John Henry

1 Capítulo 1




Nos dias de hoje, a luta entre homem e máquina tem se acentuado, com pessoas temendo serem substituídas pelo maquinário moderno.

A história que contarei hoje se passa a muito tempo, no longínquo ano de 1870; época dourada, sem celulares, computadores ou pseudo celebridades…

E que ano foi aquele!

Para começar, em 19 de março, Carlos Gomes apresentou “O Guarani”, para espanto geral da nação que, ao fim do espetáculo, viu que nem só de Rossini vive o mundo da ópera.

Também vale destacar alguns outros fatos, como o Brasil que, sob as mãos do grande Pedro II (nosso imperador), triunfou na guerra do Paraguai. Infelizmente, o resultado final do conflito não alterou a dramática consequência: a monarquia brasileira foi enfraquecida.

De certa forma, a vitória no Paraguai acabou por reforçar as palavras do velho bode: “guerras são estúpidas.”

De qualquer forma, ainda no ano de 1870, o Reino Unido já se rejubilava com o brilhante reinado de Vitória, no entanto, os olhos da Europa estavam em Bismarck e seu nêmesis, Napoleão III — imperador de todos os franceses — que começaram a se digladiar na violenta guerra franco-prussiana.

Apesar dos esforços de Napoleão III, quem riria por último nesse conflito seria Wilhelm II — kaiser alemão (e “patrão” de Bismarck); o imperador francês bigodudo se renderia no ano seguinte, arruinando assim o segundo império francês e provocando o nascimento da terceira república francesa.

Agora, deixando tudo isso de lado, vamos dar uma olhada nos EUA (isso, o país da águia com a sacola cheia de dólares). Especificamente, veremos algumas coisas interessantes que aconteceram no Noroeste da Virgínia; também estava acontecendo uma guerra lá, mas com agentes e armas um pouco diferentes das que se viam com nossos irmãos europeus.

Naquele ano (não se esqueça, ainda estou falando de 1870) a C&O (Chesapeake and Ohio Railway — chamaremos apenas de C&O, para facilitar) trabalhava arduamente na construção de estradas de ferro e túneis que, habilmente, cortavam montanhas.

Bem, já que comecei a falar de túneis, vamos falar um pouco sobre como construí-los, ok?

Normalmente não se pode, simplesmente, desviar da montanha e continuar com a construção da estrada de ferro; uma pena, mas você precisa fazer um buraco nela.

Na verdade, a C&O resolvia esse problema de maneira bastante simples: cavava a rocha com equipamento adequado, fazia buracos nela, colocava neles bananas de dinamite e…

KABUM! Nada de rocha ficava para contar a história.

Achou simples? Acredite que não é.

Todo esse trabalho dependia de centenas de trabalhadores que, por várias horas diárias, martelavam o metal, montavam as estruturas necessárias e plantavam os explosivos.

Com habilidade, esses homens pegavam seus pesados martelos, golpeavam com força os cravos de ferro e, com insistência, feriam a pedra. Enquanto isso, um amigo girava o cravo a cada golpe do martelador, para evitar que esse ficasse preso na rocha e, além do mais, facilitar que ele adentrasse ainda mais na pedra. A seguir, o buraco era preenchido pela dinamite.

O trabalho era exaustivo e perigoso, então é claro que a maioria daqueles homens não voltaria vivo para suas casas. Bem, na verdade, a maioria morreria dentro de dois ou três anos (principalmente pela silicose).

A C&O fez muitas estradas e muitos túneis, mas hoje, vamos dar maior atenção ao túnel Lewis, que ainda estava sendo escavado na montanha.

Muitos homens derramaram sangue e suor na construção do velho Lewis e, como parte deles tinha famílias, não podiam se dar ao luxo de abandonar aquele trabalho tão massante.

Um desses homens, aliás, era John Henry, que foi casado com a bela Polly Ann e tinha um filho pequeno…

Bem, na verdade não sei se ele era casado e tinha um filho, mas as pessoas dizem que sim, então, vamos considerar que isso deve ter sido verdade.

O nome completo de nosso amigo John era John William Henry, um ex-presidiário que pegou pena por roubar uma loja.

Você deve se lembrar que, poucos anos antes, Abraham Lincoln havia libertado os escravos — infelizmente, o governo se “esqueceu” de que os recém libertos precisavam também de casa, comida, trabalho, etc.; basicamente, de tudo aquilo que uma pessoa normalmente precisa.

Como John não conseguiu sorte melhor do que a de seus antigos amigos, acabou cometendo o pequeno delito que o levou para a Penitenciária do Estado da Virgínia e, posteriormente, para a ferrovia da C&O (em 1870, ela empregou muitos presidiários).

Ok. Tendo dito isso, vamos voltar agora para nosso amigo John Henry — que aqui era casado com a bela Polly Ann e tinha um pequeno John Henry Jr — e descrever um pouco da sua aparência.

Na ausência de fotos do instagram ou aqueles vídeos bobos da internet, teremos que nos contentar com uma descrição escrita: John era um homem negro de mais ou menos um metro e oitenta (um gigante para a época), muito forte e que sempre andava por aí com um pesado martelo, bastante comum e adequado para o trabalho que a ferrovia exigia.

Segundo o que as pessoas contam, Henry não tinha muita grana no bolso (aliás, nenhum trabalhador dalí tinha), mas seu coração era mesmo feito de ouro e jóias: ele estava sempre ajudando seus companheiros, compensando o trabalho que alguns não conseguiam cumprir e sempre mostrando grande preocupação com o bem estar deles e o de suas famílias. Por isso tudo, John Henry era muito querido (agora você entende porque o tratamos antes por “querido John Henry”).

Trabalhar na C&O era difícil, mas oferecia esperanças de uma vida melhor para os funcionários; pelo menos, até o dia em que a revolução industrial atacou a ferrovia (de novo).

Acontece que a construção do túnel Lewis foi mais difícil do que o esperado: a rocha dali era dura demais.

Acredite se quiser, mas algumas rochas são mais duras do que outras, de forma que a C&O decidiu testar um modelo “novo” (para a época, como é lógico) de furadeira a vapor, que otimizaria o trabalho no túnel.

Esse equipamento possuía uma broca e lembrava, vagamente, um arpão de pescador. No entanto, sua ponta não era lançada em baleias, mas furava a pedra de forma automática.

Uma ferramenta como essa ameaçava o trabalho de John e seus colegas, por isso ele propôs um teste simples: ele e a furadeira iriam competir para ver quem faria um trabalho melhor no túnel; a máquina ou o homem.

Quando o desafio começou, a curiosidade era geral, mas John Henry se saiu muito bem, martelando o cravo com a força de um Golias.

O coração batia forte no peito, o suor escorria e os ossos rangiam, como se prestes a partirem-se, no entanto, havia famílias demais contando com nosso gigante do martelo. Desistir não era opção para ninguém, então Henry martelou até não poder mais, sempre veloz e cheio com a natural determinação dos sonhadores.

Quanto à furadeira a vapor, basta dizer que ela foi uma grande decepção para a companhia. Após pouco tempo de uso, já começou a dar defeito! Não sou técnico em maquinário antigo, então não sei porque ela falhou, mas John não teve grandes dificuldades em superá-la.

De acordo com outro trabalhador, o jovem Neal Miller (na época, um rapaz de 17 anos), o defeito da máquina permitiu que John superasse o desafio.

Quanto aquela competição durou mesmo? Acho que foi de algumas horas, no máximo. No entanto, há quem diga que durou a tarde toda e só terminou no dia seguinte.

Para outros, não se estendeu por mais de trinta minutos.

Talvez a dúvida resida no fato de que, em um trabalho tão difícil como aquele (e sem celular com despertador), as pessoas acabam perdendo um pouco a noção do tempo.

Segundo alguns, John Henry avançou uns três metros na montanha, enquanto a máquina quase não chegou a dois.

De qualquer forma, as pessoas cantariam (sim, fizeram músicas sobre ele) que nosso amigo John feriu a rocha com tamanho poder, que essa chegou a derreter, enquanto o gigante adentrava cada vez mais na montanha até, por fim, atravessá-la por inteiro.

É claro que sou um homem da razão e não darei atenção a esses absurdos, porém, não discuto que o fato real é tão incrível quanto a lenda das baladas: John Henry superou a furadeira a vapor.

Infelizmente, o excesso de esforço (somado a poeira assassina daquele trabalho hediondo) cobraram seu preço: após o fim do desafio, o martelo caiu das mãos de nosso amigo e o coração descansou para sempre; John William Henry estava morto.

Não sei onde John foi enterrado, mas acredito que foi em uma área pintada de branco, naquela velha penitenciária onde a C&O o encontrou, originalmente.

Bem, independente do resultado final, a luta de John Henry nos lembra da capacidade humana e de sua eterna guerra contra a tecnologia.

Ser superado ou alcançar uma vitória efêmera; qual seria a grande lição da lenda de nosso querido John?

No fim, talvez o mais importante seja o elemento que, por vezes, deixamos de lado: países e empresas podem (e devem) ser grandes, tanto para o seu bem, quanto para o dos outros; porém, essa grandeza é construída pelos braços e ombros de homens como John Henry que, quase sempre, são esquecidos.

Me diga o nome de Alexandre Magno e eu lhe direi, “sabe o nome de um dos soldados dele?”

Aníbal cruzou os Alpes, mas ele tinha um exército de milhares de anônimos com ele.

Considerando tudo isso, ficou feliz que, ao menos John Henry, conseguiu deixar seu nome marcado na história…

E nas lendas.



FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!