Jogos Meio-sangrentos

27 Capítulo 27 - Tempestades particulares


Notas iniciais
MAIS DE UM MÊS SEM POSTAR Oi gente, tudo bem? Espero que gostem e obrigado por aguardarem todo esse tempo. OBS: Este capítulo contém trilha sonora. Para uma melhor leitura, abra em uma nova guia o vídeo indicado nos hiperlinks no momento certo.


Sinta a tempestade

Noah Mitchell – 3

Noah gostava de água, mas não daquele jeito.

A tempestade era forte. Ele já ouvira três pios de harpia em meio aos trovões. Sabia que dois haviam sido mortos por suas aliadas. Mesmo assim, ele esperava por mais. Admitia que estava decepcionado. O corpo da filha de Hefesto continuava estendido. Noah não sabia se ele iria ficar lá e se decompor ou se algo viria buscá-lo.

Conseguiram expulsar todos os outros tributos do Chifre de Aqueloo. Noah e Peter tiveram a oportunidade de matar a garota de Dioniso, mas por um momento ambos se sentiram desnorteados. Ela provavelmente tinha algum poder alucinógeno.

Outro raio o fez estremecer. Eles estavam muito próximos da Cornucópia, e os raios caíam apenas lá.

– Não podemos ficar mais neste lugar – disse ele – Vamos pegar algumas coisas e irmos embora. O mar não está tão longe, consigo sentir uma baía perto daqui. Praias são melhores do que matas selvagens e fechadas. Podemos montar acampamento lá.

– Não acha o lugar muito aberto? Poderíamos ser surpreendidos a qualquer momento – perguntou Ethan.

– Eu seria surpreendido pela idiotice de quem ousar nos desafiar. Nós já matamos dois...

– Nós uma vírgula – interveio Hannah – Eu e Gabrielle.

– Que seja – Noah não suportava aquela garota marrenta – Vocês já mataram dois, existem outros tributos mais vulneráveis para atacar.

– Certo Noah – Ethan assentiu com a cabeça – Vamos pegar algumas coisas no Chifre e caímos fora. Você irá nos guiar.

Noah procurou carregar o número mínimo de itens. Ele poderia caçar e pescar, então evitou as frutas e pedaços de carne disponíveis. Pegou uma garrafa vazia para enchê-la com água da chuva. Havia uma prateleira cheia de medicamentos, alguns já quebrados devido à confusão, mas Noah ainda conseguiu salvar um remédio líquido para dores. Viu um saco de pano no chão e descobriu que dentro dele havia uma rede, perfeita para pesca e armadilhas. E claro, para terminar, um tridente.

O longo cabo era de bronze escuro, quase sem brilho. As três pontas retas eram de um aço espelhado. Lindo. Letal. Noah girou-o no ar e ensaiou alguns ataques, fingindo que golpeava Peter.

– Ei cara, tome cuidado – o ciclope agarrou sua lança. Ele carregava uma grande mochila, era forte o suficiente para não deixar sua pesada bagagem atrapalhar a caminhada.

– Ei idiotas, que tal começarmos a andar? – Gabrielle resmungou em meio a um trovão. Ela era muito audaz em insultá-los enquanto Noah manejava um tridente.

Ele tomou a frente do grupo, vendo que todos já haviam pegado o que queriam. Inspirou o ar úmido e sentiu o cheiro do mar mesmo com todas aquelas gotas de água doce. Olhou para a estátua de Poseidon, também segurando um tridente e envolto por panos e ondas. Tocou nele antes de sair do templo rumo à floresta.

Alan Wesley – 10

Eles estavam há mais ou menos uma hora na floresta e Alamanda já ganhara uma dádiva.

O pequeno paraquedas era de um tecido transparente. A caixa prendida a ele media pouco mais de trinta centímetros quadrados, era estreita e tinha o nome da filha de Dioniso gravado em letras pequenas. Quando abriu-a, a garota encontrou um pequeno cartão e um embrulho. Após lê-lo, ela entregou o quadrado de papel para Alan.

Gostei do lance com os filhos de Poseidon. Continue assim – Príapo

O segundo parecia trazer um outro recado. Enquanto Alan lia, a aliada desembrulhava o presente.

“Espero que goste do Disco do Vento. Irá voar de acordo com seus pensamentos e sopros. Ela pode ir alto, baixo, rápido, em curvas... irá depender apenas da sua vontade. Você pode usá-lo para derrubar frutas de árvores, caçar pequenos animais ou fincar no cérebro de seus inimigos. Eu particularmente o usei para matar Jacinto, e garanto, foi bem útil – Z”

Debaixo dos embrulhos de papel havia um disco dourado. Tinha o diâmetro de dois CDs, as extremidades decoradas com folhas e asas, afiadas, exceto por um segmento de bordas grossas, que permitia que o objeto fosse segurado e lançado.

– Quem seria Z? – Alan perguntou.

– Obviamente é meu Patrocinador – Alamanda abriu um meio sorriso – Mas a julgar pelo recado sobre a morte de Jacinto, deve ser Zéfiro, o deus do vento oeste.

Ao dizer isso a garota lançou o disco para o céu e soprou quase como um assobio até que o mesmo pairasse no ar. Ele veio descendo como em câmera lenta e passou a circular as árvores da floresta. De repente, ele passou rápido por entre os galhos, um borrão na tempestade, até serrar um. Vendo-se satisfeita, ela soprou novamente e o objeto voltou para suas mãos.

– Já se sente preparada para as Olimpíadas? – Alan interveio. Seu comentário soara sarcástico, mas ele sentia uma pontada de inveja. Ele até agora não havia ganhado nada, nem mesmo um pacote de frutas secas. Será se valeria a pena andar com uma das queridinhas dos Jogos Meio-sangrentos? Talvez aquela fosse apenas uma frustração característica dos filhos de Afrodite, quando os mesmos se sentem ofuscados por alguém. – Vamos andando.

– Espere – Alamanda sussurrou e um trovão ribombou no céu cinzento – Sinto que tem alguém nos seguindo.

A garota virou-se, o disco já flutuando no ar. Ele saiu cortando galhos e mais galhos, como uma roçadeira elétrica. Após alguns minutos, a chuva começou a aumentar e a visibilidade tornara-se pior.

– Alamanda – Alan quase gritou – Vamos embora! Acho que você já intimidou quem quer que estiver atrás de nós.

Relutante, a aliada assentiu. Alan também estava apreensivo, mas precisavam andar logo. Sentia que algo estava próximo, algo familiar.

– Eu sabia – Alan falou mais consigo do que com a garota.

– Sabia do que? Desse lago? – Alamanda apontou para o local.

– Não exatamente. Mas sentia que algo ligado a mim estava próximo.

O lago não era muito grande, era praticamente uma poça de quase dois metros de diâmetro. Sua superfície tremulava devido às gotas de chuva. Mas ele brilhava. Não era uma luz ofuscante, mas o suficiente para destacá-lo em meio à noite nebulosa. Era também rodeado por pedras claras e pequenas flores que ainda resistiam à chuva.

– Será que podemos beber daí? – Alamanda perguntou. Apesar da chuva encharcando sou rosto, ela já parecia cansada.

– Temos que testar antes – Alan abaixou-se, contemplando a água resplandecente. Tocou relutante a superfície líquida. Esperou que seu dedo queimasse, congelasse ou derretesse, mas apenas sentiu uma força que o atraía para o fundo. O lago queria que eles mergulhassem.

Alamanda sentou-se ao seu lado, logo segurando uma pedra de tamanho médio. Em grandes letras gregas a palavra ESPELHO estava escrita.

– Espelho... Isso é obra de minha mãe. Afrodite projetou esse lago.

– Talvez os deuses do Olimpo tenham oferecido algo para os semideuses – concordou Alamanda – Zeus, um templo repleto de armas, com raios caindo sobre ele; Afrodite um lago brilhante que ainda não sabemos a utilidade. Talvez encontremos uma boate de meu pai por aqui também – a semideusa riu – Eu não acharia uma má ideia.

– Alamanda, eu vou mergulhar nesse lago e saber o que há no fundo. A chuva atrapalha a visibilidade, mas acredito que há algum suprimento ou arma.

– Vou com você. Talvez seja algo pesado demais para ser carregado por um garoto.

– Espero que saiba nadar.

– É uma poça, Alan Wesley, não é necessário ser um mergulhador profissional.

Os dois, juntos, jogaram os pés para dentro do Espelho. Ao contrário do que Alan pensava, a poça não era nada funda. Ao contrário da água comum, que embaçava a visão, o garoto conseguia ver os olhos heterocromados de Alamanda nitidamente, além de suas grandes bochechas prendendo o ar. Talvez a água fosse feita de cristal. As paredes do lago brilhavam como ouro em pó, mas o fundo ainda não se mostrava. Eles já estavam a mais de dois metros de profundidade.

Então de repente, Alamanda soltou as bolhas que ainda lhe restavam devido a uma... onda? Uma força dentro do lado fez com que os dois aliados girassem, se chocassem e se debatessem, e a superfície não parecia mais acessível. Eles iriam morrer enjoados e afogados.

Voltas e mais voltas depois, após mergulhar mais de dez metros, a superfície surgiu mais uma vez. Alamanda não parecia mais ter condições de respirar, então Alan se viu obrigado a puxá-la.

Respirar novamente foi um alívio. A chuva ainda caía, então o fato de ambos estarem empapados não fazia tanta diferença. Alan tirou a aliada do lago, esperava que ela não precisasse de respiração boca-a-boca. Aquilo seria ridículo.

– Ok, eu estou bem – Ela levantou-se, assoando o nariz – Agora vamos continuar a caminh...uau!

Alan percebeu o mesmo que a garota, contemplando as duas colinas que se encontravam à sua esquerda e direita. Eram tão altas que chegavam a parecer serras. À esquerda dos dois estava uma elevação repleta de pinheiros. A outra parecia um descampado, com grama alta e arbustos.

– Ok – disse ela – Isso não estava aqui antes.

– O lago é na verdade um... um teletransporte – concluiu Alan – Um espelho que leva a duas faces diferentes da Arena.

– Então se mergulharmos de novo, iremos voltar para o lugar onde estávamos?

– Talvez. Mas também há a possibilidade de o Espelho mudar seu destino, conectando-se a outros Espelhos aleatoriamente.

– É, há essa possibilidade. Então, bonitão, vamos ficar aqui ou voltamos?

– Acredito que nos afastamos mais dos outros tributos, e isso nos garante mais segurança por enquanto.

– Certo, agora vamos subir em uma dessas colinas, para termos uma visão melhor da Arena. Eu escolho a dos pinheiros.

– Você não acha melhor a outra...?

– Não, vamos por essa. E não discuta – Alamanda poderia soar autoritária, mas seu sorriso travesso desmistificava essa visão. O caminho para a colina dos pinheiros era íngreme.

Elena Price – 4

Elena estava aflita. Mas sua aflição não poderia impedir seus pés de correrem.

David fora assustadoramente eficiente ao trazer suprimentos. Conseguira trazer uma mochila repleta, além de um arco para Valentina e uma espada para ele. No entanto, na divisão dos itens, ele fez questão de ficar apenas com a espada. Brandon também quis apenas um canivete que se encontrava dentro da mochila. Já Valentina, além do arco, recebeu um saco de dormir e um kit de esparadrapos. Para Elena, uma pomada em gel e uma grande garrafa d’água eram o suficiente.

Mas nem tudo eram flores. Josh estava desaparecido. David dissera que o vira pela última vez pouco depois do primeiro raio. Depois não pôde procura-lo porque o filho de Ares estava de olho nele.

– Elena? – chamou David – Ainda está preocupada com Josh?

– Não tem como não ficar – admitiu ela. Sua voz soava baixa em meio ao barulho da chuva – A ideia de que enquanto nós estamos em grupo, nos protegendo um ao outro, ele pode estar com fome, sozinho... David, você mesmo disse que cada pio de harpia significa uma morte, como a da garota de Hefesto. Nós já ouvimos outros dois pios depois do dela. E... E se um deles for o de Josh?

– Elena – interveio Valentina – Josh vai ficar bem. Ele pode parecer um garoto, mas sabe se virar. Talvez até o encontremos depois. Mas o nosso objetivo agora é nos afastarmos ao máximo do Templo.

O grupo parou ante a um arco de madeira, com uma grande escultura em forma de pavão, também de madeira, sobre o mesmo. Escrita nele, estava a palavra “Viveiro”. Não havia outra construção por perto, mas Elena percebeu que a vegetação mudara a partir do arco. Das árvores bem espaçadas da floresta a uma cúpula fechada do tamanho de uma casa, feita de galhos finos e pequenas frutas. O arco era uma porta para a cúpula viva.

As árvores eram tão fechadas que mal permitiam a entrada da água da tempestade. No entanto, as copas não se encontravam no alto, formando uma claraboia natural. Apesar da escuridão, Elena pôde perceber alguns ninhos nos galhos e em meio às pedras. E embora os trovões fossem ensurdecedores, o pio assustado de algumas aves era audível.

O lugar calmo resistia ao temporal.

– Nós certamente vamos dormir aqui, não é? – Valentina largou o saco de dormir no chão.

– Prefiro o cheio de cocô de aves a dormir em meio à chuva – admitiu Brandon.

– Espero que a chuva passe logo – David sentou-se.

Antes que Elena se preparasse para dormir também, ouviu um som. Era uma música. Não era o canto dos pássaros, longe disso. Marcado por tambores, cornetas e vozes que louvavam a Mãe-Terra, um hino à Gaia parecia ecoar por toda a Arena.

Contemple o Hino N.A: Não pause o som da tempestade

Elena correu para fora do Viveiro, procurando pelo que emitia tal som. A chuva parecia um sereno perto da imponência do hino. Ela olhou para o céu a tempo de notar uma fina nuvem se formar do nada. Uma nuvem quadrada. Duas palavras surgiram nela: “As baixas.” e Elena percebeu que se tratava de um telão, que mostraria os tributos mortos do dia. O enunciado desapareceu e deu lugar a um número ordinal: “

O número também sumiu e a imagem animada de uma garota apareceu. Ela olhava fixamente para um horizonte imaginário e respirava, determinada. Embaixo de sua imagem, aparecia o nome “Mayline Castleglass – Chalé 9”.

Elena sabia que ela estava morta, David contara isso a ela. Após o número ordinal “”, a imagem de um garoto apareceu. Sardento e de cabelos pretos, John Bryan, do Chalé 11 sorria. Provavelmente havia sido o único tributo a sorrir na gravação das imagens.

E o terceiro e, pelo que Elena pensava, último número, apareceu. Logo depois, os olhos azuis, a pele clara e o cabelo cor de palha de seu irmão apareceram. O nome “Josh Nicky – Chalé 4” veio logo depois, mas Elena já desabara de joelhos sobre o chão enlameado.

Valentina veio correndo para fora do Viveiro e Elena gritou. Os tambores do hino batiam em um ritmo constante, mas não tão rápido quanto o coração de Elena. Ela mergulhou seu rosto na terra e suas lágrimas ajudaram a encharcar o solo. Sentiu as mãos da aliada sobre seus ombros, que arqueavam-se. A filha de Afrodite a levantou e levou-a de volta para o Viveiro.

Soluçava enquanto ainda ouvia o hino, onde monstros agradeciam a Gaia pela vida que ela os dava. Elena então gritou, gritou para o céu visto através da claraboia, sentindo as gotas de chuva em sua boca. Quis ofender Gaia, os Idealizadores, o assassino de Josh, mas a raiva e a dor haviam retirado as palavras de sua boca. Elena gritou e chorou até que a chuva parasse.

N.A: Pare o vídeo da tempestade

As nuvens rapidamente dissiparam-se, apressadas, e uma voz feminina ecoou no céu.

Este é o segundo dia, o dia de Hera.

Quase que automaticamente, as aves eriçaram as penas, mas voltaram a dormir. Exceto por algumas, terrestres, de caudas longas e penas azuladas. Pavões.

Havia oito deles, quatro machos, quatro fêmeas, rodeando a aliança de Elena. Como se estivessem ensaiando uma dança, eles formaram um círculo intercalado por machos e fêmeas. Os machos então aproximaram-se do eixo do círculo e quase ao mesmo tempo, abriram suas caudas em forma de leque, olhando para a grande lua redonda que se erguia. Logo depois voltaram para seus ninhos.

– Elena, durma no saco hoje. Você merece descansar – Valentina ofereceu o saco de dormir a ela.

Elena aceitou, mesmo sabendo que não conseguiria dormir. O tecido quente suprimia o frio que a chuva trouxera, mas ainda não conseguira aquietar seu coração

Apesar do temporal ter passado, Elena ainda mantinha sua tempestade de lágrimas particular.

Notas finais
Não sei se irei colocar sons ambientais em todos os capítulos. Mas espero que tenham gostado de hoje. E sim, o Hino à Gaia tem a mesma melodia do Hino de Panem (apesar da letra ser diferente, talvez eu a elabore algum dia), curioso, não? Coincidência? A resposta fica com vocês. Lamento (?) por não haver mortes nesse capítulo. Pela lógica dos dias e deuses, a Arena vai durar muuuuito tempo, então não posso matar todos de uma vez. Espero que entendam.