Para meu desespero ou deleite, caí esse mês na escala do Maternal: tomar conta das criancinhas, geralmente de 2 a 6 anos, enquanto seus responsáveis aproveitam o culto. Você torceu o nariz ao falar de igreja? Eu realmente não entendo o porquê.

Normalmente comunistas não gostam de igrejas, acredito eu que pura falta de conhecimento, visto que é onde mais se vê uma verdadeira comunidade. É lindo: meninas e meninos, pretos, pardos e indígenas, quase ricos ou quase miseráveis, brincando e dividindo os mesmos brinquedos velhos, pegando no colo umas às outras (e geralmente caindo uma por sobre as outras também), se lambuzando com o mesmo lanche doado, é incrível. Mas eu não sou comunista, sou cristã mesmo. Mas o que me inspirou hoje a escrever esse texto é algo que tange todos os grupos humanos. Todos que tem ou querem ter crianças, pelo menos.

Havia uma criança fofoletíssima. Aliás, muito parecida como eu sonho com meu filho. Um menino muito lindo e educado, que aliás, dá nome ao texto. Eu não conseguia entender seu nome e com vergonha de perguntar à professora auxiliar, perguntei a ele mesmo, afinal com três aninhos ele já sabia o seu nome, não é?

—Qual é o seu nome, José ou Josué?

—Filhinho.

[?]

—Qual é o seu nome, José ou Josué?

— É Filhinho!!!

Demorei um pouco a entender que era assim que sua mãe o chamava. José ou Josué, não importava pra ele. O nome que ele mais ouvia era filhinho. Fiquei surpresa! Parada por uns... três segundos, porque o caçulinha (credito que ele tenha 1 ano e alguns meses, visto que ele mal sabia falar) havia arrumado encrenca pela vigésima vez. Mas me marcou muito isso. Se eu fizesse essa pergunta pra maioria das crianças daqui da rua, e até muitas da igreja mesmo, a resposta seria beeeem diferente de “filhinho”. Provavelmente seria praga, desgraça, enviado dos infernos, “saco”, filho da ****, idiota, burro e por aí vai.

Tenho certeza de que não é coincidência de que filhinho é uma das crianças mais legais que já dei aula.

“-Você não pode ficar o tempo todo com o brinquedo, Josué! Tem que dividir, você fica com o brinquedo um pouquinho e depois ele fica um pouquinho.

—Mas... Mas...(se vira pro coleguinha) Ó, fica com você um pouquinho e depois fica comigo um pouquinho, tá?”

Algo parecido acontecia todas as vezes que pedíamos que ele dividisse um brinquedo. Era claro o quanto ele era amado por sua família e o quanto ele os amava também:

“-Quem tem amigos?

—Tia!! Eu, eu eu!

—Quem são seus amigos, José?

—Ó, eu tenho a mamaaaãe, o papaaaai... a vovooó... e a... a... a mamãe!

—Legal! Que mais tem ami...

—Tia! Tia! Tem também o vovô! E a vovó, e a tia...”

Acho que só quem realmente sonha em ter filhos, assim como eu, entende esse texto. Que um dia, quando perguntarem pro meu Nicolas (que ainda demora a existir) qual é o seu nome, que ele possa dizer algo como “Filhinho”. Pode parecer bobeira, mas sei que o amor dedicado ao Filhinho, vulgo José, é algo que vai marca-lo pela vida inteira. É o amor que eu quero para meus filhos.

Notas finais
Depois eu descobri, o nome dele é José =]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!