Jornada para o amor.
7 Alguém especial.
Ao chegarem no banco, Fernanda avisou que ele poderia aguardá-la, pois seria uma reunião demorada. De fato o foi. Os minutos passaram e pareciam longos demais. Naquele momento o celular dele soou. Era Emir para avisar que iria ficar na escola no período da tarde. Pois o professor de educação física iria organizar um grupo de novos jogadores para o time do colégio.
Queria muito poder dar uma vida melhor a seu filho. Sabia que esse dia chegaria! Tinha fé que sim. Ele fechou os olhos e mergulhou na melodia que tocava. O cansaço de uma noite começou a fazer efeito e logo foi dominado pelo sono.
Fernanda se despediu do irmão, que retornou para casa sentindo-se um pouco mais aliviado, pois haviam conseguido financiamento para a publicidade da nova marca. Após avistar onde o carro estava estacionado, ela caminhou até o veículo. Chegando lá, parou ao ver que Samuel estava dormindo. Ele parecia cansado e relaxado. Ficou por algum tempo olhando-o e pensou no que Milena havia falado. De fato, ele era muito bonito! Os lábios grossos eram a combinação perfeita com o maxilar bem acentuado.
Samuel pareceu pressentir sua presença e abriu os olhos encarando-a. Ela sorriu para ele e em seguida abriu a porta do carro e entrou.
— Desculpe. — disse ele após dar partida no veículo, mas Fernanda não se importava com aquilo. Nunca foi o tipo de pessoa que não se importasse por seus funcionários. Sabia que ele era um homem com muitas obrigações. Ainda mais tendo um filho pequeno. O admirava por esse comportamento.
— Você está cansado?
Ele elevou o olhar e fitou-a pelo espelho.
— Iniciei um curso e ontem fiquei estudando até tarde.
— Você é uma pessoa muito admirável Samuel.
Ele sorriu sentindo-se constrangido com o elogio.
Fernanda voltou a atenção para a estrada. Estava sentindo fome, pois já se aproximava da hora do almoço. Desejou comer algo muito saboroso. Por sorte, naquele momento eles passaram em frente a um restaurante japonês. Então virou para Samuel e perguntou:
— Você gosta de comida japonesa?
Samuel estava atento à direção, por isso a pergunta espontânea dela o assustou e ele respondeu tímido.
— Sim.
— Ótimo! Dê a volta e vamos comer... Estou faminta!
Samuel olhou de relance para Fernanda e ela o encarava sorridente. Ele pensou em contestar, mas obedeceu e deu a volta no veículo e parou em frente ao local onde Fernanda havia indicado. Pela opulência do local, certamente seria um local muito caro. Sentindo-se retraído, ele optou por permanecer no carro.
— Talvez não seja uma boa ideia...
Fernanda também pensava como ele, mas não queria comer sozinha. Ou melhor, queria que ele a acompanhasse.
— Pois eu não quero comer sozinha... Vamos!
O modo como ela respondeu, era um sinal que não teria alternativa. Samuel já tinha aprendido a conhecer aquele lado teimoso de Fernanda. Eles sentaram na área que ficava de frente para a avenida beira mar. Naquele horário as pessoas começaram a chegar e logo o restaurante ficou cheio.
Passados o constrangimento inicial, ele começou a sentir mais a vontade em estar ali naquele local. Não era normal um funcionário almoçar com seu chefe, mas ela fazia com que ele se sentisse à vontade.
Fernanda estava curiosa para saber sobre o que ele tinha planejado fazer dali em diante. Queria saber mais sobre sua vida na Nigéria.
— Nunca foi uma coisa fácil! Mas também nunca me detive diante das dificuldades.
Samuel relatava com visível saudade de sua terra. Seus amigos que havia deixado para trás. Acima de tudo, seus sonhos que tiveram que ser interrompidos.
— E a sua família?
— Ficou lá. Sinto saudade de mama , mas ela disse que não sairia de lá. Espero um dia voltar a minha terra.
— O admiro por isso... — ela acabou dizendo sem querer. O olhar dele em sua direção era a demonstração que o elogio o tinha surpreendido. — Quer dizer... É muito raro ver homens assumindo o papel que você está tendo. Seu filho deve ter orgulho.
Fernanda surpreendeu-se com suas palavras. Ela olhou para o relógio e percebeu que estava na hora de ir.
— Vamos!
Samuel olhava de longe enquanto Fernanda pagava a conta. Ele nunca foi o tipo de homem que deixasse a mulher pagar a conta, mas naquele momento não teria como fazê-lo. Sentiu-se incomodado e envergonhado.
Eles partiram e antes de entrarem no carro, Samuel disse:
— Sobre o que você falou... Obrigado.
As palavras dela tinham o feito sentir-se um homem forte. Como resposta, ela apenas assentiu e adentrou no veículo.
Quando chegaram em casa, ela o dispensou pelo período da tarde. Na verdade, Fernanda estava sendo amigável depois saber que teve uma noite difícil. Daria o restante da tarde para que ele pudesse descansar. Mas é claro, que ela não disse isso a ele.
***
O restante da semana passou rápido. Samuel agradeceu por ter vencido aqueles dias. Em casa, ele aproveitou o restante do sábado para ficar ao lado do filho.
— Papai.
— Oi?
— Eu quero ir naquela praia grande que você disse.
Samuel largou o que fazia e olhou para o filho e tentou recordar quando havia dito que iriam à praia.
— No seu aniversário podemos ir.
— Uip! — o garoto deu um pulo de alegria.
Samuel voltou ao que estava fazendo. Agradeceu que o filho não ficou insistindo ou não saberia o que dizer. Enquanto ele estava em seus afazeres, o toque na porta o trouxe para a realidade.
— Deve ser o José e o filho dele.
José foi uma pessoa que o ajudou muito. Quando chegou ao Brasil sem conhecer nada, encontrou nele e em sua família um grande apoio. Desde então eles haviam se tornado grandes amigos e companheiros de longas conversas.
— Olá José — falou Samuel abrindo a porta para que ele entrasse. Com os dias corridos no trabalho ele quase não parava para se divertir.
— Ei Samuel! — José era muito animado, e com seu jeito divertido foi entretendo o ambiente.
O dia foi agradável e Samuel finalmente pôde relaxar. Pelo menos naquelas poucas horas sim. Eles estavam curiosos para saber como estava sendo no novo emprego.
Ele não tinha muita empolgação e foi difícil esconder seu desânimo.
—Vai melhorar, você vai ver!
Era difícil se adaptar aquela nova vida. Apesar de já terem passado dois anos, ainda não tinha conseguido voltar a “vida normal”. Queria voltar a trabalhar em sua profissão. Ele sabia que existia a possibilidade de conseguir um trabalho na área de medicina, mas estava dependente do resultado da validação de seu diploma. Essa burocracia dificulta tudo.
— Quero voltar fazer o que amo!
Ele tinha a esperança que isso logo iria acontecer!
Fernanda percorria o espaço em seu quarto a procurando do óculos escuro. Não tinha o hábito de sair sem eles, ainda mais com a aproximação do verão quando o sol tornava-se mais forte. Após encontrar o acessório, correu apressada e encontrou com a amiga Milena, que a aguardava para irem passear. Depois do casamento com Lorenzo, tinha perdido este hábito.
— Aonde nós vamos? — perguntou Fernanda após entrar no veículo e sentar ao lado de Milena.
— Passear! — A resposta de Milena soou engraçada, apesar de ter sido dita com sinceridade. Após alguns minutos dirigindo o carro, ela estacionou em frente a praia. O local era muito movimentado, principalmente por turistas estrangeiros. Elas desceram do carro. Milena abriu o porta malas e virou para Fernanda:
— Me ajude com essas coisas.
Fernanda pegou as cestas e viu que tinham algumas frutas e lanches. Ao ver aquilo o sorriso foi instantâneo:
— Um piquenique?
— Sabia que você ia amar!
Sim! Ela estava muito animada. Fazia tempo que não tinha um momento como aquele. Para ser mais exata, depois do casamento com Lorenzo, essa parte de sua vida havia praticamente desaparecido. Sentia-se animada e com expectativas.
Elas partiram para o local que era muito movimentado aos finais de semanas por casais, famílias ou simplesmente amigos querendo descansar depois de uma semana estressante! Fernanda adorava ficar ao lado dos amigos, mas tinha perdido o contato com a maioria deles. Precisava reaver isso! Decidiu ela.
***
Emir estava eufórico! Também, não era para menos. Desde que haviam chegado ao Brasil, o pequeno não teve muitos momento para diversão. Não era de se estranhar a alegria dele com as outras crianças. Ele corria pela areia da praia jogando bola com os meninos. Era o aniversário dele e Samuel não poderia se dar ao luxo de uma grande festa, mas certamente faria daquele dia um momento muito especial.
Samuel se aproximou dos garotos que brincavam com a bola e começaram a jogar futebol. Logo se juntou alguns outros garotos e a brincadeira se tornou mais divertida.
Emir estava casando e sentou na areia reclamando que estava com sede. Samuel foi a busca de alguma bebida gelada para eles.
Ele estava no quiosque de costa quando sentiu alguém toca-lo no ombro. Virando-se deparou com uma mulher muito bonita. Ela sorriu para ele e Samuel presumiu que se conhecessem. amiga de Fernanda.
— Ola. — Ele disse enquanto pegava as bebidas que lhe eram entregues. Tentava recordar do rosto dela, mas sem sucesso.
A bela mulher percebeu sua confusão e se identificou.
— Eu sou Milena, amiga da Fernanda. Você trabalha na casa dela.
Agora sim ele pôde recordar! Lembrou-se da mulher que visitou Fernanda. Sandra tinha dito que elas eram amigas da faculdade. Talvez por isso, elas tivessem passado uma tarde bem agradável.
— Sim, eu trabalho. Desculpe-me, mas estava tentando me lembrar de você.
Ela fez uma cara de contrariada, mas logo em seguida apontou em direção à praia e disse:
— Eu e a Fernanda viemos aproveitar o dia de sol.
Fernanda estava ali? Essa era a única coisa que ecoava na mente dele. Com tantas praias, porque justo naquela?
Milena pegou suas bebidas e em seguida se despediu de Samuel. Ele ainda estava um pouco perdido com o encontro, mas logo voltou a atenção para Emir que veio a seu encontro pegar a água de coco.
Fernanda tirou o óculos de sol e olhou para a amiga que sentou ao seu lado e lhe entregou a bebida para ela.
— Abacaxi para você. — Milena entregou a bebida para a amiga. — Cerveja para mim!
Ambas riram.
— Vi o teu motorista bonito.
Fernanda levantou o olhar para a amiga e sorriu.
— Não sabia que você e o Samuel eram amigos. — o tom de voz dela demonstrou seu incômodo. Claro que Milena percebeu o modo dúbio que ela respondeu.
— Não somos! Mas se dependesse de mim, certamente seria mais que isso... — O tom provocador dela causou efeito. — Ele é um homem bonito e você sabe disso!
Fernanda não pensava em seu motorista daquele jeito. Claro que ela tinha notado que ele era um homem atraente, mas ainda assim, não tinha sonhos românticos com ele.
— Eu o vi quando fui comprar as bebidas... Ele estava muito lindo. Estava com uma criança. Um menino muito parecido com ele.
Certamente seria o filho dele. Ao pensar naquela cena, sentiu-se curiosa e Milena notou isso e comentou:
— Não sentes curiosidade para saber onde ele esta?
— Onde?
Milena riu, pois sabia que a curiosidade tomava conta da amiga. Então ela apontou o local onde ele estava. Fernanda levantou o olhar e o avistou.
Samuel corria de um lado para o outro brincando com as crianças. Reconheceu Emir entre as crianças. Eles pareciam felizes e em paz. Ver aquela cena fez com que ela sentisse um sentimento diferente. Algo muito agradável.
Um sorriso se formou nos lábios dela quando viu Samuel cair no chão e as crianças correrem encobrindo ele formando uma montanha. Ele parecia ter um jeito todo especial com elas. Talvez por conta de seu trabalho como médico.
— Esse sorriso... — Comentou Milena em tom de deboche e Fernanda olhou de relance para a amiga.
— Você está vendo coisas onde não existe!
Fernanda voltou a olhar para Samuel. Emir apontava em sua direção. Ela acenou de volta ao notar que tinha sido vista por eles. Eles começaram a se aproximavam de onde elas estavam, e por alguma razão estranha sentiu um misto de ansiedade.
Emir veio correndo e foi o primeiro a chegar até ela. Logo depois veio Samuel.
— Ola “senhora bonita” — disse o pequeno no idioma natural de seu país. Milena que estava ao lado de Fernanda sorriu ao ouvi-lo. Samuel ficou nervoso e repreendeu o filho por aquele tratamento.
— Emir! Você sabe que a senhora Fernanda tem nome.
— Por favor, me chame apenas de Fernanda — ela disse sem se importar como aquilo poderia soar. Naquele momento não queria ouvir aquele tratamento de “senhora Fernanda”. Era uma linha que fazia separação entre ela e seus empregados. Ela sabia! Mas realmente, naquele momento não queria essa distância.
Samuel ficou surpreso, mas não conseguia quebrar a linha que os separava.
— Perdoe-me por não poder fazer isso.
Ela sabia que Samuel diria aquilo, então continuou:
— Pelo menos não enquanto estivermos aqui.
Ele assentiu por fim concordando.
— Samuel junte-se a nós! — o pedido de Milene soou mais como uma ordem. Quando Fernanda olhou para a amiga para repreendê-la, ela ficou séria.
— Não seria uma boa ideia — disse Samuel tentando negar o convite.
— Estamos comemorando meu aniversário — disparou o pequeno Emir com seu jeitinho infantil. Ele parecia muito feliz.
Então Milena disse firme:
— Mais um motivo para comemorarmos! Está decidido! Não é? — Ela se dirigia diretamente a Emir e o garoto assentiu concordando. Diante daquilo, o pai do garoto não podia fugir.
Fernanda se lembraria de matar sua amiga quando elas estivessem sozinhas, pensou ela olhando de relance para Milena, que tinha um sorriso triunfante no rosto.
O dia foi bem agradável. Fernanda já tinha esquecido esse lado despejado da amiga. Se bem que, na época da faculdade elas sempre aprontavam algumas. Milena que era mais brincalhona se juntou a Emir e ao time formado pelas outras crianças. A cena causava riso! Eles se divertiam com as trapalhadas dela.
— Fazia tempo que eu não o via tão contente. — comentou Samuel que estava sentado ao lado de Fernanda. — Ele parece tão feliz.
— Você é um pai muito dedicado.
— Eu amo o Emir.
Fernanda por alguns segundos ficou olhando para Samuel. Ele tinha o olhar fixo no filho e parecia estar encantado com o garoto. Naquele breve momento ele pareceu tão sereno. Foi então que percebeu que Milena tinha razão. Ele realmente era muito bonito!
Parecendo notar o olhar atendo dela, Samuel virou o rosto e a encarou. Fernanda ficou sem ação e ele percebeu. Então um sorriso se formou nos lábios dele. Foi um sorriso singelo e carinhoso. Algo que transmitia paz e calma.
Milena jogou a bola para a amiga e a convidou para brincar com os demais. Ela jamais tinha feito aquilo, mas resolveu tentar.
Samuel estava surpreso com Fernanda. Surpreso e encantado. Fazia tempo que notou o quanto ela era bela, mas às vezes seu olhar parecia perdido e triste. Mas naquele momento ela era outra pessoa. Ela estava feliz. Era uma garota sorrindo alegremente enquanto marcava um ponto. Emir correu em direção a ela e ambos festejavam alegres.
Depois de alguns minutos, ela retornou e sentou ao lado dele pegando uma garrafa de bebida gelada.
— Uau! Estou morta! — ela comentou ofegante e com as bochechas avermelhadas devido a euforia da brincadeira. O cabelo dela estava bagunçado e nem de longe parecia àquela senhora elegante a qual Samuel estava habituado a dirigir.
— Você é diferente... — ele sussurrou meio que sem querer. Teve como resposta o olhar surpreso dela em sua direção.
— Em que sentido?
— Não é como os outros ricos.
Fernanda sorriu amigável.
— Então devo considerar isso um elogio?
Samuel queria dizer que era mais do que isso, mas as palavras não saíram. Naquele instante o celular dela soou. Fernanda pegou o aparelho e reconheceu o numero do marido. Instantaneamente seu semblante mudou.
Fernanda se afastou para atender ao aparelho. O rosto dela parecia alterado enquanto conversava. Sua tensão era evidente. Depois de alguns minutos ela retornou e disse:
— Preciso ir! Mundo real me chamando de volta...
Samuel e Emir se despediram das duas que partiram em seguida.
***
Já em casa, Samuel organizava as coisas do filho para o dia de aula na segunda feira. O garoto nem parecia que havia gastado energias brincando na praia, pois tagarelava sem parar.
— Papai, a Fernanda é bonita.
Ele olhou para o filho e riu. De onde vinham aqueles pensamentos de Emir? Indagou-se parando o que fazia.
— Queria uma mãe igual a ela...
— Acho melhor você dormir Emir. Amanhã você tem aula.
O garoto nem tentou protestar. Beijou o rosto do pai e saiu indo para seu quarto. Mais tarde em seu quarto, Samuel pensava nas palavras do filho e riu.
Fernanda era uma mulher bonita e sensual. Mas jamais olharia para ele. Isso tinha certeza! Seus mundos eram completamente diferentes. Mas quando estava com ela sentia algo que era novo em sua vida.
Talvez a proximidade com ela estivesse afetando seus pensamentos, analisou Samuel decidindo abandonar aqueles devaneios momentâneos.
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