Jornada para o amor.
18 Um amor que renasce.
Samuel acordou com o som ensurdecedor do despertador. Definitivamente ainda não havia se acostumado a acordar cedo. Bem diferente de Emir, que já estava de pé e comia sua refeição da manhã.
— Bom dia papai, não demore, pois tenho algo para fazer antes na escola.
Ele olhou para o filho e sorriu. Emir se comportava como se fosse um adulto. Sempre muito responsável pelos estudos. Aquela sua atitude lhe dava muito orgulho.
— Bom dia para você também filhote. — Samuel disse, enquanto sentava em frente ao garoto.
Ele ficou por algum tempo olhando para o filho e ficou perdido no tempo. Kenya ficaria orgulhosa, pensou ele sorrindo.
— Papai você está bem? — disse o garoto, que olhava o jeito engraçado como o pai o encarava.
Acordando do devaneio Samuel sorriu.
— Estava apenas pensando. Vamos!
Samuel deixou o filho no colégio e depois se dirigiu a clínica. Ele estava ansioso com o novo projeto. Ele e dois amigos iam iniciar uma clínica com preços populares. Seria algo desafiador, mas estava muito empolgado!
O telefone soou, ele reconheceu a chamada de Luana e atendeu.
— Oi querida.
— Adoro ouvir sua voz. — disse ela em tom meloso. Luana adorava ouvir aquele tratamento. Tinha sido um acordo entre ele. Essa era uma das coisas que ela mais gostava em Samuel, seu jeito amável em tratá-la. — Já estou com saudade de você.
Em resposta ao carinho ele apenas disse "eu também". A verdade é que soou quase que automático a resposta.
— Você vem hoje para a ONG?
— Não, hoje vou resolver algumas coisas com relação a clínica. Espero que possamos fazer logo a inauguração.
Ela suspirou melancólica, pois Luana queria vê-lo naquele dia, mas ela entendeu que Samuel precisava organizar os últimos acertos na clínica.
— Tudo bem, mas amanhã você me deve um jantar!
Samuel sabia que não teria alternativas e concordou.
Fernanda teve uma noite péssima! Reencontrar com Samuel naquela noite tinha sido algo inesperado. Ele estava tão diferente. Parecia um homem mais seguro de suas ações. Mas algo continuava igual. Ele ainda tinha aquele jeito amável que tanto a encantou.
O modo como ele sorriu para Luana lhe causou inquietações. Eles se olhavam como um casal apaixonado. Fernanda recordou das vezes que ele a olhava da mesma maneira. Aqueles pensamentos foram responsáveis por longas horas de insônia. Finalmente, depois de quase duas horas ela conseguiu dormir. O resultado no dia seguinte não poderia ser pior!
Pela manhã, ela deixou Antônia na creche e em seguida correu para a empresa. Precisava deixar tudo preparado para a reunião que teria com a equipe de marketing.
Chegando em frente ao prédio, Fernanda olhou no relógio e viu que estava atrasada! Odiava ser um péssimo exemplo para os funcionários! Durante aqueles anos em que esteve ajudando a recuperar a empresa, ela teve como meta manter a disciplina no horário. Infelizmente, naquele dia não poderia cumprir.
Fechando a porta do carro e correu para dentro do prédio. Naquele exato momento o elevador se fechava. Apressada, ela adiantou os passos e apertou o botão. Agradeceu quando a porta do elevador abriu.
— Por favor, segure para mim! — Fernanda pediu enquanto pegava as caixas que trouxe consigo. No momento que entrou no elevador, ela viu que a pessoa que estava dentro era Samuel. Ela pensou em voltar, mas foi tarde demais. As portas do elevador tinham se fechado.
Assustada ela pressionou o botão do elevador, mas o movimento brusco fez com que as caixas caíssem. Rapidamente, Samuel a ajudou.
— Obrigada. — ela tentou pegar as caixas de volta, mas Samuel não permitiu que ela o fizesse.
— Qual o seu andar? — ele perguntou enquanto a ajudava. Fernanda apertou o botão e virou pegando as caixas que eram devolvidas.
Estava muito surpresa por vê-lo ali. Nunca pensou que isso pudesse acontecer. Mas afinal, o que ele fazia ali? Essa era a única coisa que ecoava em sua mente. Sem reação, ela apoiou-se na parede do elevador.
Samuel também não esperava se encontrar novamente com Fernanda. Não depois da noite anterior. Pensou em tudo que havia acontecido, e ficou surpreso ao vê-la ali em sua frente. O destino queria brincar com ele!
Samuel percebeu que não era o único a estar inquieto. Ela também tentava manter a naturalidade, mas seu nervosismo ficou evidente.
— Que surpresa em encontrá-la...
Fernanda levantou o olhar e fitou Samuel. No momento em que seus olhares se encontraram, ela percebeu que ainda tinha os mesmos sentimentos que antes. Queria poder romper aquela pequena distância e poder abraça-lo. Mas não poderia fazê-lo!
— Eu trabalho aqui.
Samuel olhava para ela, como se tentasse decifrar as coisas que estavam ocultas. Ele sorriu de modo amigável.
— Fico feliz por você.
Era estranho o modo como eles conversavam. Nem de longe lembrava aquelas conversas amigáveis que tinham. Quando ambos tinham prazer de partilhar suas intimidades.
— E você? — A pergunta foi feita no impulso. A verdade, é que ela queria saber como Samuel estava. Queria saber o que havia feito naqueles anos. Acima de tudo, queria lhe perguntar qual era sua relação com Luana. Mas nenhuma dessas perguntas saiu de seus lábios.
— Eu estou abrindo uma clínica... No sexto andar.
Fernanda sentiu uma grande alegria ao ouvi-lo. Estava feliz porque ele tinha realizado seu sonho.
Enquanto o elevador subia, ela percebeu que muitas coisas haviam mudado naqueles anos. Mas algo ainda permanecia o mesmo. Ela ficava nervosa sempre que estava próximo a ele. Sentia aquela ansiedade por poder tocá-lo novamente. De poder beijá-lo...
— Você mudou Fernanda! — disse ele após analisá-la durante alguns segundos.
A voz de Samuel a trouxe de volta à realidade. Ela levantou o olhar e viu que ele a encarava. No seu olhar, existia um misto de curiosidade. Muitas coisas passavam na mente dele naquele momento, mas nenhuma delas foi dita.
Fernanda sorriu sem emoção e retrucou:
— Você também mudou Samuel.
— Sim, o tempo nos ensina. Aprendi com você e devo agradecê-la pelo ensino.
O modo ressentido como ele respondeu trouxe a ela tristeza. Fernanda sabia que ele havia ficado magoado. Isso ficou ainda mais evidente, pelo modo frio como ele a tratava.
— Eu não quis magoá-lo Samuel... — ela sussurrou arrependida. Fernanda não poderia mudar o passado, mas não gostava do modo ressentido como ele a tratava. Ela sabia que aquelas palavras eram inúteis naquele momento. Mas ainda assim tentou.
— Isso não importa mais. Você está com seu marido e tem sua filha... — Talvez fosse isso a diferença! Ela não tinha mais aquele olhar abatido. Aquele olhar que transmitia uma tristeza. Agora havia certa alegria no semblante dela. Talvez estivesse feliz por estar novamente com sua família. — E eu...
— Você tem a Luana! — Fernanda completou cortando-o.
Não houve tempo para dizer mais nada. O elevador parou e as portas foram abertas. Fernanda agradeceu em pensamento. Não seria mais capaz de ficar ali junto a ele. Se ela ficasse mais segundo ali, não seria capaz de conter suas emoções. Acabaria chorando na frente de Samuel. Se fizesse isso, jamais se perdoaria!
Sem se despedir, ela saiu do elevador e seguiu no corredor em direção à sala onde ficava sua empresa.
Fernanda sentia as pernas bambas. Ela estava nervosa e parou quando sentiu que lágrimas começavam rolar em seu rosto. Ela não conseguiu se conter e deixou que a angústia que a sufocava saísse. Depois de alguns segundos ela se controlou. Sem ter como limpar o rosto, ela colocou as caixas no chão e se recompôs. Neste momento, um dos funcionários da empresa chegava e viu sua aflição.
— Precisa de ajuda?
— Por favor, leve para minha sala. Eu preciso resolver uma coisa!
Ela andou apressada e foi para o banheiro. Agradeceu por não ter ninguém no lugar. Por um breve momento ela ficou se olhando no espelho enquanto as lágrimas rolavam em sua face.
"Com tantos lugares no mundo para ele estar... Porque justo ali?" Indagou-se Fernanda em aflição. Não queria imaginar o que aconteceria se Lorenzo descobrisse que Samuel estava ali. As ameaças dele ainda eram reais na sua mente.
Fernanda limpou o rosto e contou até dez pra se recompor. Em seguida, ela retornou para a empresa, afinal teria uma importante reunião naquela manhã.
***
Samuel apoiou o corpo na mesa e ficou olhando para a rua. Ele suspirou profundo e comeu um pedaço do sanduíche. Durante todo o dia não tinha parado para comer nada. Com toda aquela correria para a inauguração, tinha se esquecido de comer alguma coisa.
Enquanto comia, ele recordou daquela manhã quando encontrou com Fernanda. Foi uma enorme surpresa vê-la. No momento em que a viu entrar no elevador, sentiu o impacto de reencontrá-la. Não estava preparado para aquilo. Naquele momento todas as palavras sumiram. Mas ele queria saber como ela estava.
Ela continuava bela como a primeira vez que a viu. Essa foi a primeira coisa que notou.
Durante anos ele lutou para esquecê-la. Tinha sido difícil, pois os sentimentos por ela eram verdadeiros. Naquela noite na festa quando a reencontrou, teve que se confrontar com a realidade. Todo aquele esforço tinha sido inútil! Aquele sentimento ainda existia. Na realidade, durante aquele tempo eles estavam apenas adormecidos.
Mas ele não era mais aquele homem bobo. Tinha aprendido que a realidade era diferente da fantasia. Ele tinha conhecido Luana e ela era uma grande amiga. Era a força que faltava para recomeçar. "Ela era a mulher certa para ele!" Ele disse a si mesmo tentando se convencer de que seus sentimentos eram uma coisa boba.
Samuel olhou para o relógio e ficou assustado com as horas. Ele olhou pela janela e viu o momento que Fernanda atravessava o estacionamento. Ela caminhava em direção ao local onde estava estacionado seu carro. Sorriu feliz em saber que finalmente ela podia dirigir seu próprio carro. Mas logo ele recriminou-se por estar sendo um bobo.
Para afastar aqueles pensamentos ele pegou o celular e ligou para Luana. A voz dela soou feliz ao ouvi-lo. Ela ficou ainda mais quando Samuel disse que queria encontrá-la.
Mais tarde naquela noite, Fernanda chegou em casa. Estava sentindo-se cansada, mas ficou satisfeita com o resultado de seu trabalho. Ela caminhou em direção ao quarto de Antônia e viu que a filha estava dormindo. Sentiu uma grande paz ao ver aquela cena. Tudo nela lembrava Samuel. Automaticamente veio à sua mente a manhã daquele dia.
— Sabe quem eu vi hoje? — disse Fernanda enquanto tocava as bochechas da filha e ajeitava os fios bagunçados de Maria Antônia. A garota parecia entender o que a mãe tinha dito e se mexeu na cama.
— Eu vi seu pai. — ela continuou. — Ele estava tão lindo. — As lembranças dele fizeram com que Fernanda sorrisse sozinha. — Seu pai iria amar muito você, meu anjo... Mamãe ama seu pai.
Fernanda beijou o rosto da filha e saiu do quarto em silêncio. Já em seu quarto, ela tirou a roupa e quando estava se dirigindo ao banheiro, ouviu o som da porta se abrindo. Ela virou e viu Lorenzo entrar no quarto. Automaticamente ela apertou o cinto do roupão de banho.
— Como você ousa entrar no meu quarto?
Lorenzo rompeu a distância e pressionou o braço dela com força. A reação dele causou medo em Fernanda, pois ela sentiu o cheiro do álcool.
— Onde você estava até essa hora?
Fernanda tentava se soltar, mas Lorenzo não permitia e prendeu os braços dela com força. Ela sentia a dor intensa causada pela força que ele exercia, mas isso parecia ser indiferente a ele.
— Por favor, me solta!
— Você estava com ele, não e?
O ciúme de Lorenzo era asfixiante. Durante aqueles anos, tinha sido horrível ter que suportar a pressão dele. Fernanda não conseguia sair para nenhum lugar, sem que antes ele tivesse conhecimento. Quando ela chegava um pouco tarde, isso era motivo para brigas absurdas.
— Eu ouvi. — Lorenzo começou a recitar as palavras, que ela tinha dito minutos atrás para Antônia. Fernanda sentiu o pavor ao encarar a fúria nos olhos do marido. — Você estava com ele!
Sem ter como ocultar, ela confirmou.
— Sim, eu o encontrei.
A reação de Lorenzo foi automática. Fernanda não teve tempo de se desviar da tapa. Ela levou a mão no local onde ele havia atingido. Assustada ela levantou o olhar e encarou o marido. Ele parecia completamente transtornado e não estava disposto a ouvi-la.
— Sua vagabunda! — Ele segurou o cabelo de Fernanda e pressionou sua cabeça para trás. Ela gemeu de dor diante da agressividade.
— Por favor, Lorenzo pare! — ela suplicou quando sentiu que ele não estava disposto a ouvi-la.
Fernanda teve seu corpo arrastado em direção a cama. Ela sentiu pânico quando sentiu as mãos de Lorenzo explorar o seu corpo. Ele afastou seu roupão e exibiu o corpo frágil e despido.
— Você é minha esposa! Minha!
Lorenzo estava transtornado e agia com brutalidade. Fernanda agitou o corpo sobre a cama na tentativa de empurrá-lo para longe. Percebendo que sua força era inferior à dele. Ela começou a gritar por ajuda.
Sandra entrou no quarto e ficou assustada com a cena que se passava. Ao sentiu o corpo ser solto, ela empurrou Lorenzo e se afastou dele.
Fernanda sentiu-se sufocada. O corpo dela tremia por causa da adrenalina. Sandra implorou para que o patrão saísse. Ele pareceu ouvir os apelos da senhora, mas antes de sair ele ameaçou:
— Não se atreva a vê-lo novamente, ou então eu mato aquele desgraçado!
Quando ele saiu, Fernanda teve seu corpo amparado.
— Eu tenho medo Sandra... Eu tenho medo.
Fernanda relatou o que havia acontecido. Que tinha encontrado com Samuel e que ele estava trabalhando no mesmo prédio que ela.
— Que ironia. Eu tentei fugir e ele aparece na minha frente.
Sandra segurou a mão de Fernanda e olhou seu rosto que estava machucado.
— E esses hematomas?
Fernanda tocou a face com suavidade. O local ardia muito e ela sentia gosto de sangue na boca. Seria impossível esconder aquelas marcas. Naquele momento, isso era o de menor importância. Sua maior preocupação era a ameaça de Lorenzo.
— Isso é um pesadelo! — Ela sussurrou. Sentia cansaço físico e mental. Não queria mais continuar com aquilo.
— Já vai acabar.
Fernanda assentiu concordando. Finalmente conseguia enxergar uma luz no fim de tudo aquilo. Mas as ameaças dele ainda eram reais. Tentaria aguentar mais um pouco. Dentro de alguns dias ela teria uma nova reunião com o advogado. Tratariam sobre a quitação da dívida, e também o processo de divórcio. Nada faria com que ela mudasse de ideia. Já vinha se preparando para esse momento.
Sem que Lorenzo soubesse, ela comprou uma casa. Nada comparada aquela mansão, mas seria o suficiente para viver. Antônia poderia ter uma infância tranquila, como qualquer criança naquela idade.
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