Johnny... O bom detetive

94 Parte 07: Zawaski // Capítulo 16: De Yancy para Hugo


Em sua visão, a criança chorava. Ele quis se aproximar dela, mas não podia. O choro era familiar.

Abriu os olhos em súbito. Drogado, se levantou com muita vontade de vomitar. Foi levado para fora da cabana e orientaram-no a ficar perto e não ir na região do rio. Hugo caminhou alguns metros, apesar da sua perna. Agachou-se e vomitou. Foi a pior sensação da sua vida. Era como se um bicho estranho, uma criatura ou um caroço saísse de si por meio do vômito. Óbvio que não havia nada ali, mas na sua imaginação era como se um ser maligno saísse. Tossiu e expeliu até a última gota.

Um bola de tênis caiu perto dele e um cachorro da raça labrador apareceu para pegá-la. Ele seguiu o aninal, mas perdeu-o de vista. Avistou uma uma mulher agachada perto duma árvore. Era uma pessoa elegante e com um vestido chique. Viu o menino que antes chorava abraçá-la enquanto o cachorro aparecia diante dos dois.

Depois o homem se agachou e ficou com os olhos fechados durante um bom tempo e com alucinações. Eram luzes, flashes, estrelas, fogo, um janto de água, bombeiros e o choro de uma criança. Ficou assim por horas, com a sua mente tendo visões do passado até que a sua memória voltou e passou como um filme ou uma fita cassete rebobinando todos os acontecimentos até o momento do seu acidente.

Lembrando de toda a sua vida antes de parar na floresta, Hugo finalmente pode compreender o grave erro que cometera contra o seu filho. Levantou-se do lugar de onde estava para voltar à aldeia, mas uma vontade de cagar monstruosa acometeu o seu corpo. Abaixou as calças e cagou diarreia. Não foi uma sensação ruim, pelo contrário. O ayahuasca proporcionou um bem-estar naquela hora que a sua voltade era de cagar até as vísceras.

Na manhã bem cedo, Irapuã foi ajudar a mãe a lavar as roupas no rio quando viu Yancy lavando a bunda na correnteza. Os dois agradeceram que era um rio, não um lago.

...

Fortaleza

Na manhã do domingo, Johnny se levantou cedo e foi à padaria próxima. Ao voltar para a entrada do prédio — ele foi à pé —, viu Bia parada no portão.

— O que você faz aqui? Como descobriu esse endereço?

— Acalme-se, bebezinho. Lembre-se que já fomos casados. Esqueceu que temos negócios a tratar?

— Eu não tenho negócio nenhum contigo. Sai da frente?

— Não se faça de esperto — ela tentou acariciar o roto dele, mas Johnny se esquivou. — Estou falando do trato que fizemos. A metade de todo o seu patrimônio em troca do meu silêncio.

Johnny a segurou pelos braços e falou o mais alto possível que não existia nenhum trato e que ela podia fazer o que bem entendesse.

— Você tá esperando o filho do Lucas e tentou abortá-lo. Está se fazendo de santo agora?

Ele empurrou a mulher e entrou no prédio. Bia ficou com muita raiva de ser feita de boba. Voltou para o carro, pegou o celular e tentou ligar para o número de Paulo, mas a ligação caía na caixa-postal. Nem Johnny e muito menos Paulo tinham interesse em ceder as chantagens dela.

— Vocês me pagam. Me pagam!

Quando ela se aproximou do hotel, viu duas viaturas policiais paradas na entrada. Aquilo chamou a sua atenção de maneira negativa. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde a polícia iria investigá-la pelas mortes de Paulie e Lúcia. Ela saiu.

Os policiais entraram no hotel e revisaram tudo incluindo o passaporte dela.

— Parece que ela não está.

O delegado lamentou o fato de não encontraram a criminosa. Pediu que colocassem um retrato dela nos noticiários locais.

Júlia foi informada pelo seu advogado que a cabeça de Bia estava a prêmio, e que todos os policiais de Fortaleza estavam atrás dela.

— Ela merece, mamãe. Finalmente a justiça será feita.

Sem poder voltar à normalidade, Bia se refugiou na casa de um amigo beta no subúrbio da cidade. O local era um bloco de pequenos prédios desgastados.

— Já vai. — Respondeu depois da campainha teimar muitas vezes. O homem era garoto de programa gay, pardo e fazia o trabalho naquele exato momento. Atendeu de roupão.

Ela praticamente empurrou-o. O cliente apareceu de cueca.

— O que tá havendo?

— Vista-se e saia.

Depois que o cliente foi embora, Bia ficou mais à vontade para falar do seu problema para o seu amigo Sérgio.

— Dessa vez você tá metida até o pescoço com a polícia. Não sei se posso te ajudar, minha querida.

— Eu te dou uma quantia considerável se me ajudar. Por favor, Sérgio.

Sem poder aonde ir, ela se refugiou no lugar. Então o prostituto perguntou de quanto ela falava. Sem apresentar provas, Bia garantiu que ganharia um valor milionário.

...

Uma equipe de buscas navegou no rio desconhecido com um total de cinco lanchas. Eles chegaram no local da queda e viram a ponta da cauda do avião exposta. Lucas tinha certeza de que Hugo estava perto.

Na aldeia, Hugo estava deitado numa rede enquanto descansava a sua mente e o seu corpo. A sua perna latejava, não parava de sentir náuseas.

— A que ponto eu cheguei. Parar nesse fim de mundo. Talvez isso seja castigo por ter sido um péssimo pai pro Johnny.

Uma índia informou que homens da cidade se aproximavam pelo rio. O cacique Txana compreendeu que eram pessoas em busca de Yancy.

Na margem do rio, Lucas foi um dos primeiros a descer da lancha e pisar na praia. Os primeiros indígenas foram avistados.

A equipe de busca liderada pelo delegado de Manaus entrou na aldeia com a permissão dos seus moradores.

Xingô, Ubiratan e Txana recepcionaram os forasteiros. Conversaram sobre o acidente e o desaparecimento de Hugo.

— Irapuã, vá buscar Yancy aqui.

— Sim, papai.

O menino foi até Hugo e acordou-o. Falou sobre os forasteiros.

Zawaski caminhou, sempre apoiando-se com a sua muleta, e entrou na oca maior. Foi quando ele ficou cara a cara com Lucas desde a última vez no apartamento de Johnny.