Jogos Meio-sangrentos
6 Capítulo 6 - Peças trocadas
Notas iniciais
As crianças de Atena estavam focadas. E não eram em livros ou mapas de batalhas.
Havia muitos semideuses no chalé. Afinal, os filhos de Atena eram os mais fáceis de serem concebidos. Bastava um pensamento da deusa e logo um professor ou cientista ganhava um herdeiro. E eles agora eram mais diversificados. Ainda havia os típicos loiros dos olhos acinzentados, mas parecia que a deusa resolvera olhar para outros lados do mundo. Garotos e garotas asiáticos rondavam pelo chalé fazendo cálculos como uma filha de Afrodite faz as unhas. O conhecimento era universal.
Meninos e meninas haviam organizado as cadeiras de estudo em fileiras, como se fosse uma plateia. Não havia cadeiras suficientes, então alguns começaram a empilhar livros. E tinham livros para que todo o Acampamento sentasse. Eles armaram pedestais e duas redomas de madeira com corujas entalhadas. Os nomes estavam dobrados em papeis que geralmente eram usados para exercícios de física. Mas faltava alguém para sortear os nomes.
E claro, eles sentiam falta de Annabeth. Ela saberia o que fazer naquela situação. Ela saberia até, quem sabe, reverter essa proposta de Gaia e fazer com que não houvesse mais Jogos. Alguns diziam que ela e seu namorado haviam morrido. Outros diziam que ela corria sério perigo, mas ainda era possível sentir sua aura. De toda forma, sem a jovem conselheira do chalé, seus irmãos sentiam-se idiotas. Sim, idiotas.
Os filhos da Sabedoria conversavam baixo. Odiavam demora ou qualquer coisa imperfeita. Não seria melhor um mero sátiro vir, pegar dois papéis e pronto? Mas teria que vir um convidado especial de Gaia, para além de sortear, acompanhar os tributos em sua trajetória até os Jogos.
Então ela entrou. E os filhos de Atena imediatamente desejaram que ela tivesse demorado ainda mais. Com certeza, Gaia deveria estar gargalhando naquele instante, pois os semideuses do Chalé 6 estavam frente à frente com a maior inimiga de sua mãe. As cobras da cabeça da Medusa sibilaram.
Há quantos anos ela havia sido morta pelo namorado de Annabeth? Cinco anos? Pouco tempo. Com as portas da morte abertas novamente, eles demoravam menos tempo para voltar ao mundo mortal. Mas ela estava diferente. Usava o mesmo vestido negro que cobria seu corpo escamoso, como descrevera Percy Jackson. Mas um acessório tinha sido adicionado. Medusa usava uma máscara, igual a do herói Zorro. Mas essa máscara não tinha abertura para os olhos, era feita de metal e parecia parafusada no rosto do monstro.
–Boa tarde, pequenas crianças – silvou ela. Parecia quieta, como se não nutrisse um ódio profundo por Atena e suas crias – Fui designada para o papel de sortear dois nomes para os Jogos Meio-sangrentos. Acho que estou um pouco atrasada, então vamos fazer isso o quanto antes, não?
Ela estava estranha. Medusa havia sido instruída a não atacá-los? Ou ela ainda não estava totalmente recomposta dos poucos anos no Tártaro? Havia algo por trás daquela máscara metálica, algo mais do que os olhos petrificantes. As cobras da górgona expuseram suas línguas púrpuras, identificando o cheiro do ambiente. Então ela se orientava assim. Andando até os pedestais, passou o dedo em forma de garra sobre a redoma das meninas.
–Vou tirar o primeiro papel, então se aquietem meninos. Ainda ouço ruídos. Esta redoma é a das meninas? Sim? Então a nossa escolhida é...
–Eu me voluntario! – alguém se levantou.
Diferentemente da irmã Annabeth, seu rosto não expressava simpatia. A boca era contraída e as sobrancelhas expressivas arqueadas para baixo. Ela repetia esses mesmos passos desde que saíra da mansão Charbonett. Rumo a uma morte duvidosa pela segunda vez. Ainda ouvia o choro de Rafael e a risada do pai. Risada que nunca fora dada com tanta sinceridade a ela. Dentro dela, os sentimentos de medo e bravura duelavam como sempre duelavam quando ela estava nas ruas sozinha, enfrentando monstros ou passando fome. Agora era a hora de a bravura cravar uma espada no peito do medo e seguir em frente.
A criatura de máscara metálica sorriu docemente e perguntou o nome da garota.
–Gabrielle Charbonett – disse ela.
–Lindos olhos, Gabrielle Charbonett. Não são cinzentos como os das outras crianças de Atena, mas parecem reflexo da própria sabedoria. E esses cabelos loiro-escuros? Cacheados, sedosos...
–Não toque em mim! – gritou Gabrielle. A Medusa ficou estarrecida. Suas serpentes sibilaram.
–Acalmem-se meninas – disse o monstro – A senhorita Charbonett não quis ser rude. Ela apenas está um pouco nervosa. Sim, meus anjos, participar dos Jogos não é tão fácil quanto parece. Agora, Gabrielle Charbonett, espere enquanto eu sorteio o nome de seu irmão que lutará ao seu lado.
Gabrielle calou-se. Não que tivesse ficado com medo do monstro. Medo era algo inviável para ela. Mas ela preferia que a Medusa estivesse tentando petrificá-la a sorrir docemente. A górgona tirou um papel da redoma e como não podia ver, fez algo extremamente nojento: ela lambeu o papel com sua língua roxa. Depois passou os dedos ásperos no papel sujo de gosma verde. Sorria enquanto tentava sibilar o nome do sorteado. Vitoriosa por conseguir ler usando o paladar, limpou a garganta para falar.
–E o nosso tributo é... Timoty McCarty!
Gabrielle olhou para o garoto. Doze anos. Cabelos loiros cortados como os de um índio. Rosto corado. Rosto ainda mais corado por causa das lágrimas. Ele berrava como se estivesse tendo um pesadelo real. A Medusa aproximou-se dele e tocou seu rosto. Uma de suas víboras esfregou o focinho em sua bochecha.
–Meu benzinho, não fique assim. A titia garante que você vai ficar bem, certo? Agora pegue na minha mão e venha comigo – ela estendeu a mão com unhas negras. O pequeno Timoty apavorou-se ainda mais, explodindo em lágrimas.
–Não precisa ir com ela! Eu me ofereço! Ei, me ouviu? Ei! – gritou alguém ao fundo, de modo histérico. Um garoto veio, esbarrando na pilha de livros onde estava sentado e nos demais campistas. E então ele caiu por cima de uma japonesa – Ah desculpa, não sei como se fala “perdão” na sua língua. Arigatou! – ele curvou-se exageradamente para a irmã, que não sabia se ligava para o fato de ser esmagada por um garoto magro com os cabelos loiros bagunçados ou por ele estar parecendo um demente querendo dar-lhe cabeçadas.
–Ah, um voluntário? – sorriu a Medusa e silvaram as serpentes.
–S-sim, sim – o garoto ajeitou o suéter. Ele ouvia risos, mas já estava acostumado a ser ridicularizado até pelos meios-irmãos.
–Querido, seu ato foi muito corajoso. Sacrificar-se pela pobre criança? Sua mãe deve estar orgulhosíssima!
–Mas eu posso ganhar, não? Então necessariamente não vou me sacrificar.
O Chalé 6 inteiro riu. A Medusa, Timoty e até Gabrielle que tentou conter o riso. Modéstia a parte, mas aquela traça de livros não seria páreo para uma semideusa preparada como a filha do professor Charbonett.
–Certo, garoto – disse por fim a górgona – Mas qual o seu nome?
–Sou George Blacksmith. Quinze anos, e acho que posso derrotar monstros como a senhora.
Silêncio geral. As víboras da cabeça da Medusa silvaram, mas a mesma acalmou-as mais uma vez.
–Então tudo bem, senhor Blacksmith. Você parece bem ousado e não sabe controlar-se. Isso pode ser bom na Arena, ou não. Mas agora vamos para o que interessa! Nós temos o casal do chalé de Atena! Gabrielle aperte a mão do seu irmão, em sinal de cumprimento. Vamos lá, não sejam acanhados!
–Oi Gabrielle, sou George. Prazer em falar com você, já que só nos conhecemos de vista.
–Ah sim – respondeu ela com desdém – Parece que vamos ter muito tempo para nos conhecer, não? – Gabrielle forçou um sorriso. Quanto menos falasse com esse garoto melhor. Não queria ter de matá-lo na Arena, nem comover-se quando alguém o fizer.
Ao contrário do que se deve pensar, Gabrielle se sentia como a dama branca. E George era para ela o peão negro.
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