Jornada

5 Parte 5


Este vagão está dividido. De um lado, moradores, e alguns lugares vazios; do outro, aqueles que voltam para casa, alguns de pé. Incapaz de escolher um lado, fico andando de um vagão para o outro.

Quando um grande número de passageiros do lado mais cheio salta em determinada estação, vou com eles. As passagens são estreitas novamente, as luzes são tantas que dispersam mais do que atraem os olhos. Quase todos circulam de cabeça baixa. Só as crianças erguem a fronte, os únicos olhares que cruzam com os meus. Tudo é vendido aos excessos, empilhado em prateleiras apertadas, fileiras de montes coloridos em uma louca diversidade. Muitos itens são semelhantes àqueles que encontrei no bairro do joalheiro, com ainda maior variedade de detalhes, e um preço menor em alguns dígitos.

Por precaução, compro mais alguma coisa de comer. Não tenho certeza de tudo o que estou comprando, mas me parece seguro. Enfrento uma grande fila para pagar. Quando chega minha vez, quem me atende fica confuso na hora de receber e me dar o troco; não está habituado com minha forma de pagamento. Procura por tabelas de conversão, que não encontra. Tento ajudar, mas finge me ouvir ou não me entender. Temo a impaciência do restante da fila, mas encontro um monte de rostos dóceis e acabrunhados, acostumados demais com filas para se aborrecer – ou cansados demais para isso.

Percebo com a vista outra funcionária com todo o aspecto de alguém com muitos anos de experiência, e que também me localiza rapidamente, apreendendo logo a situação. Aproxima-se, aceita meu dinheiro, dá o troco em moeda local (imagino que não haja outra moeda) e me dispensa com um gesto da cabeça quando coloco minhas compras na bolsa, tudo sem dizer uma palavra. Reparo que o troco é o mesmo valor que tentei informar a quem me atendeu primeiro.

Percorro as ruas próximas sem jamais me afastar demais da estação. Vou atrás daquelas com menos luzes. Em uma, encontro um local para me hospedar. Já é um espaço predominantemente residencial, o mais feio que vi até então, com as construções se sobrepondo desordenadamente até reduzir a uma faixa irregular o que resta visível do... céu? Do alto. Aqui há menos vidro, já que as construções criam sombras umas sobre as outras e há pouca luza compartilhar entre as paredes escuras. Fico surpreso com o quanto aquele lugar é limpo. Parece que, cansados de oferecer os serviços aos outros, os moradores ao menos dispensam um cuidado semelhante às próprias moradias.

Sou recebido pelo próprio dono da hospedaria. Temos sotaques diferentes, o que nos diverte e cria a simpatia rápida comum entre dois estrangeiros. Ele pergunta se faço questão de um quarto nos andares mais baixos, já que está sem elevador – o único disponível ficou para os últimos andares, que pertencem a outra pessoa e não são hospedaria. Digo que fico com o quarto mais alto que tiver. Ganho um desconto pela estadia, e o direito a outra refeição além do café da manhã, que já é oferecido a todos os hóspedes, mas que seria servido discretamente em meu quarto, para não gerar problemas. Ganho assim meu jantar. Acerto dois dias adiantado, e ganho o cartão que será minha chave.

Os lances de escada são realmente generosos, e desafiadores para quem enfrenta no final de seu dia (seja lá a que horas for isso). Percebo que cada andar tem uma disposição diferente e um número variável de quartos, sempre poucos, possivelmente com tamanhos e preços compatíveis. A movimentação s reduz a zero. Meu andar só tem duas portas, em lados opostos, com a escada no meio. Vou para a esquerda, mesmo que o dono do hotel não tenha me dito qual é o certo. O cartão desliza facilmente na porta e libera o quarto.

O que me importa é que a cama me cabe, e eu caibo nela. Além dela, apenas uma mesinha mínima com uma cadeira, e nichos na parede a guisa de armário. Outra porta revela o banheiro particular (luxo do quarto), com o essencial. Texto a água de tudo, e está bem provida, e a força do chuveiro me encanta, mesmo que precise tomar algum cuidado com ele na hora de lavar a cabeça. Só tenho uma muda de roupa na bolsa, quase da mesma cor, com um capuz.

Cor de viagem.

Sinto vontade de tirar o pó acumulado ao longo de tanto espaço e tão pouco tempo. Deixo meu alimento nos nichos, pego a roupa enrolada na bolsa, descalço as sandálias. O piso frio se entrelaça nos dedos. Um lugar desconhecido me vê nu.

Percebo que eu havia parado de escutar a canção sem palavras. Não tenho a menor ideia de onde está minha estória.

Fico derrotado sob a água. Estive tão distraído que me esqueci. Não sinto mais a mesma confiança absoluta de não ter qualquer plano, de apenas ir. A certeza de que nenhuma estória é perdida e que ela sempre aguarda.

Não é a primeira vez que sinto isso. Sei que é natural. Pode ser a sensação de pausa. A ilusão de que o que vivo e o que viverei não estão conectados como deveriam.

Continuo o banho, e só me atenho ao que vivo, à carícia da água, ao cheiro úmido, ao arranhar confiável da toalha, ao abraço da roupa.

Batidas na porta me tiram de mim. Acabo de me vestir. É meu jantar que chega, nas mãos de uma jovem que vi de relance no térreo, impecável depois da árdua jornada que, no entanto, não a faz sequer ofegar. Tenho a impressão de que está surpresa de me ver limpo, de cabelos soltos e molhados, o viajante tendo virado tão rápido mais um hóspede.

Agradeço pela refeição e, ao vê-la melhor, rio. Tendo comentado por alto com o patrão do local de onde comecei minha viagem, ele pediu, sem dúvida para me agradar, que preparassem uma refeição do lugar, que ele supunha ser minha terra-natal. É um gesto de generosidade que me pega totalmente desarmado. Tendo a moça retornado pela escada, apoio minha refeição na pequenina mesa.

Provo a comida que se mistura ao gosto de riso nos lábios. Sim, sem dúvida é o preparo de um prato da terra que deixei. Com os temperos tocos trocados, preparado por quem nunca o fez ou sequer o provou antes. Por isso, precioso.

Um prato banal de lá é o tesouro daqui, mesmo que meramente reconhecível. Encontro o sabor daquela terra ao tê-la deixado, ao ser mal representada, e reparo que é a primeira vez que penso nela. A partir da língua.

Já não me sinto mais derrotado, por ter sido lembrado de que nada perdi, por tudo trazer comigo. Meu peso acumulado é o tesouro que me protege e me oprime. Algumas vezes, é preciso que algumas coisas morram em nós para permitir que outras nasçam. Um sacrifício comum às mudanças, inexorável no crescimento. No entanto, sempre reencontro em mim a parte que considerava morta. Aquela que não aprendeu nada e recairia no erro. Aquela que ainda não conhece. Aquela que só vê pela primeira vez. Aquela anterior a alguma promessa feita para a vida toda. Aquela que nunca esqueceu. Aquela que não tem nada a perdoar, nem a si mesma. Meu sacrifício é carregar esta multidão, escutar os ecos de tudo o que disse, sem que uma parte consiga necessariamente aprender com a outra.

Seria eu isso tudo, ou apenas aquela que conheceu e se lembra de todas as outras?

Incapaz de ser este ou aquele, apenas sou.

Termino o jantar como quem devorou pensamentos enormes. Como instruído, deixo a louça vazia na mesinha ínfima do lado de fora da porta, equilibrada, onde será buscada mais tarde.

O peso da viagem se abate sobre meu corpo. Já deitado, busco o caderno que trago sempre comigo. Percorro as páginas com os dedos, a tinta com os olhos. A flor está eternamente presa à folha. Minha mão traça o que só pode existir em paz fora de mim.

Exausto, adormeço tendo as páginas por companhia.

***

Acordo na certeza de que sonhei algo tão intenso que minha presença na cama me choca. O espaço, mesmo estranho, é capaz de me reconfortar melhor do que minhas memórias falhas e confusas. Continuo no abraço do leito até a curiosidade me motivar a romper o casulo de cobertas. A manhã começou não faz muito tempo.

Entre as ações necessárias a todas as manhãs, penso em por os cabelos em ordem, mas o ar selvagem me cai bem e mexo neles apenas o suficiente para que a desordem seja minha escolha, e não meu desleixo. Devidamente calçado, desço as escadas atrás do meu café da manhã.

Não foi difícil achar o refeitório onde era servido. Após o desfile de portas fechadas dos quartos, encontrar uma porta convidativa não é desafiador, e meu faro teria sido um excelente guia de qualquer forma. Finalmente diante de outros hóspedes, encontro para mim uma das mesas pequenas adequadas a uma só pessoa. Percebo que são as mais requisitadas. Quase todas as peças de mobília são desencontradas, reunidas ao acaso, e mesmo as cadeiras de uma só mesa podem ser diferentes, escolhidas conforme o gosto e a necessidade do usuário.

Marco meu território deixando sobre a mesa duas frutas recolhidas no caminho, e me dirijo de volta às opções de comida, cercadas por nós, a singular reunião da fauna migrante. Para atender aos gostos tão diversos, a variedade é bastante ampla; para atender às possibilidades econômicas, tudo é pouco (sendo possível pedir um pouco mais e ser, talvez, atendido, com toda a boa vontade). Para mim, que não estou disposto a ser tradicional, significa poder provar um monte de coisas, ao mesmo tempo em que evito esvaziar algum prato, por excesso de escrúpulos. Minhas combinações esdrúxulas atraem alguns olhares.

Lido com meu prato. Praticamente tudo vai do bom ao comível. Enquanto como, brinco de ler os outros (demorando pouco, por educação) e de ser lido, fingindo não ver, e escolhendo algum personagem; alguém que, sem grande pompa, pareça respeitável e inviolável, como uma figura mística vaga, do tipo que não desperta aversão pelas crenças de ninguém em especial. Parece seguro, ainda que chame atenção.

Como tudo o que consigo; percebo pela observação dos outros que nos é permitido levar conosco, em um pote frágil que parece papel, tudo o que pegamos para nós e não conseguimos eliminar. Seria preferível a jogar fora. Mas não se pode chegar perto da mesa de servir com o pote. Levo até o que considerei intragável, tendo eliminado a parte que toquei.

Escalo novamente até o quarto, cruzando com um ou outro hóspede, forçando encontros comprimidos contra as paredes dos degraus, tão estreitas as passagens. Assim que retorno à minha toca alugada, tenho a certeza de que não passarei o dia nela. Apenas recolho minhas coisas e parto pela porta, pelo corredor, pelas escadarias, pela portaria do hotel.

Ganho uma rua, de dia, bem pouco diferente daquela que percorri na noite anterior, ainda escura, feia e limpa. A estação logo toca meu campo de visão. À sua frente, dou-me conta de um ser pouco visível contra a parede cinzenta. Suas roupas reúnem pelo menos seis cores diferentes e descoloridas, indicando muito tempo de uso e frequentes lavagens; o tom dos olhos e dos cabelos fartos era tão contrastante com o da pele quanto as pétalas de uma flor podem sê-lo de seu miolo; sua voz era clara, apelativa, no limite da gentileza e da impertinência, e era acompanhada por gestos amplos e graciosos, um tanto majestosos e, penso comigo, boêmios. Pede ajuda. É este seu verniz de invisibilidade.

“Bom dia! Senhores e damas desta bela manhã, prestes a embarcar para mais um dia de atividades importantes: vocês merecem fazer desta viagem – deste dia! – algo mais doce, mais agradável! Aceitem esta oferta tão generosa à gula! Ao bem-estar! À criança interior! Aceitem uma porção de doçuras tão mais valiosas do que alguns tostões no fundo do bolso!”

É alguém naquela transição imprecisa de quem já pôs um pé inteiro para fora da infância, se é que chegou a tê-la em algum lugar além da conformação do corpo, mas que a carrega consigo nos traços suaves que ainda não se tornaram os ângulos agudos e retos, ou as curvas voluptuosas dos adultos. Apesar da eloquência do discurso – que não cessa, enquanto reflito nisto que acompanho – poucas vendas foram feitas até então.

Alcanço a parte da bolsa onde guardei o troco da compra de ontem. Meu gesto e a direção de meus passos não ficam despercebidos, e o foco da atenção desliza profissionalmente da arenga ao público ao meu atendimento particular.

“A senho...ria gostaria de uma delícia para acompanhar seu trajeto, não é?”

Não contenho a risada. Foi uma esplêndida saída. Como minha reação é inesperada, uso a voz tranquila para garantir minha boa-vontade.

“Sim, três, por favor.”

“Não se arrependerá!”

Com um gesto galante, pega o valor que lhe estendo, guarda-o em uma caixa de papel fechada com tampa e me entrega os doces embalados em papel colorido, enormes, equilibrados nos dedos da mesma mão, em ato contínuo com quem dança. Meu dinheiro não se choca com nenhum outro na caixa, batendo seco contra o fundo.

Os doces pesam na bolsa e fico imaginando-os pesando no estômago. “Está sempre por aqui, vendendo?”

“Quase sempre, senhoria. Vou até meu público.” A frase me é dedicada brevemente, antes que sua atenção se volte aos clientes potenciais. Já fui conquistado e minha importância decresce vertiginosamente. “Muito obrigado pela compra!” é minha frase de despedida.

Insisto. Pergunto seu nome e dou o meu. Um gesto breve de assentimento alienado. Uma resposta jogada tão rápido que deve ser sincera, ou ensaiada.

“Seu nome quer dizer ‘sábio’ na minha língua.” Conto, encostando-me à parede.

A pregação é interrompida, e recupero um pouco da atenção de antes.

“É o nome de meu avô.” Ouço, com a voz mais hesitante até este momento.

“Então fica uma bonita herança.”

“Herança, não. Meu avô está vivo. Moro com ele.” A ênfase está quase ofendida.

“Certo, sinto muito. É um belo presente.” Apresso-me a me corrigir. “Já comeu alguma coisa hoje além de doces?”

“Na verdade, não, mas garanto que estou muito bem e ainda aguento um bocado de tempo. Além de deliciosos, estes doces são muito... nutridores.” A altivez comercial retorna, hesitando menos que um instante antes de lançar esta palavra-desafio, do fundo de um repertório particular infalível.

“Não é disto que estou duvidando. Tenho uma proposta para fazer e ela pode incluir comida, se quiser. Eu vejo um pouco de inquietação. Acho que seria um pouco desanimador ficar um dia inteiro aqui.”

“Senhoria é inteligente.” Constatação. Defensiva. Um toque de ironia.

“Obrigado. Eu queria conhecer melhor alguma coisa desta cidade, e gostaria de um guia. Se você vai atrás do público e tem tanta energia quanto parece, conhece um monde de lugares interessantes. Se eu cuidar de suas refeições e de todas as passagens ao longo do dia inteiro, me levaria para ver coisas que valham a pena?”

A oferta interessa, mas a hesitação persiste. Um cliente chega e não é percebido imediatamente, o que me leva a fazer um sinal com o queixo para que se dê conta. É a prova de que cheguei aonde pretendia.

“É uma oferta bastante generosa, mas veja bem... meu dia é bastante ocupado e por melhor que seja o passeio, seria um dia perdido.”

“Paramos na hora das refeições, os horários de pico das vendas, para que continue seus negócios. Ao final do dia, o que sobrar de sua mercadoria, eu compro.”

“Temos um acordo. Seu guia está à sua inteira disposição.” É sua resposta final, com uma mesura afetada. “Por onde começaríamos as explorações? Alguma preferência no caminho?”

“Acho melhor primeiro comprar nossos passes para que possamos pegar os veículos quando quisermos, já que já estamos às portas da estação.” Respondo.

“Um passe de jornada completa?” pela primeira vez sua máscara eloquente se desconstrói pela surpresa que vem à tona, revelando a infância resgatada. Cobriu os doces com as pontas do lenço sobre o qual estavam acomodados e fechou a cesta com a tampa quadrada, colocando-a embaixo do braço para me seguir. Entramos juntos na estação.

“Sim, acho que é assim que se chama.” Confirmo. Percebo que se tivesse incluído o passe desde o começo em nossa barganha, não teria encontrado qualquer resistência. Com certeza aquele luxo era totalmente inédito e impensável para aquela breve história de luta que era sua vida.

“A senhoria é estrangeira, pode ter problemas com a máquina. Deixe que eu ajudo.”

Deixo que tome a iniciativa, mesmo sabendo que já conseguiria lidar com aquela máquina como fiz com a primeira. Sua mão pequenina se estende naturalmente para receber meu dinheiro. Sinto um pouco de culpa por ter hesitado um tanto. Não sei se percebe e finge não perceber, e logo temos os passes em nossas mãos.

“Qual seria nossa primeira destinação?” recebo a indagação.

“Quero vivências gratuitas. Gosto de ver coisas bonitas e ter experiências interessantes. Acredito que saiba o que fazer para se entreter e conhece uma porção de histórias da cidade.”

“Com certeza.” O sorriso é confiante e convicto, como sempre.

“Então me surpreenda.”

Seus pés nos levam com familiaridade pela estação. Uma breve parada para que verifique o quadro de horários e destinações, e então atravessamos o lugar em quase toda a sua extensão, até uma das últimas vias, o veículo jan os esperando. Nosso duo peculiar – um adulto e uma criança que nada têm em comum – atrai alguma curiosidade; sempre que um olhar pousa em nós mais tempo, com uma presteza invejável, vem a pergunta:

“Gostaria de uma guloseima para sua viagem?” e a mão abre a cesta.

Com isso, os olhares se desviam.

Mas a pergunta pode atingir o alvo certo, como as duas crianças que aceitam a oferta, e não deixam a mãe em paz até conseguirem o que desejam.

“A senhoria me dá sorte. Já fiz algumas vendas em um horário difícil.”

“Fico feliz. Mas pode me chamar de ‘você’.”

Encontramos nosso lugar em um vagão pouco cheio. “Esta estação não tem nada de muito interessante. Mas nós vamos para a estação mais antiga de todas. Enquanto viajamos... é verdade que você tem algo de comer?”