Jogos Justos
9 VIII - Aliança
Notas iniciais
Boa leitura! :3
Eu sinto algo no meu estomago – ou melhor, um vazio dentro dele. Minha garganta estava ressecada e minha boca parecia àqueles antigos poços áridos do meu distrito. Eu sinto algo perto de panos embaixo de mim, mas a luz ao meu redor não permite que meus olhos distingam exatamente o que é (aliás, não consigo enxergar nada nesse instante).
Tento mexer meu braço esquerdo, mas uma dor aguda e insuportável me aflige e minha memória começa a se reconstruir. Até então, eu não fazia a menor idéia de onde eu estava. Não que fizesse muita diferença depois que tudo voltou a fazer sentido.
Eu ainda não sabia onde eu estava e aquilo estava me deixando nervosa, o que piorou a dor da minha ferida e o vazio no meu estomago, um tremendo vai-vem de alguma coisa pelo meu esôfago e uma sede absurda.
Assim que consegui abrir meus olhos, tentando enxergar com muita força de vontade as coisas ao meu redor, o que eu pude mais ver foi um clarão poderoso que pertencia ao sol daquele dia nublado e copas altas, bem distantes da minha pessoa, acima de mim com as folhas largas dançando contra o vento e tentando continuar no galho. Olhei para o meu lado direito, porque estava mais fácil, e me deparei com terra. Alta e eu podia ver raízes de uma árvore saindo delas. Parecia muito com uma cova onde eu estava aquele barro todo bem escuro e as pedras pontiagudas judiando das minhas cotas por mais que alguma coisa estivesse entre nós.
Só que não era uma cova, e sim uma vala enorme que não tinha fim, deduzi depois que vi a continuidade a minha frente, ainda deitada de um jeito completamente desconfortável. Fosse lá como eu havia parado aqui, não fora uma idéia muito ruim. Pelo menos o vento frio não havia me congelado com aquela ferida aberta no meu braço – ainda não, quero dizer.
Esforcei-me para virar para o outro lado porque estava com dor e meio tonta ainda, e assim que eu consegui, no mínimo, ficar de frente e conseguir virar meu pescoço pra um lado e para o outro. E foi aí que eu vi uma figura deitado de costas para mim, largado como se estivesse muito calor pra ele sequer pensar em se encolher – e eu tremendo com a baixa temperatura aqui. Eu via a pele azulada dele mais brilhante do que o comum, como se uma camada de geada estivesse cobrindo-a como cobria as gramíneas no início do inverno – cujo qual eu nunca presenciei fisicamente. O ombro para cima tinha uma ponta como uma estalagmite afiada, e a ponta da orelha dele também parecia mais perigosa que o comum. Os cabelos estavam brancos e desgrenhados, mas, por alguma razão, eu não queria que eles encostassem-se a mim – provavelmente deveria estar tão gelados quanto o resto do corpo do garoto da Zona Dois, ou melhor, Cameron.
Ele estava sem o casaco que entrara na arena, mas eu supus que qualquer coisa que estava entre eu e o chão pertencesse a ele. As únicas coisas que ele estava usando era aquela calça de tom azul escuro, bem escuro, e a blusa que só não era mais branca que os cabelos dele por causa da sujeira proporcionada devido às lutas na arena. Ele parecia bem confortável para alguém que tinha tanto luxo, dormindo em camas macias e comendo sempre do bom e do melhor, estar acomodado num chão de pedrinhas. Acho que aquela camada de gelo sobre todo o seu corpo tinha algo a ver com aquilo.
Eu fui me erguendo devagar, respirando nos intervalos de dor que me importunavam enquanto me sentava, tentando me localizar melhor. Nossa! Meu estômago estava me matando e eu precisava muito beber água. Minha sede estava absurda e tudo ao meu redor se tratava de terra e árvores. Onde que tinha um rio por aqui, hein?
Minha mochila foi usada como meu travesseiro e parecia intacta por algum motivo. Sorte minha acho, ou Cameron estava poupando-me para alguma coisa. Não tenho confiança suficiente nele para poder distinguir a necessidade de ambição a essa altura do campeonato.
Entretanto, eu tenho que admitir que ele tivesse uma boa percepção, porque assim que eu tentei me levantar do chão, uma voz soou e me parou na hora: — É cedo demais para sair à francesa, não acha?
Merda. Engoli em seco, olhando-o de soslaio. Ele se remexia antes que seus olhos azuis frigidos estivessem finalmente me encarando e seu típico sorriso torto desenhado em seus lábios finos.
-Bom dia, bela adormecida. – revirei os olhos antes de recuperar forças o suficiente para me erguer do solo, ele me seguindo com preguiça – Dormiu bem?
-Não foi o meu melhor sono de beleza, tenho que admitir. – respondi secamente, apertando firmemente minha ferida, sentindo ainda mais a dor atuar, e xingando por não poder me espreguiçar devidamente. Aliás, invejando os gestos flexíveis de Cameron.
-Foi tão ruim assim dormir comigo? – com a cara que ele fez, se eu estivesse em meu eu normal, eu o socaria e deixaria seu nariz tão torto que nem um cirurgião poderia dar um jeito. Porém, eu não estava bem e eu certamente não ia continuar com esse assunto.
-Como viemos parar aqui? – ele arqueou uma sobrancelha me provocando, um risinho em seus lábios que me fez ferver, mas eu me segurei. Ele deu de ombros e cruzou os braços cobertos por gelo.
-Eu vim pra cá depois de despistar um velocista. Não foi muito fácil devido à agilidade dele... – ele admitiu estralando o maxilar. Parecia que a corrida dele contra Wally tinha ferido seu ego e eu senti vontade de rir com aquilo, mas, novamente, eu me segurei. Não sei com quem estou lidando ainda – Apesar de tudo, ele é burro e acabou tropeçando na minha pista de gelo. – ele parou para rir, como se tivesse lembrado a coisa mais hilária que tinha visto – Aquele tombo foi sensacional...
-E você me carregou? – eu tive de perguntar mesmo que ceticismo residisse na minha voz.
Qual é? Eu sei que meta-humanos têm mil e uma habilidades, mas os criogênicos não tendem a ser fortes e ele nem tinha trabalhado tanto em seus bíceps pra poder carregar meus 60 quilos no colo (vamos deixar arredondado, ok?!)! Ele deve ter feito um esforço sobrenatural pra trazer um peso morto até esse ponto e eu nem sei a qual distância eu estou do Falcão na campina.
Eu esperava que ele fosse dizer algo do tipo: “Seja grata, saco de carne! Eu te carreguei por milhas até chegarmos a um lugar seguro pra princesa poder continuar com o sono de beleza!” ou “Você realmente acha que eu vou deixar isso passar de graça?” ou até mesmo algo sério como “Tenho planos maiores pra você.”
Só que não.
-Talvez porque você estava ferida e porque morrer por causa de um ferimento no primeiro dia não curado fosse algo totalmente ridículo, além de que seu corpo pudesse ser pisoteado por todos que estivessem lutando no Falcão e aí seus pais não teriam um corpo para enterrar... – ele continuou falando um monte de coisas reais que aconteceram e poderiam ser verdade, mas minha audição foi seletiva já que meu consciente começou a funcionar sobre sua resposta.
Ele está preocupado comigo? Minha face de descrença deve tê-lo ofendido, porque ele cruzou os braços e fez uma cara amarrada do tipo que te deixa ficar ainda mais preocupado com o que ele faria contigo.
-Que foi?! É proibido salvar alguém nesse jogo? – ele olhou para os lados de uma forma cínica, como se estivesse procurando pelas câmeras e alguma resposta. Claro que o silêncio permaneceu nos sons do vento nas árvores e os pássaros cantando. Seus orbes azuis voltaram a me encarar e eu ainda estava processando tudo aquilo.
-Salvar por salvar alguém num jogo em que o último que restar com vida é o campeão é algo completamente idiota! – eu o alertei e ele revirou os olhos – Você me salvou porque achou que eu não merecia morrer ali?!
-Eu tenho meus motivos. – ele deu de ombros novamente e isso começou a me enervar.
-Bom, pode começar a esclarecer esses seus motivos que me envolvem, Cameron, porque eu odeio ser ignorante aos fatos! – intimidei, pisando para perto dele como se a terra abaixo de nós fosse um assoalho bem duro. Fiquei perto dele, muito perto, inclinando meu pescoço para permanecer com meus olhos nos dele e só não tinha minhas mãos cerradas e duras nas laterais do meu corpo porque uma delas estava segurando as bandagens no ferimento do meu braço.
-O fato, Artemis, é que eu te salvei do banho de sangue! – aquele olhar seco dele me deu vontade de vomitar. Ótimo! Agora eu tenho uma divida de vida com ele – Mas não precisa se incomodar porque eu não quero seus agradecimentos. – e uma feição de desdém tomou conta de sua face – Não quero nada seu, mesmo.
-O que?! – rangi meus dentes. Eu estava enfurecida e nada estava melhorando porque eu estava parecendo à paranóica que queria acreditar em algo mais por ele ter me salvado na televisão para os espectadores enquanto ele se safava, sendo o altruísta. Além de tudo, ele me deu as costas, pegando o casaco dele no chão e carregando-o sobre um ombro, indo embora como se nada tivesse acontecido – Você realmente espera que eu caia nessa de que você ser altruísta numa arena mortal?! – eu marchei atrás dele, sentindo cada vez mais uma dor aguda no meu braço – Pare de me ignorar!
-Quando você começar a fazer sentido, Artemis. – eu grunhi pronta para acabar com ele naquele mesmo instante.
Mas, então, eu pensei um pouco comigo mesma, contando até dez e respirando bem fundo, tentando engolir aquilo tudo secamente. Tudo bem que Cameron nunca demonstrou ser um psicopata durante os treinos, mas ele também nunca demonstrou ser filantropo; pessoas caíam o tempo inteiro no chão enquanto ele passava e ele nunca, nem pensou em estender sua mãozinha e ajudá-las a se levantar, incluindo seus adversários numa luta monitorada. Então, por que eu e por que logo agora?! Eu já tinha dito não ao convite dele de me juntar a equipe de Klarion! Ele deveria ter me abandonado na campina e... Calma aí...
Klarion!
-Onde está sua equipe, Cameron? – minha voz ainda estava bem trêmula depois de conter minha raiva.
Ele parou de andar e levou algum tempo antes de se virar para lateral, somente me olhando com o pescoço em minha direção. Ele deu de ombros e fez outra careta de quem não se importava.
-Eu não sei. – ele respondeu tão rapidamente que aquilo nem parecia uma mentira.
-Como assim não sabe?
-Eu só saí correndo com você de lá.
Ai. Me senti inútil novamente.
-Ta bem! – mordi meu lábio receosamente antes de continuar – Você simplesmente ignorou o fato de seus aliados acharem que você estava dando as costas para eles correndo comigo apagada nas suas costas enquanto eles estavam sendo feridos gravemente por outras pessoas? – não fazia o menor sentido mesmo, mas ele voltou-se para mim, movendo uma mão livre enquanto falando:
-Se você soubesse bem o porquê de eu não me importar com eles enquanto estavam sendo feridos; você não estaria tão hesitante dos meus atos. – ele rebateu e eu arqueei uma sobrancelha.
-Mesmo?
-Mesmo.
-Então, seja mais claro. – ele bufou nervoso e abaixou o braço segurando o casaco, gesticulando e batendo as mãos nas pernas quando relaxa os braços:
-Klarion é um bruxo, Artemis! Os outros são mutantes de alguma forma. Eles não se machucam facilmente e eles certamente nem notaram quando saímos de lá. – agora eu tinha cutucado ele – Será que podemos mudar de assunto?!
-Não podemos não. – ele revirou os olhos e apertou o nariz. Eu ignorei – Não são apenas vocês que têm poderes, Cameron! Outros têm também, outros também são difíceis de matar e eu vi com os meus próprios olhos um deles se transformando num monstro enorme! Não me venha com eles nem notarem você saindo de lá comigo quando você tem um casinho com a menina musculosa! – lembrei-o e ele me encarou como se estivesse se lembrando de algo, mas ele continuou calado – Você acha que ela não vai interrogar Klarion pra dar um jeito de te achar?! Porra, ela pode colocar um preço na sua cabeça por sair correndo por aí comigo de uma forma completamente imprudente! Você pode não ser aceito no seu grupo de novo se continuar andando comigo e... – durante meu monólogo eu mal consegui notar que ele estava se aproximando e eu definitivamente só fui perceber que Cameron estava no meu espaço pessoal quando eu senti o ar frio saindo de sua boca no meu rosto e seus olhos azuis fixados nos meus assim que eu olhei para cima.
Ele agarrou meus braços, mas com o que estava machucado ele não segurava com tanta força quanto o que estava bem – aliás, ele compensou a força que não estava no machucado no meu braço totalmente ileso e estava começando a doer.
-Sabe qual é o seu problema? – Cameron sussurrou, eu podia ver os rápidos movimentos que suas íris faziam tentando focar em minhas vistas ao mesmo tempo. Eu não sabia o que fazer – Você se preocupa demais com os outros e com seus motivos. – ele falou entre dentes, suas sobrancelhas fincando brevemente com aquilo. Eu só o sentia fechando a distância entre nós que havia e pouco a pouco eu podia tatear a parte da frente de seu corpo. Eu tentei desviar o olhar, mas ele me sacudiu uma vez me forçando a olhá-lo novamente e eu tremi – Quer um motivo real para se preocupar? Que tal você começar a pensar que está numa arena mortal e sozinha no meio de uma floresta infestada de câmeras e perigos a espreita, prontos para dar o bote em uma garota tão bonita e machucada sem capacidades sobre-humanas? – soltei um ar que não sabia que estava segurando e o medo começou a repercutir a minha volta.
-Você...
-Acha que foi fácil carregar você uns cinco quilômetros no colo, hein?! Realmente acha que foi fácil fazer curativos nesse seu bracinho machucado enquanto você estava desmaiada e desprotegida? Completamente indefesa?! Acha que foi fácil tomar conta de você a noite inteira, com você se mexendo e grudando no meu corpo em busca de calor? Acha?! – eu abri a boca e o ar que saiu dela estava muito mais quente que a atmosfera ao meu redor, eu pude ver a fumaça e Cameron continuou com seu monólogo assustador – Acredite que não foi nada fácil! Aliás, foi totalmente o oposto de tentar não fazer nada com você. – ele me olhou brevemente de cima a baixo e eu senti rubor nas minhas bochechas, eu estava ficando com raiva. Muito mais raiva que qualquer outro sentimento – Mas não fiz e quando acorda você quer sair sem agradecer, eu não digo nada somente respondo suas perguntas e você ainda me cobra mais. Eu digo que pode ir e você me joga na cara que meus companheiros estão pensando em me matar por tê-los abandonado?! Você acha que eu sou estúpido?
-Você é... – ele apertou meu braço machucado agora e eu gritei de dor.
-Nada esperto insultar quem está segurando você, muito menos alguém com poderes criogênicos, gata. – eu arfei minhas narinas com nojo – Eles sabem bem Artemis que estamos juntos. Inclusive, a garota musculosa que falou, ela se chama Tuppence e ela é bem possessiva quando o assunto sou eu, então ela não vai gostar nada de saber que você esteve assim comigo ou que dormiu comigo. Ela vai até fazer questão de te rastrear até ter sua cabeça numa bandeja de prata. – eu mordi minha bochecha – Mas ela não precisa saber, né? – eu acho que ele queria uma resposta, pois ele voltou a apertar meu machucado. Eu gemi de dor novamente, sentindo meu joelho vacilar – Não se preocupe. Se você cair, eu te seguro. – mas depois dessa é óbvio que eu não podia deixar passar.
-Você é doente, Cameron! – ele continuava com a mesma expressão do começo, como se tudo aquilo que ele estivesse me dizendo ou fazendo estivessem doendo nele.
Ele não me apertou mais depois daquilo, nem continuou a fazer a temperatura cair mais. Ele só ficou ali parado, me encarando como se tudo fosse muito triste e eu fosse à visão de uma caixa de lenços para enxugar as lágrimas que ele iria derramar. Seus orbes olharam para baixo, como envergonhados e eu não sabia bem o que ele estava querendo com aquilo tudo.
Ele estava encenando? Ele estava falando sério? Eu não sei! Apesar de não estar sendo apertada até meus braços serem triturados, ele ainda está me segurando e eu não posso simplesmente sair andando por aí. Além disso, ele está grudado em mim e eu ainda estou me sentindo assediada por ele!
-O que... – eu ia perguntar o que ele estava esperando. Eu ia!
Mas ele meio que abaixou a cabeça e encostou seus lábios nos meus, coisa que eu tinha me esquecido de esperar depois que estava com raiva. Arregalei meus olhos, completamente envergonhada, mas mais estarrecida do que qualquer coisa. Não foi um beijo bruto ou um beijo cheio de línguas. Foi um mero encostar de bocas, lento e gentil, como uma folha tocando uma superfície e, por mais contraditória que eu seja dizendo isso, morno. Quase quente o suficiente para que eu o quisesse grudado em mim. E, diferente de mim e do meu estado, ele tinha fechado seus olhos e parecia até estar curtindo aquele momento.
Demorou algum tempo, sim, e eu não esperava pelo meu choque demorar até o fim do beijo e eu não esperava por me sentir completamente idiota depois daquilo – foi meu primeiro beijo e eu estava à beira de ser abusada sexualmente em rede nacional!
-Hã? – não foi à coisa mais inteligente que eu já disse, admito ta legal?! Mas foi a única que saiu da minha boca assim que ele se distanciou de mim.
Ele voltou a mirar meus olhos e suas mãos afrouxaram a prensa em meus braços, me soltando lentamente até que suas mãos aparecem nas laterais de seu corpo. Ele riu ironicamente para si, como se tivesse falhado em algo muito importante e minhas pernas não se mexiam mesmo meu consciente querendo tanto me tirar dali.
-Eu sou mesmo um inútil. – ele balançou a cabeça negativamente, ainda rindo e dando um passo para trás, escondendo sua face da minha enquanto olhava para o lado. Eu não entendi. Logo mais ele tinha parado de ser esquisito e me olhou com dor maior – Artemis, você já devia ter saído correndo daqui.
-Hã?! – se possível eu estava ficando pior com esse negócio de entendimento.
-Vai embora! – ele gritou e por reflexo eu joguei meus ombros para trás rapidamente, parando em seguida – Será que você não consegue ver onde está se metendo?! – eu continuei parada, querendo respostas e eu não iria abrir minha boca até ele dizer algo que fazia sentido – Olha, só procure manter distância da equipe do Klarion a partir de agora, ta? Não posso proteger você o tempo todo. – ele me alertou e pendurou seu casaco de volta no seu ombro saindo andando e me deixando.
-Cameron! – eu o chamei e ele me olhou novamente, muito mais triste do que antes – O que você está fazendo?
-Nem eu sei mais. – ele me respondeu, andando de costas.
Eu não sei que tipo de sentimento estava em mim, mas eu não respondia aquilo. Somente fiquei analisando-o até ele subir aquela vala pela parede de lama e parar ao lado de uma arvore antes de sair andando atrás dela: — Se cuida, Artemis. E Ele sumiu.
Meu cérebro tinha sofrido um grande dano.
.
Eu não parti assim que Cameron foi embora. Aliás, eu fiquei um bom tempo pensando em tudo o que tinha acontecido enquanto xeretava o ferimento no meu braço, que não estava lá muito bonito. Eu tentei limpar com algum pedaço de pano limpo dentro da minha mochila, sorte que havia um saco de dormir e um cantil com água, além de algumas outras coisas que não serviam lá para emendar machucados. Primeiramente, eu bebi a água porque eu não tinha notado quão sedenta eu estava até ouvir o barulho sinuoso da água encostando-se ao metal do cantil quando balançava e ela estava na temperatura certa. Controlei-me também, se não acabaria com ela em um gole só.
Decidi que era melhor eu rasgar um pedaço da minha blusa quando vi que o saco de dormir era descente para me manter aquecida a noite – eu tinha que ter pelo menos alguma coisa em um só pedaço. E limpei o sangue seco ao redor, sentindo agulhadas devido à sensibilidade e me lembrando de alguns ferimentos do tipo quando eu era criança e ficava me aventurando no deserto com minha irmã.
Engoli em seco porque se eu gritasse não ia dar muito certo. Eu estava limpando a ferida agora e senti lágrimas tomando forma no canto de meus olhos, meu lábio quase sangrando entre meus dentes. Com tamanha dor dava pra deduzir o grau de infamação e isso não era nada bom mesmo.
-Deixa de ser boba, garota! É só um corte. – e eu estava de volta ao deserto, no escuro da noite, com Jade sentada a minha frente caçoando do meu joelho aberto.
-Mas dói muito, Jade! – eu choramingava e meu nariz escorria. Eu tinha chorado por mais de uma hora e o machucado já estava coagulando.
-Claro que vai doer, dã. Você tem que suportar a dor senão nunca vai ser forte! – Jade tinha uns dez anos e ela já tinha todo o ar de superioridade sobre mim, o qual tomou forma completa quando ela estava nos Jogos.
-Mas não quer dizer que eu tenha que gostar disso... – eu rebati num resmungo e quando a luz da fogueira bateu direito na cara de criança de Jade, um sorriso relaxado surgiu em seus lábios e seus olhos tornaram-se mais dóceis.
-É. Não mesmo. – então ela se sentou do lado da minha perna dobrada e rasgou o resto da manga do braço direito — que não era lá um grande pedaço, mas meu joelho era bem pequeno — servindo como um curativo – Por isso nós devemos prestar atenção no que fazemos, para onde vamos e imaginarmos todas as possibilidades de reação que nos desfavorecem. – eu fiquei com medo de que fosse doer mais. Entretanto, ela tomou extremo cuidado e para cobrir o ferimento, fazendo o nó na lateral da minha perna, assim não ia me incomodar quando fosse dormir. Ela me olhou e cocei meu nariz com minha mão suja – Prontinho Cascão. Agora é só não se esquecer de lavar sempre e deixar um pouco exposto pra não ficar abafado e criar pus. – eu assenti e me encolhi.
-Eu não sou cascão. – impliquei e ela riu, balançando o meu cabelo – EI!
-Vá dormir Artemis. Temos que caçar amanhã cedo.
-É.
Quando me dei conta já tinha terminado de dar o nó com uma mão só, coisa que eu aprendi na marra numa dessas aventuras quando criança. Jade tinha razão. Eu tinha que prestar mais atenção e imaginar quaisquer acasos que pudessem me acontecer – até mesmo os impossíveis. Só que, no meu mundo, não é impossível nada.
Olhei ao meu redor, estava tão quieto que me assustei. Olhei ao céu e vi o dourado do sol com o vermelho e rosa misturando-se com o azul no sul. O sol se punha e eu tinha que me mandar dali, porque não era um lugar lá muito seguro.
O pior de tudo é que eu tinha um estomago roncando e uma dor de cabeça absurda de tanto pensar sobre as impulsivas ações de Cameron – a ficha não caiu ainda, ta legal?! Todos os Jogos que eu assistia na televisão e quando aconteciam beijos eram bem diferentes do que me roubaram – na maioria das vezes não era platônico, e, quando isso acontecia, era quando a menina estava desesperada. Mas até aí eu não sei como interpretaram o que aconteceu lá do outro lado da câmera. Oliver provavelmente bateu com a testa dele na parede umas mil vezes, minha mãe devia estar horrorizada, Bette devia estar gritando chocada e meu pai... Bem... Eu realmente não sei o que meu pai estaria nesse instante – talvez me chamando de idiota e mastigando uma carne seca.
O que? É como minha família funciona. Ainda bem que Roy não viu se não iria encher o meu saco para sempre – isto é até um de nós estiver com a cabeça arrebentada numa pedreira ou um buraco no peito.
Guardei minhas coisas e olhei no chão para ver se podia usar alguma pedra como faca ou qualquer coisa pontuda o suficiente para cortar a pele de uma lebre que estivesse saltitando por aí – eu tinha me esquecido que estava faminta. E, por mais coincidente que pareça ser, havia uma adaga caída ao chão. A bainha era bonita, com adornos prateados e detalhes em verde, como se representasse uma árvore da vida, e a lamina brilhava. Com certeza nunca havia sido usada. Na minha experiência com coisas desse tipo, definitivamente não era algo que alguém como eu podia bancar na minha terra.
Eu guardei a faca na barra da minha calça, presa ao tecido caso eu perdesse o cinto – eu não perderia as calças por aí, né? Estralei meu pescoço e meu ombro direito porque meu outro braço ainda estava meio sensível; passei a mão no meu cabelo para ter certeza de que eles ainda estavam presos descentemente, no mínimo fora da minha cara, e chequei minhas botas para não ter nada que me atrapalhasse quando eu fosse correr, ou caso eu precisasse disparar. Pus a mochila nas minhas costas e apertei o alargador, segurando firmemente as abas respirando fundo algumas vezes.
Tava na hora de entrar no jogo.
Olhei o céu novamente e ainda tinha alguns minutos para caçar alguma coisa. Se eu estivesse perto de algum riacho ou um poço natural haveria animais por perto, então eu, com certeza, me daria bem. Eu só precisava prestar atenção nas trilhas coisa que não era lá muito fácil dentro de uma vala. Peguei impulso e me joguei na parede de barro, escalando seus dois metros e meio até estar pisando no terreno arenoso e lamacento, sentindo saudade das rochinhas pontiagudas que entravam na sola das minhas botas.
A caçada começou e — ainda bem que eu tenho sorte quando a situação já não pode ficar pior do que já está — um rastro de porquinhos-da-índia seguia ao leste da onde eu estava. Eu esperava que me levasse para uma fonte de água porque meu cantil estava esvaziando; e a parte azul do céu se tornava cada vez mais escura – no mínimo algum ninho de aves no caminho podia me dar forças o suficiente para caçar no dia seguinte.
Eu caminhei, olhando para o chão, para frente e prestando atenção ao meu redor. Eu estava debilitada, mas não invulnerável. Só precisava da oportunidade certa se alguém estivesse com duvidas da minha sanidade no campo de batalha. Logo mais, há uns trinta metros, eu pude avistar na sombra das arvores uma linhada de porquinhos-da-índia, fuçando entre uma raiz e outra, montando seu acampamento e minha boca começou a aguar. Eu realmente estava morrendo de fome – eu nunca achava bonito das pessoas caçando os animaizinhos na selva para comer, ainda mais os indefesos. Porém, quando se está no lugar delas, não é fácil julgar.
Olhei ao redor deles, procurando qualquer tipo de armadilha, qualquer coisa que pudesse me acontecer. Por enquanto nada, então eu me ajoelhei me ajeitei para não fazer barulho, me preparando como um puma para a caça e até fiquei surpresa comigo mesma, entretanto eu não estava em posições de me corrigir. Eu decidi que seu eu corresse teria mais chances de pegar algum que ficasse preso entre as raízes e um era melhor que nenhum – além disso, eu não ia ter tempo de esperar qualquer armadilha dar certo. Portanto eu disparei, com passos largos, e eles me viram, alguns esguicharam e outros tentaram correr, mas quando eu mais corria um fez exatamente o que eu esperava que fosse fazer: pular entre o pequeno buraco das raízes e entalou ali.
Quando eu cheguei ali o animalzinho continuava a se debater, em vão, mas estava sozinho e continuava a choramingar. Eu tentei pegá-lo, mas com cuidado, já tinha desembainhado a adaga. Seria mais fácil para nós dois se isso fosse rápido e eu fiz uma careta quando o puxei com força de entre as raízes e senti algo subindo pela minha garganta, tentando me fazer soltá-lo. Mas eu lutei contra a agonia e o virei com a outra mão para segurá-lo por trás. Ele continuou a guinchar e eu fechei meus olhos, pedindo desculpas e pegando sua cabeça com a mão livre. Contei até dez e um estalo me avisou que tinha acabado aquela tortura.
É. Nunca achei que seria tão difícil me alimentar nos jogos. Eu superestimei este fator e estou arcando com as conseqüências – obvio que era muito mais fácil matar um lagarto a sangue frio do que um bichinho fofinho com olhos gigantes e brilhantes que parece esperar apenas o seu melhor.
Eu o embalei numa folha e procurei por galhos para montar uma fogueira, ali mesmo, a fome estava batendo ainda mais, aumentando com o fator de eu ter o alimento em mãos com a falta dos apetrechos, e eu o coloquei em cima da minha mochila quando eu juntei o suficiente para começar a acender uma fogueira – aí que ta: se eu tivesse poderes meta-humanos eu podia fazer uma fogueira bem mais depressa.
O céu estava escuro, mas o sol deixava alguns raios de luz se espalhar e dava pra ver algumas estrelas espalhadas. Eu espetei o bichinho num galho pontudo e resistente e o coloquei sobre o fogo, sentando-me perto dele, com a mochila com encosto, e esperando grelhar o meu churrasco improvisado – não que churrasco de carne-seca conte lá como grandes coisas, mas enfim...
Enquanto eu comia meu porquinho-da-índia, solitária naquele lugar quieto, eu me lembrava que eu não estava lá acampando. Não, eu estava num desafio e não estava lutando por ele sozinha. Outras pessoas queriam tanto vencer esses jogos como eu, e elas tinham chances bem melhores que eu. Eu precisava ter alguma vantagem, qualquer coisinha tola que me fizesse me sair um pouco melhor que meu desempenho anterior no campo de batalha. Eu tinha sido ridícula no banho de sangue, sem duvida nenhuma.
Eu fui atingida. Ta... E daí?! O povo perde olho, perde orelha, perde dedo no banho de sangue, mas taca o foda-se e continua a jogar porque tem a vida em risco. Eu estou completamente vendada e eu não sabia de como o jogo se tratava até entrar na Arena. Não vou falar que é fácil, mas fica menos pior quando se foca em uma coisa só e eu não estava focada no meu bem estar, no meu benefício; eu fiquei preocupada com Kaldur chorando pela Tula e quase sendo decapitado pela menina estranha que eu matei depois de muita pressão psicológica e depois de ser ameaçada por ela e seu irmão mutante!
Por mais hilário que pareça, não é, e eu tenho que deixar esse meu lado humano de querer tomar conta de tudo e de todos para voltar para a minha casa. Para honrar Jade, porque ela fez de tudo para ganhar – e o destino deu uma facada em suas costas, mas ela abusou da extrema sorte que ela tinha. Eu tenho que provar ao meu pai que eu lembrei seus ensinamentos de quando era pequena e dos braços quentes de minha mãe que desdenhei por tanto tempo.
Eu sou uma idiota mesmo.
.
Crac!
Meus olhos abriram depressa e eu olhei alerta para os meus lados procurando por alguma coisa que não estivesse em seu devido lugar ou em sua ordem natural. E estava escuro, muito escuro. Eu engoli em seco, apenas o brilho do fogo a minha frente e eu me xinguei até minha quinta geração.
-NÃO SE ESQUEÇA DE APAGAR A PORRA DO FOGO ANTES DE CAIR NO SONO! – eu podia ouvir a voz do meu pai e de Oliver em uníssono na minha mente.
Chutei um monte de terra para cima da fogueira e ela começou a se dissipar até o brilho laranja desaparecer, fumaças e algumas faíscas ainda sambando no ar. Continuei alerta, minha visão se acostumando aos poucos com a mudança drástica de luz e a falta do luar no céu não ajudava em nada. Aliás, não dava nem pra ver as estrelas – ia cair um temporal logo mais e eu precisava de abrigo.
Só que antes de sair por aí, numa Arena mortal, indefesa, eu devia tomar conta de mim primeiro.
Crac!
Eu mordi meu lábio e me levantei, jogando a mochila por cima das minhas costas e sentindo a aba roçar com força sobre a bandagem do meu braço direito. Mordi a língua e doeu mais ainda. Não podia fazer muitos barulhos porque eu não sabia o que estava por aí. Só sabia que não era coisa da minha cabeça e eu não ia ficar para descobrir. Não mesmo!
Tateei as arvores até que meus olhos conseguiram distinguir uma descente, com galhos grossos e fortes o suficiente para eu poder me estabelecer por algum tempo. A escalei, com dificuldade e desconforto por causa do meu machucado, mas quando eu estava uns sete metros do chão era hora de parar e descansar. Prestei atenção abaixo de mim e tentei dar cobertura a maior área que eu pudesse. Eu precisava me manter longe dos meus adversários só mais um pouco. Só mais um pouco mesmo.
Crac!
Crac! Crac! CRRRAAC!
Eu me encolhi e meus olhos alcançaram certo balançar de arbustos uns bons trinta metros da árvore onde eu estava. Concentrei-me mais um pouco e vi duas silhuetas grandes fortes, esmagando os troncos de árvores que entravam no caminho do grupo, despedaçando-as e arremessando-as no redor, abrindo uma trilha no sentido completamente literal das palavras.
Eles vinham no sentido que atravessavam minha área, do norte para sudeste, e eu estaria em grandes apuros se eles olhassem para cima. Então eu fiquei quieta, mas atenta, enxergando detalhes melhores conforme a distância entre eu e o grupo de meta-humanos diminuía.
É. Eu estava ferrada.
Quando tudo ficou mais nítido, eu vi os gêmeos Terror, a Tommy atrás de Tuppence, que esmagava as árvores e deixava para seu irmãozinho arremessá-las nas laterais. Atrás deles, o cabelo negro e pontudo como chifres, em sua roupa nada prática, com certeza concedida por seus patrocinadores – um terno de risca de giz – e sua pose com nariz arrebitado, Klarion desfilava calado. Eu podia ouvir uns ruídos, mas Cameron e Crystal o seguiam discutindo qualquer coisa ainda fora de meu alcance e com a menina de cabelos rosa e pele acinzentada completamente fechada por ultimo.
Eu me concentrei um pouco mais e ouvi uma voz irritada vindo de uma criatura irritante:
-E nós estamos procurando essa asinha de novo por quê? – eles pararam justamente a frente da minha arvore e eu queria morrer por causa da merda do acaso ser ter cruel comigo.
-Porque, como Cameron disse, ela pode ser uma aliada. – Klarion respondeu, sua voz aguda e de liderança fazendo Tuppence dobrar a língua – E se ela não se juntar a nós, nós a eliminamos. – eu engoli em seco e me aventurei a bisbilhotar da ponta do galho.
-E Zatanna? – acho que foi a primeira vez que ouvi Crystal falar. Ou a primeira vez que a ouvi falar questionando alguém.
Seja lá o que Klarion tinha contra a menina da zona Um que viera com ele, ele não gostou nada da menção dela. Aliás, ele até virou-se para olhar nos orbes turquesa da meta-humana quando cuspiu as palavras – Não admitimos fracos inúteis na nossa aliança, Crystal. – e definitivamente ele iria caçar a pobre garota até a morte.
Eles discutiram mais alguma coisa e de repente eu tive a impressão de que Cameron tinha olhado para cima na minha direção e eu me encolhi toda no galho. Acho que foi apenas uma impressão mesmo, pois em mais alguns minutos eles continuaram a destruir arvores e um galho passou raspando em meu rosto. Sorte que não atingiu a minha arvore. Eles foram embora e eu relaxei minha postura, soltando um ar que eu não sabia estar segurando.
-Cara, pensei que eles nunca iriam embora!
E alguma coisa se mexe atrás de mim, me fazendo rodar em alerta para trás, quase quebrando meu pescoço e gritando em pânico. Deparo-me com um par de olhos âmbares grande e uma pele transparente, me passando a imagem da arvore atrás. Lógico que árvores não respiram e não tem olhos – a não ser que seja um novo tipo de criatura assassina dos jogos. Aí, fodeu!
Eu me arrastei duas vezes pára trás, fugindo dela, e tive uma visão mais ampla da figura sentada a minha frente – sentada no ar, flutuando, com mãos esticadas em rendição tentando me acalmar (eu só fui notá-las depois que estava quase caindo da arvore). Ela começou a ficar mais opaca e a menina de pele verde foi aparecendo, com a roupa azul marinha e vermelha da zona Onze, olhos preocupados e arregalados.
-Cuidado! Você vai cair! – ela cochichou rápido me esticando a mão para me ajudar.
Eu não sabia se confiaria ou não, então permaneci tentando me equilibrar, quase indo de cabeça para a terra.
-Eu não queria te assustar. Desculpe-me. Por favor, aceite minha ajuda. – e aí eu tava quase morrendo mesmo. Morrer de traição ou morrer de traumatismo não faz lá muita diferença.
-O que você pensa estar fazendo?! – eu disse chiando nervosa assim que eu me ajeitei no galho. Ela sentou-se nele logo em seguida, com seus cabelos lisos ruivos e sua franja na cobrindo a testa, sardas espalhadas destacando-se na pele verde-musgo.
-Eu te vi e eu pensei que... Ah! – ela corou e deu um soco leve em sua cabeça, rindo sem jeito – Pensei que pudéssemos nos aliar. Por enquanto. Isto é... Se você quiser.
Eu respirei fundo e soltei o ar pesado, procurando por palavras para me livrar logo da marciana – Olha, Erm... – eu olhei-a esperando que ela me ajudasse aqui:
-Ah. Olá, M’gann! – ela resmungou para si – Pode me chamar de M’gann mesmo.
-Olha M’gann... – eu comecei, já com o tom de negação, mas ela me interrompeu.
-Eu não vou te dar trabalho. – ela prometeu, quase implorando – Eu sei voar e posso checar do céu; posso me camuflar para ajudar a capturar comigo e como eu não sou muito de comer, você pode ficar com a minha parte. Eu tenho alguns poderes e eu posso ajudar nas lutas! – agora eu podia notar o desespero na voz dela e isso meio que quebrou minhas pernas, juntando a sua aparência doce e tímida – Por favor.
De fato, ela podia se transformar em árvore e voar; e ela parecia ser bem responsável para alguém tão inocente. Eu podia matá-la agora mesmo e ela, ainda assim, colocava todas as suas esperanças em mim. Eu nunca tinha falado com ela direito antes além de algumas trocas de palavras, mas ela era bem gentil mesmo e completamente ingênua.
O que eu iria fazer agora?
-Mas você não tem um parceiro da sua zona? – eu perguntei e ela assentiu sem jeito, apontando para a árvore do lado.
-Ta vendo aquele macaco ali? – eu fiz uma careta e olhei para o animal que acenou de volta – É ele. Estamos encobertos. — os olhos dela brilharam esmeraldas e eu me assustei de novo.
Não, pra sua informação eu não tinha visto, nunca na minha vida, um tributo da zona onze em ação com seus poderes – eles geralmente não tinham tempo de aprender ou simplesmente morriam no banho de sangue. Então, mais uma vez, eu pensei que ela fosse me decapitar mentalmente.
Entretanto, o que aconteceu foi o macaco tomar forma de um pássaro e voar até um galho acima de nós duas, se transformando no menino-animalesco da zona Onze e me deixando ainda mais boquiaberta.
A minha versão dos Jogos tinha muito mais variedade do que qualquer outra que eu tivera assistido – ou qualquer outra desde que eu me lembro ser gente.
-Oi. – o menino disse sorrindo abertamente para mim e eu perdi o balanço de novo.
-Olá, M’gann! – a ruiva socou a cabeça novamente e esticou suas mãos de forma animada para o garoto – Este daqui é Garfield.
-Mas pode me chamar de Gar. – ele completou e, por um momento, eu podia me lembrar de Bette e de como minha vida costumava ser – Já que vamos ser aliados agora.
Eu já não sabia mais o que fazer. Eu queria tanto gritar com eles, brigar porque eles me assustaram e essa dupla era pra lá de perturbada, além de que eu não era a pessoa mais legal para se ter por perto, nem a mais forte. Não entendo porque eles querem ficar comigo nos jogos, se aliar a mim. Eu não sou nada, não tenho nenhum tipo de poder, nenhuma habilidade a mais sem meu arco e flecha. Eu era praticamente inútil.
-Por favor. Nós prometemos que não vamos te atrasar. – M’gann implorou novamente e Gar assentiu com a cabeça, fazendo um beicinho e juntando as mãos.
-Promessas não significam nada nesse jogo. – eu os adverti e eles se entreolharam preocupados, receosos que eu fosse dizer alguma coisa que eles não queriam ouvir.
Eu respirei fundo e contei até dez – não. Cem. Contei até cem, porque me lembro de M’gann quase começar a chorar e Gar se sentar completamente jogado no galho da árvore porque estava ficando triste.
-Como eu posso ter certeza de que vocês não vão explodir minha cabeça quando eu der minhas costas?
-Artemis... – essa era nova. Ela já sabia meu nome? Bem... Acho que tem gente que presta atenção nos nomes alheios melhor que eu – Você tem a nossa palavra. – e eu franzi o cenho – Eu sei que isso não parece muita coisa, mas nós somos de clãs de muitas gerações, do tipo milenar, e nós somos acostumados a cumprir nossas palavra até a morte. – ela me avisou, bem séria e gentil.
Eu suspirei novamente, Gar acenava com a cabeça conforme M’gann terminava de falar e nenhum deles parecia estar brincando com relação aquilo. E eu já não tinha certeza mais de nada.
Por um lado era realmente ótimo ter companhia, alguém para ajudar a montar o acampamento, para ajudar com curativos e etc. Mas como eu podia ter certeza disso? Como é que eu ia confiar em alguém que eu mal conhecia? Até quem eu conhecia tinha dificuldade de acreditar em suas palavras! E aí minha mãe me dizia que era coisa da minha cabeça.
O que Jade faria se estivesse em meu lugar?
-Confie nos seus instintos, garotinha! – não foi à voz que eu esperava ouvir ou me lembrar naquele instante.
-Pai, eu não sei o que meus instintos estão me dizendo! – eu rebati nervosa. Eu não devia ter onze anos.
-É só você deixar sua teimosia de lado – ele me deu um soco de leve, que doeu muito, na minha cabeça e cruzou os braços musculosos que eram três vezes maiores que os meus – E ouvir o que sua intuição lhe tem a dizer.
Ouvir a minha intuição. E ela meio que gritava dentro da minha cabeça “O que é que você está esperando, sua idiota?!”
-Ta certo. – eu suspirei e M’gann transformou sua careta de choro eu um sorriso e Gar voltou a ficar de pé, extremamente contente – Nós ficamos juntos, por enquanto. Até encontrarmos o menino da minha Zona. Aí eu não sei o que ele vai dizer a respeito da nossa aliança.
Gar pulou nos braços de M’gann e eles se abraçaram, como irmãos fazem, muito forte, comemorando baixinho e, de repente, eu fui puxada para esse abraço com eles. Eu fiquei estática e quase fui sufocada, mas esperei até que a marciana me soltasse e me olhasse com aqueles seus alegres orbes âmbares – Muito obrigada, Artemis! Prometo que não vamos te atrapalhar!
-Acho bom ou eu mato vocês. – eu ameacei e os dois pareciam nem se importar com isso.
Gar riu mais e se transformou em tordo, pousando sobre meu ombro direito e piando uma harmonia que eu desconhecia. Não sei porque mas isso me fez rir baixinho e M’gann começou a dar uma letra para a melodia.
-Vamos? – ela me perguntou e eu ri, jogando as abas da minha mochila sobre meu ombro direito.
-Ta. Mas sem cantoria ou seremos descobertos. – eu os avisei e eles fecharam o bico ao mesmo tempo.
Acho que é isso.
Notas finais
Para quem se pergunta se eu abandonei, eu digo não. Pra quem pergunta porque eu demorei, eu digo que, infelizmente, eu não andei tendo grandes inspirações para essa fic e acabei por escrever outras nesse meio termo. Mas eu estou de volta, então não esqueçam de mim e dos reviews para eu saber se estão gostando ou se eu podia mudaer alguma coisa! :3
Beijos e Se Cuidem!
♥
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