Jornada para o amor.

11 Muito mais que amigos.


Carlos chegou meia hora depois. Com sua ajuda, eles rebocaram o veículo. Assim que chegaram à fazenda, Samuel acompanhou Beatriz para que pudesse trocar a roupa molhada. Fernanda seguiu com o irmão. Ele estava curioso para saber o motivo de sua vinda tão abrupta. Como ele tinha prévio conhecimento do que acontecia no casamento da irmã, perguntou:

— Foi algo com o Lorenzo? O que houve?

Fernanda realmente não conseguia ocultar suas coisas de seu irmão! Ela concluiu sentindo-se desanimada demais para inventar alguma desculpa

— Eu estou me sentindo cansada. — Fernanda desabafou — Eu e o Lorenzo não ficamos um minuto sem brigar. É impossível de continuar assim!

— Você quer se separar?

— Quero descansar uns dias aqui e depois decidir o que vou fazer.

— Claro! Aqui sempre será a sua casa... Mas e o Samuel?

Fernanda suspirou e recordou dele.

— Essa noite ele vai ficar aqui... Onde ele está? Vou falar com ele!

Beatriz surgiu na sala e sua feição não escondia sua preocupação.

— Bia, onde está o Samuel? — indagou Fernanda aceitando o café que a cunhada trazia. — Obrigada.

— Acredita que ele estava com muita febre? Se eu não tivesse percebido, ele não teria falado nada.

— Onde ele está? — perguntou Fernanda preocupada. Ela ficou apreensiva ao saber que Samuel estava doente. Tinha notado que ele havia espirrado durante o trajeto. Como poderia imaginar que estivesse doente?

— Por favor, por aqui.

Fernanda seguiu a cunhada até a área de empregados. Ela entrou no quarto e se aproximou da cama onde Samuel dormia. Notou que ele não estava mais com as roupas molhadas. Ela tocou na testa dele com as costas da mão para medir sua temperatura. Realmente ele estava com muita febre.

Ela virou para a cunhada e perguntou:

— Você deu algo para ele tomar?

— Sim. Ele me pediu um antitérmico. Provavelmente amanhã estará melhor.

Fernanda esperava que sim! Suplicou em pensamento.

Assim que ficou sozinha, Fernanda sentou numa poltrona que estava ao lado da cama onde Samuel dormia. Por algum tempo ela ficou olhando para ele. Era inevitável não sentir um afeto por aquele homem. Ele era uma pessoa amiga, compreensiva e gostava muito de estar ao lado dele. Ela sorriu sentindo-se uma boba por sentir aquelas coisas.

Samuel abriu os olhos. Ele viu que Fernanda estava ao seu lado. Ele tentou levantar e sentar, pois se sentia incômodo por estar naquela situação de vulnerabilidade.

— Por favor, não precisa levantar.

Mas ele levantou e sentou na cama dizendo:

— Eu preciso falar com o meu filho.

Fernanda sabia que ele não desistiria. Ela pegou o aparelho celular e ligou. Segundos depois, do outro lado da linha ouviu a voz infantil de Emir.

— Ele está na linha — disse ela passando o telefone para Samuel. Enquanto ele conversava com o filho, ela o ficou analisando. De repente, aquele homem se transformava em outra pessoa ao ouvir a voz do menino. Eles conversavam como se fossem amigos de mesma idade. Não duvidava que a relação entre pai e filho fosse muito bonita. Foi impossível não rir do modo como eles conversavam. Samuel encarou Fernanda e ela ficou envergonhada por ter sido pega no flagrante.

— Vocês são muito unidos. — Fernanda comentou após Samuel desligar o celular e lhe entregar o aparelho.

— Muito mais que isso...

— Ele vai ficar na casa de alguém?

— Minha amiga ficara com ele.

Ela pensou em perguntar quem era aquela amiga, mas desistiu ao ver que ele parecia cansado.

— Por favor, descanse. Eu vou pedir para trazerem algo quente para você. Quando ela fez menção de levantar, Samuel segurou em seu braço impedindo-a de sair. Fernanda virou para ele.

— Obrigado... — Disse Samuel. Por uns segundos eles ficaram se olhando em silêncio. Em seguida ele soltou o braço dela e Fernanda saiu.

Mais tarde ao retornar ao quarto ela viu que Samuel dormiu novamente. Não quis acordá-lo. Ela colocou a bandeja com o alimento no criado mudo e permaneceu por alguns minutos apenas olhando-o. Não soube dizer ao certo o momento que fechou os olhos, mas quando ela abriu os olhos novamente, deparou-se com Samuel encarando-a e rindo.

— Que vergonha! — Fernanda sentiu-se tímida e se recompôs no assento. Era uma bobagem, mas ela ficava assim. Ela olhou para Samuel e ele tinha um olhar sério e atento. Ela estava presa ao magnetismo daquele olhar. Ele se aproximou e ela não pode se afastar. Eles estavam presos por um elo invisível.

Samuel parou em frente a ela. Ele não disse nada, apenas tocou-a suavemente na face . Fernanda sentiu o impacto daquele contato e fechou os olhos se entregando. Era quase como uma tortura senti-lo tão perto e ao mesmo tempo estando tão longe. Ela abriu os olhos e o encarou. O olhar dele não escondia seu desejo de beijá-la.

Sentindo-se torturada por aqueles desejos ela sussurrou:

— O que você está fazendo Samuel?

— Algo que eu desejo fazer a muito tempo... — disse ele enquanto aproximava os lábios do rosto dela.

Fernanda fechou os olhos enquanto sentia o toque dos lábios dele. Ela se entregou ao contato suave e gentil. Nada mais parecia importar para eles, a não ser aquele momento.

Eles se entregaram ao prazer e juntos mergulharam no êxtase da paixão. Quando Samuel se afastou, Fernanda desejou que ele não o fizesse, mas as palavras morreram em seus lábios.

Samuel beijo-a-a na testa e sorriu para ela. Ele não conseguiria deter a vontade de beijá-la novamente. Tinha se apaixonado por uma mulher proibida. Ele se afastou um pouco e disse:

— Não pedirei desculpa dessa vez. Eu realmente desejava beijá-la... — Ele desejava dizer tudo o que estava sentindo naquele momento. Queria dizer que pensava nela. Que desejava poder tê-la para si. Mas todos seus sentimentos ficaram guardados num local onde apenas ele tinha acesso.

— Samuel...

Samuel percebia que ela estava confusa e não iria força-la a nada. Durante aqueles dias ele pensou em tudo o que tinha acontecido. Tinha tomado uma decisão que talvez pudesse parecer precipitada , mas ele estava certo daquilo.

— Preciso informá-la, que irei me despedir do trabalho.

Fernanda ficou assustada ao ouvi-lo.

— Por quê?

Samuel não conseguiria permanecer ao lado dela. Não deveria ter aqueles sentimentos, mas já tinha se apaixonado por Fernanda.

— Creio que você conhece a resposta.

Sim, ela sabia. Fernanda tinha percebido os sentimentos dele. Sentia-se atraída por Samuel. Jamais tinha sentido aquela sensação com outra pessoa. Nem com Lorenzo quando eles ainda estavam apaixonados. Com Samuel ela conseguia conversar coisas que há tempos não falava. Gostava muito da companhia dele... Mas ela estava confusa com o que estava acontecendo.

Samuel percebia essa confusão e não iria força-la a nada. Ele tinha tomado a decisão de sair do emprego.

— O que você vai fazer?

— Eu irei cumprir o prazo do serviço, mas não pretendo renova-lo. Em breve voltarei a exercer minha profissão.

A voz dele soava triste. Fernanda não soube o que lhe responder. Não poderia detê-lo, mas também não queria que Samuel partisse.

— Você sabe que pode ficar...

— Mas realmente isso não daria certo. — Ele concluiu. Ainda que estivesse ao lado dela , eles seriam apenas amigos. Não conseguiria vê-la sem desejar estar junto a ela.

— Eu sinto muito.

— Não diga isso! Você não é culpada de nada... Apenas a vida segue assim.

Fernanda se afastou e por um breve segundo pensou no que dizer. Mas ela não disse nada...Ela se despediu de Samuel e saiu do quarto, mas enquanto seguia para a cozinha sentia-se muito estranha. Um misto de sentimentos estava lhe inquietando.

Beatriz ainda estava na cozinha organizando as coisas. Ao olhá-la recordou de sua mãe. Constança sempre deixava sua marca em cada canto da casa. Todas aquelas qualidades ela via na cunhada.

Bia ouviu os passos e espantou-se. Ela viu que se tratava da cunhada e perguntou:

— Você está bem querida?

Uma pergunta simples, mas Fernanda não conseguia respondê-la.

— Você já se sentiu confusa?

Bia riu e sentou ao lado dela. Ela tinha uma sensibilidade para as coisas e entendeu que algo estava errado.

— O que houve?

Fernanda começou a relatar sobre o que havia acontecido entre ela e Samuel.

— E o Lorenzo? — Foi a pergunta de Beatriz ao ouvi-la relatar sobre seus sentimentos.

— Eu não sei mais o que sinto por ele. Depois da morte da Isabella, ele mudou. Nosso casamento se tornou insuportável. — Fernanda limpou a lágrima que rolava no rosto. — Sabe Bia? Eu tentei, mas agora eu não consigo mais. Precisava desse espaço para descansar minha mente... Estou confusa. Quando eu estou ao lado do Samuel eu me sinto tão bem.

— Céus! Como isso aconteceu Fernanda?

Fernanda riu e levou a caneca aos lábios para tomar o leite quente.

— Acho que... Acho que a amizade dele acabou me envolvendo. O Lorenzo se afastou e o Samuel estava lá. Sempre me ouvindo. Sempre me consolando. Esses sentimentos me deixaram confusa.

— Isso não vai dar certo!

Ela concordava. Mas ainda assim, seus sentimentos eram um turbilhão naquele momento.

— Eu vou deitar Bia.

— Descanse querida.

Samuel partiu bem cedo antes que todos estivessem de pé. Ele preferiu não se despedir de Fernanda. As imagens dela era vivas em sua mente. Enquanto ele dirigia de volta para a cidade, recordava dos breves momentos ao lado dela naqueles meses. Foram dias maravilhosos. Ele sempre lutou pelas coisas que queria. Mas entendia que existia o momento de desistir.

Samuel não era mais um adolescente sonhador. Entendia que existia um abismo entre ele e Fernanda. Ela era uma mulher rica. Estava acostumada a vida de luxo. Era casada com um homem que lhe dava de tudo. Eram coisas que jamais ele poderia lhe proporcionar. Não sonhava que ela pudesse deixar tudo aquilo. Mas ainda assim, desejou por um breve momento... Apenas por um breve momento, que eles pudessem ficar juntos.

Ele fechou os olhos e recordou do toque dos lábios dela. Foi como se pudesse senti-la novamente.

Quando tinha se deixado dominar pelos sentimentos? Ele não sabia. Mas tinha passado a desejar estar ao lado dela. E estar ao lado não apenas como um amigo ou como um motorista, mas sim como alguém para a vida toda.