Jogos Meio-sangrentos
9 Capítulo 9 - Chumbo derretido
Notas iniciais
O sangue dos filhos de Hefesto estava prestes a entrar em ebulição.
Pela primeira vez em muito tempo as forjas estavam vazias. E o Chalé 9 com todos os seus ocupantes trabalhando. Sim, trabalhando, já que suas mãos não podiam ficar imóveis. Alguns sentados montavam e desmontavam coisas, outros jogavam pedras superaquecidas pra cima e pra baixo. Um tédio.
Três ou quatro estavam dormindo em seus beliches. Passaram a noite em claro, tentando forjar alguma arma para destruir todo o exército de Gaia de uma vez só, uma mina subterrânea que os pulverizasse, qualquer coisa. Todos os inícios de planos não deram certo.
–Harley. Harley acorda. Você passou a noite em claro – a garota cutucou o irmão.
–Agh! Cala a boca Mayline! – resmungou Harley, cobrindo os olhos com sua bandana.
–Primeiro, me chame de Mac. Segundo, vão sortear um de nós para cumprir aquele trato de Gaia, e não vai ser muito bonito você ser acordado com uma má notícia.
–Ter de participar disso já é uma má notícia.
–Sei que você não está bem por causa da noite, mas acorde – Desistindo de acordar Harley, Mac virou-se sem cerimônias. Ela não era de adular.
Dirigiu-se até sua gaveta que ficava acoplada à parede. Lá havia mais do que peças exclusivas que ela havia inventado. Mayline guardava seu maior tesouro: um pequeno castelo de vidro que montara com a mãe. As paredes translúcidas refletiam a cor achocolatada de seu cabelo e seus lábios que poderiam dar lugar a um sorriso. Poderiam.
–Mãe – disse para a construção – Que hoje tudo dê certo, que hoje... – a garota foi interrompida por sons do lado de fora do chalé.
–Mas como que se abre isso aqui? Ai, ai! Hmm, agh! Ah, talvez eu deva girar isso aqui e apertar mais isso aqui e...
A porta circular do chalé abriu-se, expelindo um pouco de fumaça devido ao esforço aplicado a ela. A cortina de névoa revelou uma garota totalmente diferente do normal para os filhos do deus rejeitado.
–Oi gente! Oi oi oi! Eu consegui abrir essa porta. Sou esperta, não? Ah eu sei que sim! – ela bateu palminhas e dirigiu-se à frente do chalé quase na ponta dos pés. Pôs as mãos atrás das costas e sorriu enquanto balançava sua cabeça como um joão-teimoso. Ela era adoravelmente bizarra: seu cabelo loiro-claro estava amarrado em um rabo de cavalo acima da orelha, como se fosse uma maria-chiquinha pela metade. Usava um vestido rosa-choque com uma gola que remetia a pétalas de flores. Seus crocs lilases terminavam a composição de seu visual – Então, não estão curiosos para saber quem eu sou?
–Hm... não – respondeu um dos campistas. O chalé inteiro irrompeu em risos.
–Hahahaha, queridinho muito engraçado – disse a menina sem aparente ironia – Se ainda não perceberam, eu sou Pandora. Sim, a primeira pessoa do mundo, criada pelo pai de vocês. Então eu sou tecnicamente irmãzinha de vocês hihi.
Os olhares dos filhos de Hefesto iam da gozação ao repúdio. Todos conheciam a história da Caixa de Pandora. De como ela libertara os males existentes no mundo por pura curiosidade. E parecia que mesmo sendo a pessoa mais velha da Terra, Pandora era também a mais imatura.
–Agora chega de brincadeira, crianças. É hora de sortear os lindos nomes de vocês. Uh, quem foi o gênio que fez isso aqui?
Pandora apontou para duas placas de vídeo sobre uma escrivaninha. Nela, as imagens de bolas de diferentes números passeavam pela tela. Em cada uma havia os respectivos símbolos masculinos e femininos.
–Eu e minha irmã Megan produzimos essas placas de vídeo – levantou um garoto robusto, careca e com braços fortes. Ao lado dele uma garota loira com acne no rosto sorriu com orgulho.
–Permita-me explicar, Bruce – disse Megan – Cada número conta com um código correspondente a um nome. Ao tocar em um deles, um nome será revelado na tela do visor. O programa funciona de forma aleatória, de forma que todos tenham chances de serem sorteados de forma igual – a garota loira ajeitou os óculos redondos.
Metida, pensou Mac. Qualquer retardado seria capaz de fazer isso.
–Brilhante, meninos, brilhante! – Pandora bateu palminhas – Mas eu estou morta de curiosidade pra saber como isso funciona hihi. E acho que vou começar pelas meninas. Humm, vou apertar bem... aqui. HIHIHI, a bolinha de número Um! E o nome é... Mayline Aoki Castleglass!
O sangue de Mayline gelou como se ela não tivesse nenhuma experiência com fogo. Ouvindo o nome da irmã, Harley levantou-se de súbito, a tempo de vê-la andar até o lado direito de Pandora.
–Mac, não! – gritou ele.
–Harley, não há nada que você possa fazer – disse ela – Preocupe-se apenas com suas motos, ok? Eu vou ficar bem.
–Ai que lindo gente! – piou Pandora – Mayline querida, você me parece uma menina muito...
–Por. Favor. Me chame de Mac, esse é meu nome.
–Ok, Mac – disse a mais velha, fingindo seriedade – Aposto que você vai ficar mais animadinha quando souber quem vai acompanhar você até os Jogos. E vamos torcer muito para que seja seu irmão...
–Harley tem dezenove anos.
–Tudo bem, senhora sabichona. Vamos ver quem é o próximo sorteado. O garoto que acompanhará Mac nos Jogos Meio-Sangrentos será... Philipe Pires!
–NÃO! Não não não não – Philipe começou a soluçar, mas rapidamente enxugou qualquer resquício de lágrima que poderia ter surgido. Não chore, não dê esse gostinho a eles, pensou – Eu sou Philipe Pires.
Enquanto ele andava por entre os filhos de Hefesto, Philipe ouviu um murmúrio vindo de Megan.
–Haha, deu certo – disse ela para seu irmão.
–O que deu certo? – Philipe virou-se para ela com agressividade e andou novamente até o fundo do chalé. Aproximou-se dela até seus rostos estarem a um palmo de distância – Vocês manipularam essas placas, não foi? Manipularam para sair o meu nome e o daquela menina!
–Olha só, seu bichinha – sussurrou Bruce para que Pandora não ouvisse – Nós manipulamos sim. Porque não só nós dois, mas também os outros semideuses desse chalé não percam pessoas importantes. A escória do Chalé 9 são vocês, uma excluída que não fala com ninguém além daquele irmão dela e você, que nem parece filho de Hefesto.
–Olha só esses seus cachinhos – debochou Megan – E esse seu rosto de criancinha indefesa, como se não tivesse dezesseis anos!
–Eu-eu vou contar para o Quíron, ele vai com certeza pôr vocês nos Jogos!
–Ah, você é mesmo o queridinho dele. Mas com que provas? – riu Megan – Um garoto que fala com plantas ao invés de manusear metais como todo bom filho de Hefesto faz? E logo após o primeiro sorteio, programamos o sistema para não retirar outros nomes. Você não pode provar nada. Vamos lá, Philipe, apenas aceite a sua morte, sim?
–Meninos, vocês estão com algum probleminha? – indagou Pandora apreensiva.
–Não, queridíssima Pandora – Bruce riu – Estamos apenas resolvendo alguns problemas.
–Então vamos voltar até a frente Philipe – Pandora disse – Precisamos terminar o cerimonial.
Philipe assentiu relutante, enquanto olhava para os meio-irmãos.
–Senhoras e senhores, esses são Mayline e Philipe, representantes do Chalé 9! Agora apertem as mãos, meus amores!
–O que houve lá atrás? – sussurrou Mac.
–Nada, nós vamos ficar bem – disse Philipe apertando sua mão.
Os tratados como ferrugem agora seriam fortes como aço.

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