Johnny... O bom detetive

88 Parte 07: Zawaski // Capítulo 10: Amnésia


A onça apareceu às margens do rio para beber água. O índio viu o animal se aproximar, não fez nenhum movimento brusco para não assustá-lo e se afastou para dentro das matas ciliares.

Ele viu Hugo suar e delirar. Retirou a tampa da cabaça e colocou na boca do homem para ele beber a água. A sua sorte era que o felino estava de barriga cheia.

No dia seguinte, o índio acordou quando escutou Irapuã gritar por ele. A boa nova era que Hugo havia acordado do sono, apesar de ainda estar com a perna quebrada. Felizmente a dor diminuiu bastante, mas um problema ainda maior surgiu: o empresário ficou com amnésia.

— Não sei onde estou nem o meu nome. Como eu vim parar aqui?

— Papai te salvou depois que avião caiu no rio.

— Eu me chamo Xingô, guerreiro da aldeia Waska. Esse menino é o meu filho, Irapuã. Somos nativos da região. Como o meu filho disse, seu avião caiu no rio. Você é o único sobrevivente.

— Mas eu... não me lembro de nada.

Xingô analisou a cabeça do forasteiro e deduziu que o único que poderia ajudar era o seu pajé. Com a ajuda de Irapuã, levou Hugo até a canoa e navegaram pelo rio.

— Foi aqui que o avião caiu. — Disse o homem apontando na direção da cauda da aeronave que ainda era visível.

Mas Hugo sequer lembrou do que ocorrera na noite anterior. Suas lembranças novas começaram quando ele acordou naquela manhã.

— Vocês são índios?

— Sim. Papai é o melhor guerreiro da nossa aldeia.

O menino Irapuã era pequeno, franzino, com a pele indígena e cabelo em formato de tigela. Xingô era alto, forte, também com cabelo em forma de tigela. Ambos usavam roupas comuns da civilização como bermuda e camiseta.

A canoa se aproximou das margens do rio. Era nítido pessoas tomando banho e crianças brincando na praia. Algumas mulheres se aproximaram ao ver o forasteiro dentro da embarcação.

Hugo ouviu pela primeira vez Xingô falar na língua nativa deles. Algumas pessoas em posição de liderança como guerreiros, anciãos, pajé e cacique eram os únicos a falarem português.

— Eu não entendo. Aquelas crianças não falam como você.

O menino explicou que apenas algumas crianças eram educadas a falarem português e a língua nativa. Por Irapuã ser filho de um dos homens mais importantes da tribo, ele foi contemplado a aprender a língua dos brancos.

Dois homens ajudaram Hugo a caminhar. Serviram como apoio, haja vista sua perna seguia fraturada.

...

Fortaleza

A aviação civil, força aérea nacional e a polícia federal entraram em campo a fim de descobrirem acerca do desaparecimento das quatro pessoas no jatinho que rumava para a Colômbia.

Júlia retornou à mansão para saber de notícias do seu esposo enquanto a família dela acompanhava-a a todo o momento. O único que decidiu não pisar na mansão foi Johnny.

— Eu entendo perfeitamente que o meu filho não queira pisar aqui. Afinal de contas o Hugo maltratou ele demais.

— Dona Júlia, obrigado pela compreensão. Eu ficarei aqui para saber de mais informações.

— Obrigada, Lucas.

Patrick depôs na delegacia e falou a respeito da sua última conversa com o seu patrão.

Johnny passou a manhã toda pensando na forma de contar toda a verdade sobre a gravidez. Não pensou um minuto sequer no desaparecimento do seu pai.

Enquanto isso, Bia assistiu ao noticiário local na suíte do hotel. Sentiu um misto de felicidade e decepção pois queria chantagear o patriarca Zawaski.

Seu tempo estava acabando. A polícia civil investigava a morte de Paulie e Lúcia. Seu intuito era pegar uma fortuna e fugir do país o mais rápido possível.

No hotel Marina, Paulo entrou no carro quando foi abordado por Bia.

— Não tenho assunto para tratar com você.

— Pois eu tenho. E é melhor que me deixe entrar ou a sua chance de conquistar o Johnny cairá de quase nada para nada.

O CEO ordenou ao motorista a prosseguir enquanto os dois entravam na parte de trás.

— Para onde você vai?

— Não é da sua conta. Seja rápida e fale o que quer. Se for outro cheque...

Ela retirou um gravador da bolsa e mostrou um áudio comprometedor das conversas deles em que se uniam para fazer Johnny ficar com Paulo.

— O que é isso, garota? Tá louca?

— Louca eu nunca fui. Sempre fui pragmática. Eu vou direto ao ponto. Quero dez milhões de dólares para que o Johnny nunca saiba do seu envolvimento comigo.

— E você fala assim na minha cara? Eu posso te matar, sabia?

— Sei. Por isso essa é uma cópia. Deixei o original com alguém fora do meu vínculo e assim entregar ao Johnny se algo ocorrer comigo. Pense bem. Para um cara rico como você isso é uma ninharia. Agora que o Johnny provavelmente ficou órfão, pois duvido o Hugo ter sobrevivido a uma possível queda de avião, ele herdará a fortuna. Falamos de um valor de 14 bilhões de dólares. Você sabe o que é isso? Ele é mais rico do que você. Esse é o melhor momento para você consolá-lo.

Paulo pediu mais um pouco de tempo para pensar na proposta de Bia. Ela saiu do carro ainda perto da praia.

Sua terceira vítima, Paulo Loyola, foi fisgada.

...

Xangô entrou na cabana do cacique Txana e pediu licença para falar com ele. O cacique era um homem de meia-idade, experiente e fluente nas duas línguas. O guerreiro relatou sobre Hugo.

O pajé Ubiratan entrou na cabana onde o forasteiro estava deitado. Hugo voltou a ter febre e era tratado por Irapuã. O menino molhava um pano e passava pelo rosto do homem. O velho curandeiro apareceu com um cachimbo e percebeu imediatamente a perna dele.

Ubiratan pediu aos rapazes para pegarem uma planta que servia como anestésico.

Os anciãos da tribo permitiram que Hugo ficasse na aldeia por tempo ilimitado ou até se recuperar dos ferimentos.

O pajé rezava com uma folha enquanto fumava um cachimbo a fim de espantar os maus agouros daquele moribundo. Ubiratan nomeou Hugo de Yancy.