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2 Bons sonhos


Sentei-me na cama rapidamente, ofegante. Olhei para os lados, encontrando-me sozinha em meu quarto. Passei a mão pelo meu rosto, sentindo o suor.

Desde que voltei, tive diversos sonhos envolvendo aquele lugar, porém dessa vez, a dor pareceu tão real, e eu não fazia ideia de quem eram aquelas garotas. Virei em direção à cabeceira da cama, onde estavam algumas fotos e o relógio, o qual marcava 3:50 da manhã.

Levantei-me e caminhei em direção a cozinha. Cambaleando, ainda pensando na dor, e no rosto daquela garota, que insistia em se manter na minha mente.

Peguei um copo de água e me rastejei até a janela, para tentar acalmar um pouco minha cabeça.

Como esperado, não havia ninguém nas calçadas. Minha rua era bem movimentada, mas de noite, só em feriados ou férias. Subi meu olhar até o céu – sem nenhuma estrela – e ao voltar para a rua, vi a figura de um guarda-chuva preto com babados. Olhando melhor, a pessoa usava um daqueles vestidos de meu sonho. Meu coração acelerou-se, minhas mãos tremeram, fazendo o copo cair na rua.

A garota apoiou o guarda-chuva em seu ombro, revelando sua face. Era ela.

Eu não estava mais sonhando, era de verdade. O que diabos está acontecendo?!

Vendo meu desespero, ela deu um sorriso, digno de psicopatas de filmes.

Tampei minha boca com a mão, mordendo-a, tentando o máximo não gritar.

O som de uma buzina me despertou. O carro veio rapidamente em direção a ela, e não mostrava sinais de que ia parar. Batendo contra seu corpo, e o jogou para longe. Assustada, inclinei-me na janela, procurando por ela. Sumiu?! Como pode?!

Eu ainda estou dormindo...? Como eu queria acreditar nisso.

Voltei atormentada para meu quarto. Toda a casa parecia estranha, mais sombria. Decidindo não pensar mais nisso, coloquei uma música calma no rádio e deitei. A cena da garota sendo jogada para o ar continuava a se repetir em minha mente, me fazendo revirar para os lados diversas vezes. Soltei um grito de frustração e decidi me focar no dia de ontem. David e eu ganhamos no boliche, e os perdedores tiveram que dançar no meio da rua.

Soltei uma pequena risada ao me lembrar daquele momento constrangedor, e abracei uma de minhas almofadas, sentindo meu corpo relaxar um pouco.

Abrindo os olhos lentamente, não me sentia realmente acordada. O que houve na última noite? Passei a mão pelo meu cabelo, o bagunçando um pouco.

– Que horas são...? – Murmurei para mim mesma.

Bocejei, e me esforcei para enxergar o relógio. Eram 11 horas da manhã. Sorte, acordei cedo no domingo. Havia algo na mesa que não pertencia ali, um pequeno papel. Peguei-o em minhas mãos para tentar analisá-lo. Estava escrito “Tenha bons sonhos”, acompanhado de uma carinha feliz.

Soltei um som de surpresa, e vinha a dúvida de quem deixara isso. Pensando nisso, notei que tinha mais coisas escritas, em uma letra menor, na parte de baixo. “Eu estava sendo irônica”.

Amassei o papel e o joguei pela janela, tentando não ter tempo de criar paranóia, o que não deu certo. Nesses casos, eu deveria fazer o que sempre faço. Peguei o celular e liguei para Eve, quase mandando ela vir me ver, mas tentando a todo custo esconder meu nervosismo.

– Desculpa! – Ela cantarolou. – Eu vim pra casa da minha vó, pois hoje é dia oficial da família.

Família... Que saudade dessa palavra. Despedi-me de Eve e desliguei o celular. Bem, não se pode ficar dependendo de uma pessoa sempre, certo?!

Peguei um copo de leite na cozinha e me deitei no sofá, procurando algum filme bom na televisão. Os de comédia não surgiam efeito, não conseguiam arrancar nem um sorriso de mim, e eu viajava em pensamentos. Coloquei então em um filme de mistério policial, que prendeu minha atenção, e fez as horas passarem em segundos, logo depois começou um desenho qualquer, que por alguma razão, eu resolvi assistir. Era algo bem bobo, e monótono, me fazendo dar piscadas que se prolongavam a cada vez.

As vozes dos personagens continuavam em minha cabeça, mas as imagens se tornaram embaçadas, até se tornar tudo preto, e então silencioso.

Logo em seguida ouvi passos, e em eternos segundos, as luzes dos postes iam se acendendo, uma por uma. Dessa vez, não me mostrei surpresa ao ver aquele rosto novamente, e naquele estranho cemitério, cheio de caveiras e esqueletos, também estavam as outras seis garotas, nos observando.

– Isso é um pouco clichê, não acha? – Ela perguntou inexpressiva, enquanto brincava com os fios de seu cabelo.

Tentei concordar com ela, minha boca se mexia, mas nenhum som saiu.

– Não precisa se esforçar... Eu decidi que não quero ouvir sua voz.

Soltei um riso irônico. Acho que já estou entendendo tudo. Eu fugi daquele maldito, e agora, ele as mandou para vir me buscar.

Como se lesse minha mente, ela sorriu.

– Nós não estamos aqui por ele... Bem, mais ou menos.

Ela sentou-se do meu lado, fitando a lua, enquanto eu esperava uma explicação melhor que aquela.

– Você foi raptada e confinada em uma casa, apenas para ser torturada. – Ela deu uma pausa. – Nós também... Porém, só você teve a sorte de sair viva.

Arregalei os olhos ao sentir o espanto tomar conta de mim. Ela não pareceu se abalar, ao invés disso, segurou meu braço delicadamente, me fazendo estremecer com seu gélido toque. Levando-o até seu rosto, ela deu um beijo nas costas de minha mão, deixando a marca de seu batom preto. Ela ficou imóvel por alguns segundos, e então cravou seus dentes em minha pele, com tamanha força que começou a sangrar.

Abri a boca para expressar minha dor, mas saiu apenas alguns gemidos cortados. Outra garota apareceu e fez o mesmo. Queimando meu peito, até que saiu um som estridente.

Minha pele ia sendo arrancada pouco a pouco, e minha carne ia em seguida. Em meio aos meus gritos, ouvi resmungos e um choro bem baixo, quase inaudível. Olhei para a outra garota, que tinha sua máscara quebrada pela metade. Ela sorria, mas chorava. E por um breve momento, ignorei a dor, e fiquei me perguntando o motivo de suas lágrimas.

Acordei com um grito, arfando. Olhei meus braços, com medo, mas estava tudo normal. Entretanto, a marca de batom continuava ali. Meu coração acelerado pedia por alguma forma de libertação desse sofrimento que era o desespero. Remexi meu cabelo, o puxando enquanto chorava e soluçava.

Não sei por quanto tempo continuei assim, mas depois do que pareceu uma eternidade, escutei a campainha tocar. Corri ao banheiro e joguei uma água no rosto, engolindo o choro.

Abri a porta, encontrando David com um enorme sorriso. Para retribuir, tentei forçar um sorriso, que deve ter ficado pior que o Chucky.

– Eu te liguei mais cedo várias vezes, e como você não atendeu, fiquei preocupado.

Dei espaço para ele entrar, enquanto ia organizando meus pensamentos.

– Ah, eu estava dormindo...

Suas palavras passaram pela minha cabeça, e então saiu de sua boca.

– Que estranho... Você geralmente não dorme de tarde. – Ele riu.

Como eu poderia explicar, de uma forma que ele não pense que eu sou louca. Quero dizer, ninguém sabe o que aconteceu comigo quando sumi, e de jeito nenhum quero envolver nenhum deles nessa loucura toda.

– Eu acho que não estou me sentindo muito bem...

Essa desculpa foi o suficiente para ele entender meu rosto vermelho e inchado. Ele coçou a cabeça de leve, pensando no que fazer.

– Nesse caso, você devia deitar, e eu vou preparar algo para você comer, certo?

Assenti com a cabeça, e fui direto para minha cama, me embrulhar no cobertor. Feliz por ter alguém para cuidar de mim, e espantar qualquer coisa ruim. Meu olhar pousou no relógio, que marcava 18 horas. Eu perdi o dia. Ele foi jogado fora completamente.

Pouco depois, David retornou com um prato de miojo, mas pediu para esperar enquanto esfriasse um pouco.

– Desculpe, eu queria fazer algo melhor, mas não achei quase nada na cozinha.

Droga... Esqueci por completo de fazer compras.

Com um fraco sorriso, agradeci e disse que estava tudo bem. Isso era tudo que eu precisava no momento. Conversamos sobre coisas bobas e sem importância. Sem querer, mencionei o quanto gostava de seu sorriso, o deixando sem saber o que dizer. Quando acabei de comer, aquele sono forçado voltou. Eu bocejava constantemente, e arregalava os olhos para não fechá-los por completo. Percebendo isso, David levou meu prato e se despediu. Tentei dizer para ele não ir, pois eu não podia dormir, mas não consegui, e então não havia mais nada em minha visão.

Abrindo os olhos, amaldiçoei-me por dentro por ter caído nas mãos dessas loucas. Dessa vez eu estava em um quarto escuro, com cada braço preso de um lado na parede, enquanto meu corpo flutuava no ar. Uma cruz... Outro clichê.

– Oi Alice... – Outra garota apareceu em minha frente.

O que é isso...?! Cada sonho é uma garota diferente? Então restam... Quatro.

Ela tirou a máscara calmamente, mas eu foquei meu olhar no fino cinto de seu vestido, que nele estavam penduradas diversas facas.

– Vamos fazer assim, eu farei perguntas, e se você responder errado, eu te acertarei com uma faca. – Ela explicou.

Novamente, não saiu som algum de minha boca. O que acontece se não há resposta alguma?

– Quanto tempo você ficou presa naquela mansão? – Ela perguntou, pegando uma faca.

Cerrei os dentes, com raiva, e ela fez uma expressão de desentendida. Perguntava-me por que eu não estava colaborando, era pra ser um jogo tão divertido, e eu não podia me comportar daquela maneira. Aproximou-se e raspou um X em minha barriga. Era um sonho, eu dizia para mim mesma. Apenas isso, e não importava o quanto a dor parecia real.

– Próxima pergunta, deixa eu ver. – Ela levou um dedo aos seus lábios, pensativa. – Como escapou?

Ainda sem poder responder, desviei o olhar, fingindo desinteresse. Meu erro. Isso a irritou, e muito. Ela começou a gritar e me xingar.

– Você não merece isso! Você tinha que estar aqui, junto com todas nós! Maldita!

Tremendo, ela aproximou-se com a faca direcionada ao meu olho.

– Olhos tão cheio de si... Você não precisa mais deles!

Vendo que a loucura tomou conta de si, apenas uma coisa adiantaria com ela. Chutei sua barriga com uma força que não era minha, que não existia, e a joguei para longe.

Acordei me sentindo entorpecida, sem vontade de me mexer, e nem acho que poderia mesmo se tentasse.

– Está decidido, não vou dormir mais.

Notas finais
Bem~ Ainda há algumas coisas para ser reveladas sobre o passado delas, mas apenas nos próximos capítulos. Criticas? Venham ;3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.