Jorge

1 Apenas Jorge


"Angelina, quer ir ao baile comigo?"

"Com certeza!"

É engraçado como Fred consegue fazer tudo parecer simples. Minha cópia convidou Angelina com a mesma tranquilidade de voar em uma Firebolt no verão. Eu jamais admitiria isso, mas ele é o gêmeo mais espontâneo para essas coisas...Eu ainda era o mais inteligente, é claro!

Convidar alguém para o baile não era algo que podíamos fazer juntos, infelizmente. Por mim poderíamos ir sem par e nos divertir nas festas como sempre fizemos, mas ao ver Fred convidar Angelina, caiu a ficha do inevitável, eu também precisava convidar uma garota.

A questão é: quem?

Katia, Alícia… Por que todas as Grifinórias que conheço já tem par? Maldito amistoso de Quadribol com a Durmstrang! Os búlgaros não perderam tempo para convidá-las.

E no auge do que seria uma declaração de fracasso, Lino Jordan concordou com meu brilhante plano e decidimos ir sem par para o baile. Afinal, por que se ter uma se podemos ter todas?!



—Mais alguém quer ponche de salamandra?

Estávamos no baile, o salão parecia mais decorado que no natal...Deviam estar tentando imprecionar as escolas visitantes. Me levantei da mesa e uma boa parte do time de quadribol sinalizou que aceitava uma bebida. Erro meu de ser um cara legal. Agora sou Jorge Weasley, o garçom!

Fiz a melhor reverência que pude enquanto falava "Será um prazer servi-los hoje, senhoras e senhores!" E saí de perto da mesa.

Num segundo, o salão vazio foi preenchido por música e os casais começaram a se dirigir para o centro e dançar.

Até mesmo Lino havia arranjado uma aluna sem par da Beauxbatons para valsar. Trapaceiro!

Voltei para mesa com uma bandeja cheia de bebidas e nenhuma companhia.

Eu olhava para a pista e para as taças à minha frente, o sinal escancarado da minha solidão. Não pensei duas vezes… Aqueles ponches não poderiam ser desperdiçados, afinal de contas. E logo 2, 3… 10 taças foram viradas! Ainda que fosse sutil o teor alcoólico das bebidas, nada como quintuplicar doses para fazer efeito esperado de uma bebida.

A música mudou e com elas meus sentidos ficaram mais dispersos. O ritmo frenético do rock'n'roll de "Você pode dançar como um Hipogrifo" me deu energia para ir para a pista. Talvez o álcool me fizesse esquecer o que fiz naquela noite, mas não importava, tenho certeza que todo mundo se lembraria da icônica presença de um babuíno boboca balbuciando… Infelizmente, não em bando.

Em algum momento, enquanto os alunos dançavam animadamente e Angelina pensou que o Jorge aqui estava tonto demais para entender o que ela falava, ouvi um conversa sua com Fred:

—Por um segundo, quando você me chamou pro baile, pensei que fosse o Jorge… Mas aí caiu a ficha, claro que seu irmão não teria coragem de me chamar, então só podia ser você, Fred!

—E gostou do gêmeo que te chamou?

—Adorei!

E se beijaram ali, no meio da pista.

Eu estava alcoolizado o suficiente para aquela cena me deixar triste, mas não a ponto de fazer um vexame, então apenas me afastei daquela movimentação e sentei no chão esperando o mundo parar de girar para recolher o que restava da minha autoestima. Se eu gostava da Angelina?Sim. Ela sabia? Não. Fred sabia? Com certeza não. Provavelmente continuaria assim, afinal, segundo Angelina, Jorge Weasley jamais teria coragem de chamar a garota que ele gosta para sair.

Enquanto devaneava pensando em tolices, vi uma garrafa de água ser estendida em minha direção.

—Água, Weasley? Vai precisar de pelo menos meio litro para evitar uma cólera de dragão.

Olhei para o lado e uma moça com vestido indiano também estava no chão… Não consigo imaginar há quanto estava ali comigo.

—Agradeço o conselho, alquímico…Hm...- seu rosto me lembrava a garota que aceitou de última hora vir com Harry. Qual era mesmo o nome? Partil? Parvil?

Ela sorria vendo meu esforço para tentar lembrar seu nome.

—Padma Patil.

— Oh...Você não veio como par do Harry?

—Foi minha gêmea, Parvati. Eu tive o azar de vir com seu irmão e não ganhei nem uma valsa para aproveitar o baile!

A bruxa fazia cara feia enquanto observava a irmã dançando com um bruxo de Durmstrang. Como uma criança ingênua, era… Fofo.

—Pois hoje é sua noite de sorte, senhorita Padma! Vai ganhar uma dança com o Weasley mais bonito.

Levantei me apoiando na parede da maneira mais elegante possível, mas era nítido que não tinha coordenação motora confiável para isso. Estiquei a mão para que a bruxa se apoiasse, mas ela deve ter percebido que não era uma boa ideia confiar no apoio de um bêbado. A garota se levantou sozinha e ajeitou o próprio vestido, em seguida aceitou minha não extendida. Bêbado ou não, uma verdade precisa ser constatada: Padma era linda.

Com a mão educadamente posta em sua cintura, guiei a bruxa para girarmos no salão. A música evidentemente não combinava com uma valsa, mas era isso que ela desejava e o meu desejo naquele momento era dar àquela estranha o que quisesse.

As mãos mudaram de posição e então ficamos mais próximos, quase abraçados. Eu sentia o tecido fino de seu vestido próximo a cintura e suas mãos me causaram um leve arrepio ao se posicionarem em meus ombros. Como se seus sapatos fossem enfeitiçados, a bruxa levitou enquanto eu a erguia e seu rosto era pincelado por um sorriso ingênuo de felicidade.

—Obrigada, Jorge.

Como ela sabia…?

—Jorge? Está confundindo as coisas, gracinha. Sou o Fred!

—Não é não… Você me disse antes. É o gêmeo mais bonito. — a bruxa se ergueu se apoiando em meus ombros o suficiente para me dar um beijo rápido na bochecha. — Boa noite, Jorge.

Tão inesperadamente a bruxa surgiu esta noite, assim ela se afastou…. Deixando para trás um Jorge com bochechas coradas e um sorriso no rosto.

***

Gostaria de dizer que procurei Padma no dia seguinte, mas seria mais uma mentira. Voltei à minha confortável posição como o Jorge de Fred e Jorge.

Meu irmão milimetricamente menos bonito que eu decidiu dar continuidade ao encontro com seu par no baile e passou a namorar Angelina. Restava a mim a posição de cunhado brincalhão e manter boas maneiras, era esse, afinal de contas, meu papel.

Ouvindo conversas no salão da Grifinória, descobri que Padma era da Corvinal e da turma de Rony. Uma criança, como imaginei… Alguém que eu ocasionalmente esbarrava nos corredores de Hogwarts, sem nunca trocarmos palavras. Apenas sorrisos, como se fosse uma piada só nossa. Ela também era uma metade, a Padma de Padma e Parvati… De algum modo, eu sentia que ela também entendia essa curiosa condição de ser o inteligente com um gêmeo extrovertido.

Nossa comunicação não passava dessa troca de olhares esporádicos com sorrisos secretos e mal me dei conta, o ano já havia acabado e tudo que eu sabia da bruxa que agora ocupava um espaço em meus pensamentos é que ela sabia meu nome… Mas sinceramente, naquele instante, era exatamente o que eu desejava.

Porque para Padma, eu não era o Jorge de Fred e Jorge. Para ela, eu era apenas Jorge.

Notas finais
Oneshot que se tornou uma história com 3 capítulos. Espero que gostem desse casal inusitado que pegou de surpresa recentemente!