Jornada
1 Parte 1
Sei que existe, já há muito tempo, uma estória que espera ser contada; ela aguarda, em algum lugar, potencial. Tão minha.
Por isso parto em busca dela.
Com quase nada de fora de mim mesmo.
E o infinito que não me abandona, rebelde, tão indisposto a se traduzir em palavras.
Se existo em imagens, em música, em prece, em mantras, em angústia, em silêncio, o que posso fazer? O que pode minha história por mim?
Talvez a liberdade de quem não sabe ou não pode fazer escolhas.
Só tenho isso. Minha estória, que não sei onde está. Que tentarei contar como puder.
Enquanto o infinito cresce dentro de mim, se movendo, como se faltasse algum lugar para chegar.
Ouço uma canção sem palavras e com mil sentimentos.
É assim que minha jornada começa.
Cruzo um campo verde que ondula suave. Há poucas árvores. Pouco sol. Pouco calor. Pouco vento. Verde e azul para onde alcançam os olhos. Para trás o abrigo de minha espera e solidão.
Posso andar descalço, sentir a grama entre os dedos. Ainda está úmida das lágrimas da noite passada. O cheiro é fresco, e também verde.
Caminho sem fixar em nada a mente, sem fixar em nada os olhos. Pequenos insetos voejam. Sou a maior coisa que se move no planeta.
“Tu te tornas eternamente culpado por aquilo que abandonas.” Diz minha consciência.
Estão todos aqui. De algum modo, estão todos aqui. Eles me habitam como minhas estórias, como meus sentimentos. A parte de mim que é povoada.
A outra, tão perto, é o vazio sobre o qual me debruço.
Quão inexplicável é o olhar do abismo.
Continuo caminhando sem pensar em destino, carregando meu tesouro, uma altura deslizando na ondulação verde dos morros. Começam a despontar rochas. A terra parece ferida. Ou são os espinhos de uma imensa criatura musgosa e pacífica. Gosto dela.
Vou contra a brisa. Contra a luz. Logo preciso baixar um pouco a cabeça, protegido sob a linha de cílios.
Antes que ela apareça, já posso adivinhar; a linha irregular que destruirá a harmonia sinuosa de meu horizonte, para gritar a civilização. Percebo só então que é para lá que me dirijo, e de onde partirei de novo.
O silêncio torna-se precioso, porque sei que logo irá acabar. O burburinho das gentes invadirá meus sentidos, aos poucos. Primeiro, a cidade pequena, depois...
Ainda aprecio mais alguns passos antes que as pedras me obriguem a vestir as sandálias. Tranço as cordas com firmeza ao redor dos tornozelos. Ergo de novo a vista.
Ela já está lá.
É uma cidade de uma pequenez sincera. Despretensiosa, prática, sem qualquer delírio de grandeza. Poucos habitantes, que dela não têm orgulho ou vergonha, paixão ou interesse. Pequeno aglomerado de seres ocupados.
Ela já me é familiar, e ocupa um espaço tão pequeno em minha memória quanto aquele que toma da imensa paisagem. Como quase tudo o que se movimenta por lá, fui uma passagem.
Esse breve reconhecimento mental tomou-me o espaço de seis passos.
Passo os olhos nas silhuetas cujas formas nascem do negro. Contra a luz, custo a ver janelas, portas, o irregular pontilhado de antenas, o bailar de muitos fios suspensos.
De longe, parece imóvel.
Ao seu redor, nos côncavos do solo, vejo as linhas moventes que lhe dão vida, circulando como veias.
Trens.
Alcanço as sombras que se projetam, e começo a fazer parte daquele escuro. Diviso melhor o contorno e as profundidades. Sem proteção, a cidade desnuda-se para mim por todas as aberturas. Não há placas. Poucas estradas. Ruas que desembocam subitamente em solo pedregoso.
Quanto mais me aproximo, mais tenho a impressão de que ela brotou ali sozinha, uma erupção doentia da terra que nunca foi tratada, e apenas parou de crescer.
Primeiro, o cheiro do campo se foi. Então, os primeiros ruídos chegam. As superfícies artificiais pontilham a aridez de forma suave e gradativa.
Já estou dentro e mal notei.
Os tons são cinzentos e terrosos. Uma poeira finíssima cobre tudo, flutuando quase imóvel nos raios de luz.
Esta invasão dourada parece errada neste lugar, perturbando o balé de sombras e cinzas.
Mas acho que sou o único a percebê-la.
Aqueles que chegam e partem são a maioria, o movimento constante, a fonte do ruído, embora quase nunca falem, quase nunca corram. Um circular agitado e contínuo, mas sem pressa.
Nunca vi tantas pessoas comporem uma única ausência.
Todos eles já estão onde precisam chegar. Ou talvez ainda mais longe, em lugares que podem jamais conhecer. Silenciosamente, torço por eles.
Nunca estar onde se está é uma forma angustiante de ficar só. Também estou só, mas justamente por esse breve momento dentro de mim.
Também pretendo partir. No entanto, ainda estou aqui, até achar meu trem.
Compreendo logo que milhares de histórias deslizam por aqui, sem que eu tenha a chance de agarrá-las. Se atraísse algum daqueles olhares para mim, arrancasse um destes futuros passageiros de sua destinação e o colocasse na minha frente. Sem saber o que fazer consigo mesmo, eu o faria contar sua história, o que pudesse dela.
A minha, porém, só passou por aqui e já não está mais.
Procuro reparar nos corpos que se movimentam, e brinco de traçar hipóteses. Se dois alguéns estão próximos e se parecem vagamente, faço deles irmãos; se trazem sobre si vestes parecidas, são conterrâneos; se cruzam um olhar, terão algo a se dizer. Lanço assim linhas invisíveis nesta multidão, que inconscientemente torna-se uma complicada tapeçaria. Nenhuma das minhas hipóteses se concretiza. Os irmãos se separam sem sequer se olhar. Os conterrâneos vieram de trens diferentes. Nenhuma palavra é trocada, exceto no empoeirado comércio, ou no guichê das passagens.
Não me decepciono. Castelos de areia são mais trabalhosos que tapeçarias de hipóteses.
Chego a pensar em ficar. Resistir à maré e fincar raízes aqui, como um junco na correnteza, acompanhar o ir e vir até estar coberto com a mesma poeira fina de todo o resto. Seria teimosia, ou preguiça. Não é o que realmente estou tentando fazer.
Como não pretendo levar nada daqui, exceto o que trouxe, resolvo comprar algo para comer. Assim, todos os meus sentidos já terão experimentado alguma coisa.
Dois pães. Frescos, mas nem tanto. Duro por fora e macio por dentro, com um sabor que parece, também, ligeiramente empoeirado. Distraio os dentes com o primeiro, enquanto guardo o outro na bolsa, à procura da minha passagem.
Meu trem vai cheio. Sou mais um em uma fileira de nucas, orelhas e ombros. Somos coloridos, ninguém parece se importar. Sou o único que olha tanto ao redor. O único com um ruidoso pão crocante se despedaçando nos dentes. Passinhos curtos me levam até a pessoa de olhos semicerrados, uma longa fileira de bilhetes à mão, uma grande quantidade de gavetas em um móvel com aparência antiga. Cada uma delas tem o dinheiro de algum lugar, e são muitos os lugares por onde circulam estes trens.
Somente neste momento me dou conta de uma coisa: desde que escolhi meu trem, perdi todos os outros.
Esta percepção tão óbvia, bem à frente do funcionário com os bilhetes, dá uma estranha mistura de melancolia e frustração em parte de mim. Eu não sei quantos dos trens eu ainda poderei pegar depois. Talvez nenhum. Estou abrindo mão de uma série de descobertas.
Compro minha passagem consciente de que assino meu destino. Ninguém ao meu redor se dá conta da importância disso. A pequena pedra brilhante passa da minha mão para a outra, o bilhete passa da outra para a minha.
A gaveta aberta para guardar a pedrinha é uma das últimas e está quase vazia. Reparo em outra, de outra cor. E o som seco quando bate no fundo.
O destino traçado e irreversível (mas não realmente, porque ainda tenho tempo de me arrepender, pedir de volta meu pagamento, devolver o bilhete... mas não, isso seria um sacrilégio, e um atraso aos outros passageiros) traz alguma paz. Quantos, como eu, já se apaziguaram com um enganoso “está feito”?
Saio da fila com o pequeno pedaço de papel-destino na mão. Papel e tinta normalmente têm este poder. É um perigo com que brinco frequentemente.
Tenho tempo antes de embarcar. O tédio voraz dentro de mim pede mais explorações antes de partir. Minha plataforma está próxima, poupando-me do trabalho de procurá-la. Ganho tempo a perder no passeio.
Investigo mais o comércio; a variedade está na comida: muitos gêneros para agradar muitos gostos de muitas origens. Muitos nomes são indecifráveis, mas as visões não são desagradáveis. Nenhum vendedor se esforça para atrair clientes; são suas necessidades que os empurram até lá. ]e talvez a familiaridade, a certeza de encontrar algo que já tenha sido experimentado antes. Nenhum olhar até ali vivo como o meu. Ninguém se aproxima por curiosidade.
Também há lojas com artigos típicos de viagem, que tenham sido esquecidos, perdidos ou destruídos pelos viajantes. Nada que eu precise, ainda que algo por vezes me interesse. Não cruzo as portas, para não cair em tentação, Reparo que nada tem traços específicos do lugar, identidade de qualquer natureza.
Decido que a identidade do lugar é o pó.
Porque a fugacidade, esta, que também caberia tão bem e está estampado no mar de ponteiros por toda parte, não quer pertencer a lugar algum.
Encontro uma loja de artesanato. Móveis e objetos de madeira feitos à mão (alguns parecem não ser, camuflados, em meio aos outros). Algo que sem dúvida não esperava encontrar ali.
Não que eu soubesse o que esperar.
Eles parecem todos muito sólidos, o que os faz ainda mais deslocados: em um local de movimentação constante e impermanência... quem escolheria levar consigo novos pedaços de lar? Claro, um trem pode transportá-los, mas... e depois? Afinal, este nome “móvel” é um tanto enganador...
Penso nisso passeando os olhos pelas tonalidades pouco diversas de madeira, e que a poeira uniformiza ainda mais (posso adivinhar assim quais são as presenças mais antigas e mais recentes na loja), desfilando o olhar pelas arestas retas, divertindo-me pelas linhas sinuosas e mais ousadas, tentando invadir as pequenas e sombreadas aberturas. Se escolhidos, quantas estórias contarão estes objetos? O que guardarão consigo? Ou estão destinados a conhecer apenas o toque de seu criador...?
Estendo a mão: pronto. Agora este gaveteiro conhece também o meu.
É fácil gostar de algumas coisas quando simplesmente prestamos atenção a elas, mesmo em suas imperfeições. Uma mesinha ligeiramente mais alta que seu par, um puxador um tanto desalinhado, testemunhas de uma mão falha e verdadeira. Eu, que sou perfeccionista por natureza, desta vez vejo poesia nestes erros.
Por pouco falho em perceber o dono da loja, sentado um pouco recuado da entrada, o rosto voltado para o pequeno objeto entre as mãos, que está lixando com cuidado: um puxador em alça. Sobre a cômoda ao lado repousam dois, já prontos. Algo que se parece com o futuro quarto puxador aguarda sua vez na penteadeira à sua esquerda. Ele falha totalmente em me perceber.
É quase um móvel. A mesma serragem, um tom de pele, cabelos que convenceriam como um tom de madeira, e que não parecem muito menos sólidos. A aspereza de quem sempre trabalhou. Ele já teria pensado que precisava de uma lixada?
Não parecia acostumado a receber clientes. Estava acostumado a fazer mobília. Nenhuma ânsia em atender, e, fazer seu trabalho parecer irresistível, imprescindível. Tudo está aqui. Inclusive ele. Ou quase. Focado em sua atividade, nesta discreta e silenciosa ausência. Como os móveis vazios.
Já inspecionei tudo o que podia sem entrar na loja. Com um último vaguear dos olhos percebo o retorno de dois olhares. Um vem de um espelho que me reflete até a metade. O outro é de uma criança.
É menor que várias cômodas e gaveteiros, de pele escura e cabelos negros curtos e brilhantes, muito diferentes de tudo no adulto. Os olhos grandes estão focados em mim, sem medo, mas com interesse que vencia o acanhamento. Perto de si, um brinquedo imitando uma montaria de madeira sem pintura, com rodinhas. É tão perfeitamente lixado que parece macio, e imagino se seria um pedido de desculpas pela falta de cores. O dom da escultura como absolvição pelo mal uso das tintas.
É um ser especialmente vivo naquele lugar, e estranho a ele. Talvez a falta de pó. Faz com que eu pense em um destes pássaros que entram em um ambiente sem encontrar deles a saída. Está totalmente imóvel, porém. Vivo e imóvel, como uma flor.
Delicada e pequena junto à madeira. Uma infância fugaz que um dia murchará. Roupas coloridas que ainda não deram lugar ao pardo ou cinzento.
Uma flor.
Uma flor como a que me estende na mão pequenina, miúda fileira de pétalas com uma única folha, igual a milhões de outras, do tipo que ninguém se orgulha e cultivar, porque nascem sozinhas, de lugar algum, mas em toda parte; flor dos cantos, dos muros, das estradas, flor da passagem.
Ela é menor do que minha mão, o tamanho de um dedo, e não pesa nada, como uma carícia. Meu presente.
Continuo na porta da loja, e a criança continua no fundo. Ela sorri. Sabe que recebi a flor. A flor criada de seu mundo, dada a mim, que fui convidado a entrar, um terreno de poucos adultos, ou de nenhum.
Sorrio também. Coloco a flor entre duas páginas de um caderno que trago na bolsa, para que esteja protegida e registrada. Não se pode escrever uma flor sem ela. O gesto é aprovado e me sinto leve. Penso em como posso retribuir, mas a criança já se retira, levando o brinquedo, mostrando que sua ação aqui tinha acabado. Não podia dar-lhe mais do que a sensação da missão cumprida.
O artesão nada soube de nossa troca.
Parto dali com a sensação de que aquele não seria meu primeiro presente naquela viagem. As demais lojas ecoam as primeiras, sem qualquer coisa que chame minha atenção. Mas alguns olhares transitórios me encontram, pousando levemente, indecifráveis, antes de prosseguir. Eu sou um obstáculo. Meu leve sorriso me faz visível.
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