O peão

Era tarde, já havia passado das duas da manhã, a rua deserta, o frio e a má iluminação tornava a paisagem de uma vizinhança pacata em um perfeito cenário de filme de terror. Um vazio tomava meu peito, nada me assustaria mais naquele momento. Eu estava perdido em meus pensamentos, talvez na falta deles, não importa, eu apenas precisava esquecer.

Acordei em minha cama por volta das dez e meia, na verdade não tinha dormido, antes que pudesse levantar, alguém bate na porta do quarto, por um segundo meu coração para de bater e logo se acalma ao ouvir a voz de minha mãe.

- Já se passaram das dez, querido. Você irá se atrasar!

Sem responder, eu levanto e me visto rapidamente, olho para a janela e me perco no horizonte, me desperto ao ver um carro policial subindo a rua vindo em direção a minha casa, minhas pernas começam a tremer, sinto um pouco de tonteira, sento em minha cama e repito várias vezes “Você não fez nada” em minha cabeça. Ouço a campainha, eu já sabia do que se tratava, eu precisava fazer o certo, respirei fundo e antes mesmo de minha mãe me chamar eu saí do quarto e desci as escadas e me deparei com o oficial e minha mãe ainda na porta. Minha mãe iria falar algo quando o oficial a interrompeu.

- Bom dia Sr. Gustavo. Preciso fazer algumas perguntas e gostaria muito da sua colaboração.

Naquele momento eu só consegui consentir com a cabeça, imaginava toda confusão que aquilo se tornaria e toda a dor que traria a minha família. Com uma postura ainda inofensiva ele perguntou.

- Onde o Senhor estava ontem à noite por volta das onze?

Meu estomago embrulhou antes mesmo do oficial terminar de perguntar. Eu iria dizer a verdade, eu podia não estar preparado, mas era o que tinha que ser feito. Mas antes que eu pudesse se quer pensar por onde começar, minha mãe tomou a frente e respondeu.

- Nós fomos jantar juntos e voltamos tarde para casa, eu já te respondi essa pergunta!

Novamente consenti. Ofendida pela duvida do oficial, minha mãe pediu licença e disse que iriamos sair para fazer compras e que nós não sabíamos nada a respeito do sumiço de um jovem.

Desconfiado o oficial foi embora sem esclarecer muito, mas não era necessário, não para mim, eu tinha certeza que cedo ou tarde aquele ou outro oficial voltaria e não seria para fazer perguntas. Minha mãe não mentiu quando disse que tínhamos saído para jantar na noite passada, apenas a parte do horário, talvez ela não tenha prestado atenção, ou queria que o policial fosse logo embora para não dar motivo para os vizinhos ficarem fofocando.

Antes que ela pudesse me perguntar alguma coisa a respeito o telefone tocou e rapidamente ela atendeu. Na outra ponta era Dona Maria, mãe do meu melhor amigo Thomas, pelo menos era antes dos acontecimentos da última noite. Então naquele momento minha mãe descobriu que o tal garoto desaparecido, que o policial falou, era Thomas. Perplexa ao desligar o telefone minha mãe me contou o que havia acontecido e mesmo com minha cara de “culpado” ela não desconfiou e ainda me confortou dizendo que achariam Thomas. Para minha mãe fazia sentido o policial vir em nossa casa, pois eu vivia com Thomas, éramos amigos desde sempre, aquele tipo de amizade que supera laços sanguíneos. Enfim ela acredita que eu estava em casa noite passada, como eu poderia levantar qualquer tipo de suspeita.

O problema é que o sumiço de Thomas não é nem um pedaço do problema. Corri para meu quarto peguei meu telefone e tinha uma mensagem de Lara, uma amiga em comum com o Thomas, na qual Thomas e eu éramos apaixonados. A mensagem dizia “Você tem que esquecer o que viu ontem, A culpa não foi sua.”