Jogos Justos

7 VI - Sendo Eu


Dinah retornou para o apartamento cinco minutos antes de o programa transmitir as notas, com uma cara mais recomposta do que aquela que ela tinha quando saiu da sala. Os garçons preparavam petiscos para comermos enquanto o Gladiador Dourado dava as notas e Roy parecia meio tenso, eu nem me comparava com ele para não deixá-lo bravo também.

Oliver estava mais pra lá do que pra cá por causa de seu licor e Helena comemorava o fato de eu não engolir ladainha de qualquer um, começando o assunto logo depois que Dinah tinha chegado como se tentasse fazer a loira entender meus motivos de agir da forma pela qual eu agi.

Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, Dinah se colocou a minha frente e suspirou fundo, relaxando seus ombros e fazendo Helena se calar com o gesto. Oliver e Roy prestaram atenção aquilo e eu também, porque quando ela tem coisas importantes a dizer, Dinah não fica fazendo rodeios. Ela dá a cara pra bater e diz.

–Eu não aprovei com suas palavras ditas, mas você não fez nada de errado de qualquer forma. – ela dizia meio envergonhada e eu me senti mal por tê-la feito se sentir mal – Eu não queria discutir com você, mas tem coisas que eu me preocupo mais que Oliver porque sei o quanto é difícil conseguir alguma coisa por aqui. Você não precisa se preocupar com isso agora e eu perdi a razão quando a julguei mal. – eu ia interrompê-la. Ela não precisava pedir desculpas daquela forma – Deixe-me terminar. Você tem todo o direito de pedir por respeito, Artemis. Aquelas pessoas foram rudes e você não disse nada de errado, por mais sarcástico que isso pareça. Sinto muito por ter exagerado.

Helena sorriu para si mesma enquanto suas subordinadas cochichavam a respeito daquilo descaradamente.

–CALEM A BOCA! – a estilista gritou pra elas e as meninas se calaram, ofendidas e constrangidas por terem sido delatadas daquela forma – Eis a polidez da Capital, senhoras e senhores!

–Senhorita Bertinelli! – elas pediram, mas Helena deu de ombros.

–Por favor, se retirem. Estão poluindo o ar com a falta de educação de vocês. – e, com isso, elas se retiraram chorosas e eu ri assim que os olhos azuis da estilista se direcionaram a mim – Desculpem interromper. Eu não tolero esse tipo de coisa.

–Vocês já sabem que eu também não. – eu voltei para olhar Dinah e sinalizei para ela se sentar do meu lado – Você não tem que se desculpar. Você está fazendo o seu trabalho, é normal se preocupar com essas coisas.

–Mas, Artemis...

–Vocês querem prestar atenção na televisão, agora? – Roy gritou irritado e Oliver o parabenizou por ter botado um fim naquilo, se preparando para as notícias.

Gladiador Dourado surgiu com toda a sua glória na televisão de tele enorme, sorrindo animadamente com um convidado para comentar as notas dos participantes junto dele.

A tensão tomou conta do ar e ninguém se esticou do sofá para pegar a comida sobre a mesa de centro da sala para não perder as notas divulgadas. Fazia tempo que eu não ficava tão ansiosa assim.

–Klarion Bleak, Zona Um... – Michael dizia sorrindo animadamente – Doze!

Logo, perdemos as esperanças.

–Nota perfeita?! – Roy perguntou se descabelando com aquilo – Isso é possível?!

–Se é como nota, é possível. – Oliver disse – Não se desanimem. É um entre vinte e quatro. Respirem fundo.

Zatanna não tinha ido muito bem às provas, por incrível que pareça e sua nota não foi tão boa, mas eu sabia a quão boa ela era. Não precisava de uma nota para me provar sua utilidade – Cameron Mahkent, Zona Dois... – Michael me despertou e eu prestei atenção, Roy arfando as narinas quando notou meu interesse particular – Onze!

Ele era forte disso eu já sabia. Só precisava ter certeza. A garota da Zona dele foi bem também, conseguindo um dez.

Os outros tiveram notas boas e baixas, considerando que os gêmeos da Zona Quatro conseguiram dez iguais. As crianças da Zona Cinco não foram tão bem assim, mas acho que conseguiram patrocinadores suficientes. Kaldur recebeu um dez, destacando-se dentre todos os tributos que já vieram da Zona Seis, mas Tula conseguiu só metade da nota dele e isso me deixou triste, porque ela era uma garota boa mesmo. Espero que ela não tenha ficado desanimada com a nota.

(Quem eu queria enganar? A mim mesma? Eu tinha ficado deprimida com a nota dela!)

Foi tão rápido até chegar ao nosso numero, só sei que quando apareceu à cara flutuante de Roy, o Gladiador Dourado falou oito e nossa equipe foi à loucura!

Eu aproveitei e pulei junto com eles também, feliz por Roy ter conseguido uma nota alta apesar de não ter poderes, de ser quem somos. Ele conseguiu provar a si mesmo para os outros, como ele queria!

–Parabéns! – eu lhe disse sorridente e ele riu pra mim, mais relaxado.

–Agora é a da Artemis. – Oliver mandou todos se calarem para que ouvissem a minha. Eu também queria saber se eu merecia alguma coisa ou não, mas certamente eu tiraria uma nota baixa.

–Artemis Crock, Zona Sete... – eu prendi a respiração, esperando pelo pior. Meu coração foi à boca e meu ouvido estava apitando, fazia tempo que eu não sentia um nervosismo assim e eu só senti uma mão no meu ombro me reconfortando pertencente a Oliver, porque todo mundo tava tão tenso quanto eu – Dez!

Eu parei de respirar e todo mundo não sabia o que fazer: se ficavam animados ou se ficavam felizes pela minha nota. Eu não esperava por aquilo, ninguém esperava. E o meu zero?! E minha falta de respeito?! E a minha audácia?! E o resto todo que esse povo da Capital odeia?! Como assim?!

Nada mais fazia sentido e eu fui acordada por abraço de urso de Oliver, tão feliz quanto qualquer um dos outros da nossa equipe. O ar voltando aos meus pulmões e minhas bochechas ardendo com aquilo, mas um sorriso tomou conta do meu rosto e eu tive de ser sincera ao meu coração.

–EXCELENTE! – Dinah gritou correndo na direção minha e de Oliver, me abraçando de um dos lados e rindo animada, completamente diferente dos momentos anteriores.

–O que eu falei?! Essa garota tem garra. – Helena me cumprimentava, dando-me um beijo na bochecha e esperando até que Oliver me libertasse para me abraçar de seu jeito carinhoso e bipolar de ser – Meus parabéns.

–Obrigada. – eu falei sem jeito, rindo para o chão e esperando para que a televisão voltasse a chamar nossa atenção.

–Ei... – Roy me chamou de soslaio e meus olhos encontraram os dele, um pouco invejosos, mas felizes. Estranhamente, aquele contraste estava acontecendo – Muito bom. – ele falou, tentando não estar tão animado com aquilo e eu assenti com a cabeça, respondendo-lhe com um sorriso típico.

–Wally West, Zona Oito... Dez. – eu franzi o cenho e olhei para o televisor tentando entender o que raios aquilo queria dizer? Sabia que ele era bom, mas bom assim?

Alguma coisa ele tinha que ter, porque só rapidez nos pés não vai salvá-lo. Além de tudo, eu estudei o comportamento dele – de todos! – durante esses dias e ele tem um sério problema se ficar sem comida por mais de dois dias, em menos de quatro horas ele já estava se contorcendo na cadeira durante as aulas da anatomia; imaginem um ou dois dias sem comer nada.

–O metabolismo rápido dos velocistas é o maior inimigo deles durante os Jogos. – Oliver murmurou por debaixo de suas mãos que tampavam a boca coberta por pelos faciais. Eu o olhei de soslaio, tentando me manter confiante com aquilo – Ainda assim, com uma nota dessas, ele provavelmente vai ter vitaminas todos os dias.

–Mas a garota da zona dele não vai. – Dinah interveio, apontando para a televisão e mostrando o Gladiador Dourado divulgando a nota baixíssima da garota — Então podem contar com um veloz a menos.

Essa realidade era bem dura de agüentar, procurando pelas fraquezas alheias e conversando delas como se fosse algo ótimo. Bom, infelizmente, para mim, é um fator essencial se eu quiser sair com vida daquele lugar; mas não diminui nenhum pouco a desumanidade dessa conversa. É como se estivéssemos torcendo para que todos os outros morressem por suas fraquezas...

E, no fundo, é exatamente isso o que queremos.

Dick e Babs foram razoavelmente bem, conseguindo a média básica e alguns poucos patrocinadores, mas eu acredito que eles conseguiriam se virar, sempre fugindo dos tributos ricos das zonas auxiliadas pela Capital. Acho que o jeito malandro daqueles dois vai render umas boas semanas de fugas e brincadeiras durante todo esse jogo maldito.

Os irmãos da Zona 10 tiraram notas muito baixas e não dá nem para saber o que há por trás daquilo mesmo, já que eu nunca os vi treinando para nada. Oliver me disse que alguns tributos escondem suas habilidades para surpreenderem na Arena e isso fez calafrios percorrem pela minha espinha – não tinha ido com a cara daquele rapaz; Da Zona 11, os alienígenas, também não conseguiram notas altas, mas a garota se deu bem melhor, garantindo pelo menos prestígio. Sem isso eles não conseguiriam durar uma semana vivendo apenas das coisas nas florestas. Além do fato de eles serem alvos da turma de Cameron, de acordo com os olhares de fuzil que alguns membros dos aliados dele lançavam no grupo pacífico.

Novidade foram os tributos da Zona 12 com notas altas, sendo dez e nove. O garoto não parecia ser tudo isso além de forte, mas eu pude ver a garota aprendendo a voar até que Slade chegou perto e colocou uma coleira inibidora de poderes nos dois, alegando que estavam desobedecendo às ordens e que eles deveriam aprender a usar outros tipos de habilidades enquanto estivessem na arena – se aquele garoto sabia voar, eu faria questão de tê-lo por perto.

Depois de o Gladiador Dourado anunciar as entrevistas que aconteceria amanhã, a televisão foi desligada e me deparei com Dinah, Oliver e Helena pensativos, calados e com rugas entre as sobrancelhas, bem longe de onde eu e Roy estávamos. Meus olhos se direcionaram para o ruivo, mas ele também estava avoado, como se o horizonte tivesse milhões de detalhes até sua linha e ele estava analisando a cada abstração nesse meio.

Eu me senti a abominação naquele espaço de concentração mútua, deixando a sala quando nenhum deles estava prestando atenção – o fator que me fez acreditar que eles estavam bem longe dali mesmo. Fui para o meu quarto, aproveitar a minha cama e repousar meus membros doloridos do treinamento, meus braços moles esparramados na cama enorme de casal, macia e convidativa, sempre me pedindo para continuar aqueles cinco minutos típicos antes de Helena vir me acordar as pressas para o treinamento.

Mas apesar daquele conforto todo e as regalias, eu sentia saudades do meu cobertor cinza, quente durante as manhãs e insuficiente contra o frio durante as madrugas; das paredes descascadas da minha residência, dos buracos nas portas e janelas de metal enferrujadas, da umidade no teto; do chão rangendo quando alguém passava e do espelho opaco; da cadeira de rodas fazendo barulho no chão, o pneu já gasto estragando ainda mais o piso; das botas sujas de areia do meu pai perto do corredor, largadas sempre da mesma forma: uma bota com o cano em pé enquanto a outra tinha o cano caído; da máscara de gato da Jade sobre o sofá furado; do pôster de Alice no País das Maravilhas sobre a cama de Jade.

Que saudades de Jade.

Eu acabei pegando no sono com lágrimas nos meus olhos e um sonho nostálgico, tão bom que me assustei de ter conseguido continuar dormindo: Jade estava nele, mas eu e ela contávamos estrelas no deserto, a fogueira acesa do lado de nossos sacos de dormir e nosso equipamento repousava dentro da barraca. Uma lembrança que me emocionou.

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Eu estou tão irritada que poderia matar alguém. Eu falo sério.

A equipe de Helena invadiu o meu quarto durante a manhã, gargalhando, muito alto, e tão animadas quanto passarinhos voando para o sul durante o inverno. Helena, claro, ainda não havia chegado, mas suas preciosas ajudantes tinham que vir me acordar para que meu tratamento de beleza começasse desde o banho, massagens, depilação e afins.

Acredite em mim, não há nada mais constrangedor do que alguém te dando banho numa banheira de espumas e dizendo coisas a respeito de seu corpo na maior cara de pau (vou apagar essa memória da minha mente!).

O mais irritante foi sentir os fortes puxões no meu coro cabeludo enquanto elas discutiam o que fazer com ele, penteando-o e tirando os nós intermináveis dele. Uma me lembrou que ainda dava tempo de aparar, no mínimo, as pontas duplas já que estava fazendo com que ele perdesse a força e poderia vir a ficar com uma cor opaca. Eu olhei-a como se minhas íris fossem fuzis e me dei de ombros, dizendo algo que deixou ambas as esteticistas quietas:

–Não acho que vou ter muito mais tempo de vida para me preocupar com a força dos meus cabelos. – definitivamente, não era nada provável que eu fosse sair viva daquele lugar.

Notas, como Oliver disse, não significam nada no verdadeiro jogo – depois que você consegue seus patrocinadores, ela vira nula e todo o resto está na sorte que o Cosmos vai escolher pra você a partir do momento em que seus pés tocarem no chão lamacento da Arena.

Meus olhos estavam distantes, isso eu podia sentir, eu estava encarando algo muito mais do que o reflexo dos meus olhos no espelho que tomava conta da altura da parede, mostrando todo o meu banheiro numa perspectiva invertida. Eu imaginava minha mãe pegando aquele elevador caindo aos pedaços e rolando sua cadeira colina abaixo até o mercado onde fica trabalhando com sua amiga, sempre levando um pedaço do tecido mais bonita que sobrara para poder adicionar a sua colcha de retalhos que guardava secretamente debaixo da cama de Jade para que meu pai não soubesse – era um presente de aniversário dele que ela começara a juntar há alguns anos, mas algo sempre contribuía para que ela não pudesse lhe dar (ou faltava algum pedaço ou ela ainda estava incompleta). Entretanto, depois que Jade falecera tudo ficou mais difícil de terminar, pelo menos para minha mãe. Ela ficou um bom tempo presa naquela casa, abraçada as poucas lembranças que continham o aroma da minha irmã e o formato de seu corpo, como o vestido que ela me deu e a máscara de lince. Então, meu pai ficou mais uns bons anos sem seu presente de aniversário...

E tantas memórias dele por causa de minha mãe, eu podia vê-lo pegar sua maleta com seu almoço, calçando as botas de cano longo sobre a calça jeans desbotada, que um dia já foi escura; a blusa branca por debaixo da jaqueta de couro marrom cheia de buracos de traça que minha mãe tentara, em vão, remendar; o boné de quando ele era criança, preto, cobrindo-lhe a face para que não ficasse mais bronzeado do que o normal. Suas costas largas saindo pela porta sempre foram uma lembrança tão cheia de paz para mim que eu fiquei surpresa em querer que fosse ao contrário, e, nesse momento, que estou aqui sentada de frente para o espelho, nesse roupão de seda tom de gelo, esperando que as garotas terminem de me deixar arrumada ao mínimo para Helena, que a figura grosseira e mal vestida passasse por aquela porta larga não feita de metal e me ordenasse a segui-lo... Que me forçasse a ir atrás dele para sairmos de lá...

Nunca pensei que fosse sentir saudades dele, mas acho que, realmente, essas preparações mexem tanto com a mente que eu não tenho muita escolha a não ser pensar no que poderia acontecer antes de não ter mais jeito mesmo.

–BOM DIA, DEUSA! – e essa foi a primeira vez que eu quis matar Helena Bertinelli. Ela me deu tamanho susto que eu peguei o banco em que estava sentada para tacar nela, fazendo com que as assistentes dela prendessem suas escovas num nó no meu cabelo – Calma, aí! Você só vai depois de amanhã pra Arena. Somos todas amigas! – ela me piscou um de seus olhos azuis contornados pelo delineador preto marcante.

–Eu poderia ir presa antes disso. – avisei-a bruscamente, arfando minhas narinas e sentindo os puxões das minhas madeixas – Olha só o que o seu bom dia me faz?!

–Oras! Você que estava dormindo em pé! Roy já está sendo encaminhado para o almoço. – ela me sorriu.

Claro que ela cuidaria em primeiro lugar de Roy e depois de mim – ele não tinha um metro e meio de cabelo volumoso e grosso...

–Não se preocupe. Você vai ser a mais linda dentre todas as meninas. – ela sorriu seus lábios rubros e ordenou as mulheres que voltassem a massagear meu corpo e minha face, que eu tinha ficado muito tensa com aquilo.

Realmente. Eu não gosto dessa realidade de tratamentos de beleza, mesmo que eu tenha pedido tanto tempo por xampus e condicionadores...

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Eu não estava completamente pronta depois do almoço. A única parte que já tinha ido era o meu cabelo, que Helena ordenou a suas subordinadas trançarem-no fio por fio. Depois disso, ela mandou que as moças o soltassem e elas fizeram aquele som de desapontamento, desfazendo traças por traças, inconformadas, até que todos os fios haviam ficado marcados e ondulados, lembrando muito aos cabelos daquelas meninas da Zona Seis, sem ser a Tula, as surfistas do litoral.

–Talvez queira usar o termo sereia. – Dinah ofereceu rindo abertamente quando me viu, me deixando completamente corada pelo elogio sutil.

Minha maquiagem ficou para depois do almoço, pois eu ainda teria de escovar meus dentes e me limpar para que ficasse bem vestida. Eu mal tive tempo de reparar em Roy, porque Helena ficou apressando-me a comer e que eu não deveria deixar a comida cair no meu cabelo – nenhum pouco.

Quando voltamos pro meu quarto, pendurado numa arara de roupas destacando-se do conjunto de armários embutidos de mármore, estava um vestido já fora da capa de proteção branca, verde-grama claro na altura do busto e ia escurecendo conforme descia (dégradé, se não me engano foi esse nome que Helena comentou), com alças largas em um tecido bem leve mesmo – pensei até que fosse passar frio com ele. Certamente, lá na Zona Sete, eu morreria se andasse com aquilo dia ou noite...

No geral, apesar do tom variar, o vestido parecia bem simples mesmo, brilhava um pouco aqui e ali, mas eu pensei, vindo da empolgação de Helena, que ela me apareceria com um vestido estilo princesa, cheio de mangas curtos, cumpridas ou bufantes, saia com armação por baixo, repleto de laços e babados aqui e ali... Ela disse que queria me vestir que nem a Rapunzel, né?

(Eu fui contra até os últimos momentos!)

–Gostou? – Helena olhou pra mim com um brilho mais malicioso, como se estivesse esperando alguma resposta audaciosa minha. Eu arqueei minha sobrancelha.

–Eu achei lindo. – disse com um meio sorriso. Vai que é só minha imaginação.

–Que bom. Espere só até ver o resto! – os lábios vermelhos deram espaço para o sorriso branco extremamente interesseiro e os olhos azuis brilharam em alegria incógnita.

–Por que eu tinha essa voz pequenininha na minha cabeça me avisando que eu não devia comemorar? – disse retoricamente, fazendo-a se divertir e as assistentes entraram para me vestir no material que não era tão leve, então, quando tocou minha pele.

Aliás, ele tinha lá seu toque de aspereza e seu peso – nada que pudesse ser comparadas as blusas que eu usava na minha terra ou ao material do uniforme de treinamento, elástico e térmico; mesmo assim, ainda não me deixaria na mão durante a entrevista.

A saia ficava uns dez centímetros longe das minhas pernas e ia até os meus joelhos; meus pés foram calçados com sandálias de salto fino com tiras que se cruzavam de couro castanho-claro, parando bem abaixo do início dos meus joelhos – claro que Helena não colocaria nada tão trabalhado em mim se não fosse mostrar aos outros. Eu já tinha aprendido.

A combinação ficou muito bonita, devo admitir. O cabelo combinou com o vestido e com o sapato e até a cor cintilante natural de minhas unhas, depois de feitas pelas assistentes de Helena, ficaram bonitas e eu fiquei meio sem jeito de me olhar no espelho com aquilo tudo.

De certa forma, lembrava ao vestido de Jade... De certa forma não significa igual!

–Tragam o detalhe final! – Helena disse dramaticamente, tentando contar sua excitação e fazendo uma cara meio cômica ao prender a gargalhada. Eu tive que achar aquilo tudo muito estranho, porque não seria eu caso o contrário.

E as meninas abriram uma das portas do meu guarda-roupa, tirando uma caixa um pouco maior que meu torso que continha um meio manequim branco vestindo um corpete muito diferente, com o centro que se lembrava a um cinto, repleto de detalhes pequenos que deveriam ter levado muito tempo para serem desenhados, cheios de linhas curvas e em relevo, prateadas; a cor dele era de chumbo, mas não era nada opaco, seu tecido o fazia refletir todas as luzes que ali esbarravam, de forma diferente; e ele não chegava ao busto, indo bem abaixo, com desenhos nas bordas semelhantes ao da bola que representava o cinto cujo meio tinha uma flecha apontada para cima.

–Por que uma flecha? – eu olhei Helena meio perturbada com aquilo e ela fez uma careta, arqueando uma de suas sobrancelhas desenhadas.

–Você realmente precisa de uma resposta pra isso? – ela voltou a sorrir e mandou suas subordinadas apoiarem o manequim sobra uma mesinha do café perdida no meu quarto, pedindo para que elas preparassem a maquiagem então – Eu pensei que só o verde dégradé seria apenas muito chato. – ela se justificou soltando o botão com o mesmo tecido do vestido, em pequenas bolinhas de chumbo opaco, nas costas do corpete para poder me vestir – E você teve uma nota muito alta pra quem é só uma garota sem poderes, Artemis. Tem que fazer jus a sua imagem. – ela brincou e me mandou virar de costas e respirar fundo.

Apesar de apertar um pouco (ta bom. Bastante!) eu ainda conseguia respirar bem e já não iria passar mais qualquer tipo de frio com aquele negócio sobre o vestido. Helena comemorou solitária quando eu tinha acabado de me vestir e deu pulinhos, fazendo uma dança meio boba para sua personalidade bipolar e sorriu satisfeita com aquilo.

–Posso me olhar no espelho? – eu perguntei em vão.

–Claro que não! Ainda tem a maquiagem, ! – ela tirou uma com a minha cara e as suas assistentes já tinham voltado, com um avental branco que jogaram sobre meus ombros, cobrindo o vestido, e uma fita em volta da raiz do meu cabelo para não pintar os lugares errados – Mary, Lila, deixem Artemis com aquele olhar que eu tanto gosto e os lábios cor-de-rosa. Nem pensem em deixar suas maçãs vermelhas! Quero-as um tom mais escuro que a pele natural dela, não quero que ela pareça uma alegoria de carnaval...

Helena começou a falar tantas coisas para suas meninas que eu não tive tempo de acompanhar. Só sei que me jogaram de volta naquela cadeira na qual fizeram meu cabelo e eu fiquei lá por mais um bom tempo esperando que minha cara faça renovada depois de todos os cremes esfoliantes que tinham esfregado no meu rosto.

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A demora foi infindável, mas, eu tive de admitir, e admito que esteja corando nesse instante, que ao parar para me encarar no espelho, noto que meus olhos cinza estão mais claros destacado pela sombra escura que os carrega; uma linha negra maior que o limite das minhas pálpebras continua rente aos cílios postiços que fazem meio difícil de enxergar. Eu vou sobreviver; como Helena tinha dito, meu rosto estava com cara de saudável com aquela sobre cor e minha boca brilhava num rosa mediano, mostrando todo o volume dele e seu formato não referente à cultura de minha mãe.

Eu arregalo meus olhos e não tenho certeza se essa daí no espelho sou eu.

–Não é um milagre, não se preocupe. É só uma puta duma realização tirar toda aquela antiga garota de pele estragada da Zona Sete e ter como resultado essa guerreira Tributo. – ela me lembrou e sorriu abertamente me fazendo rir um pouco com aquilo – Afinal, estamos esperando o que para mostrar aos outros?

–Na verdade, mestra Bertinelli – Lila ou Mary chamou sua atenção (nunca conseguia distinguir essas duas, de qualquer forma), timidamente, erguendo a mão e depois a colocando em seu peito – Estamos quase atrasadas.

–Droga! Oliver vai me encher o saco... – Helena fez uma careta e me puxou pelo braço – Vamo que vamo, minha gente! O tempo urge e a entrevista já vai começar!

Eu tive que rir com aquela falsa imitação dela, mas não podia chorar se não borraria a maquiagem que as meninas levaram horas pra fazer – só meus olhos não conseguiram enxergar direito ainda mais por causa das lágrimas.


Dinah e Oliver disseram que eu estava muito bonita mesmo, que eu brilhava e que eles estavam contando comigo para que a minha entrevista fosse de vento a popa. Pelo que eu entendi, já que todas as sugestões que eles enchiam minha cabeça enquanto a equipe da Zona Sete e os guardas responsáveis por nós seguíamos ao estacionamento do nosso prédio – seriamos levados até o estúdio na Ala Sudeste do complexo; eles já tinham ajudado Roy o bastante que pensava solitário em seu canto.

–Apesar de você ter conseguido uma ótima nota, não quer dizer que eles já te amam, entendeu?! Tem que convencer a todos que você é tão maravilhosa quanto os outros. – Dinah me alerta e eu a olho sem jeito com aquilo. Eu já não tinha feito meu berço com aquele meu show de avaliação?

–Isso mesmo. Não seja convencida! – Oliver me irrita, pra variar.

Não sou!

–É sim! – Roy se intrometeu.

–Cala a boca! Ninguém te chamou na conversa! – mostro minha língua pra ele e ele fecha a cara, arrebitando o nariz.

–Deixa de ser teimosa! – Helena me acotovelou antes de entrarmos na limusine.

Não sou!

–É sim! – um coro foi ouvido no carro e eu corei com aquilo – Muito teimosa!

–Escuta aqui! Vocês estão aqui pra me aconselhar e me deixar tranqüila ou pra me irritar?! – eu perguntei, cruzando os braços sobre o corpete – Porque, se for à segunda alternativa, eu juro que estão se dando muito bem...

–Artemis, você não vai poder falar assim com o entrevistador. – Dinah disse suavemente, tocando minha mão limpa – Tente ser gentil e paciente.

–Por que você não tenta não ser sarcástica, hein? – Roy sugeriu, sentado numa pose pra lá de largada.

–Por que você não deixa de ser idiota?! – ele me encara contrariado e eu seguro seu olhar até que Oliver me distrai e feri meu orgulho, mesmo que eu saiba que não fora culpa minha.

–Apesar de você ser um porre, tem seus pontos fortes e é até que sociável. – não sei qual foi à intenção de Oliver em me dizer isso. Sua voz estava muito séria pra que eu entendesse o cinismo que talvez residisse ali...

–E engraçada – Helena contemplou, começando a falar de quando eu tinha feito aquela piada do veloz ter tropeçado no próprio pé.

–E jovial. – Dinah disse aquilo, mas eu não entendi muito bem.

Vou perguntar depois quando tiver tempo, logo depois da entrevista!

–ESPEREM UM POUCO! – eu grito nervosa, minha respiração descompassada com todos me julgando como Deus – Eu não sou nenhum exemplo de pessoa amigável ou carismática, mas eu não vou agir como uma neanderthal! Só não me peçam para eu ser outra pessoa lá ou para eu dizer mentiras, porque eu não vou fingir ser alguém que não sou. Se eu for pra lá, eu vou ser eu! Se eu morrer nos jogos, eu vou morrer sendo eu! – deixei bem claro antes que qualquer um tivesse espaço para me contrariar.

No final, todos estavam de olhos arregalados, surpresos, e até Roy tinha voltado a prestar atenção na conversa. Oliver sorriu maliciosamente e apontou para o meu nariz, rindo num sussurro.

–Isso – ele começou o carro parando na guia rebaixada para que pudéssemos descer e sermos guiados até os bastidores do show – Com isso, Artemis, eu posso trabalhar!

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Eu e Roy estávamos sozinhos com os outros tributos das outras zonas e os seguranças. Oliver e Dinah aguardavam nossa vez enquanto assistiam ao programa nos bastidores; já Helena e suas subordinadas se divertiam nas cadeiras vagas pros estilistas e seus acompanhantes nas primeiras fileiras do auditório lotado.

–Vão dizer que são uma equipe! – Oliver nos instruiu antes de nos forçarem vir pra cá.

–Certo. – nós dois assentimos, meio sem jeito.

–E se perguntarem de Jade, digam tudo que mexa com os sentimentos deles! Inclusive que você chorou rios de lágrimas por causa dela – ele apontou pra mim e eu fechei a cara – E que você nunca mais amou alguém da mesma forma. – depois pegou no ombro de Roy.

–Não me faça te machucar. – Roy o alertou antes de nos despedirmos.

Entretanto eu não estava muito certa se Roy e eu faríamos uma equipe. Ele estava meio distante depois da minha nota ter sido maior que a dele e, sinceramente, não sei se o orgulho mesquinho dele estava ferido por conta disso. As costas dele ainda eram bem maiores que as minhas e eu não tinha qualquer conhecimento mais amplo de seus pensamentos como ele tinha dos meus. É difícil viver assim.

Na ordem, a Zona Um e a Zona Dois já tinham sido entrevistadas nesse meio tempo em que eu pensava o que diria ou não e alguns tributos não paravam quietos, estralando os dedos, relaxando os músculos ou treinando a fala. Pelo que eu pude ouvir do monitor naquele corredor largo, preso a parede cromada, era que Zatanna tinha anunciado vencer em honra de seu pai. Pelo visto, ela era alguém importante pra Capital mesmo.

Traidora. – alguma coisa sussurrou em meu ouvido e eu arregalei meus olhos, o bafo quente me fazendo arrepiar. Eu dei um pulo pra frente e me contive em não quebrar alguém. Roy nem notou ou fingiu não se importar.

Claro que quem tinha dito aquilo era o estúpido cabeça de cenoura!

–Qual é o seu problema?! – eu ameacei pisar em seu sapato de couro.

–Nenhum. Eu já imaginava mesmo que não poderia contar com você. – ele fechou a cara e eu me lembrei daquele dia em que Cameron e sua turma me pararam no treino.

–É muito feio bisbilhotar na conversa dos outros. – eu respondi, me voltando para as costas de Roy.

–É muito feio trair a confiança das pessoas. – Deus, daí me paciência, porque se der força... Eu mato!

–Falta isso daqui – eu gesticulei com meu indicador e polegar quase juntos – Pra eu não arrancar sarda por sarda da sua cara idiota, surfista!

Não sei por que, mas a minha provocação pareceu dar certo. Wally corou e fechou a cara, ficando de lado e voltando a prestar atenção na televisão como se nada tivesse acontecido. Eu bufei e revirei meus olhos, voltando à atenção para Roy.

–Ainda assim, não foi legal. – eu ouvi dele novamente, mas parou.

Eu sei que não foi legal. Não precisa me lembrar.

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A entrevista de Kaldur foi simples, direta e séria. Tão séria que eu pensava que a atmosfera tinha ficado bem mais densa. Poucas coisas eu entendi daquilo ali, mas, pelo jeito, ele queria provar seu valor a um familiar seu que morava na Capital e trabalhava por aqui. Ele só poderia mostrar isso vindo pra cá e ele disse que foi muita sorte ter sido escolhido antes de sair da idade limite. Não achei a escolha de suas palavras muito boa.

Michael Carter perguntou se ele tinha alguma namorada na praia, um sorriso malicioso no rosto, dizendo também que era impossível alguém bonito como ele não ter ninguém. Entretanto o moreno de belíssimos olhos prateados somente sorriu e disse que eles veriam.

Tula, toda miudinha, ouviu muitos assovios por sua aparência exótica e o Gladiador Dourado brincou com aquilo, avisou-a de que ela lembrava a várias bonecas de porcelanas caras da Europa do século XIX e que era bom ela tomar cuidado, pois poderia quebrar. Ela sorriu sem jeito e admitiu que estivesse um pouco nervosa com os jogos, mas faria de um tudo para conseguir voltar para casa. Seu namorado a estava esperando.

Eu fiquei chateada por ela não ter dito que Kaldur era seu namorado.

–Eu quero ouvir uma longa salva de palmas para nosso querido tributo da Zona Sete, pessoal. Roy Harper! – o homem de cabelos loiros penteados para trás e vestido em seu terno dourado com gravata azul anunciou a entrevista de Roy, eu cruzei meus dedos e torci para que ele se desse bem.

–Boa sorte. – sorri para ele e Roy assentiu com a cabeça.

–Pra você também.

Assim que ele apareceu nas câmeras e no palco, a mulherada foi à loucura, gritando e muita gente assoviou. O entrevistador sorriu e Roy abriu aquele sorriso feito para ser usado na Capital – o falso com o menor grau de falsidade possível. Ele estava bem bonito em seu terno de risca de giz vermelho e preto, os cabelos ajeitados em seu penteado usual e os brilhantes olhos azuis a vista. Lábios finos puxados para o lado de forma malandra e até eu corei notando seus traços.

Helena, por que você faz isso comigo?

–Bem vindo Roy! – o Gladiador Dourado o cumprimentou fortemente e pediu para que se sentasse na poltrona de bronze giratória ao lado da sua.

–Obrigado por me receberem. – sua voz soou e as garotas foram à loucura novamente.

–Parece que você já tem um fã clube, meu caro. — Roy riu e agradeceu por aquilo novamente, as meninas riram – Então, me diga como é a vida na Zona Sete?

–Olha, é bem remota. Até a temperatura não muda. É sempre muito frio ou muito quente. Não temos essa bela vista do mar que nem vocês têm, nem perto disso, nem as árvores... É. Bem ruim. – uma risada leve e o Gladiador sorriu.

–Somos privilegiados. – ele brincou.

–Realmente são. – Roy complementou e todos riram novamente, eu chocada nos bastidores.

–E sobre os Jogos? Por acaso vai fazer parceria com sua companheira?

–Sim. Somos muito orgulhosos para admitir assim um pro outro e isso me deixe bem mal em nossa competição particular, mas somos uma dupla. É bom contar com alguém. – entretanto, apesar de querer bater nele por aquilo, não levei fé em suas palavras.

–E eu soube que ela era a sua cunhada há alguns anos, né, Roy? – Gladiador perguntou curioso e Roy engoliu em seco, pensando no que responder.

–Sim. Bem... Eu namorei por um ano com a irmã dela há dois anos, mas não pudemos ficar juntos. – ficou cabisbaixo.

–O que houve? – o Gladiador incentivou e as pessoas ficaram caladas para poder ouvir o tributo atraente da Zona Sete.

–Ela foi convocada para os Jogos Justos e não conseguiu sair. – ele olhou com um meio sorriso para Michael e ele entortou a boca, todos da platéia compartilhando a dor do garoto – E então eu não tive mais vontade de ficar com mais ninguém. – as meninas foram a loucura de novo.

–Minhas condolências, meu caro jovem. Espero que você possa ganhar dessa vez por ela, então. – o Gladiador sugeriu.

–Eu vou levar a vitória pra ela, sem dúvida. Não importa como. – ele se manifestou e sorriu quando Michael o cumprimentou.

–Senhoras e senhores, Roy Harper!

Eu respirei fundo. Aquela conversa do Roy foi muito, muito sentimental pra mim. Eu tive vontade vomitar.

–E a menina que se sacrificou por uma amiga: Artemis Crock! – eu meio que me desesperei então.

O segurança me deu a mão para que eu subisse as escadas do palco, o salto me dando vertigem, a luz forte dos holofotes me cegaram momentaneamente até que eu alcançasse a mão auxiliadora do Gladiador Dourado que riu abertamente para mim, dizendo alguma coisa que eu mal pude ouvir devido às palmas e os assovios das pessoas, dizendo que eu estava bonita. Eu tremia.

Tentei visualizar Helena naquele meio e meu coração disparou quando não a vi.

–Bem vinda, minha cara. – eu olhei assustada para Michael e ele deu um beijo nas costas da minha mão – Devo dizer que está muito mais bonita hoje do que da última vez que a vi no desfile. E que desfile, vamos combinar! – todos bateram palmas de acordo.

–Muito obrigada pelo carinho. – o microfone colocado pela equipe técnica incomodava minha orelha, mas eu iria sobreviver. Eu tinha que sobreviver aquilo – Eu achei que foi meio brega, mas se vocês gostaram, não tenho nada a reclamar. – todos riram levemente e a atmosfera começou a ficar mais leve. Eu conseguia respirar mais normalmente.

–Imagina. Foi lindo ver você e Roy atirando flores na platéia. Sem falar que a fantasia... Meus parabéns a Helena Bertinelli, nossa cara convidada durante alguns anos que está na platéia! Por favor, se levante para uma salva de palmas! – eu vi uma luz se direcionando a uma figura na quarta fileira da frente e lá estava minha amiga, minha equipe, sorrindo e gloriosamente agradecendo aquele gesto.

Depois disso, ela olhou pra mim e piscou um de seus orbes azuis turquesas como quem diz: “Estou aqui! Vai nessa.” E tudo parecia ter ficado bem menos intimidador.

–Me diga o tema Grécia, hã? Ousado para todos. O que você achou? – ele parecia implorar para que eu dissesse algo.

–Eu estava meio preocupada porque eu não sabia como atirar aquelas bombinhas de flores. – eu admiti gesticulando levemente e fazendo as pessoas rirem baixinho – E eu e Roy discutimos a respeito de muitas maneiras de fazermos aquilo igual, mas saiu meio esquisito. Foi divertido. – falei por fim e as pessoas aplaudiram.

–Artemis não é o nome da deusa grega da caça? – ele perguntou retoricamente e eu assenti, sentindo o rubor se manifestar – Então, nada mais justo seu apelido ser Deusa, né? – todos concordaram, rindo e aplaudindo aquilo. Eu agradeci timidamente – Mas foi muito legal ver vocês usando o arco e flecha com tamanha graça.

–Levou tempo até chegarmos à graça, Michael. Ficamos muitos minutos de ultima hora em desastrados que podiam cegar alguém. – todos riram novamente.

–Valeu à pena. – ele mudou o tópico, com um sorriso menos glamoroso – Aliás, como você se sentiu depois de ter se voluntariado como tributo por sua amiga? – tudo ficou sério de repente.

–Bem, eu – eu limpei a garganta – Ela é uma grande amiga minha que esteve do meu lado desde quando éramos pequenas. Ela é meio sem jeito e inocente, mas eu tenho certeza que ela faria o mesmo por mim se isso tudo fosse ao contrário. Não tenho arrependimentos. – as pessoas bateram palmas.

–Amizade é maravilhosa, não é mesmo? Fico me perguntando se você era assim com a sua irmã também, a nossa favorita a campeã nos Jogos Justos da Edição de dois anos atrás, Jade Crock? – a platéia toda parecia ter, então, descoberta de quem eu era irmã e eles fizeram aquele barulho de choque.

–Irmãs são diferentes de amigas, mas Jade e eu fazíamos uma grande dupla. Éramos arteiras e acabávamos levando bronca dos nossos pais por aprontarmos bastante – eu ri, lembrando-me do passado – Ela era meio maldosa quando éramos pequenas, mas depois que fiquei mais velha era mais fácil de nos relacionarmos. Ela me fez prometer não cortar o cabelo. – eu avisei e todos fizeram um som de entendimento.

–Então é por isso? – eu não senti necessidade de responder aquilo – Certo, mas até quando? Nunca cortar o cabelo? Não é tempo demais?

–Eu acho que é até eu me sentir pronta. – sorri sem jeito e as pessoas aplaudiram.

–Sobre a edição dos Jogos Justos na qual sua irmã participou – eu temia essa pergunta – Acha que vai desenvolver a mesma determinação e força de vontade sem limites que ela teve?

–Oras... – eu balbuciei antes de me focar e poder responder seriamente – Acho que todos que vão para os Jogos são determinados a provarem algo para si. Não há limites dentro da Arena, então, a não ser que nossa vontade seja retraída, não há motivo qualquer para não realizar nossas vontades.

Eu ouço uma salva de palmas realizada por todos os espectadores de pé, Michael sorriu e me desejou sorte, me dando um beijo na bochecha, e me falando para tomar cuidado. Eu assenti com a cabeça.

–E essa foi à entrevista de Artemis, a garota chamada de Deusa!

Não tinha mais jeito de perder esse apelido, né?

.

Oliver e Dinah me receberam de braços abertos, contentes com nossa performance ao vivo. Parece que tínhamos conseguido. Oliver lembrou a mim e a Roy que iríamos treinar amanhã bem cedo, então para não ficarmos até tarde vendo os comentários de Gladiador Dourado sobre as entrevistas. Entretanto, só seriamos liberados para voltar aos nossos aposentos assim que todos os tributos fossem entrevistados. Não tínhamos nada mais a fazer que não comer e assistir ao monitor gigante nos bastidores, num salão enorme repleto de conselheiros e tutores esperando e conversando com seus tributos.

O próximo foi o cabeça de cenoura, que recebeu muito carinho do publico quando mostrou seu sorriso branco na cara cheia de sardas e os olhos de maçã verde destacando-se da pele levemente bronzeada. Ele jogou um pouco de seu charme otimista nas meninas da platéia da Capital e cumprimentou amigavelmente o Gladiador Dourado. Eu revirei meus olhos, mas Roy me mandou prestar atenção a todas as entrevistas – ali onde as fraquezas jaziam.

–Acho que você é o quarto velocista que eu entrevisto na minha vida. O último foi Barry Allen e ele está nos bastidores vendo você, Wally. – todos ficaram encantados e aplaudiram aquilo.

–Uma honra estar aqui no seu programa. Muito obrigado por me receber.

–Sem problemas. Conte-me um pouquinho de sua vida na Zona Oito.

–De um típico adolescente. Escola, lição de casa e algumas aventuras por aí. Além, claro, dos treinos. – eu mordi minha bochecha, com raiva da injustiça do mundo.

–Entendo então nada de garotas?

–Principalmente, mas meu tio meio que pegava no meu pé para eu me esforçar nos treinos de corrida e para me preparar para os Jogos. Nem acredito que eu fui sorteado. – eu fechei meu punho e estreitei meus olhos.

–Está confiante a respeito desses jogos então?

–Claro que sim! Todos os outros tributos são muito bons, mas eles não sabem como um velocista pode ser... – posso fazer várias variações com a letra i de o que eu sei sobre um velocista como você: idiota, inútil, irritante, inconveniente, irresponsável...

Se eu pudesse, eu matava esse estúpido agora mesmo!

Como pode alguém dar repostas desse tipo? Isso é completamente desconcertante, sem falar que vai fazer os outros tributos poderosos torturarem-no porque ele contou vantagem. O que ele tem demais além de pernas rápidas e ouvidos tuberculosos? Metabolismo rápido que afeta seu organismo.

Ele vai se ferrar legal nesses jogos.

.

O resto não foi tão interessante ou provocativo como o de Wally, então eu simplesmente fiquei distraída comendo. Oliver tentou me acalmar e Dinah também, mas nada me deixava menos nervosa. Quando eu vi a cara do estúpido cabeça de cenoura nos bastidores conversando com o homem mais alto que ele de cabelos loiros e olhos verdes claros, uma mulher da mesma idade que ele, mas com rubros cabelos e olhos verdes como os de Wally, eu não pude conter minha raiva.

–Eu vou quebrar a cara dele. – Oliver me segurou pelo braço.

–Sem violência, Artemis. – ele me alerta.

–É só modo de falar. – eu menti.

–Só vamos te deixar ir se prometer se comportar. – Dinah me disse, ajeitando uma mexa de cabelo solta.

–Me solta, Oliver! Eu não vou quebrar ele ainda. – eu prometi e foquei meus olhos nos de Oliver, fazendo-o entender que estava falando sério.

–Certo. Não vá dizer nada de estúpido. Barry é um camarada. – eu arqueei uma de minhas sobrancelhas e fui até o grupo da Zona Oito, no lado das Zonas pares.

Respirei fundo antes de cutucar o ombro do garoto de cabelos laranja flamejante e chamar sua atenção. A conversa parou, a garota da Oito revirou os olhos e se retirou para tomar mais refrigerante. A equipe dele, entretanto, continuou ali.

–Mas... O que raios você ta fazendo aqui? – ele me pergunta com os olhos estreitos.

–Eu que digo que raios você disse lá?! – eu gesticulo e cruzo meus braços – Ta querendo morrer?!

–Eu disse a verdade. Se te incomoda, não tem problema. – ele respondeu secamente e eu não reconhecia aquele Wally, não que fossemos tão íntimos assim pra começo de conversa.

–Tem algo de errado? – o loiro alto com cara de inocente perguntou, colocando a mão no ombro do rapaz e a mulher ruiva parando do lado de Wally.

–A não ser as besteiras que ele diz – disse sem querer descontando no homem – Nada!

–Wally, o que você fez? – a mulher perguntou pra ele, preocupada, mas Wally começou a balbuciar chocado pela falta de confiança.

–Eu não fiz nada!

–Eu sei o que você fez mocinho. – o loiro olhou-o repreensivo e voltou seus olhos para mim que se transformaram em doces esmeraldas bem claras – Eu nem sei o que vou fazer a respeito disso, senhorita. Ele só arruma pra cabeça. – eu engoli em seco, não esperando que o homem fosse falar comigo.

–Mas o que eu fiz?!

–Você disse o que eu mandei você não dizer! – o loiro deu um tabefe na nuca de Wally que se contorceu com a dor e a ruiva puxou a orelha dele, dizendo varias coisas a respeito do que ele tinha feito.

Aquilo parecia muito com aquelas comédias em seriados de televisão que minha mãe disse que minha avó assistia, quando a censura não tinha atingido a mídia ainda. Uma comédia familiar, um ar doce e eu sujando aquele quadro.

–Obrigado por se preocupar. – o loiro continuou e esticou a mão bronzeada para que eu o cumprimentasse – Como esperado dos tributos da Zona Sete. Espero que Oliver não esteja pegando muito no seu pé.

–Impossível. – eu avisei-o e estiquei minha mão para a dele – Seu tributo é muito ridículo.

–Eu sei.

–Ei! – Wally reclamou em vão.

–Não só tributo, Artemis. – a ruiva se manifestou e eu fiquei espantada com ela sabendo meu nome – Somos os tios de Wally. Ele fala muito de você.

–Tia Iris! – Wally chamou-a novamente, mas eles não disseram nada.

–Eu sou Iris e esse é meu marido Barry. – eu arregalei meus olhos e fiquei meio sem ar.

Uma família como equipe do tributo? Isso sim que é ter um coração de ferro. Quais seriam as reações deles de ter o sobrinho morrendo em seus braços?

–Parem de falar com ela! – Wally choramingou e parou entre mim e seus tios – Ela veio aqui pra puxar briga comigo. Deveriam estar enxotando ela e não tricotando!

–Que expressão de velho. – eu comentei e ele se virou para mim, seus tios dando risinhos baixos.

–Calada.

–Ou o que? O velocista mais que demais vai me fazer calar?! – eu o provoquei e Wally corou.

–Eu não soei assim na televisão!

–Claro que sim. Se gabando e tudo o mais.

–Você está colocando palavras na minha boca!

–Por que não vê o vete, Mané?

–Oras... Sua... – e nossa discussão foi interrompida por Dick e Barbara que apareceram do nada.

–Dá pra vocês pararem de tumultuar a sala? Estão atrapalhando minha refeição! – a ruiva reclamou enfiando um pão salgado na boca.

–Diz isso pro Velocista Mor aqui! – eles riram e Wally fez careta pra mim, eu sorri de leve.

–Deusa, adorei sua entrevista, apesar de mau entender suas palavras. – Dick me avisou e eu sorri, assentindo com a cabeça.

–Ele gostou muito dessa sua seta apontando pro decote. – Babs provocou e eu fingi estar brava.

–Isso é um absurdo, viu? – mas logo notei os olhos de Wally em algum lugar entre meu abdômen e minha clavícula, sentindo meu rosto corar e me fazendo cobrir aquela parte com meus braços cruzados – Tu é muito Mané mesmo!

–O que?! Eu não disse nada do decote!

–Para de olhar então!

–Em seus sonhos que eu estava olhando.

–Ainda tem coragem de mentir... – Dick cantarolou e levou uma cotovelada de Babs.

–Seu traidor! – e assim foi o resto da noite, pelo menos até o fim das entrevistas.

Roy ficou bem calado e foi se deitar assim que chegamos aos nossos aposentos. Oliver, Dinah e Helena ficaram falando a respeito das entrevistas e decidiram pedir uma fondue de morango para comemorar o sucesso de nós, tributos. Eu resolvi ficar com eles na sala, conversando a respeito das coisas, me sentindo uma pessoa do que uma oferenda prestes a encarar a morte como o que Roy fazia.

Ficar sozinha, nessa altura do campeonato, só enfraqueceria minhas forças, mesmo que meus valores zelassem por isso. Eu já imaginava que ficaria solitária durante os Jogos depois de toda aquela leve conversa entre eu e os outros tributos nos bastidores. Impressionante eu não ter nem dado bola a Cameron naquele dia. Acho que estava muito nervosa com a entrevista e minha nota para sequer notar sua presença. Ele deve ter visto o pequeno barraco entre eu e Wally, então deve ter desistido de mim. Não o culpo, mas não vou dizer que vou ficar com aqueles três durante os Jogos. Meu coração já estava começando a me enganar e nem tinha chegado à Arena ainda.


Notas finais
Um pouquinho de Interação de Artemis e Wally já que vocês estão choramingando que ele quase não aparece. É que, poxa gente, antes de Jogos Justos ser uma fic de romance, ela é de aventura, ação e amizade primeiro, né?! Mesmo que eu fique meio bolada em não poder escrever cenas desses dois, ainda... :/
All the feels! Vocês sentiram?! Jade no ar... asuhausah' Espero que tenham gostado das entrevistas. Eu não sabia o que escrever. Eu queria colocar um pouco de todo mundo, mas não ia ficar legal. Os personagens que eu estou mais amando são Wally e Roy, então ta muito bom só eles! hahashaushau'
Michael Carter é Gladiador Dourado, pra que não sabe. Assitam Smallville ou a Liga da Justiça Sem Limites para ter mais ou menos uma idéia - ou apenas leiam a Liga da Justiça Internacional. Como no jogo DC Universe Online, que eu estou usando como referência para muitas fics minhas (diga-se de passagem... :F), ele fica sempre num quiosquezinho passando informações para os heróis e essa foi a principal razão que eu o escolhi como entrevistador e apresentador dos Jogos Justos. Ele vai estar narrando essa porra toda ao vivo, negads! ashuahsuahsuash'
Wally foi convencido sim! Ele é convencido e a Capital da minha fic ama convencidos. E a Artemis ficou preocupada com ele sim, ta?! Logo aviso!
-PORRA JULIANA! PORQUE VOCÊ FOI CONTAR!?
Não me deu escolha, não me deu escolha! u.ú
-Tava preocupada comigo, é, Deusa da Simpatia? ~.~
-Não torra, surfista! e///e
E Cameron não apareceu porque eu tive outras pessoas importantes pra falar hoje!
-EI! EU TAMBÉM SOU IMPORTANTE! >
-Cala a boca! Eu sou mais! (JADE)
Exatamente. E Roy também.
-Não preciso que me lembre.
TÃO SECO! T_T VOU TE FODER!
-Boa, topetinho. Você vai fazer a autora chorar. Legal. Tomara que ela te foda mesmo!
-Que baixaria é essa?
-Kaldur! A Autora vai fuder o Roy! - Dick
-Por que?! ô.ô
-Porque ele fez ela chorar! >:D
-Esqueceram de mim, pessoal! - M'Gann
-Você ta do mal na Segunda Temporada! Eu não quero mais você! - Superboy
-T.T
CHEGA! PARE DE CAUSAR NAS MINHAS NOTAS FINAIS! NÃO É PERMITIDO ISSO! VOU CHAMAR O VANDALL SAVAGE PRA PEGAR VOCÊS!
-Já estamos pegos. Estamos nos Jogos (momento draminha) ;_;
e.e Que drama... Qualé?! Pelo menos vão poder lutar pra valer o que não fazem no CN porque a censura não permite! :P
FIM
Até o próximo Capítulo que sai na semana que vem!
Beijos e Se Cuidem! Continuem dando review!

P.s.: podem fazer perguntas para os personagens agora, mas eles vão responder seriamente. Não dessa forma retardada e sonolenta acima! :)