Johnny... O bom detetive

92 Parte 07: Zawaski // Capítulo 14: Transformação


Quando Bia falou que contratou um sequestrador para Johnny, Paulo se desesperou e pediu que ela não o fizesse. Só que a sua mãe friamente concordou com o plano e prometeu pagar o dinheiro o mais rápido possível.

Ele, a contragosto, decidiu ficar um pouco mais na capital cearense. Marion agradeceu e desceu com Bia enquanto Paulo subia ao grupo.

Do lado de fora do hotel, Júlia observou Marion e Bia sairem juntas. Nunca imaginou que a mãe de Paulo se unisse com uma golpista e chantagista.

— A vontade é de sair desse carro e dar uns bons tapas nas duas.

— Calma, tia — falou Cecília ao lado. — Não temos certeza ainda do que a Beatriz está tramando. Se elas estão juntas, com certeza devem ter algum plano em mente.

— Tem razão. Isso envolve o Johnny. Preciso ficar atenta.

Júlia pensou nas palavras do filho. Matar Bia era o único jeito para acabar com o sofrimento dele.

Já em seu escritório, Paulo lamentou estar com a corda no pescoço. Ser chantageado por Bia era o cúmulo. Por um momento pensou em matá-la.

...

Foram sete dias morando na aldeia. Suficiente para Hugo aprender algumas coisas sobre os indígenas. Ele ficou impressionado ao descobrir que índio adorava refrigerante e pizza.

Txana explicou que os índios também eram seres humanos, portanto posuíam os mesmos gostos e os mesmos desejos que os homens da civilização. Contou uma história em que índios guerreavam por território assim como nas histórias sobre guerras entre países.

Ambos sentados num tronco às margens do rio, bebiam cerveja em lata.

— Há muito sobre nós que os brancos não sabem. Eles vêm na época de festividades, ficam felizes e passam por experiências boas. Mas eles só nos conhecem assim e propagam que nós somos como animais. Temos os mesmos defeitos. Por exemplo, o meu avô era cacique em outra aldeia. Um dia traiu a minha avó com outra mulher. Ela teve que compartilhar a casa com a amante. Coisas aasim acontecem na civilização, não é?

— Acredito que sim. — Respondeu Hugo com uma barba rala. — Existe muita safadeza na nossa sociedade.

— Não é diferente daqui. O exemplo do meu avô passou para o meu pai. Decidi que não podia viver como eles. Queria ser um exemplo ao meu filho. Sou motivo de muito orgulho para ele.

O empresário perguntou quem era o filho de Txana. Este respondeu que era Xingô e que Irapuã era o seu neto.

— Isso foi uma grande surpresa. Mas cadê a mãe dele?

O cacique riu e disse que ele já havia conhecido. Hugo não soube quando viu a mãe de Xingô.

— Xingô é filho do sol, assim como eu. Sua mãe é um varão.

— Quê? Por quê? — Indagou sob o espanto.

— Eu já te disse. Não somos diferentes da civilização. Aqui os varões também podem engravidar. Eles são chamados de filhos da lua. São tão preciosos quanto mulheres. Para a nossa aldeia, os filhos da lua são sagrados, porque eles dão a vida mesmo sendo homens. Isso não é um milagre?

Hugo concordou.

— Yancy, você já viu a mãe do Xingô e foi tratado por ele. Falo do Ubiratan. Nossa família é quase a metade da aldeia e apenas dois são filhos da lua. Um é o meu esposo e pajé, o outro é o meu neto. Irapuã é educado desde mais jovem para arcar com as suas obrigações que os deuses deu a ele. Ser o ventre de uma tribo.

— Você deve ser orgulhoso da sua família.

O cacique assentiu.

— Tenho certeza que você também tem filhos amorosos e uma família unida.

— Disso eu não posso ter certeza. Eu não me lembro de nada.

O líder se lembrou que havia outros filhos da lua em outras aldeias, e que sabia de pelo menos um que estava prestes a dar a luz. Txana pediu para um dia levá-lo até o rapaz e vê-lo ter um bebê mesmo sendo homem.

Quatorze dias se passaram desde que Hugo perdeu a memória. Agora conhecido como Yancy, saiu da aldeia com Xingô, sua esposa Anahy e Irapuã. Os quatro pegaram um barco motorizado e foram pelo rio em direção a aldeia mais próxima a fim de trocarem produtos de origem animal e vegetal, além de artesanatos locais. Tudo era feito por escambo e raramente usavam o dinheiro.

A aldeia ficava a cerca de oito quilômetros ao norte de Waska. Era maior e com casas de barro. Xingô levou uma saca com os produtos para a troca enquanto Anahy e Irapuã iam na direção mais central da tribo. Os índios usavam roupas como eles e falavam português e tupi. A mulher entrou na moradia e viu o rapaz jovem sobre a cama enquanto as parteiras da tribo se preparavam para o nascimento.

Hugo ficou ajudando o guerreiro com as mercadorias e até conheceu o cacique. Irapuã correu até ele e falou que o bebê estava para nascer.

— Não sei se posso...

— Pode sim. Minha mãe pediu e o moço deixou.

O garoto, entusiasmado, puxou o homem pelo braço até o local do parto. Exceto o companheiro do índio ômega, os homens não podiam se aproximar tanto. Hugo e Irapuã ficaram na entrada.

O rapaz fez força e o bebê nasceu. O fedor de sangue e fezes invadiu o ambiente, mas Anahy explicou para não ficar com nojo pois era um parto natural de um homem. O bebê, sujo com o líquido e um pouco de fezes, foi lavado apropriadamente numa bacia com água e uma solução para cortar o mau cheiro. O índio ômega abraçou o bebê depois de limpo.

Pela primeira vez na vida Hugo sentiu uma sensação de empatia ao ver tudo aquilo. Ele não sabia explicar direito e logo ficou confuso.

— O que foi? — perguntou Irapuã.

— Minha cabeça dói. As minhas lembranças do passado passam como frames, mas ainda não consigo lembrar.

— Como o quê?

— Esquece. Podemos voltar?

Na volta, Hugo lacrimejou inesperadamente. A bela história da família de Txana e agora o parto de um bebê deixou-o mais sensível.