Jogos Meio-sangrentos
12 Capítulo 12 - Embebidos em lágrimas
Notas iniciais
Por que se preocupar com sua possível ida aos Jogos Meio-sangrentos se pode apenas beber coquetel com álcool enquanto toca David Guetta no seu chalé?
Era isso o que Alamanda pensava. Para muitos, aquela tarde marcaria a sentença de morte de alguns campistas. Para a garota de cabelos meio castanhos meio loiros, aquela era, mais do que tudo, uma oportunidade para transformar o Chalé 12 em uma verdadeira discoteca.
Lasers verdes dançavam pelo chão e pelas paredes enquanto refletores rosa e vermelho iluminavam o teto. Um pequeno barzinho fora montado e um garoto rechonchudo como o próprio Dioniso fazia malabarismos com copos de líquidos vermelhos. No chão uma pista luminosa piscava e alguns semideuses dançavam nela. Do teto pendiam várias parreiras, com uvas à disposição.
Claro, aquilo não era nada comparado ao que Alamanda já havia feito. Mas para algo de última hora, até que tudo estava razoável.
– Pista de dança acesa, checado. Parreiras aromáticas, checado. Barman fazendo malabarismos, checado. Irmãos doidos arrasando na pista de dança... Katheryn, rebola mais!
– Como se isso fosse possível, Alamanda! – riu seu irmão David.
– Quieto, David – advertiu Katheryn – Você nem consegue fazer os passos da Macarena direito. Sempre se esquece de colocar a mão na coxa.
– Eu gostaria de participar mais sobre essa discussão sobre passos de dança, mas eu tenho coisas mais úteis a fazer, sabe? Hahaha, divirtam-se. – Alamanda saiu rumo à bancada do DJ.
O garoto que mixava as batidas enquanto marcava com o pé era Juan. Para Alamanda, o mexicano naturalizado era muito bom no que fazia – para alguém com Síndrome de Down. Não que isso o impeça de ser bom em alguma coisa, pensou ela. Ah Alamanda, tenho nojo de você às vezes.
– Olá Juan. Decidiu tocar Redfoo agora? – disse ela, tentando não parecer uma idiota piedosa.
– Sim, achei legal.
– Ah – ela bebeu um gole de coquetel de frutas vermelhas com álcool. O álcool nunca a afetara em anos. Ou se afeta, seu organismo trabalha de forma que Alamanda esteja em uma eterna embriaguez.
– Se você não tem o que falar comigo não precisa fazer cena – Juan sorriu e pôs um dos fones no ouvido.
– Ah, certo, Juan. E-então eu vou ali checar os ponches, ok? Continue fazendo seu bom trabalh...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH
AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH
Alamanda virou-se em direção à pista de dança a tempo de ver uma figura se contorcendo no chão enquanto David e Katheyrn a socorriam.
– David, David o que houve?
– Esta mulher entrou aqui no chalé e logo depois começou a gritar e a se debater – ele a fitou com seus grandes olhos azuis, falando mais alto para abafar os alaridos da mulher.
– SOCORRO! ELE ESTÁ VINDO! VINDO COM OS SEUS GRANDES CHIFRES E BERRANDO E BERRANDO E BERRANDO E BERRANDO... – gemia a mulher enquanto contorcia o pescoço – TESEU! NÃO ME ABANDONE DE NOVO! EU NÃO QUERO QUE MEU IRMÃO MATE VOCÊ, NÃO QUERO QUE ELE ME MATE!!! POR FAVORRRR!!
– Juan! Desligue o som, desligue tudo! Katheryn, chame Andrey aqui!
O Chalé 12 ficou escuro enquanto a garota de cabelos pretos corria em direção à Casa-Grande.
~~//~~
David cantava para a mulher, que ainda tremia, quando Andrey chegou.
– Finalmente. – Alamanda saudou o garoto que por anos havia sido seu melhor amigo. Mesmo descobrindo que o menino tinha pernas de bode, seu coração ainda balançava um pouco ao vê-lo – Esta mulher aqui entrou no chalé e começou a dar um verdadeiro chilique. Se você pudesse ver o que está acontecendo e quem é ela eu agradeceria muito.
– Bom dia pra você também, Al – riu Andrey, tirando um frasco marrom da pochete que trazia – Vejo que a representante de vocês não se familiarizou muito com o chalé.
– Pera aí. Andrey, você está querendo me dizer que esta mulher, ela, vai sortear dois de nós e nos acompanhar até que estejamos prontos pra morrer?
– Sim – disse ele ao virar o frasco na boca da mulher – E espero que tenha mais respeito com a esposa do seu pai.
– Ela é Ariadne? – perguntou David.
– É. Gaia achou divertido mandar a madrasta de vocês presenciar os Jogos Meio-sangrentos mais uma vez.
– Mas esta é a primeira edição dos Jogos – afirmou Katheryn.
– Tecnicamente não, Katy – disse Alamanda – De acordo com algumas coisas que eu aprendi com Andrey, existiam jogos parecidos com esse na época do rei Minos, pai de Ariadne. Ele colocava jovens em um labirinto, onde quem encontrasse a saída e não fosse devorado pelo Minotauro sobrevivia. Apenas um conseguiu sobreviver, o ex de Ariadne.
– Avançando a história – complementou Andrey – Teseu, após seu êxito, largou Ariadne em uma ilha, onde ela conheceu o pai de vocês. E eles seriam felizes para sempre, se não fosse pelo trauma que Ariadne tem a mortes, abandono e irmãos com cabeça de touro. E... senhora Ariadne, a senhora está bem?
– Olá querido, boa noite – riu Ariadne. Agora que ela cessou seu ataque de histeria, era mais fácil notar sua pele morena jambo, seus olhos amendoados e suas covinhas quando ela sorria. Também notara-se porque Dioniso havia se apaixonado por ela – Eu que fiz esta blusa – ela tocou no tecido lanoso vermelho que vestia – eu a teci, fio por... segure o fio. Segure o fio Teseu, senão você vai...
– Shh, shh, shh. Senhora Ariadne, acalme-se. Vamos levantar, sim? Lembra-se do porquê de estar aqui?
– Sim – afirmou ela com olhos tristes – D. me pediu para vir aqui sortear uns nomes. Para que eu fizesse uma viagem com eles.
– Está certa. Al, onde ficam as urnas para sorteio? – disse Andrey, pegando no braço de Ariadne.
– Ali, naqueles potes de empadinhas. O roxo é das meninas e o verde dos meninos.
– Certo. Senhora Ariadne, agora a senhora pega uma empadinha, abre-a e lê o nome que está escrito.
– Eu já sei das coisas, bodinho tolo – riu ela, abrindo uma qualquer sem cerimônias – Alamanda Vitoria Greenfield.
~~//~~
– Não. Não sou eu – disse ela – Andrey. Andrey eu não quero ir – Alamanda estava atônita. As luzes apagadas, a mesa das comidas, a mesa onde Juan ainda estava sentado. Tudo parecia tão artificial! Ela estava aquele tempo inteiro decorando um baile para marcar sua morte. Zonza como nunca esteve, andou até o lado de Ariadne, que arfava, absorvendo a agonia de Alamanda.
–Al – sussurrou Andrey ao seu ouvido – Acalme-se, vamos acabar logo com isso.
– Juan Hernanez – leu Ariadne de sopetão.
– Eu me voluntario – disse David.
– David, você não precisa fazer isso – disseram Juan e Katheryn em um quase uníssono.
– Mas eu já fiz.
– David, você não... – o pedido de Katy foi interrompido por um soluço alto de Alamanda
Pare de ser idiota, você só vai piorar as coisas, pensou ela enquanto as lágrimas a embebiam.
– ELES VÃO MORRER, EU VOU LEVÁ-LOS PARA A MORTE MAIS UMA VEZ – Ariadne exclamou, recobrando a falta de juízo. Sentando-se ao lado de Alamanda e uniu seu pranto ao dela. David abraçou as duas.
– Vai ficar tudo bem – disse ele enquanto cantava, soluçando, a música Aloha ‘Oe.
O mundo girava em ponche, lágrimas e hula.

Fale com o autor