Johnlocked
5 Reencontro em Uma Maldita Piscina
Notas iniciais
Solitário.
Esquisito.
Frio.
Bom com fatos isolados, nunca com pessoas.
Perturbado.
Anti-social.
Cheio de manias.
Fala consigo mesmo, mas não fala com outros.
Lunático.
Nerd.
Obsessivo.
É preciso fazer algo com relação a esse menino.
Quantos anos tinha na época? Sete? Seis? Cinco?
— Mycroft! Mycroft!
Os pés descalços corriam sobre o piso de madeira da antiga casa. A voz aguda reverberava pelo corredor, o tom alto pelo fato de ser só um menino. Nas mãos, um almanaque infantil de curiosidades, aberto já na página do teste preenchido com grafite fino.
— Mycroft!
A grande porta do quarto de Mycroft estava fechada, então agora Sherlock batia vigorosamente sobre ela, tomando cuidado para não esbarrar no machucado feito pela mordida de uma outra criança naquela mesma semana. Mais um dos preços que pagava por ser um completo maluco: mordidas nas mãos, às vezes nas pernas, às vezes nas bochechas.
Do lado de dentro do cômodo, Mycroft ouvia Chopin no último volume. Abriu a porta assim que identificou os punhos fechados batendo sobre a madeira grossa, mas não se deu ao trabalho de desligar sua música.
— O que é, Sherlock? — perguntou quando dois pares de olhos azuis se cruzaram. Os de Sherlock estavam empolgados; os seus, apenas curiosos. Intervenções como aquela, no meio da tarde, se tornavam cada vez mais raras.
— Encontrei o problema! — exclamou ele, estendendo o pequeno almanaque em sua direção.
Mycroft piscou e pegou aquele almanaque. Na página aberta, lia-se: "Teste: Você tem os traços de um sociopata?". Em sequência, o grafite fino de Sherlock aparecia riscando cada uma das alternativas daquele teste. Com a somatória daquelas letras assinaladas, o resultado do teste dava "Com certeza, um sociopata altamente funcional!".
Mycroft pensou por alguns segundos. O que deveria responder? Demorou mais tempo do que o necessário com os olhos sobre aquele papel, porque a mente trabalhava em uma solução para o conflito que se formava ali.
— Bem, Sherlock — suspirou, arqueando as sobrancelhas em direção ao pequeno. — Eu não acho que-
— É isso, não é? — insistiu ele, o brilho dos olhos deixando mais do que claro que tipo de resposta esperava. — Isso quer dizer que existem outras pessoas como eu! — exclamou, o dedo indicador esticado no ar, como se uma grande ideia cruzasse agora sua mente. — Eu não sou esquisito! Não tenho essas tais "perturbações"! Eu não estou sozinho, existe gente como eu!
Mycroft fez uma careta, mas tentou escondê-la. Em sequência, coçou um pouco o rosto, sinal típico de quando a ansiedade se instalava em seu ser. Deu uma boa olhada naquelas mãos mordidas por outras crianças que nem sequer conheciam seu pequeno irmão. Mais um dos frutos do seu isolamento. Do seu temperamento. Dos seus traumas. O isolamento social.
Depois, olhou de novo aqueles olhos brilhosos e esperançosos em sua direção. Poderia ter dito exatamente o que pensava. Poderia ter dado a resposta mais precisa possível a Sherlock e estragar o seu sonho de se identificar com algo naquele mundo. Mas não conseguia. Com aquele pequeno Sherlock, simplesmente não conseguia agir da maneira indiferente como agia com a maior parte das coisas e pessoas do mundo.
— Oh, claro — respondeu, assentindo com a cabeça. Tentava parecer convincente. Dava certo? Não sabia. Mas Sherlock não era tão bom assim em identificar os sentimentos humanos; portanto, era quase certeza: ele caía. — Muito bem, Sherlock — acrescentou. — É exatamente isso que você é — deu mais uma lida no resultado do teste, antes de proferi-lo em voz alta. — "Com certeza, um sociopata altamente funcional!".
Então, Mycroft apenas observou. Observou enquanto aquele garoto abria um dos únicos sorrisos verdadeiramente grandes e verdadeiramente autênticos que daria pelos próximos anos. Com vigor, os dentes de leite à mostra, Sherlock arrancou novamente o almanaque das suas mãos e desatou a correr de volta pelo corredor.
Deixando-o com nada além de seus pensamentos.
— Ah, Sherlock — murmurou para si mesmo, meneando a cabeça negativamente e tornando a fechar a porta do quarto.
Mycroft talvez tivesse tentado ajudar. Sim, era quase certeza que ele havia agido daquela maneira para ajudá-lo, mas... A identificação como um sociopata funcional não lhe ajudara tanto assim, pelo menos não na prática. Continuava sendo o esquisito. O lunático. O solitário. O que se relacionava apenas com fatos isolados, nunca com pessoas. A única diferença era que agora tinha encontrado uma justificativa para fazê-lo. Sentia-se mais enquadrado em sua realidade, mas não menos solitário.
E assim viveu, por quinze, vinte, mais de trinta anos no limbo. Na completa e mais absoluta escuridão em que uma pessoa pode se encontrar. Longe do contato físico, estava seguro. Estava blindado, protegido, resguardado. E ali também, longe do contato físico, estivera perdido por tantos anos. Tantos e tantos anos, até que ele chegou.
— Sher...lock? — ecoou a voz melodiosa pelas quatro paredes da piscina pública.
Nas ruas de Londres, fazia frio. Os grandes painéis da cidade indicavam que a temperatura média daquela noite eram seis graus Celsius. Ainda assim, e por mais que a piscina pública fosse descoberta — e mesmo que se pudessem ver as estrelas como pequenos pontos luminosos quando se olhava para cima -, não era frio ali dentro. Um aquecedor central, somado a duas diferentes saunas, faziam pairar no ambiente um estranho calor de vapor de água.
Sherlock Holmes não gostava daquele calor de vapor de água. Pra falar a verdade, nem lhe apetecia muito a água em si. Preferia o frio das ruas da cidade, o vento gélido que batia sobre seu rosto quando corria pelos becos, se infiltrava nos restaurantes, se escondia atrás das lixeiras dos bares para coletar pistas, ouvir murmúrios, perseguir assassinos. Preferia o frio da noite ao calor da sauna, porque com o calor não se identificava. Não havia nada dentro de si que correspondia àquele tipo de calor aconchegante, e assim mesmo deveria ser.
Sherlock nascera para ser o frio das ruas, nunca o calor de uma sauna. Por isso, era hora de dar um basta nos seus sonhos impossíveis. Era o momento de dar um basta nas suas expectativas quase adolescentes de que poderia ter se tornado algo mais, porque aquele "algo mais" sempre estivera fora de seu alcance; e quando aquele "algo mais" se aproximava, deixava-o louco. Deixava-o fora de si. Era o momento de dar um basta no único ser do planeta capaz de fazê-lo se sentir humano: John Watson.
— Sherlock, eu sei que você está aí — arriscou ele, novamente a voz ecoando pelos quatro cantos das piscina. — Eu segui todas as pistas. Eu cheguei até aqui. Você não pode se esconder mais!
Qualquer pessoa comum se questionaria o motivo do encontro ser ali. Aquela era a piscina pública que tinha vivenciado o primeiro confronto entre Sherlock Holmes e Jim Moriarty. O primeiro encontro em que Moriarty havia se revelado de fato. Mas o fato era que a escolha daquele lugar nada tinha a ver com Moriarty. Tinha a ver com John.
Porque ali, naquela piscina pública, aconteceu a primeira vez em que Sherlock se deu realmente conta do que estava acontecendo. Naquela piscina pública, ao ver John amarrado em explosivos e bem na mira de uma arma de longo alcance, Sherlock deu-se conta do que buraco em que se estava afundando. Deu-se conta do quanto o baixinho significava para si, e quanto aquilo poderia lhe causar dor.
Que pena não ter descoberto naquela mesma época que o sentimento por ele era tão maior do que si. Uma pena. Teria poupado muito da sua integridade mental. Teria poupado muito do desgaste físico e psicológico de John também.
— Sherlock! — gritou ele, cheio de ódio. John estava nervoso. Era possível observar isso, mesmo àquela distância.
O baixinho estava bem no centro do recinto, escaneando com os olhos cada canto da piscina, demorando a olhar cada um dos vestiários de portas coloridas. Mas estava longe de encontrá-lo. Porque Sherlock estava no piso superior, e John não sabia que atrás dos vestiários havia uma escada que o levaria a um andar no qual poderia ter a perfeita visão de toda a piscina e seus arredores. Era ali que estava Sherlock. Na penumbra.
Então, Sherlock deu-se conta de que ele ia fazer de novo. Mais uma vez, ia gritar para que aparecesse. Mais uma vez, gastar suas cordas vocais em vão. Porque é claro que Sherlock estava ali. Pela primeira vez em dez meses, o maior lhe dirigiu a palavra, sua voz grave então também passando a ecoar por aquelas paredes.
— É verdade — respondeu, calmamente. — Você chegou até aqui, não chegou?
A princípio, quando ouviu aquela voz, John pareceu assustado. No segundo seguinte, pareceu aliviado. A presença de Sherlock, ainda mais fora de seu campo de visão, lhe trazia sentimentos mistos. Mas o fato era que finalmente tinha encontrado aquele bastardo, por mais que não o enxergasse agora.
As mãos do baixinho se abriram e fecharam, no seu típico sinal de nervosismo. O seu corpo tremelicou um pouco e um pigarro formou-se na garganta, mas John evitou tirá-lo; ao invés disso, o engoliu. Não sabia o que esperar daquele encontro, por mais que já tivesse tido as provas de que o detetive o amava de outra maneira. Tivera algumas horas para pensar sobre o assunto e chegar à conclusão óbvia de como se sentia com relação a isso. Mas agora, na hora do cara a cara, John congelava na posição, mesmo com a sauna supostamente ligada pelos arredores.
Tomou fôlego para falar por uma segunda vez, mas não teve exatamente tempo de pensar no que diria. A única coisa que sabia era que precisava falar alguma coisa. Precisava. A comunicação seria a única prova de que Sherlock ainda estaria ali, por mais que se mantivesse escondido. Mas antes que pudesse formular uma nova frase, a voz grave reverberou novamente:
— Eu achei que devesse a você uma satisfação.
De repente, sentiu raiva. Oh, Sherlock "achou" que lhe devia uma satisfação? Depois de se dar ao luxo dez meses de sumiço, fazendo todos ao seu redor acreditarem que poderia estar morto, sequestrado, jogando em um beco enquanto se drogava?! Não conseguiu mais conter as palavras na garganta. O fato era que John era um homem profundamente passional, por mais que não admitisse. Antes que se desse conta, já ouvia sua própria voz rebater, com ironia:
— Ah, "achou" que me devia uma satisfação! Que gentileza a sua! Que generosidade!
Em algum lugar, ouviu o mais alto bufar de insatisfação com aquela resposta.
— John, dessa vez-
— Eu não quero saber o que se passou pela sua cabeça! — interrompeu, cheio de raiva. — Só me dê um motivo humano, Sherlock. Pense bem na chance que estou te dando e dê um único, um miserável e bom motivo em que eu possa me agarrar pra conseguir voltar a conviver com você!
— Você não vai voltar a conviver comigo.
Mais uma vez, John tremeu. Ainda assim, evitou demonstrá-lo.
Por mais que não conseguisse admitir isso nem a si mesmo, por um breve — breve — instante, pensou que poderia fazer Sherlock se declarar em voz alta, finalmente liquidando todas as suas suspeitas de que aquilo não passava de mais um jogo. Uma brincadeira de mau gosto. Mas como sempre, Sherlock invertia o jogo e mexia os peões de forma a deixá-lo com a mente limpa. Sim, porque se a convivência com ele realmente estivesse em jogo daquela maneira, todo o resto seria secundário.
Para manter-se próximo a ele, John, mais uma vez, aceitaria engolir seu ódio. Mais uma vez, abaixaria a cabeça e receberia as suas malditas ordens, aceitaria a sua maldita apatia, tudo! Faria qualquer coisa para não perdê-lo. E se Sherlock não estava disposto a assumir seus sentimentos, John ainda conseguiria conviver com aquilo. Seria quase impossível, mas teria que dar um jeito.
— Eu... não estou... entendendo — murmurou, como sempre fazia quando o cérebro de Sherlock ia à frente, deixando-o perdido, imerso na confusão. — Por que...?
"Por que está fazendo isso comigo?", formulou a sua mente. Mas pela terceira ou quarta vez naquela noite, sua voz se perdia no ar.
Então, começou a ouvir os passos. Passos largos e certeiros ecoaram por todo o ambiente da piscina, e por mais que ninguém tivesse mexido na temperatura da maldita sauna, John sentiu-se mais quente. Depois de dez meses, Sherlock se movimentava para vê-lo. Ainda não sabia como seria aquele encontro, mas a resposta lhe parecia mais do que óbvia: após dez meses sem ele, quando suas pupilas se cruzassem pela primeira vez, acabaria por se render. Sim, já estava a um pequeno passo de fazê-lo, e decidiu que não conseguiria competir com aquilo.
Em poucos segundos, Sherlock terminou de descer sua escadaria e saiu detrás do vão por entre os vestiários coloridos.
Estava mais magro do que John esperara. O cabelo um pouco mais longo, um pouco mais descuidado do que o normal. Ainda assim, não estava com barba alguma, por mais que Lestrade o tivesse descrito com ela; era possível que tivesse se barbeado apenas para aquele encontro? Mas de qualquer maneira, quem se lembrava agora do pobre Lestrade?
— Sher... Sherlock — murmurou, contido.
Não saberia descrever em palavras as sensações que Sherlock liberava sobre seu corpo. Apenas por vê-lo, mesmo que alguns metros ainda o separassem, uma carga elétrica percorria seu organismo, fazendo os pequenos pêlos loiros se arrepiarem, as pupilas dilatarem, o coração se acelerar como em uma cena de crime e os olhos se abaixarem, reconhecendo sua posição naquele combate. Agora, as mãos que se abriam e fechavam já transpiravam, e o pior de tudo era que desde o começo havia sido daquele jeito. Desde o primeiro olhar, até agora. Por todos aqueles anos. Tantos desejos, rejeitados. Tantas oportunidades jogadas no lixo.
— John... Você estava certo — disse ele. John Watson franziu o cenho e o encarou com o canto dos olhos, estranhando.
Eram raras as vezes em que Sherlock proferia coisas como aquela. E se os seus surtos psicóticos eram um pouco assustadores, mais assustadoras ainda eram as vezes em que ele demonstrava traços... Humanos. Sherlock prosseguiu:
— Você estava certo em voltar para o consultório. Se casar. Seguir com a sua vida — concluiu ele, finalmente. — Eu não via isso antes, mas vejo agora.
Meu santo Deus. O que estava acontecendo com aquele homem? O que dez meses de imersão em drogas tinham causado ao seu perturbado cérebro? John interviu:
— Mas de que porra você está...?
Infelizmente não pôde terminar a frase, porque foi interrompido pelo mais alto:
— John, eu...
Olhos azuis desviaram-se dos seus por alguns segundos. As escleras avermelhadas davam a entender que há muito Sherlock não dormia. A face, imersa em dor e confusão, quase não transparecia seus reais sentimentos, e somente uma pessoa treinada como John Watson seria capaz de identificar o que estava por trás daqueles músculos enrijecidos.
— John... — tentou pela segunda vez, a voz se perdendo pelo meio do caminho.
Oh, não. Oh, não. Agora, John já entendia plenamente: ele estava tentando verbalizar. O grande Sherlock Holmes estava tentando verbalizar seus sentimentos, e por mais que John não intervisse mais, o seu olhar assustado, os seus batimentos descompassados, o seu pescoço indicava a frequência com que já estava engolindo em seco. Mas Sherlock Holmes era um leitor de outros seres humanos. E sendo um leitor, ele o leu.
O mais alto franziu o cenho em sua direção, os olhos azuis escaneando cada centímetro do rosto do baixinho.
— Você... Já sabe — concluiu, olhando-o de lado. — Alguém te falou.
— Sim — respondeu o outro, imediatamente, assentindo com a cabeça. Um sorriso de nervoso formou-se em seus lábios, e por um breve instante John se controlou para não rir com aquela ansiedade latente a um passo de tomar o seu corpo. — Mas não pode ser verdade, pode? Você é a droga de um sociopata. Você não pode ter esses sentimentos.
Olhos azuis piscaram lentamente em sua direção, em um movimento que lhe soou um tanto deprimido.
— Eu já não tenho tanta certeza.
— Tem — interviu John, insistindo no movimento afirmativo com o rosto. E por que insistia naquilo, sendo que sempre desejara ouvir tais palavras de Sherlock? Não sabia. Talvez, estivesse com medo. — Tem, sim.
De súbito, os olhos azuis não mais o escaneavam. O encaravam diretamente, imobilizados no único ponto das suas próprias íris castanho-claras. As palavras saíram duras, enrijecidas, como se fosse um martírio pronunciar cada uma delas. Uma verdadeira tortura.
— John, eu tenho sentimentos por você.
Achou que o ar tivesse deixado seus pulmões. O seu coração se contraiu, e não soube dizer se foi pela paixão latente ou se foi pelo medo agudo de descobrir que estava sendo enganado por uma mente brilhante. E se tudo não passasse de um teste? De um experimento? Já tinha tido todas as provas possíveis, e sabia disso. Mesmo assim, o medo de acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Tanto tempo desejando por algo, e agora que o tinha...
— John?
O baixinho abaixou novamente a cabeça, encarando agora os próprios pés. O seu peito tremia, porque por mais que fosse um soldado que já havia visto algumas das piores atrocidades da humanidade, lidar com os sentimentos era muito mais difícil. Muito mais penoso. Vendo a sua reação, Sherlock prosseguiu:
— John, nada vai mudar na sua vida. Eu estou indo emb-
— Tem certeza, Sherlock? — sussurrou o fio de voz que lhe escapou da garganta.
Sherlock piscou, não entendendo aonde aquilo poderia dar.
— O que...?
— Tem certeza... — reiniciou o baixinho, parecendo mais alterado a cada palavra que proferia. Não saberia dizer se estava emocionado ou apenas com raiva da situação e de si mesmo, por não poder desfrutar de algo que lhe parecia tanto ao alcance. E ainda assim... — Tem certeza... Que o chão não vai se abrir e nós estaremos em um experimento? Tem certeza... — e pausou, tentando controlar o excesso de adrenalina que lentamente ia tomando seu corpo, por algum estranho motivo. — Tem certeza que nós não estaremos em uma sala com gravador e...
— John.
— Porque eu estou no meu limite, Sherlock... — rosnou baixo, por entre dentes. Não estava mais conseguindo controlar o que sentia. Simplesmente tinha chegado ao seu limite. Aqueles desaparecimentos de tempos em tempo.... E tantas vezes Sherlock o tinha feito se declarar, para então rir da sua cara...
— John, olhe pra mim — insistiu o mais alto, em tom grave.
— Eu não estou podendo mais...
Não. John não estava podendo mais. Mas menos ainda estava podendo Sherlock.
Por mais que suas habilidades dedutivas estivessem profundamente perturbadas e desfiguradas pelo seu atordoamento emocional, ainda lhe restavam traços delas. E mesmo com aquele déficit, Sherlock analisava as reações do amigo, e todas elas o levavam a uma única conclusão: era recíproco.
Desde sempre, soubera do interesse por parte de John; mas aquele interesse sempre lhe parecera ser físico. As pupilas dilatadas, o pulso acelerado... Sintomas que qualquer animal que tem atração por outro consegue sentir. Mas agora, tirava a prova de que aquele interesse não era meramente físico. Agora, enquanto se declarava, tirava a prova concreta de que John o acompanhara na evolução daquelas emoções, passando ao estágio da raiva, da dor, da negação, e por fim... do amor. Fosse lá o que aquela palavra significava, as suas sensações físicas se assemelhavam demais às das descritas na literatura. E se aquilo era de fato amor, Sherlock compreendia a reação de John; só não podia permitir que ele desacreditasse de si.
Poderia suportar a negação por conta de seu lado racional, poderia suportar o afastamento súbito de John, talvez até mesmo um soco direto e vigoroso na cara como sinal da sua petulância. Mas não podia, simplesmente não podia permitir que John desacreditasse de si. Sabia que já havia errado na vida, e talvez esse fosse o motivo da desconfiança do baixinho. Mas agora, enquanto o via com aquela cabeça baixa, os punhos cerrados, a voz saindo-lhe como um delicado fio da garganta...
Não. Sherlock também não podia mais. Não podia.
Bruscamente, levou ambas as mãos ao rosto do pequeno. Ergueu aquele rosto para si e percebeu quando o par de olhos castanho-claros o olharam com medo; mesmo assim, os ignorou. E ignorando-os, selou de forma quase bruta os lábios trêmulos que tinha à frente.
John não reagiu. Ficou imobilizado, em choque, parado na exata e mesma posição. Os lábios de Sherlock eram tão frios quanto havia imaginado, mesmo dentro daquele recinto quente; ainda assim, pareciam ser o par perfeito para os seus, que quase transpiravam.
O toque durou por alguns segundos. O afastamento de Sherlock foi tão súbito quanto a sua aproximação. E então, dois homens encararam-se com pavor, como se nenhum deles estivesse preparado para o que estava prestes a acontecer.
Mas o medo de Sherlock era introspectivo, enquanto o de John era extrovertido. Era no medo que John Watson sabia agir. Somente no medo. Somente na adrenalina. Somente na incerteza. Somente na paixão do momento, sem premeditar passos, sem planejar as reações, sem racionalizar a sua natureza explosiva e apaixonada.
Agora, o seu coração explodia, e junto com ele, aqueles hormônios. Era tarde demais para recuar: John estava ebulindo.
Mãos pequenas posicionaram-se sobre o rosto de Sherlock, e o toque entre lábios era agora tão violento, que o corpo pequeno praticamente empurrava o mais alto, obrigando Sherlock a recuar, recuar, enquanto John avançava, avançava. Pernas sobrepunham-se umas às outras e por pouco ambos não caíam no chão úmido.
Sherlock não sabia se deveria intervir naquele toque desesperado, mas mesmo que assim desejasse, não conseguiria. A língua úmida de John estava dentro de sua boca, e conforme ela chupava a sua como se sempre tivesse ansiado por aquilo, uma eletricidade violenta tomava o corpo do mais alto, fazendo com que seus órgãos se contraíssem em desejo, as fisgadas no baixo ventre já visíveis a qualquer um que pudesse reparar bem. Água.
Sherlock estava se liquefazendo por dentro. Após todos aqueles anos, água.
As costas do maior foram brutalmente batidas sobre uma parede, e por mais que a dor tivesse ocasionado um gemido abafado pelos lábios do baixinho, foi como se nem sequer a sentisse. O seu sangue estava fervendo. Após tantos anos no frio, Sherlock sentia-se quente. Sentia-se queimando.
Mãos firmes fecharam-se sobre o pulso do menor. Com uma força que não sabia existir dentro de si, Sherlock o empurrou, invertendo as posições, batendo então as costas de John sobre aquela mesma parede. Um gemido sôfrego saiu então dos lábios do menor, e os olhos azuis sorriram em sua direção, por mais que o detetive não esbanjasse sorriso algum no rosto.
Estava desesperado demais para sorrir. Trêmulo demais. Necessitado demais.
Apertando aqueles pulsos contra a superfície lisa em que se encontravam, Sherlock buscou novamente os lábios dele, as pernas sendo fortemente roçadas nas suas, enquanto a respiração ofegante do médico se tornava uma sinfonia para os seus ouvidos.
— Sh... Sher... lock — sussurrava ele, os olhos fechados pela imersão no prazer de senti-lo daquela forma, as coxas instintivamente se separando enquanto as pernas longas do outro eram forçadas sobre si.
De onde aquilo tinha surgido? De que tipo de profundeza tinha saído o homem latejante que prendia os seus pulsos daquela forma, em um instinto quase animal de dominação?
John não sabia, nem lhe interessava. Normalmente lutaria pela posição de liderança, mas ali... Com aquela pessoa... Os seus olhos se fechavam com tanta força ao sentir o órgão latejante dele sobre o seu, que chegavam a lacrimejar. O seu baixo ventre chegava a doer, porque já não podia se conter dentro daquelas calças.
— S-Sher...
Oh, sim. Gemendo o seu nome daquela maneira enquanto o ar de seus pulmões se misturavam.
Tomado agora completamente por um outro ser sombrio que parecia ter vivido dentro de si desde sempre, Sherlock corria os lábios abertos por toda a extensão da pele quente do pescoço dele. Após tantos anos de abnegação, os seus pulmões se enchiam com aquele cheiro. E também dos seus lábios escapava um gemido pervertido quando os olhos claros assistiam àqueles pequenos pêlos loiros lentamente se arrepiando ao toque da sua língua. Oh, meu bom Deus.
— John...
A visão de John tão vulnerável, tão entregue, estava maltratando a sua mente. Desejara aquilo por tanto tempo, mas agora que o possuía, nem sequer tinha tempo de aproveitá-lo, porque era torturado por aqueles gemidos que faziam seu corpo latejar. E como latejava. Os batimentos desenfreados do seu coração já se misturavam ao latejar desenfreado do órgão sexual que ardia em contato com as vestes. Mas o pior de tudo eram os batimentos dele.
Conseguia ouvi-los. Com os lábios sobre aquele pescoço, conseguia senti-los. E os batimentos acelerados do seu pequeno amigo lhe soavam tão obscenos, que Sherlock tinha medo de não aguentar até o fim. Tinha medo de gozar ali mesmo. Talvez fosse mesmo a porra do psicopata dentro de si que estivesse aflorando, mas não importava. Se tinha tesão apenas de ouvir os batimentos de John, eram porque eram os dele. Os dele, e de ninguém mais.
— Sher... lock... — repetiu-se a súplica, afoita.
Oh, era verdade. Sherlock ainda prendia os pulsos daquela pobre alma. Assim sendo, soltou-os brevemente, apenas para dirigir todo aquele desespero às suas calças, enquanto John destinava as mãos formigantes às suas próprias. Desceram-nas em questão de segundos. Sherlock chutou-as para o lado, bem como as roupas íntimas de ambos.
De repente, já não havia peça alguma que os separassem. As vestes residiam no chão, bem como todas as máscaras que tinham usado entre si ao longo daqueles anos. Mas naquele instante, algo aconteceu.
Devido ao contato direto entre olhares – ou talvez ao fato de que via John Watson já nu à sua frente -, o detetive pareceu retomar brevemente a sua consciência. Olhos castanhos fitavam os azuis, e os azuis fitavam os castanhos. Não havia para onde fugir. E por um breve — breve — instante, Sherlock recobrou o seu lado consciente. A sua mente perturbada já ia começar a condená-lo por ter chegado até ali, quando o pequeno interviu.
— N-não... ouse... pensar — sussurrou ele, as íris castanhas fixas nas suas. — N-não ouse, Sherlock...
Então, as pequenas mãos seguraram as dele e levaram novamente à base do seu pescoço, para Sherlock tornasse a sentir seu pulso.
"Tu-dum, tu-dum, tu-dum", fazia aquele coração. Sentindo-o daquela maneira, tão acelerado, tão frenético e descompassado, Sherlock tornou a fechar os olhos, a expressão do rosto voltando a um estado de prazer.
— Você... precisa disso... tanto quanto eu — sussurrou John, a respiração ainda arfante, o membro sôfrego tornando a clamar por atenção, apenas pelo simples fato de ver aquela expressão no rosto do mais alto. Puta que pariu, como precisava tê-lo dentro de si. Era quase como uma necessidade fisiológica.
— E-eu... preciso — sussurrou Sherlock, assentindo suavemente com a cabeça, o deleite tornando a escorrer pelo seu âmago com a sensação daqueles batimentos sobre seus dedos.
Oh, o maldito plano de John acabava de dar certo.
Novamente, o seu lado racional ia perdendo para o lado instintivo. Pela segunda vez naquela noite, o combate ia sendo ganho pela sua parte mais sombria — e mais reprimida ao longo de todo aquele tempo. Novamente, Sherlock ia cedendo e o cérebro ia perdendo forças para as mãos, que tornavam a se fechar sobre os ombros de John, um sorriso fraco estampando os lábios do baixinho conforme voltava a ser brutalmente pressionado contra a parede.
Sherlock ainda não tinha desistido. Não tinha. Ainda não tinha recuado, não tinha condenado a si mesmo, não tinha virado para si e dito que tudo não passava de uma maldita brincadeira. Portanto, o jogo ainda rolava. Pela segunda vez naquela noite, o lado racional de Sherlock lutara contra o emocional, e pela segunda vez acabava de perder. Sherlock ainda era seu. A vantagem ainda era sua.
Trêmulo, John tocou também os ombros do mais alto e apoiou-se um pouco sobre as pontas dos pés para sussurrar-lhe no ouvido, da maneira mais sôfrega que pôde:
— Tome logo, Sherlock – pediu, analisando seriamente enquanto aquele rosto pálido tornava a se embeber no prazer daquelas palavras. A simples visão daqueles traços frios se contraindo em prazer resultavam em uma nova fisgada em seu baixo ventre. – Tome logo... O que você precisa.
Oh, como era difícil jogar naquelas condições. Como era difícil manter seduzida aquela mente tão meticulosa, tão racional, tão calculista. Como era difícil derrubar os peões do seu cérebro, um por um, para tornar a ver os olhos azuis se acenderem no fogo na irracionalidade. Mas valia a pena. Valia.
Porque no instante seguinte, Sherlock encurralava-o novamente naquela maldita parede enquanto órgãos latejantes roçavam-se entre si. Possuído por aquele mesmo espírito que era reprimido dia e noite dentro de si, virou o corpo do pequeno sobre a parede, as mãos úmidas de John já espalmadas sobre aquela superfície lisa, as polpas da bunda desnuda já ao seu alcance.
Então, por mais que estivesse com o rosto fora do campo de visão do mais alto, John sentiu-se queimar em vergonha. Porra, precisava daquilo. E como precisava! Mas tinha também o seu orgulho. Já imaginara algumas poucas vezes como seria um momento daqueles com Sherlock, mas agora que passava por ele... Aquela que se via assim tão exposto, tão realmente vulnerável...
As bochechas queimavam em vergonha. Nunca tinha se visto naquela posição com nenhum outro homem. Nunca tinha sequer se aceitado daquela maneira, e agora, subitamente, era visto daquele ângulo pelo homem que mais admirava no mundo. Um pigarro formou-se na sua garganta. Finalmente chegava o grande momento.
Tenso, John levou suas mãos ao próprio órgão sôfrego, estimulando-o com movimentos de ir e vir, tentando relaxar minimamente naquela posição tão desprivilegiada. Ouvia Sherlock ofegante logo atrás de si, e aquela respiração sofrida batia sutilmente sobre sua nuca, bagunçando alguns dos fios loiros que já estavam úmidos pela transpiração. Não podia desistir agora. Não queria desistir agora, por mais que estivesse mesmo assustado com o que estava por vir.
Como um sociopata fazia sexo? Talvez pensando somente em si? Talvez buscando saciar o seu prazer individual, desconsiderando as necessidades do outro? Não... Não. Sherlock não era daquele tipo. Mesmo que estivesse desvairado pelas próprias necessidades suprimidas ao longo de anos, ele não era daquele tipo. Não era. Sherlock podia ser frio, mas ele era... Generoso. Ele era... Bom.
Bom ao ponto de sempre colocar as necessidades de outros à frente das suas. Bom ao ponto de se preocupar com seus amigos, fazer incongruências para salvar outro ser humano e talvez até...
— S-Sher...lock?
Beijos. Eram beijos que Sherlock depositava em seu ombro. Mas... Por quê?
John fechou os olhos e estremeceu ao contato daqueles beijos. Tão sutis, leves, quase... carinhosos. O que estava acontecendo ali? De repente, percebeu: Sherlock era, acima de tudo, um observador. E se tinha percebido que o baixinho não estava relaxado naquelas condições, é claro que não prosseguiria daquela maneira. É claro que tentaria relaxá-lo.
E funcionava. Ah, sim, como funcionava. De repente, já não era necessário a John continuar aqueles estímulos sobre o próprio órgão enrijecido. O seu peso lentamente ia se soltando sobre a parede, o rosto embebido em uma expressão de prazer e dúvida, cada membro do seu organismo se relaxando àquele contato suave nos ombros. Conseguia sentir os cabelos cacheados passeando pela sua pele conforme os lábios do mais alto caminhavam sobre si. E o contato daqueles fios escuros sobre si o arrepiavam, ao mesmo tempo em que lhe traziam uma estranha sensação de... Paz.
Oh, porra. O que estava acontecendo com aquele homem? O que estava acontecendo consigo? De repente passavam a ter aquele tipo de intimidade como se...? Como se...?
— Desculpe, John — sussurrou ele, às suas costas. A voz grave acariciava também sua nuca, mantendo arrepiados aqueles pêlos loiros, fazendo com que John praticamente se contorcesse sobre aquela superfície. Por que o bastardo tinha que ter aquela maldita voz? Ele prosseguiu: — Talvez não fosse exatamente... o que você estava... esperando — concluiu. E quando ele proferiu aquela última palavra, John sentiu um único dedo sendo posicionado e adentrando o seu orifício exposto por entre as pernas abertas.
Um gemido lânguido deixou seus lábios. Oh, cacete. O dedo já estava molhado, e John não teve dúvidas de que Sherlock o havia levado à boca com muito empenho antes de destiná-lo à sua entrada. Sherlock não apenas o tinha relaxado, como tinha percebido a exata deixa do exato momento para executar uma tarefa como aquela.
E a sensação do seu dedo dentro de si era...
— Aaahhh... Sherlock...
Deliciosa. Simplesmente deliciosa. Conforme o maior ia lentamente aprofundando-se naquela passagem, mais o outro ia relaxando, os músculos ao entorno daquele dedo se afrouxando de forma a permitir o maior contato. Um contato tão lento e tão úmido, que suas pernas iam se afastando mais instintivamente, a testa já ao lado das mãos espalmadas sobre a parede. Entregue.
Então, o segundo dedo. Mais úmido ainda do que o primeiro. E mais um gemido lascivo preencheu o ar, John já oscilando o corpo para frente e para trás, em busca do aprofundamento daqueles toques. A respiração de Sherlock atrás de si já estava mais acelerada e mais ruidosa do que antes.
— J-John...
Sherlock estava em êxtase. A passagem estreita por onde agora deslizavam dois dos seus dedos... tão apertada. Tão quente. Todo o seu rosto estava imerso na sensação de prazer, e se ainda não havia penetrado de fato o homem à sua frente era porque ainda fazia de tudo para se conter. Fazia de tudo para primeiro satisfazê-lo, para só então conseguir pensar em si.
Mas agora, John já oscilava o corpo para frente e para trás, aparentando um relaxamento mais intenso do que em qualquer outro momento. Agora, ele já gemia o seu nome daquela maneira sussurrada, fazendo Sherlock querer cravar os dentes na pele que ao invés disso beijava, o órgão tão rígido, que uma simples expiração chegava a lhe doer. Não estava conseguindo mais. Precisava dar um fim naquilo, antes que saísse novamente do controle.
Com cautela, retirou dele os dois dedos escolhidos, ao que John soltou um resmungo. Debruçou-se sobre ele vagarosamente, o órgão rígido e latejante roçando a entrada sutilmente alargada pelos movimentos terminados. Mordiscou os próprios lábios até quase cortá-los, os dedos longos já trêmulos agora sendo colocados na borda daquela passagem, apenas para melhor posicioná-la. E só de senti-lo aproximar-se novamente, John arfou.
Aquela respiração ofegante. As pernas oscilantes que mal conseguiam sustentar o corpo do mais baixo. Aquelas mãos espalmadas na parede, tão úmidas que por pouco não derrapavam. Os gemidos baixos que repetiam seu nome como a um hino, implorando por maior aproximação... Oh, era tarde demais.
A testosterona o castigou como a um servo. A pressão alta devia ter atingido o seu cérebro, porque agora Sherlock queimava como se uma brasa tivesse se acendido dentro de si. Com alguma violência, puxou os fios loiros para si e adentrou aquela passagem estreita em um só movimento, os gemidos sofridos deixando seus lábios com dificuldade, o grito agudo de John acariciando seus ouvidos.
— S-Sher...lock! — rosnou ele à frente, contorcido naquele misto de dor e prazer, as costas se encurvando em um movimento instantâneo à sua angústia.
Oh, cacete. Mas aquela entrada apertada em torno do seu órgão latejante... aquela textura quente e confortável, em contraste ao pênis que estava a um pequeno passo de explodir...
Todo o seu corpo começava a ter espasmos, antes mesmo de ter alcançado as profundezas de John. Os olhos azuis brilhavam em um misto de prazer e desespero, o ventre tentando encaixar-se mais, aprofundar-se mais no orifício do baixinho, como um mero animal que buscava o coito.
Lentamente, se aprofundava. E quanto mais prosseguia, mais John gania, os braços já não conseguindo sustentar seu próprio corpo, a superfície da pele colando à de Sherlock pela transpiração que escorria das suas têmporas, os olhos fechados com força e o coração acelerado. Acelerado, porque Sherlock Holmes estava dentro de si.
E por mais que a dor de corte agora se alastrasse por todo o seu âmago, um sorriso dolorido formava-se nos lábios, porque o maldito Sherlock Holmes estava dentro de si. Oh, sim. Com um membro tão duro que parecia ter sido criado para aquele momento, mas também tão úmido, que já começava a deslizar pela sua passagem, a lubrificação de ambos se misturando tanto quanto os batimentos cardíacos se misturavam naquele instante.
— A-ah, John... — implorava a voz grave, enquanto o corpo alto debruçava-se sobre si e as estocadas aumentavam em força, as pernas do baixinho já afastadas a um ponto que não sabia como conseguia se manter de pé.
Sim. Quando John escutava aquela voz chamando seu nome e sentia aqueles cabelos escuros roçando a sua pele, já não parecia haver dor alguma. Ao invés dela, nascia um estranho prazer dentro de si. Um estranho prazer que lhe indicava que seu corpo seria quebrado em dois a qualquer instante, mas que talvez desejasse fazê-lo.
— S-Sher...
Desejava. Se pudesse, o engoliria inteiro, mesmo que não sobrasse nem o pó de si mesmo, porque não podia competir com aquilo. O seu orgulho, bem como a sua estabilidade emocional, se liquefaziam juntamente com o ânus, que agora molhado como aquele vapor da sauna, relaxava e contraía conforme as estocadas prosseguiam sobre si.
— M-Mais, Sherlock... — sussurrava, na dúvida entre querer e não querer ser ouvido. Mas por bem ou por mal, Sherlock ouvia, e lá se ia de novo a sua sanidade mental conforme mais força era empregada naquelas investidas, seus pés quase se desencostando do chão pela intensidade com que passava a recebê-lo. — Mais!
Àquela altura, as mãos desajeitadas de Sherlock procuraram também o órgão rígido de John, que soltou uma nova lamúria ao ser envolvido. Os ritmos estabelecidos ao seu orifício se reproduziram também nas mãos do maior, que agora o manipulava em movimentos de vaivém, já não permitindo a John saber se queria se concentrar nas estocadas ou na masturbação desajeitada do seu amigo.
— Ah...!
E naquele vaivém ensandecido, o baixinho perdeu o controle. O seu âmago foi atingido por uma, duas, três vezes e não aguentou mais. Com um grito de prazer, se desfez nas mãos de Sherlock, a próstata palpitando por ter sido atingida enquanto ouvia os gritos graves atrás de si, o líquido viscoso do outro preenchendo-o por completo e escorrendo em excesso pela extensão das suas pernas.
Trêmulos, não puderam se mover. Por alguns segundos, tudo o que se ouviu foram as respirações arfantes, os batimentos cardíacos desenfreados que custavam a retomar seus ritmos naturais. Com um gemido de dificuldade, Sherlock retirou-se de dentro do baixinho, as costas batendo-se com força sobre aquela mesma parede, as pernas fracas se dobrando conforme escorava por ela até chegar ao chão.
Estava inundado no suor. Cada um dos seus órgãos tremia devido ao excesso de força, ao excesso de concentração física que havia destinado aos seus últimos movimentos. E acima de qualquer coisa, o peito subia e descia em um misto de excitação e medo, porque não sabia como tinha chegado até ali. Talvez ainda tivesse alguns minutos de silêncio interno antes que seu cérebro retornasse e passasse a condená-lo.
Quanto a John, não se mexia. Ainda debruçado sobre aquela parede, sentindo aquele líquido viscoso escorrendo por entre suas pernas, suspirou com dificuldade. Usando o que ainda lhe sobrava das mãos, empurrou um pouco aquela parede e permitiu-se também cair sentado sobre o chão quente, ficando agora lado a lado com o outro.
Não se encaravam. Sherlock percebeu que, no meio daquela loucura, tinham migrado para um vestiário dentro da piscina pública; ainda assim, um vestiário que nem sequer tinha sido trancado e que muito menos estava com a porta fechada, de maneira que qualquer visitante poderia tê-los facilmente visto.
E se os tivessem visto? Nunca mais teriam paz. Sairiam nus em todos os jornais da cidade. E acima de tudo isso... Acima de tudo isso... John.
Sherlock levou as mãos trêmulas ao rosto e passou-as vagarosamente sobre ele, escondendo-se do mundo. Oh, não. Oh, não... A sua tortura interna estava começando. E os pensamentos pessimistas começaram a se sobrepôr uns aos outros, não lhe permitindo encontrar lucidez para julgar a situação.
O que acabava de fazer? Meu santo Deus, o que tinha feito? O que tinha causado?
John era a única pessoa que realmente lhe importava na face na Terra. A única que tinha conseguido salvá-lo da sombra de si mesmo, a única que estivera lá para si desde o princípio... E ao invés de preservar a única coisa boa que tinha conseguido conquistar ao longo de sua vaga existência... Ao invés de manter a salvo a única coisa que lhe restava de bom...
Uma dor instalou-se no seu âmago. Se John não dizia nada até agora, aquilo não queria dizer que estava arrependido? Não queria dizer que era muito melhor Sherlock ter sumido enquanto ainda era tempo, deixando ao menos a sua boa imagem como legado? Não podia suportar perdê-lo, ainda mais agora. Se existia alguém no mundo capaz de fazê-lo não questionar a existência de seu lado humano, aquela pessoa era John. Por causa dele, tinha certeza de que ainda estava vivo. E agora, acabava de foder com a única — a única — maldita coisa que tivera a obrigação de preservar.
Mas agora, enquanto o pânico irrompia silenciosamente no seu ser, escutou a voz melodiosa do baixinho, que lhe disse com bom humor:
— Eu sei o que você está pensando.
As mãos de Sherlock foram escorrendo pelo seu próprio rosto, uma fresta abrindo por entre seus dedos, de forma que conseguia agora encarar John com o canto dos olhos azuis. Oh, não. Ele não podia saber o que Sherlock estava pensando. Era impossível, ou então não teria proferido sua última frase com tamanho bom humor.
— Sabe? — sussurrou o detetive, temendo e ansiando pela resposta.
— Oh, sim — respondeu John, assentindo com a cabeça. E, risonho, concluiu: — Nós transamos na porcaria de uma piscina pública!
Puta que pariu. Dentre todos os pensamentos perturbados do mundo, era mais do óbvio que Sherlock não estava tendo aquele. Mas o mais estranho de tudo aquilo era que John conhecia-o! É claro que o baixinho sabia muito bem que estaria se torturando em uma situação como aquela, que estaria entrando em um colapso nervoso justamente por não saber lidar com os próprios sentimentos! Como podia ter imaginado que aqueles eram os seus pensamentos?!
Mas, de súbito, compreendeu. E compreendendo, franziu o cenho em direção a ele, as mãos já se distanciando completamente da face confusa.
John exibia um sorriso bondoso nos lábios. Aquele sorriso de cúmplice que ele apenas dava quando, de alguma forma, conseguia ler os pensamentos do maior. Aquilo queria dizer que John sabia, sim, o que estava pensando; mas ao invés de questioná-lo ou confundi-lo ainda mais, ele apenas fazia uma brincadeira bem-humorada para salvá-lo mais uma vez. Sutilmente, com a maestria de um veterano, ele conduzia-o para a luz.
— John...
— É isso, não é? — insistiu o baixinho, aquele olhar esperto dirigido a si, o sorriso já estampando claramente os lábios meio inchados pelo ato brusco que haviam finalizado há pouco.
O detetive entendeu: era aquela a sua deixa para se salvar. E para o bom entendedor, meia palavra já bastava,
— É-é... Sim — respondeu a voz grave, o detetive agora também assentindo com a cabeça. — Uma maldita piscina, hein.
Em um sinal de lamento pela péssima interpretação de Sherlock, John passou as mãos no rosto e começou a rir. E vendo-o rir daquela maneira, Sherlock passou a rir também, os pensamentos negativos subitamente silenciados pela graça de ver aquele homem rindo ao seu lado.
— Agora, essa sim é a coisa mais ridícula que nós já fizemos! — concluiu o médico, tomando fôlego por entre a própria risada.
Riram por algum tempo juntos, até que Sherlock suspirou, os olhos azuis perdidos em algum ponto no chão à sua frente, o sorriso fraco ainda estampado nos lábios finos. Respondeu:
— Espero que hajam mais vezes ridículas como essa.
Uma frase que lhe atingiu em cheio, bem no peito. Mesmo assim, John Watson era bom em disfarçar as suas fragilidades. Era bom em disfarçar os momentos em que seu coração parecia a um passo de sair pela boca, embebido na paixão, na necessidade, no afeto. Era bom em disfarçá-los, porque afinal, tinha aprendido com o mestre.
Assim sendo, apenas mordiscou os próprios lábios e assentiu novamente, os olhos castanhos também perdidos em algum ponto distante.
— Eu... Também espero.
— Acho bom você se vestir logo.
— Acho bom você se vestir logo — respondeu John, rindo.
E agora, enquanto o ouvia dar aquela sua risada adorável, Sherlock se dava conta de que não estava mais perdido. Talvez não fosse mesmo um sociopata funcional; talvez, tudo o que soubera sobre si até aquele momento estivesse equivocado, mas o fato era que simplesmente não importava.
Por mais que não soubesse exatamente como resolveriam aquela situação, não era preciso explicitar em palavras que John o havia escolhido; acima disso, não era preciso colocar em palavras que Sherlock não iria mais deixar a cidade de Londres. Não poderia deixá-la, porque tudo o que tinha de precioso na vida encontrava-se ali. E somente ali, ao lado de John Watson, sentia-se vivo.
Era possível que viver fosse mesmo isso: lutar contra suas limitações durante todos os dias da vida, o que significava esforçar-se para aceitar a si mesmo. Esforçar-se para conseguir conviver dentro de sua mente e com seus próprios sentimentos.
Um verdadeiro martírio para um homem como Sherlock. Mas com John ao seu lado, um martírio tão insuportavelmente adorável e irresistível. Um martírio tão convidativo aos seus olhos frios; porque agora, enquanto o via rir e lançar aquele olhar que somente John Watson lançava, dava-se conta de que não desejava perder um segundo sequer daquela terrível tortura de conviver com com a sua melhor parte.
Fale com o autor