Santa Catarina — Brasil, 2015.

Samuel olhou para os dois lados. Queria ter certeza de que poderia atravessar a rua movimentada. Apesar de o semáforo está fechado para os carros, ele tinha o hábito de se certificar se poderia atravessar. Ele olhou para Emir e o menino sorriu. A expectativa de poder ir para uma escola era grande e isso enchia o pequeno de alegria.

Há dois, quando chegou ao Brasil fugindo da violência na Nigéria, isso não era possível. Mas agora podia desfrutar desse pequeno privilégio, que havia alcançado com sua regularização no país.

— Papai, eu vou para a escola? — Apesar de estar a dois anos no país, o sotaque do garoto não negava a sua origem. Samuel fez questão de manter diálogos com o filho no idioma original do seu país.

— Sim meu filho. Você vai gostar muito de seus novos colegas. Faça amizade com todos e não brigue!

— Mas eu não faço isso papai!

De fato, Emir era uma criança agradável e não gostava de brigas. Quando a mãe dele era viva, sempre fez questão de manter a paz dentro de casa e isso chegou até o pequeno, que aprendeu a importância do diálogo.

— Apenas faça isso. Ok?

— Sim.

Após deixar o filho no colégio público, ele seguiu para o trabalho. Seu primeiro dia naquele local! Samuel estava impaciente com todos os acontecimentos em sua vida. Há meses buscava trabalhar com a profissão a qual dedicou boa parte de sua vida. Mas não estava sendo fácil! O processo da revalidação de diploma de Medicina dificultava as coisas. Enquanto isso não acontecia, havia conseguido um emprego como motorista particular. Uma sorte! Segundo alguns amigos que estavam na mesma situação que ele.

Samuel seguiu rumo a casa dos Accioli . Soube por alto que eles eram pessoas ricas, mas não tinha noção exata de quanto isso era na realidade. Uma amiga sua, que estava lhe ajudando no processo de regularização no país, falou sobre essa oportunidade. Não tinha muitas pretensões, pois sabia que essas pessoas ricas eram seletivas quanto a seus empregados, mas o destino tinha lhe brindado!

Ele chegou ao local indicado e quase caiu para trás quando viu o tamanho da residência. Pelo pouco tempo ali, já conhecia da fama das pessoas que residiam naqueles condomínios de luxo.

Logo na entrada da residência ele viu o belo jardim que cercava toda a casa. Na área lateral havia uma entrada que levava a parte de serviço. Samuel foi recepcionado por uma senhora que aparentava ter uns cinquenta anos, seu sotaque revelava sua origem nordestina.

— Bom dia, eu sou Samuel Abeni. Vim me apresentar para meu primeiro dia de trabalho. — ele pronunciou com seu português ainda com leve sotaque.

— Olá Samuel, estávamos aguardando você. — A senhora sorriu amável. — Me chamo Sandra, sou a organizadora da casa.

— Olá senhora Sandra.

Samuel sentiu alívio ao perceber o ambiente relaxado. Logo em seguida outros funcionários foram apresentados a ele. Certamente naquela casa deveriam ter pelo menos uns três ou até mais, pensou ele depois de cumprimentar as duas diaristas da limpeza.

Uau! O que esperar de uma casa como aquela? Ele pensou, enquanto olhava para toda aquela opulência.

— A senhora Fernanda sempre vem conferir se tudo está em ordem. Ela é que organiza essa casa. Você irá se surpreender com ela! Acredite, apesar de seu jeito amável, ela gosta de tudo no lugar. Nunca esqueça isso Samuel. — advertiu Sandra.

Depois de ser advertido, Samuel começou a sentir receio de trabalhar com aquela mulher. Afinal, tinha sido contratado para dirigir para ela.

“Porque ela não poderia dirigir seu próprio carro?” Certas extravagâncias dos ricos! Julgou ele em pensamento.

— Ai vem à senhora!

Samuel estava sentado e levantou. Ele olhou na direção de onde Fernanda entrava na área de serviço. Ela lançou um olhar na direção de cada funcionário e os cumprimentou dizendo:

— Bom dia.

Por fim ela se aproximou de Sandra e a abraçou. Pôde perceber que com aquela senhora Fernanda tinha algum tipo de aproximação diferente dos demais funcionários.

— Por favor, Sandra eu quero que tudo esteja perfeito essa noite. Você sabe que receberemos os meus sogros. Sabe como ele é exigente! — discursou Fernanda dando as ordenanças sobre como seria o jantar naquela noite.

Por fim a mulher olhou para Samuel e lhe sorriu.

— Fernanda, este é o novo motorista. Ele se chama Samuel.

Por um breve segundo, Samuel ficou encantado pela beleza daquela linda mulher. Ela não parecia como as demais brasileiras que já tinha visto, Fernanda tinha uma feição delicada e olhos expressivos de uma tonalidade única.

— Samuel, olá. — disse ela em inglês por não saber que Samuel falava bem seu idioma.

— Senhora. — Respondeu ele em português, demonstrando que tinha conhecimento de seu idioma. Em resposta ela sorriu percebendo sua proatividade.

— Que bom, não teremos problemas no idioma! Seja bem-vindo Samuel. A Sandra irá lhe informar sobre as atribuições de seu trabalho. Caso precise de você, esteja pronto!

— Sim, senhora.

Dizendo isso, ela se retirou do local.

Samuel não tinha muita noção de como era aquele trabalho. A única coisa que sabia, era que precisava daquele emprego mais que tudo!

***

Fernanda estava ansiosa e nervosa sobre aquela noite. Todas as vezes que precisava encontrar com a família de seu marido, ficava daquele jeito.

Ela foi para andar superior, onde ficavam os quartos. Queria ver se todos estavam perfeitamente organizados para receber aos convidados, caso fosse necessário.

— Senhora Fernanda, nos organizamos tudo!

Ela olhou em cada local para certificar-se de que tudo estava correto. Não queria imaginar o que Donatela poderia falar caso alguma coisa estivesse incorreta.

— Está perfeito!

Ela olhou para as horas a fim de certificar-se que teria tempo para fazer todas as coisas que havia planejado para aquele dia.

Uma hora depois, Fernanda estava pronta para sair. Ela seguiu em direção ao local onde estava estacionado seu carro. Samuel a esperava com a porta aberta. Ela entrou e ele fechou a porta, deu a volta e assumiu o volante.

Fernanda o observara desde o momento em que havia recebido sua indicação para contratá-lo. Era um hábito seu. Gostava de conhecer todas as pessoas que compartilhavam a mesma residência que ela.

Algo naquele jovem rapaz de vinte oito anos tinha lhe chamado atenção. Segundo seu relatório, ele era Nigeriano e tinha vindo para o Brasil fugindo da situação de risco em seu país. Muitas pessoas estavam em situações como a dele e mereciam uma oportunidade.

— Vamos para o Hospital São Carlos!

Samuel assentiu e deu partida no luxuoso veículo. Nunca em sua vida, tinha imaginado conduzir um veículo como aquele. Quando veio para o Brasil, não planejava aquela profissão, mas era o que havia conseguido. Teve sorte de conseguido tirar a carteira de motorista.

Enquanto guiava pela rua movimentada, ficou imaginando porque aquela bela mulher não dirigia seu próprio carro?

Durante o trajeto que foi em torno de trinta minutos, ela não lhe dirigiu a palavra, e nem esperava que o fizesse. Afinal, quem era ele?

Ele estacionou o veículo e abriu a porta para que ela descesse. Fernanda seguiu para dentro do grande hospital, mas antes disse:

— Me espere!

Para onde mais ele iria? Pensou Samuel sentindo-se irônico. Ele entrou no carro e encostou a cabeça no apoio da poltrona e suspirou fundo. Pode então notar o cheiro suave dentro do carro. Era o perfume de Fernanda. Aquela mulher era o que se podia chamar de verdadeira rica. Durante aqueles minutos não tinha nem lhe dirigido a palavra.

Já suspeitava que aquele emprego fosse complicado!

Mas, além disso, aquela mulher era muito bela. Quando ela surgiu naquela manhã na ala de serviço, sentiu um impacto ao vê-la. Apesar de sua riqueza, ela possuía uma elegância sem extravagâncias. Vestia-se com simplicidade, mas suspeitava que suas roupas devessem custar uma pequena fortuna. Mas algo lhe intrigava naquela mulher. Seu olhar! Por aqueles breves minutos que estava ali, percebeu que ela tinha uma tristeza no olhar. Algo que não combinava com aquele mundo de opulência em que ela vivia.

Seria verdadeiro o dito que “riqueza não é sinal de felicidade?” Samuel não sabia responder, afinal sua vida nunca foi uma ostentação de riqueza.

Para se formar na faculdade de Medicina precisou vencer vários desafios, principalmente o da dificuldade financeira. Mas ele conseguiu!

Foi então que conheceu a mãe de Emir. Jamais esqueceria aquele dia em sua vida.