Johnlocked

1 O Silêncio de Mycroft


No grande escritório pertencente a Mycroft Holmes, entrou um homem molhado. As suas vestes destoavam dos trajes formais aos quais Mycroft estava acostumado naquele Parlamento. Também destoava o homem em sua postura, que não era nada pomposa, nada requintada e nada carismática. Ao invés de postar o sorriso irônico com o qual os homens do governo frequentemente se apresentavam entre si, John Watson exibia uma expressão de profundo atordoamento, a seriedade estampando os lábios pálidos pelo frio e os olhos avermelhados pela insônia. Ali estava um homem perturbado.

— Ah, John Watson — cumprimentou Mycroft, arqueando as sobrancelhas pela surpresa de vê-lo postar-se ali, bem à entrada de seu escritório. Eram raras as vezes em que John Watson se apresentava de livre e espontânea vontade, sem a necessidade de um convite compulsório.

O homem não estava para muitas palavras. Os olhos castanhos pareciam mais duas lâminas afiadas com as quais ameaçava o outro à sua frente. Trêmulo, como se tivesse saído de um filme de terror ou de um nevoeiro que causava sensação térmica de menos cinco graus na rua, ele caminhou até a longa escrivaninha que os separavam.

— Me diga — cuspiu Watson as palavras, erguendo as mãos nas quais carregava uma papelada revestida em plástico molhado e jogando-a vigorosamente sobre a mesa do Holmes. — Me diga que você sabe onde ele está.

— Oh, vejo que você recebeu pistas.

— Me diga! — rosnou o outro novamente, batendo repetidas vezes a papelada plastificada sobre aquela mesma escrivaninha.

Ao som do grito, um outro homem alto e de trajes formais apareceu na porta da sala, fazendo a Mycroft um sinal que perguntava se deveria intervir. Era um segurança. Mas tudo o que o Holmes fez foi um sinal de desdém que o dispensou. Voltou sua atenção ao baixinho que gritava à sua frente.

— É claro que sei — respondeu, dando-lhe brevemente as costas para ajeitar na estante de livros um que estava torto. Não era comum demonstrar sinais de ansiedade quando era visitado por uma pessoa qualquer. Mas naquela noite, Mycroft estava muito além dos níveis de ansiedade com os quais estava acostumado. — Já mandei você não se meter nisso, John Watson. É pra isso que você veio até aqui?

— Você está mentindo — retrucou o baixinho, reparando em como o homem agora acertava todos os livros na estante para que nenhum destoasse da estética compulsiva do escritório. — Se você sabe onde ele está, por que ignorou todas as minhas ligações? Por que você se recusou a me receber?

— Eu estou te recebendo agora, não estou? — perguntou o Holmes, como se falassem de um assunto leviano como o tempo.

— Eu ando pela cidade de Londres e as câmeras não me acompanham. Você não me liga mais pra ter notícias semanais do seu irmão. Você não me atende, se recusa a me receber e não analisa as provas, mas fica olhando-as com o canto dos olhos enquanto arruma essa estante igual a um lunático! — gritou, não mais conseguindo se conter.

Mycroft parou as mãos exatamente onde estavam. Então era isso? Um lunático que demonstrava ansiedade ao arrumar a estante de livros?

Piscou lentamente os olhos que ainda estavam fixos na superfície de madeira à sua frente. A quem estava tentando enganar? Lentamente, virou sobre os calcanhares e encarou o baixinho novamente. Ainda assim, tentava soar despreocupação.

— Não vamos nos alterar — sugeriu, o sorriso irônico tomando seu lugar costumeiro. — Você quer contar a sua história?

Os punhos de John fecharam-se em ódio — ou nervosismo.

— Minha maldita história é que Sherlock Holmes está sumido há dez meses, e a última vez que ficou sumido por tanto tempo, nós pensávamos que ele tinha morrido. Mas, mesmo naquela época, você sabia onde ele estava. E agora... Você não sabe mais, Mycroft. Você simplesmente não sabe mais.

— Vamos pular para a parte dos casos.

Trêmulo, John indicou a papelada que repousava sobre a escrivaninha.

— É o sétimo que ele me envia. Ele não espera que eu solucione o caso, ele apenas... Me envia os pedidos dos clientes e as soluções. Ele resolve os casos sozinho, mas me envia as soluções para que eu as apresente. Então, os clientes me pagam! Eu fico com o crédito, mas não sou eu quem soluciono os casos.

Mycroft pensou por alguns segundos. Inúmeras possibilidades surgiam à sua mente, mas ainda não valia a pena proferi-las. Por que Sherlock Holmes estava desaparecido e mesmo assim continuava mandando John entregar as soluções daqueles casos? Mais do que isso, por que estava solucionando os casos totalmente sozinho, e mesmo assim se recusava a aparecer com as respostas para os clientes? Por que dar a John todo o crédito? Ou então...

A não ser que ele não quisesse dar-lhe o crédito, mas apenas quisesse continuar desaparecido, mesmo assim mantendo sua produtividade como detetive.

— E por que você não se nega a continuar entregando os resultados? — indagou o mais alto.

— Porque... — e Watson parou, pigarreando de nervoso. — Porque são pessoas desaparecidas. Ele as está encontrando.

As sobrancelhas castanhas do outro se arquearam em sinal de curiosidade.

— Sherlock está resolvendo casos de desaparecimento?

John mordiscou os lábios e assentiu com a cabeça, antes de responder:

— Única e exclusivamente.

Por alguns segundos, ninguém falou nada na sala. O mais baixo continuava abrindo e fechando as mãos em sinal de ansiedade, enquanto Mycroft não se movia. Seus olhos estavam caídos sobre o chão, distantes, como se a mente borbulhasse em pensamentos. Até que John recomeçou a falar.

— Sherlock sempre foi criterioso ao escolher os casos. Ele quase sempre negava casos que considerava idiotas, passando-os à Scotland Yard por serem fáceis demais. Ele apenas aceitava casos fáceis quando não tinha mais nada para fazer. Mas agora, por algum motivo... Ele está aceitando todos os casos de desaparecimento. Todos.

— Talvez ele esteja mesmo entediado.

— Você não está entendendo, Mycroft — insistiu o outro, meneando a cabeça negativamente. — Sherlock, ele... Todos esses casos são de antes de ontem.

— Ele solucionou sete casos em dois dias?

John suspirou, um pesado fardo sendo sentido sobre as suas costas. Sherlock estava sozinho, desaparecido há dez meses, solucionando agora casos de desaparecimento freneticamente, como se isso já não fosse irônico o bastante.

— Os cinco primeiros... Eu anunciei. Fechei o consultório, fui até os clientes e até a polícia. Eu entreguei as respostas e fiquei com os créditos. Mas esses dois últimos... Eu recebi agora. Não faz nem duas horas, Mycroft. Pra ter entregado isso na minha porta há duas horas, ele não pode estar muito longe...

— Errado. Sherlock conhece todos os indigentes e moradores de rua dessa cidade. Ele pode estar há quilômetros de distância.

— Você tem que me ajudar.

— Você pensa que não quero saber onde se meteu o meu irmãozinho? — proferiu o maior, dando uma ênfase sarcástica à palavra "irmãozinho". O sarcasmo facilitava as relações humanas e disfarçava o seu desespero emocional. Há dez meses, ele próprio não dormia pela dificuldade em localizar Sherlock, mas não conseguia admitir isso em palavras. Como podia Mycroft Holmes falhar em localizar um ser humano na face da Terra?

— Então, por que você não vê esses malditos casos?!

— Você é que não está entendendo, John Watson — retrucou, revirando os olhos nas órbitas. — Se Sherlock não quer ser encontrado, ele não será encontrado. Não existe nenhuma pista nessa papelada que possa te levar até ele.

— E se ele quiser ser encontrado?

A princípio, Mycroft achou aquela possibilidade tão ridícula, que tomou fôlego para desmoralizá-lá. Por que raios Sherlock deixaria pistas que ajudassem alguém a encontrá-lo? Se queria ser encontrado, por que simplesmente não aparecia bem ali? Não fazia sentido. Seu irmãozinho era, no fundo, temperamental, mas nunca havia sido sensível ou carente. O Sherlock que Mycroft conhecia não apenas evitava deixar rastros de si mesmo como também desprezava os psicopatas que buscavam atenção por ego. Ele não era do tipo que fazia joguinhos, mas sim do tipo que os solucionava. Mas ainda assim... ainda assim...

Não retrucou. A verdade era que, desde que conhecera John Watson, Sherlock se tornava uma pessoa mais intrigante a cada dia. Ele, que nunca se preocupara com nada na vida, finalmente tinha agora um ponto fraco. E quando as pessoas têm pontos fracos, fazem coisas que a razão desconhece. Era possível que ele quisesse ser encontrado?

— Olhe — suplicou o baixinho à sua frente. As pequenas mãos empurraram em sua direção a papelada plastificada que estava sobre a escrivaninha.

E assim, sem dizer mais nada, Mycroft a pegou. O plástico que envolvia aqueles papéis era transparente e parecia ser do tipo que embalava alimentos. Pelo mau cuidado do seu estado, estava mais do que óbvio que John Watson o tinha colocado ali, provavelmente para evitar que os papéis se molhassem ao sair na neve e na chuva. De fato, o plástico estava molhado, mas os papéis do seu interior estavam completamente secos.

Abriu o plástico e retirou lá de dentro a pequena pilha de papéis. Separou-os meticulosamente sobre a sua grande escrivaninha, tendo o cuidado de colocá-los na mesma ordem que John os tinha separado: por ordem de chegada pelo correio.

Tratavam-se de sete casos de desaparecimento. Os três primeiros eram recortes de anúncios do jornal que pediam ajuda. Os dois seguintes eram cartas endereçadas à residência de Sherlock Holmes (221 B, Baker Street), que contavam os casos por extenso. Os três últimos — sendo dois deles extremamente recentes — eram impressões do próprio blog de John Watson, no qual as pessoas, em seus comentários, clamavam por ajuda.

O Reino Unido era grande demais. As pessoas se perdiam como agulhas em palheiro, fosse pelo descuido da família ao cuidar das crianças, fosse por casos explícitos de sequestro, fosse por fuga por distúrbios psicológicos. Enfim, as razões eram as mais variadas. Mas o mais curioso de tudo aquilo era que os casos não se limitavam a Londres. Na verdade, nem sequer se limitavam apenas à Inglaterra, mas estavam espalhados por todo o Reino Unido.

Mas se Sherlock tinha resolvido sete casos em dois dias, sendo esses sete espalhados por todo o Reino Unido, como seu irmãozinho estava conseguindo se deslocar tão depressa para solucioná-los? Estava viajando? Comprando passagens de avião? Impossível. Mycroft estava com todo o país sobre sua lupa, e até mesmo uma mísera passagem de avião comprada em nome de Sherlock Holmes teria caído em seu conhecimento. A não ser que ele... estivesse usando um pseudônimo? Não. Não, não, não!

Passou as mãos sobre o rosto, atordoado. Oh, não. Estava caindo no jogo! Estava pensando como um leigo!

Sherlock não queria ser encontrado. Por isso aquela armadilha. Qualquer um que pegasse a papelada em mãos estaria se perguntando como ele havia solucionado aquilo, mas o fato era: não importava! Era uma armadilha para perder tempo. O que realmente importava era: por quê? Por quê?

— E então? — perguntou John após alguns segundos. Mas foi completamente ignorado.

Mycroft Holmes agora estava em seu próprio palácio mental. Juntava e separava aqueles casos, reparando que anexadas a cada um deles, estavam as respostas dos paradeiros dos desaparecidos. Endereços completos até com CEP, alguns sendo acompanhados de fotografias das pessoas naqueles locais.

Mycroft vasculhava as palavras daquele documento meticulosamente, obsessivamente, e ia deslizando os casos sobre a mesa de forma a juntá-los e desjuntá-los de todas as maneiras possíveis, tentando descobrir neles um padrão que provavelmente não existia. Uma mensagem que não era possível.

Ao observá-lo daquela maneira, John sentia seu coração palpitar, porque lembrava-se dele. Apesar de ser profundamente diferente de seu irmão, Sherlock possuía alguns dos seus trejeitos, especialmente quando ambos estavam com o cérebro fervendo em informações. A forma como os olhos azuis se estreitavam e arregalavam, correndo rapidamente pelo amontoado de fatos... A forma como fechavam-se em si mesmos, deixando todo o resto do mundo para trás...

Ah, como John sentia a sua falta. Como sonhara com Sherlock todas as noites nos últimos dez meses... Como desejara, mais do que nunca, estar próximo dele... E Mycroft não supria aquela ausência. Lamentavelmente, enquanto o observava e enchia o seu coração de uma provável falsa esperança, John se dava conta de que a imagem do mais alto apenas fazia piorar a dor da falta de Sherlock. O buraco dentro do seu peito se alargava, e por um breve momento, o seu pulmão parecia tão pequeno, que mal podia respirar.

Onde ele estava? Onde estava...?

Subitamente, ouviu-se um estrondo dentro da sala, e John pulou com o susto do barulho. Estivera avoado nos últimos segundos e pensou ter visto errado quando se deu conta de que o estrondo provinha do fato de que Mycroft simplesmente soltara o corpo de uma só vez sobre a cadeira da escrivaninha. Os olhos não mais corriam sobre os casos; agora, estavam estáticos. Estáticos sobre a mesa e mais distantes do que nunca. O seu semblante era de uma preocupação que John nunca vira estampar seu rosto.

— Mycroft...? — chamou, franzindo o cenho em sua direção.

Mycroft não ouvia. De repente, John deu-se conta de que a mão do mais alto também estava trêmula. E enquanto olhava para dentro de si, os olhos desesperados pousados sobre um canto qualquer da sala, a mão ia sendo levada à testa em um sinal de lamento. Em um sinal de desesperança.

E tão subitamente quanto voltou de seus pensamentos, John percebeu: Mycroft tinha descoberto algo. Mas, fosse lá o que havia descoberto, aquilo o tinha deixado tão desconcertado — tão verdadeiramente atordoado — que não se movia, nem falava. Mas o que no mundo era capaz de desconcertar aquele homem, que já tinha visto ou vivido quase tudo que havia para viver naquela existência?

— Mycroft! — exclamou, irritado com a falta de reação do homem, batendo as duas mãos espalmadas sobre a escrivaninha, na intenção de chamar-lhe a atenção. — O que é?! O que você viu?!

À falta de reação do maior, John se desesperou. Tentou enxergar o mesmo que ele havia visto naqueles casos, e foi revirando-os e revirando-os, tentando observá-los do mesmo ponto de vista do outro, a mente fervilhando para tentar entender o que estava fora da sua capacidade.

— Mycroft!

E então, algo deixou os lábios de Mycroft, mas as palavras não se dirigiram a John. Ele falou enquanto seus olhos ainda encaravam o nada, em um murmúrio que se destinava mais a si mesmo do que a qualquer outro, como se pensasse alto. E o único substantivo que deixou os seus lábios trêmulos foi um chamado:

— Sherlock...

Mais uma vez, John bateu as mãos sobre a mesa. Puta que pariu! Deveria socorrê-lo? Os seus instintos médicos quase o alertavam para o fato de que aquilo se assemelhava a uma crise de pânico, mas o próprio John estava em pânico demais para dar atenção ao seu lado doutor.

— O que tem Sherlock?! — insistiu, procurando as pistas desesperadamente naqueles casos. Mas não via nada. Não via nada além de um amontoado de palavras! Nada que pudesse remeter ao desapareciemento de Sherlock! — O que tem ele?!

E tão logo quanto se perdeu, Mycroft pareceu despertar do seu transe de lamúrias. Os olhos azuis, mais frios do que nunca, dirigiram-se ao baixinho. As mãos dirigiram-se a um pequeno sino que ficava sobre sua mesa. E, trêmulas, elas o balançaram no ar, um tilintar sendo ouvido e reverberando agora por toda a sala.

John tentou protestar, mas quando viu, já era tarde.

— M-Mas o que...?

Surgiu novamente, ao fim do escritório, um homem alto e forte, vestido em trajes formais. O mesmo que se oferecera há poucos minutos para intervir naquela estranha reunião. Dessa vez, porém, Mycroft não o dispensou. Ao invés disso, ergueu-se da cadeira e deu as costas ao visitante, ao mesmo tempo em que ordenava ao outro cavalheiro:

— Mostre a saída a este homem.

Oh, não. Não, não! John pensou ter ouvido errado, mas não tinha. Mycroft o estava expulsando.

— Mycroft, mas o que...!

Sentiu mãos fortes o puxando para trás, e antes que pudesse entender a brutalidade com que era tratado, sentiu-se sendo arrastado para fora do escritório. Ebulindo em ódio, prestes a avançar naquele homem que de nada tinha servido além de preocupá-lo mais ainda, gritou e se debateu no ar, gritando:

— Onde está ele, Mycroft?! O que houve com Sherlock?! O que houve com ele?!

De nada servia o seu debater, porque o segurança, muito maior do que si, continuava arrastando-o para fora da sala. E a última coisa que ouviu antes de ser praticamente jogado para fora, foi também um murmúrio que não soube dizer se era fruto dos seus pensamentos ou palavras de fato proferidas por Mycroft. Elas diziam:

— Salve-o, John Watson. Salve-o de si mesmo.

Foi gentilmente empurrado para fora do Parlamento, a chuva e a neve tornando a cair sobre seu corpo e suas vestes. Nas suas mãos, foi lançada também a pilha de papéis plastificados que continham a mensagem codificada por Sherlock.

Notas finais
Sugestões, comentários, recomendações?
Façam uma autora feliz!