John Wayne - O Viajante do Tempo
2 Capítulo 1
– Depressa, filho! Não dá mais tempo, você já arrumou suas coisas? — gritou a mulher, escancarando a porta do quarto do menino e rapidamente entrando para pegá-lo.
– Já, mamãe! — respondeu o garotinho com sua mochila nas costas.
– Venha, rápido! — e ergueu-o em seu braço esquerdo, enquanto com o direito carregava duas bagagens cheias de roupas. A mulher mais parecia uma ambulante, com tanta coisa que carregava em seus braços e que havia colocado ao redor de seu corpo.
Descendo as escadas da casa, o ambiente não era o mais amigável de todos: roupas e objetos espalhados por toda a casa, não de forma bagunçada, mas como se alguém tivesse revirado a casa em busca de algo específico. Correndo em direção da porta, o menino tratou de ajudar sua mãe quando girou a maçaneta e escancarou a porta de sua casa, liberando a visão de algo mórbido e digno de um filme de terror.
O cenário ao redor assemelhava-se as profecias bíblicas do apocalipse. As pessoas corriam em desespero pelas ruas buscando desesperadamente a salvação, que aparentemente estava escondida em algum lugar daquela cidade; outros, horrorizados, observavam o local que um dia eles chamaram de lar se tornar um cenário de guerra e terror. Para muitos, a última centelha de esperança estava há alguns quilômetros de distância dali, onde os últimos helicópteros levantavam voo, levando consigo grupos pequenos de moradores da cidade. Para outros, o último suspiro, o momento final de uma vida que terminaria de forma tão abrupta, vítima de um ataque nuclear, anunciado pelo som ininterrupto de diversas sirenes espalhadas pelas ruas.
– Pra onde todo mundo está indo, mamãe? — perguntou o garoto coçando os olhos, recém despertos.
– Nós vamos viajar... Vamos mudar de casa. — respondeu, enquanto corria e desviava de uma gama enorme de obstáculos.
– Mas eu não peguei o meu Capitão Tuber, ele tem que vir com a gente! Ele vai proteger a gente, mamãe...
Ela mal deu atenção ao que seu filho havia comentado, dando mais importância ao fato de aqui e ali, do fundo dos becos, do interior dos carros e de cada casa abandonada, surgiam saqueadores, e chegar perto de um saqueador em uma situação como aquela era apenas indício de que você queria briga pelo que ele estava carregando. Naquelas condições, qualquer distração poderia criar um efeito bola de neve devastador na vida de Melissa e John.
Há alguns quilômetros da rua estreita e movimentada pela qual mãe e filho passavam velozmente, um projétil devastador partia o ar, traçando o rumo daquela cidade e logo, do mundo. Seguindo a trajetória do míssil, encontramos os últimos botes salva-vidas, preparando-se para salvar uma pequena parcela dos moradores da cidade. As histórias de inúmeras famílias sendo traçadas a partir daquele momento, sendo contadas por um único ato militar que acabaria destruindo tanto por tão pouco. Alcançar os botes não seria tarefa fácil, ainda mais com a situação de certas ruas devido aos "pedágios": ruas bloqueadas por gangues que apenas permitiam sua passagem para alcançar os helicópteros depois de pagar uma pequena taxa. Aos homens, dinheiro e coisas valiosas deveriam ser entregues; Para as mulheres, apenas as bonitas tinham a chance de sobrevivência, tendo que se submeter ao sexo. As consideradas feias eram executadas imediatamente.
Próximo a um destes pedágios uma mulher carregava consigo um menino no colo, em uma corrida desenfreada para alcançar os botes salva-vidas, e pelo rumo que a mesma estava tomando, o destino era certo: Ela precisaria pagar o pedágio.
– Mamãe, o que é aquilo? — disse o menino apontando em direção ao aglomerado de carros que bloqueavam a rua logo à frente deles.
–"Merda." — pensou, esquecendo-se de responder ao menino.
Alguns metros à frente estavam os juízes do apocalipse, aqueles que definiam quem podia lutar pela própria vida e aqueles que simplesmente morreriam. Enquanto alguns dos vagabundos cobravam o pedágio da forma mais brutal possível, outros empunhavam suas armas e proferiam a última sentença dos pobres coitados que eram julgados... A morte.
Com um pensamento rápido Melissa olhou para os lados, tentando encontrar uma passagem alternativa que lhe oferecesse segurança para passar pelo pedágio improvisado. Ela sabia que, em qualquer uma das hipóteses possíveis, ela e o filho seriam barrados e consequentemente não chegariam aos helicópteros, e numa decisão arriscada, ela virou à esquerda, entrando em um beco longo e estreito. Sua esperança era que não houvesse outro pedágio na rua ao lado, mas se houvesse, ela continuaria seguindo até achar uma rua que estivesse livre para garantir a segurança de seu filho.
Melissa era uma corretora de imóveis que conhecia bem a cidade onde vivia com seu filho de cinco anos e seu marido. Casada com um comerciante chamado Nicholas Wayne, dono de uma importante rede de supermercados da região, o relacionamento dos dois começou na adolescência e se estendeu até o casamento e ao primeiro e único filho do casal. No entanto, um dos principais problemas de qualquer empresário de renome é o fato de precisar cuida de sua empresa, e Nicholas não era diferente disso. Por uma infelicidade — ou felicidade — do destino, Nicholas havia saído em uma viagem de negócios e só voltaria em uma semana, o que deixava Melissa e seu filho sozinhos em uma cidade sem leis.
Atravessando o beco estreito, sujo e impregnado com o cheiro de sangue e restos humanos, mãe e filho depararam-se com uma rua livre de pedágio. Por um instante uma sensação de alívio percorreu o corpo de Melissa quando ela conseguiu finalmente sentir um ar levemente mais puro e viu a rua à sua frente vazia, uma sensação que logo se esvaíra quando ela percebeu a gravidade de sua situação, e que o pedágio era o menor de seus problemas. Tomando o controle de respiração ofegante, Melissa iniciou novamente sua corrida em direção aos botes salva-vidas, desviando dos carros e corpos mortos no chão. Restavam cerca de dez minutos para a explosão e Melissa precisava correr cerca de um quilômetro para alcançar o seu último obstáculo: a barreira militar.
A um quilômetro de distância dos dois, uma grande barreira improvisada protegida por homens fortemente armados se estendia por um longo trajeto que contornava praticamente todo o espaço onde os helicópteros se encontravam. Ao seu redor, uma massa enorme de pessoas disputava as poucas vagas que ainda restavam, as últimas na lista de sobreviventes. Ali, não haviam amigos e nem parentes, apenas o instinto primordial e individual de cada ser humano: o instinto de sobrevivência. Naquela barreira as pessoas transformavam-se em animais carnívoros e famintos brigando por uma presa gorda. As ordens iniciais proibiam os militares de usarem disparos letais para conter a multidão, mas, assim que o primeiro helicóptero foi derrubado por um erro na contenção de multidões, o uso de munição letal foi liberado, apesar de ter sido segurado ao máximo.
A frente dos soldados, onde a vista já não alcançava com tanta facilidade, Melissa deixava cair uma de suas malas de roupas. Assim que ouviu o baque de sua bolsa caindo no chão, ela teve o desejo de parar para pegar a bagagem, mas no milésimo de segundo seguinte ela tomou a decisão de continuar correndo e evitar o desperdício de tempo. Roupas não valiam tanto assim, e aos poucos a bagagem de mão branca com listras pretas foi ficando para trás, esquecida no meio de tantos outros objetos e pertences deixados para trás pelos desesperados em busca da sobrevivência.
O relógio da vida marcava menos de dez minutos até a meia noite. Para Melissa, o relógio parecia correr de forma favorável, depois de uma maratona inteira, ela e seu filho estavam finalmente próximos dos helicópteros.
A jornada estava chegando ao fim, mas o maior desafio estava prestes a começar: ambos se depararam no final de uma longa fila de pessoas com o mesmo objetivo, viver. Era fato que mais da metade daquelas pessoas morreria sem ter ao menos a chance de lutar pela sua sobrevivência quando, eventualmente, as barricadas começassem a ser derrubadas pelo povo ensandecido. E, num pensamento rápido, Melissa percebeu que não podia ficar parada esperando que a foice da morte lhe arrastasse para o outro mundo junto com seu filho, então ela tomou a única medida que um ser humano racional tomaria: Usaria o cérebro. Enquanto os outros tornaram-se animais enfurecidos, Melissa manteve a calma e buscou a solução mais eficaz para sua segurança e a de seu filho. Ela percebeu que a barreira não era vigiada em toda sua extensão, então tudo que ela precisava era encontrar um ponto cego, entrar e subir em um dos helicópteros sem ser vista. Simples como trocar uma lâmpada. Correndo pelas laterais da barreira, Melissa procurou um ponto cego.
Seis minutos antes do impacto e o penúltimo helicóptero começava a receber seus passageiros, e a corrida contra o tempo apenas tornava-se mais e mais acirrada.
Vasculhando quase que descontroladamente, Melissa encontrou um ponto cego — ou quase isso -, era sua melhor e única chance, ela havia encontrado um ponto da barreira que estava longe o suficiente da visão dos militares e, ao mesmo tempo, estava próxima o suficiente do helicóptero. Rapidamente ela colocou as bagagens no chão e passou John calmamente pela barreira, passando logo em seguida a mala que ainda havia sobrado e a si própria.
– John, você está vendo aquele helicóptero ali? — perguntou, abaixando-se na altura do menino e apontando para o helicóptero.
– Sim, mamãe, por quê?
– Nós vamos precisar ir até lá bem rápido, tá certo?
– Certo.
Por um breve instante Melissa olhou para John e esqueceu-se do tempo que corria como um míssil vindo em direção ao seu destino. Por um milésimo de segundo, ela se deixou levar por inúmeros pensamentos e logo estava pensando em quem seu filho se tornaria depois do que aconteceria ali, o mundo em que ele viveria e o que aconteceria com ele caso ela não conseguisse salvá-lo. Num gesto involuntário, ela o tomou nos braços e o abraçou com força, como se aquele fosse seu último abraço juntos. As lágrimas brotaram de seus olhos e logo começaram a derramar na pequena mochila que ele carregava em suas costas.
– Não chore, mamãe... A gente vai chegar no helicóptero e vamos pra outra casa, mas o tio Marvin e a tia Helena vão nos visitar depois em outro helicóptero na nossa nova casa. — disse com ingenuidade o garoto, referindo-se ao casal de idosos que moravam vizinhos a casa dele, e que neste momento desfrutavam de seus últimos instantes juntos.
E com as lágrimas encharcando-lhe os olhos, Melissa tomou coragem e colocou seu filho em seus braços, ergueu a bagagem que carregava consigo, enxugou as lágrimas dos olhos e normalizando sua respiração ofegante e seu coração disparado, ela arrancou em velocidade na direção do helicóptero.
Três minutos. Restavam apenas algumas poucas vagas para o último bote salva-vidas disponível. Ao seu lado, a alguns metros de distância, os militares disparavam contra os que tentavam invadir as contenções e, distraídos com a multidão a sua frente, não perceberam quando uma mulher e uma criança corriam em direção ao último helicóptero disponível. Mas por um acaso do destino, um dos soldados virou seu rosto levemente para a direita e, com o canto do olho percebeu uma movimentação estranha ao seu redor. Cessando os tiros de seu rifle, o soldado virou-se rapidamente para conferir o que suspeitava ser um invasor e, por fim, atestou o que acreditava ser verdade.
– Parada aí! — gritou quase instintivamente enquanto abria fogo em direção à Melissa.
Os disparos percorreram o ar em câmera lenta, criando um véu de fumaça que estendia-se em linha reta até passarem próximos a Melissa. A maioria dos disparos da arma passaram longe da mulher, que movimentava-se o mais rápido que podia enquanto, ao mesmo tempo, protegia seu filho dos disparos do soldado. Ela sabia que se conseguisse chegar ao helicóptero ele teria que parar de atirar, caso contrário, acabaria matando algum dos oficiais próximos ou mesmo danificando a aeronave.
Sua respiração estava ofegante, seu coração pulsava tão rápido que parecia esbofetear seu próprio peito, suas pernas ameaçavam fraquejar num momento tão crucial em virtude da corrida extensa que tinha desempenhado, e ali ela se deu conta de que deveria ter saído mais vezes para correr e ido mais vezes à academia, quem sabe agora ela não conseguiria correr mais rápido e sem tantos efeitos colaterais que ameaçavam sua vida e a de seu filho. Nesse momento ela percebeu que já não segurava mais a sua outra bagagem, percebeu que a mesma tinha sido solta há algum tempo num movimento involuntário para liberar peso. E foi nesse mesmo momento, quando ela se encontrava há pouco menos de dois metros de distância do helicóptero, que o soldado lembrou-se de todas as suas aulas de tiro e de suas noções de uso de sua arma e conseguiu puxá-la um pouco para a direita e antecipar um movimento que Melissa realizaria em sua corrida, e com um único disparo ele acertou suas costas, criando um furo que atravessava o lado direito de sua retaguarda e saia diretamente pelo meio de seu peito, fazendo jorrar uma explosão de sangue, daquilo só havia uma certeza: Seu coração havia sido atingido.
Seus olhos se arregalaram, sua respiração ficou molhada, suas pernas fraquejaram e quase que instantaneamente ela caiu no chão. O menino caiu logo à frente, rolando no chão desequilibradamente e parando de frente para o helicóptero. Tão próximos, porém, agora tão distantes um do outro... O soldado havia cumprido suas ordens.
– John... — proferia aos poucos Melissa — suba no helicóptero.
Qual a sensação de um menino de cinco anos vendo sua própria mãe no chão, sangrando e próxima da morte? John havia descoberto essa sensação da pior maneira possível. Por um momento, o pequeno rapazinho correu em direção a sua mãe para ajudá-la a se levantar, como se ela tivesse tropeçado e caído por conta de uma pedra no chão. Para uma mente tão jovem como a dele, a morte ainda não era algo conhecido, e assimilá-la pela primeira vez com a morte da própria mãe seria algo definitivamente infeliz.
– Meu amor, suba no helicóptero, você precisa ir. — Sua voz ficava cada vez mais fraca, enquanto ela usava seus últimos suspiros para gerar forças de onde ela jamais pensou que teria, para colocar seu filho dentro do helicóptero.
– Mamãe, você caiu no chão! É só levantar e soprar que o dodói passa. Vamos, mamãe. — disse, enquanto puxava o braço direito de Melissa, ajudando-a a se levantar.
Retirando forças de sua última reserva de vida, Melissa conseguiu ficar de joelhos, mal sabia como conseguira tanta força, logo ela, que sempre se contorceu tanto apenas por um mísero arranhão e passava dias sem sequer se mexer direito. Em seguida ergueu com dificuldades os braços e levou seu filho até a entrada do helicóptero, assim, ajudando-o a subir no seu bote salva-vidas. Com muita dificuldade e a força de dez homens, Melissa conseguiu colocar seu filho dentro do helicóptero.
– Mamãe, você não vem? — perguntou o garoto.
Ela não respondeu, apenas sorriu enquanto seu coração batia a última vez, enquanto ela olhava o rosto de seu filho uma última vez e imaginava o que ele seria quando crescesse: Um médico, um bombeiro, um escritor... E então seu corpo lentamente esfriou, e até mesmo o vento transformou-se em uma força densa demais para se resistir, até que finalmente ela não resistiu, e quando menos percebeu a sua dor havia passado, o frio que sentia em seus ossos havia cessado, e todo o seu desespero parecia ter sido sanado. Tudo havia passado...
Quase como um choque, John percebeu algo de errado com sua mãe, e de imediato tentou pular do helicóptero para ajudá-la, mas antes que conseguisse, alguém de dentro do helicóptero o segurou, impedindo-o de descer. Ele havia assimilado a morte pela sua pequena mente, ele finalmente entendera o que havia acontecido e agora gritava desesperadamente, estendendo seus braços na tentativa de alcançar o corpo de sua mãe.
O tempo havia acabado, um dos soldados próximos apareceu e imediatamente fechou a porta do helicóptero, separando-o definitivamente de sua mãe, e quase tão rápido quanto tudo isso aconteceu, o helicóptero levantou voo. Dali, era possível ver as barricadas sendo derrubadas e o soldado que havia disparado inúmeras vezes contra Melissa, agora não tinha forças para apertar o gatilho nem uma vez mais. Tomado por uma sensação de desolação, ele simplesmente deixou sua arma cair no chão e ajoelhou-se, cedendo a tudo que ele havia sido treinado para não ceder. Do seu lado direito, um último grupo de soldados atirava incessantemente na direção da multidão que aproximava-se rapidamente pelo seu flanco esquerdo. Foi uma questão de segundos até ele ser consumido pela massa.
Se o soldado James Price não tivesse pressionado o gatilho dezessete vezes na direção da multidão, e por medo do ricochete da arma não tivesse virado seu rosto levemente para a direita, ele não teria visto Melissa aproximando-se do último helicóptero, e se ele não tivesse visto Melissa em direção do helicóptero, ele não teria se virado e feito quatorze disparos na direção de Melissa, acertando apenas o último disparo, em cheio no coração da mulher. Se o soldado James Price não tivesse pressionado aquele gatilho, ele não estaria morto agora e Melissa estaria junto de seu filho.
– Qual o seu nome, rapazinho? — perguntou o homem que havia segurado o garoto, esboçando um sorriso amigável para o menino.
– Meu nome é John. — respondeu o garoto enquanto enxugava as lágrimas dos olhos. — John Wayne.
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