Johnny... O bom detetive

6 Parte 02: Natureza cruel // Capítulo 04: Paixão secreta


— Olá, Júlia.

— Doutor Túlio, o meu filho ficará bem?

Lucas ficou esperando alguma resposta na sala de espera de uma clínica particular. Pensou no momento em que encontrou Johnny Zawaski num estado deplorável no banheiro da escola. Após conseguir se livrar dos três abusadores, o moreno tentou ajudar o colega a por a calça, mas o menino pediu para que ele não se aproximasse.

Os feromônios que Johnny expelia pelo suor entraram pelo nariz de Lucas e ativaram uma parte do seu cérebro caracterizado pelo cio de uma pessoa do gênero alfa. Seu corpo ficou mais quente, tremia um pouco e a sua visão ficou anuviada. Caminhou um pouco para perto de Johnny — ele traumatizado pensando que Lucas faria algo de ruim —, colocou a calça e segurou o rapaz. Carregou-o nas costas e pediu ajuda aos professores.

Pouco tempo depois o motorista da mansão Zawaski parou em frente a escola e levou os dois garotos para a clínica particular.

O médico, Túlio Amaral, ficou encarregado pela saúde do rapaz. Ele era o médico particular da família e entendia muito bem o que Johnny passava por dois motivos: era endocrinologista e estudioso das castas Alfa, Beta e Ômega na sociedade.

A socialite, mãe do enfermo, chegou num carro importado e estacionou na garagem. Saiu imediatamente para falar com Túlio.

— Júlia... precisamos conversar.

— Tudo bem, mas preciso ver o meu filho.

— Antes vamos conversar. Só então a senhora verá o seu filho.

A mulher deu o braço a torcer e foi para o escritório do médico. Ela perguntou o que houve com o garoto.

— Isso vai ser difícil, sobretudo quando falamos de uma família tradicional de alfas. Júlia, você é uma mulher beta, não é? O seu marido é um alfa conservador.

— O que nosso gênero tem a ver com isso?

— Johnny não é um alfa, nem beta. Ele é ômega...

— Não, não, não, não, não. Isso não — ela se levantou da cadeira. — Como assim ele é um reles ômega? Só pode haver um engano, doutor.

— Não é engano. Estudo os gêneros há trinta anos e há vinte sou especialista em glândulas. Hoje o seu filho iniciou o primeiro Ciclo Ferossexual de um ômega. Segundo um colega, três estudantes tentaram abusá-lo sexualmente no banheiro. Não há erro de cálculo, não há erro de previsão, o corpo humano é honesto e claro. O ciclo ferossexual ou popularmente cio começou naquele banheiro, senhora Zawaski.

— Por Deus. O que vai ser da nossa família? Hugo ficará extremamente desapontado. Seu filho ser um ômega.

No quarto, Johnny ficou isolado das outras pessoas, exceto os betas e ômegas. A enfermeira entrou no recinto e trouxe consigo um livreto com algumas explicações.

— Ser ômega é ruim, doutora?

— Ah... às vezes. Mas vou lhe explicar um pouco como isso funciona. Existem três gêneros ou castas na sociedade. Os alfas, betas e ômegas. Vivemos numa espécie de pirâmide biológica. No topo há os alfas, no corpo os betas e na base os ômegas.

Naquele dia Johnny aprendeu tudo a respeito do gênero. Soube que os ômegas sofriam bastante preconceito. Que 78,9% dos alfas, 49,3% dos betas e 18,6% dos ômegas eram homens. Descobriu que entre os homens ômegas a homossexualidade era de 88% e a bissexualidade era de 10%, os 2% eram declarados héteros, porém a heterossexualidade nos homens ômegas era questionável para os médicos.

Também aprendeu que dentro do seu corpo havia um útero igual de uma mulher, apesar dele possuir pênis, testículos e outros órgãos normais de um homem. A fecundação ocorre quando o parceiro penetra no ânus e o pênis não vai pelo reto, mas pelo canal retovaginal separada do aparelho digestivo. O próprio ânus de um homem ômega era extremamente elástico para permitir o filho sair dali como se fosse a vagina de uma mulher.

— E por fim temos o ciclo do cio. Apenas mulheres alfas e betas podem menstruar. Mulheres ômegas e homens ômegas entram no ciclo ferossexual ou cio, homens betas e alfas nada acontece. Isso que você teve foi o cio, ou seja, seu corpo te preparando para um ciclo fértil. Pessoas alfas não resistem aos feromônios e podem perder a consciência humana. Portanto, cuidado. Você teve muita sorte do seu amigo estar por perto.

— Amigo?

— Sim. Um amigo. Ele que te trouxe.

Johnny se levantou da cama e foi verificar no corredor. Não havia mais ninguém lá.

Depois de aprender mais sobre o seu corpo, Johnny encarou o seu pai, Hugo Zawaski. A decepção do empresário foi grande. Pouco depois Lucas soube que o seu amigo foi morar fora do Brasil e estudar numa universidade norte-americana. Aquilo foi impactante.

Sete anos depois retornou noivo de Bia, discutiu com o pai, casou-se, saiu da empresa, resolveu entrar para a polícia, demitiu-se, abriu um pequeno escritório para detetives particulares. Voltou a falar com Lucas depois de quase dez anos separados.

— Então, senhor Francisco Lulia. É menino ou menina? — perguntou Johnny bastante interessado na gravidez do gerente do hotel.

— Ah... é um menino. Meu primeiro filho — Respondeu. Ele passava as mãos na barriga com certo orgulho.

Johnny riu.

— Que foi? — Perguntou Lucas.

— O meu corpo é exatamente igual. Já pensou se eu engravidasse?

— A Bia é uma mulher alfa...

— Nem vem, negão. Entramos num acordo em comum. Sou de uma família tradicional, portanto respeitamos nossos gêneros. Sou homem, ela é uma mulher. Se for para engravidar, ela que engravide de mim. Agora se for para eu engravidar... — Johnny deu uma boa tragada no cigarro e olhou para o Lucas. — prefiro de um homem.

Lucas se levantou da cadeira. Seu rosto estava vermelho de vergonha.

— Pfffttt Hahahhaha. Que foi? Por que está vermelhinho?

— Nada.

O celular de Lulia tocou. Era Rodrigo.

— O chefe disse que está enviando uma van para pegá-los. Melhor se prepararem. Vocês irão para a fazenda.

Minutos depois, Lucas ficou sentado na cama com as duas mãos no rosto. Não acreditou que deixou transparecer a sua paixão secreta por seu amigo detetive. Saiu do devaneio quando o carro buzinou.