saber que aquele era um aceno de despedida.
Dean não gostava de despedidas. Resolveu que ia acenar e pronto.
Saiu do palco em disparado, com sua guitarra pendurada nas costas, livrando-se do chapéu e do bigode falso. Sam até tentou falar com o irmão, mas tudo que Dean queria era chegar ao quarto laranja o mais rápido possível e juntar suas coisas.
***
– Você pegou tudo? — Sam perguntou
– Acho que sim. — Dean estava vestido com as mesmas roupas de quando saiu de casa, carregando sua bolsa de guitarra mal fechada devido ao tamanho do instrumento novo e seu box de Star Wars na outra mão.
– Já falou com o Castiel?
Antes que Dean pudesse responder, Lúcifer aproximou-se, carregando uma bolsa de guitarra semelhante e uma mochila.
– Seu papai vem te buscar de carro, é Sammy?
– Ué, nem todo mundo tem a sua sorte de voltar pra casa de ônibus. — deu um soquinho no ombro de Lucy, que aceitou o desaforo.
– Gente grande tem que pegar ônibus, moleque. — Ruby apareceu por trás, bagunçando os cabelos de Sam. Lúcifer virou a cara.
– Gente — Sam tossiu — parem de se evitar, tá? Não aconteceu nada entre vocês naquela noite, foi só uma brincadeira minha. — cobriu a cabeça esperando receber um tabefe de qualquer um dos dois, mas Ruby e Lucy apenas se entreolharam e começaram a rir.
– Nossa, que alívio. — Lucy suspirou — Sem ofensa.
– Não, tudo bem, eu concordo. — ela revirou os olhos — Ia ser muito estranho.
– É. — com a cabeça, apontou para o que ela carregava na mão — Isso é...?
– Sim, o nosso prêmio. — Ruby respondeu, colocando um adereço florido na cabeça de cada um — E não esqueçam do buquê.
– Porra, terceiro lugar ainda tá no pódio, bem que eles poderiam ter dado um premiozinho melhor. — Lúcifer pegou o buquê com as pontas dos dedos e com nojinho, depositou-o nas mãos de Sam. — Eu não vou entrar com isso no ônibus.
Naquela hora, um Rolls Royce prata parou na porta do hotel, atraindo todos os olhares dos que estavam ali parados.
– Caraca, aquele é o carro do seu pai? — Ruby gritou, involuntariamente amassando a manga da camisa de Sam com a mão.
– O quê?! Não!
O homem loiro de dentro do carro abaixou o vidro.
– Anda logo, irmãozinho, eu não tenho o dia todo.
– Vai se ferrar, Michael! — Lucy fez uma caminhada irritada até o carro e bateu a porta ao entrar.
Ruby e Sam ficaram boquiabertos.
– Wow.
– Pois é.
– Se você também tem algum segredo, a hora é agora.
– Não, eu só tô esperando meu ônibus mesmo.
A porta do carro abriu-se mais uma vez e Lucy saiu de lá com sua cara emburrada de sempre, com a diferença de que agora ele estava com dificuldades para olhar as pessoas nos olhos.
– Então Ruby, cê quer uma carona?
Ruby e Sam se entreolharam e ela deu de ombros.
– Quero. — abraçou Sam rapidamente — Té mais, garoto.
– Até. — Ruby entrou no carro e após Lucy dar um aceno discreto para Sam, o Rolls Royce acelerou na estrada. — Sabe, eu vou sentir falta desses doidões.
– Quê? — Dean piscou os olhos, como se tivesse sido acordado de um devaneio.
– Nada, Dean. Nada. — Sam ajeitou a coroa de flores do cabelo enquanto virava o rosto — E lá está o velho Impala. Adeus, Califórnia.
O carro do pai dos meninos parou com duas rodas sobre a calçada. John correu de lá pra engolir os dois num enorme abraço. Dean e Sam ficaram imóveis, muito confusos.
– Vocês vão ter um castigo enorme. — ele suspirou, no mesmo tom de quem diz "eu senti saudades".
– Pai, por favor, nenhum de nós tem mais idade pra isso. — Sam disse, se soltando.
– Tanto faz, me levem pra casa de uma vez. — Dean resmungou.
Enquanto Sam se ajeitava no banco da frente e John o enchia de perguntas, Dean estava terminando de acomodar sua modesta bagagem na mala.
– Não tá esquecendo de nada não?
Dean virou-se depressa.
– Nossa, Cas, você me assustou.
– Ainda não funciona, mas — estendeu-lhe a antiga guitarra preta — eu colei os dois pedaços. Deve servir pra pendurar na parede ou algo assim.
– Poxa... obrigado. — Dean pegou a guitarra nas mãos e sentiu seus olhos encherem de água.
– Mas essa não era a única coisa que você tava esquecendo.
– Ai, cara. — secou os olhos — D-desculpa...
– Não tem problema, eu só não queria que você me odiasse.
– Não, não! Pelo contrário, eu... É claro que eu não te odeio. Eu só evitei esse momento porque eu não sou muito bom com despedidas, como você pode ver agora.
– Aquele é o seu pai? — apontou para o homem que o encarava no espelho retrovisor — Ele parece zangado.
– Sim e sim. — Dean fechou os olhos e levantou as sobrancelhas — Acho que ele quer que eu entre.
– Então é isso.
– É isso.
Os olhos dos dois se encontraram e assim permaneceram por alguns segundos, como em tantas outras vezes. O vento fazia barulho nas folhagens e o céu ainda ameaçava desabar.
– KISS ME HARD BEFORE YOU GO, SUMMERTIME SADNESS — Gabriel aproximou-se sem ser percebido, cantarolando alto e quebrando a troca de olhares — Nossa, como eu amo essa música da Lana Del Rey. Todos nós deveríamos prestar atenção na letra.
– Muito engraçado, só que eu não sei se você percebeu, mas meu pai já tá no carro.
– Hmm. Então eu vou dar um oi pro meu futuro sogrinho enquanto vocês fazem aí o que vocês tiverem que fazer.
– Volta aqui, Gabriel. Você não conhece ele. Não pronuncie essa palavra com 's' perto... — Dean foi interrompido por Cas, que rapidamente segurou seu rosto e colou seus lábios nos de Dean, enquanto Gabriel tampava o retrovisor.
– Dean Winchester, eu quero que você seja muito feliz. — Cas disse, partindo o beijo com pena, olhando mais uma vez dentro das orbes verdes de Dean e empurrando-o para o carro, pois Gabriel não ia durar muito tempo ali enrolando John.
– Então fique com meu número, seu Winchester. Seu menino tem um grande futuro pela frente. — os olhos de Gabriel se acalmaram quando Dean entrou no carro, abraçado à guitarra.
– Obrigado, mas nós já temos uma banda e um empresário.
– Mas o senhor tem certeza? Vou deixar pelo menos o meu cartão com seu filho. — esticou o pedaço de papel para Sam — Liga pra mim, hein. — deu uma piscadinha e Sam segurou-se para não sorrir. John acelerou, deixando Gabriel para trás, gritando "Sammy, me liga", enquanto Castiel, imóvel, observava a trajetória do carro.
Gabriel cuidadosamente pousou a mão sobre o ombro do irmão.
– E aí, Cassie, como você tá? — Castiel não conseguia tirar os olhos da estrada — Ok, talvez você precise disso. — estendeu-lhe um kit-kat que tirou do bolso. Bem sério, Castiel olhou para o chocolate e depois para a cara do irmão — Ai, tá bom, vamos beber alguma coisa.
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