Jornada a Herudish
1 O Cristal Invocador Verde
Julian levantou-se um pouco mais cedo que o comum. O segundo ciclo solar ainda estava para se iniciar. Olhou para dentro do quarto uma última vez antes de se preparar para sair.
Embora, ainda uma criança, sabia se cuidar muito bem e conhecia bem a floresta de Kurd, na qual sempre saia para caçar e coletar seus alimentos que suas árvores lhe proviam.
Porém, hoje era um dia diferente. Julian iria fazer uma caminhada até o templo no monte Herudish.
Tinha um objetivo em mente. Enfrentaria o frio intenso que fazia no topo do monte. Apanhou uma pequena caixa de madeira talhada com pequenas inscrições, checou seu interior e a guardou no bolso de sua jaqueta violeta, a jaqueta possuía inscrições que eram bem semelhantes com as que estavam na pequena caixa de madeira.
Colocou a mochila nas costas, que já havia a preparado na noite anterior. Julian a equipou com alguns mantimentos, um pequeno cristal pirofórico vermelho, uma grande ampola para armazenar água ainda fazia, que encheria assim que começasse a caminhada, e vestimentas grossas, embora o clima estivesse agradável, Julian sabia que o frio no monte Herudish era castigador a qualquer um.
Ao chegar na porta de sua casa, pôs sua mão esquerda sobre seu pequeno cristal invocador branco. Fechou os olhos, respirou profundamente, então os abriu e começou a seguir pela pequena escadaria de pedras, e então entrou na floresta por um caminho estreito.
No caminho, apanhou algumas lêmbiras, frutas de cor azulada e bem doces, comeria uma agora e uma depois, precisa ter ao menos duas, uma para a oferenda no templo e uma para comer na volta.
Algumas horas se passaram, e o segundo ciclo solar já estava bem iniciado. Chegou a um pequeno rio de águas cristalinas. Descansou e encheu sua ampola, percebeu que apesar do segundo ciclo solar iniciado, o ar já estava esfriando, era sinal de que já estava a uma boa altura, no monte Herudish, vestiu um casaco mais resistente ao frio e retomou a caminhada, que a essa altura já era uma caminha íngreme.
Mais algumas horas de caminhada, a neve já estava cobrindo seus pés a cada passo. Seu cristal pirofórico estava agora, pendurado junto com seu cristal invocador em seu pescoço.
Logo, Julian chegou a passagem que o levava por dentro de uma grande rocha. Porém, a passagem estava bloqueada, uma grande quantidade de neve havia deslizado junto com arvores mortas e fechado a passagem. Usar um cristal pirofórico seria uma boa ideia para derreter a neve que o impedia de passar, entretanto, o cristal que Julian carregava, não possuía calor o suficiente para derreter aquela enorme quantidade de gelo. Julian conhecia outra passagem, porém, era muito perigosa, vários acidentes haviam acontecido ali, mas tinha que seguir em frente. Havia prometido à si mesmo que o faria, e à Maria também. Maria.
Fez então um desvio por entre as árvores secas e sem folhas, chegou ao paredão, o paredão responsável por diversa mortes. O paredão era virado para uma queda imensa, dando apenas um estreito caminho para quem se atrevesse a atravessar, qualquer escorregão, seria fatal. Antes de prosseguir, Julian abriu sua mochila e apanhou a ampola de água, que agora estava congelada. Retirou o cristal pirofórico e aqueceu a água que logo derreteu e Julian pôde solver um gole, recolocou o cristal em seu colar, e ao pôr a ampola no fundo da mochila, um forte vento gélido castigou a grande parede.
Julian se assustou e logo colocou-se de pé, tinha que seguir em frente, colocou-se frente a frente com a grande parede se segurando firmemente em frestas que nela haviam. A passos lentos e cuidadosos, Julian seguiu lentamente, com o vento gélido ainda a castigar a parede.
Ofegante e tomado por um grande medo, ele se manteve forte. Quando se aproximando do outro lado da parede, Julian de repente escorregou seu pé esquerdo, e de súbito se agarrou firmemente as frestas. Respirou fundo e continuou tremendo não só de frio mas também de medo.
Mantendo seu objetivo em mente, ele foi lentamente e finalmente chegou ao outro lado da parede agora aliviado.
Restava apenas escalar uma parede para seguir por um caminho e chegar a estrada que leva ao templo. Agarrou-se as raízes de árvores que desciam pela parede, porém quando próximo do topo da parede uma das raízes se rompeu e Julian caiu. Ao cair no solo, deslizou para a borda da imensa queda, entretanto, umas das lêmbiras e seus demais mantimentos, com exceção da ampola de água, haviam saído da mochila que estava aberta, pois Julian se distraiu com o vento gélido antes de começar sua travessia e não a fechou.
Logo pensou, que com uma lêmbiras a menos, teria que fazer a oferenda no templo, mas não teria o que comer durante a volta. Ele se levantou, se recompôs e recomeçou a escalada. Dessa vez, já no topo da parede, ele então seguia pelo caminho que irá de encontro com estrada que o levaria até o templo.
A essa altura, após muito frio, cansaço, Julian estava exausto. Ao caminhar pela estrada, ele podia ver o templo, feito de pedras escuras e ornamentado com cristais de diversos tipos de cores.
Nada naquela paisagem, era atraente, exceto pela beleza do templo. Ao chegar na porta do templo, uma senhora de idade bem avançada veio até ele, a sacerdotisa era pouco vista, Julian nem sabia ao menos se a veria.
Frente a frente a ela, elea disse:
—Olá. Eu vim fazer uma oferenda no altar, senhora.
—Ó, sim, meu jovem. Entre. Deve estar com muito frio e cansado. Mas ao entrar, estará bem melhor.
Quando Julian entrou no templo, percebeu que o clima dentro do mesmo, era agradável, e quente, o frio não entrava ali, logo imaginou que seria resultado do efeito dos diversos cristais pirofóricos espalhados nas paredes do templo durante sua construção.
Retirou suas vestimentas para o frio, retirou a lêmbira restante de sua mochila. Estava cansado e faminto, porém, aquilo era uma oferenda, e ele teria que se manter firme contra a fome. Ao ver o recém chegado levando a lêmbira, ficou maravilhada e expressou seu contentamento:
—Ah, uma lêmbira. Uma ótima oferenda, jovem. Basta se dirigir ao altar e colocar sobre ele. Se a Senhora dos cristais a aceitar, os portões adiante se abrirão para você.
Julian então chegou ao altar, colocou a lêmbira sobre o mesmo. Afastou-se e fechou os olhos, ajoelhou-se e ergueu suas mãos para o alto. Passou-se alguns instantes e então a lêmbira começou a esvanecer em pequenos pontos de luz. Logo, os portões atrás do altar começaram a se abrir. Julian se ergueu e começou a ir em direção ao novo lugar agora revelado. Ao passar pelos portões, ele se perdeu, pois parecia não estava mais no templo. Estava em lugar ao céu aberto, com o ciclo solar em pleno esplendor, com árvores de diversos tipos e folhas, animais sortidos, e em sua frente, uma árvore em frente a um lago. Julian retirou sua caixinha de madeira, e a abriu, revelando um pequeno cristal invocador verde. O cristal invocador de Maria. Como ele gostaria que ela estivesse ali com ela. Sentiu uma tristeza profunda por não estar em sua companhia.
Ele pôs a caixinha de madeira com o cristal invocador verde em seu interior, sobre a água do lago. E então a empurrou lentamente para que ela chegasse o mais longe possível da margem do lago. E Julian então recitou em voz ala:
—Senhora dos cristais. Receba de volta esse cristal invocador que de suas profundas cavernas lhe foi retirado.
Ao terminar su recital, a pequena caixa de madeira, agora mais afastada da margem, afundou no lago. Em seguida, uma luz de tons esverdeados emergiu do lago e subiu em direção aos céus e lá se desfez. Julian, ao ver que seu objetivo fora cumprido, sentou sobre a raiz da árvore ao lado. Ficara observando aquela bela paisagem, imaginando como Maria gostaria de presenciar aquilo. O ocou seu cristal invocador em seu colar. Uma pequena luz violeta emanou de seu cristal, e uma forte fonte de luz cor violeta surgiu ao seu lado, logo essa luz tomou uma forma de um animal quadrúpede de porte médio, com uma cauda ligeiramente alongada e orelhas pontudas e pelugem violeta e branca. O animal se acomodou ao lado de Julian.
Julian o acariciou, e disse ao seu amigo:
—Está feito. Fiz o que tinha que ser feito, infelizmente, sem ela.
—Ela entenderia, Julian. Não é sua culpa, mas era algo que nós saberíamos que podia acontecer.
—Eu sei, porém é difícil de aceitar.
— Bom, ela adoraria estar aqui com você. E adoraria que não ficasse assim e que voltasse pra casa, sem olhar para trás e se entristecer.
O ser invocado, retornou ao colar de Julian, na mesma forma de luz violeta de antes. Julian se levantou, encheu sua ampola com água novamente e ao tomar o caminho de volta pelo portão que usou para chegar até esse lugar, viu uma bela árvore com frutos rosados, mariescos, e que pareciam bem apetitosos, talvez mais ainda por conta da fome que sentia. Apanhou algumas frutas e seguiu de volta ao templo. Atravessou a passagem, que o poder de levar alguém até aquele santuário a céu aberto ainda lhe era desconhecido, e apanhou sua mochila e se vestiu com suas roupas para o frio. A sacerdotisa se aproximou e lhe perguntou:
— É uma paisagem e tanto não acha?
— É sim, senhora. Onde fica?
— Não se sabe ao certo. Dizia-se que era acessível a caminhos comuns, porém, caminhos comuns que levasse até o santuário nunca foram encontrados. Podem ser apenas lendas.
— Espero poder ir lá outra vez. Pois é bem agradável.
— Sim, volte quando quiser, mas lembre-se sempre de trazer uma oferenda à Senhora dos cristais. Já que está seguindo seu caminho de volta, quero saber se precisa de algo, algo que precise para a viagem de volta.
— Bom, a passagem sob a rocha está bloqueada por neve e árvores mortas. Deslizamento. Eu tenho um cristal pirofórico, mas seu poder não seria forte o suficiente para derreter todo aquele gelo. Eu precisaria de algum cristal mais forte para isso.
— Ora, leve um cristal do templo.
A sacerdotisa se dirigiu até um grande mostruário de cristais ao lado do altar e de lá trouxe um cristal pirofórico igual ao de Julian, porém, maior e mais quente.
— Leve este com você, e use-o para liberar a passagem novamente.
— Muito obrigado, senhora. Agradeço pela ajuda.
Julian então guardou o novo cristal em uma pequena bolsa de couro, com pequenos cristais cinza entalhado nela. Ele se despediu da velha sacerdotisa e seguiu caminho pela estrada para casa. Parou para descansar um pouco algumas vez e logo chegou a passagem bloqueada pelo deslizamento.
Retirou da mochila a pequena bolsa, recitou algumas palavras mágicas e o cristal se ativou, grandes labaredas emergiram de súbito do cristal, mas sem ferir Julian, as labaredas então se dirigiram rapidamente a passagem, derretendo o gelo e queimando as velhas árvores que também o impediam de passar, as labaredas aumentaram de tamanho e assim que o gelo se fora, o fogo também se extinguiu, uma nuvem de vapor subiu da passagem, e o cristal que estava sobre a mão de Julian, estava agora, frio e cinza, não representado perigo algum. Julian o guardou e retomou a caminhada.
Depois de longas horas, agora em um clima muito mais agradável que o do monte Herudish, Julian estava caminhando na floresta, ouvindo aves a cantar por ali, o vento agora era confortante e não mais ameaçador. Folhas azuis, verdes e vermelhas no chão sob seus pés, era um tapete tricolor, a paisagem em volta era de alegrar os olhos mais sensíveis às core vibrantes daquele paraíso.
Parou diante a pequena escadaria de pedras em frente à sua casa. Respirou profundo. Maria estava em sua mente. Hesitou em dar mais um passo, mas tomou coragem e começou a subir lentamente. Quando na metade do caminho, Julian levantou seu olhar para a porta de sua casa, e então, seus olhos se encheram de lágrimas, porém de felicidade, e não de perda.
Maria estava o olhando, com a expressão de menina que o deixava bobo, talvez pelo fato de ela ainda ser uma. Ela o olhava da porta de sua casa, com seu vestido amarelo com fitas azuis na cintura. Ela o olhava com serenidade e com um sorriso que respondia ao sorriso de Julian. Ele então começou a subir correndo em direção a Maria, e ela a fazer o mesmo, terminado aquela corrida em um longo abraço apertado e duradouro.
O segundo ciclo solar estava se encerrando, as luas Dvergi e Roh já estavam no céu, do lado geometricamente oposto da estrela do segundo clico solar, Arfoss, que logo se juntaria as suas demais companheiras estrelas, que estarão em harmonia, por receber sua amiga Arfoss, na escuridão do espaço. E não só as estrelas haviam recebido uma visita aquele dia. Os cristais haviam recebido uma visita de um velho amigo, e o recebido pela própria senhoras dos cristais. O cristal invocador esverdeado que Julian a devolveu mais cedo. O cristal que fora de Maria.
Fale com o autor