Jogo dos Deuses
5 Capítulo V ♞ O caos está chegando.
Notas iniciais

♞♞♞ A s g a r d — D e z m i l A n o s A t r á s ♞♞♞
Voltando com sua tropa de soldados para o palácio Asgardiano, Loki se mantinha calado, pensativo, incomodado com a garota que lhe enfrentara diante de seus guardas, como se não temesse a morte.
Pousando seu indicador direito em sei fino queixo, o Deus da trapaça reflete um pouco sobre o fato da vida de outros sorem mais importantes para a jovem do que a dela própria.
− Patético. – Desdenhou a nobre ação da camponesa, tentando pensar em outra coisa que não fosse nela, ou melhor, nas atitudes tolas que ela havia tomado para salvar outros que, muito provavelmente, não fariam o mesmo por ela.
O cavalgar dos cavalos ecoava pela densa floresta com elegância e velocidade, fazendo-os aproximar-se da saída das campinas mais pobres do reino, levando-os diretamente para o centro comercial, onde a fartura era esbanjada e desperdiçada pelos nobres que viviam por lá.
− É triste, não é, Bauhir? – Um dos soldados cochichou o mais baixo que pôde para o outro que cavalgava ao seu lado, tentando não chamar a atenção do herdeiro mais novo para si, mas fora em vão.
Contudo, cansado demais para repreendê-lo, Loki apenas solta um suspiro, tentando pensar em outras coisas que não fosse na conversa banal deles.
− O que é triste, Bálder? – Murmurou o guerreiro, fitando-o de esguelha.
O jovem guarda suspirou, cansado, lembrando-se do que vira sair para fora da sacola que a camponesa que salvara sua vida carregava em suas costas.
− Tantas farturas desperdiçadas pelos nobres mesquinhos... – Seu tom saíra melancólico demais, algo que jamais Bauhir jamais pensou que veria. – Sendo que no exato instante, no distrito mais pobre de Asgard, sem provavelmente saber das iguarias deliciosas que podem nos deleitar em fartos banquetes, a jovem tinha que matar aves para poder sobreviver.
Um clima pesado reinou sobre os dois homens que zelavam pela segurança do príncipe mais novo, fazendo com que o guerreiro mais velho, Bauhir, parasse para refletir sobre o que o irmão havia dito.
De fato, lembrando-se do que ela tinha que comer para manter-se viva, a situação não era nada agradável aos seus olhos, principalmente vendo agora o quando fora tolo ao desperdiçar tantas iguarias suculentas sem nem ao menos se perguntar se havia alguém que, desesperado de tanta forma, comeria seus restos.
Mas como ele poderia saber que os esquecidos por Odin, pai de todos, comiam qualquer coisa que pudesse ser assado ou cozido? Não tinha como ele saber que a vida em unohtuneen metsän fosse tão dura assim. Nem mesmo o rei de Asgard, embora fosse o Deus da sabedoria, tinha ciência do que acontecia com aquele povo selvagem.
Contudo, mesmo não se simpatizando com eles, Bauhir tinha que reconhecer a bravura e humildade daquela pequena ubesmittet que, sem pensar duas vezes, colocou a vida dos soldados antes da sua, protegendo-os da ira do lorde Loki.
Ela, uma selvagem comum perante os seus olhos, acabou tornando-se muito mais do que ele poderia descrever em palavras. Era certo que desde muito jovem fora ensinado a desprezar o povo sem bens, mas Bálder só continuava vivo por causa de uma garota daquele povo.
Era ridículo admitir para si próprio que ele estava totalmente errado sobre os andarilhos que aprendeu a ver com rejeição.
Suspirou, ainda abobalhado com a atitude que a garota teve diante da situação em que Bálder se encontrava, coçando a sua barba nervosamente. Ninguém com a sanidade em perfeito estado, nem mesmo os outros deuses de Asgard que se vangloriavam de seus poderes, enfrentariam o príncipe da forma que ela enfrentou.
Ninguém arriscaria a própria vida por alguém que nem ao menos conhecia, disso todos sabiam. Entretanto, por algum motivo que ele não conseguia compreender, a jovem arqueira era diferente, algo que não somente agradou Bálder, mas, mesmo contrariado, Bauhir também, já que ele sempre quis ver o príncipe sendo humilhado por ser tão cruel com todos que davam seu melhor para satisfazê-lo.
Enrijeceu os lábios, pensando na melhor forma de responder ao irmão mais novo. – Temos muito o que agradecer aos Deuses, de fato, pois nem todos possuem as mesmas farturas que nós possuímos nos banquetes que nossa mãe prepara. – Fitou-o de esguelha, atento ao semblante do Bálder. – Mas não é nossa culpa a vida que os selvagem de unohtuneen metsän levam para sobreviver. − Seu tom era sério, seus olhos inexpressivos, como se a admiração que havia sentido pela garota houvesse morrido. – Não se lamente pelos outros. – Pediu. – Ninguém se lamentará por você. – Cuspiu a verdade nua e crua em forma de palavras, deixando o irmão mais novo revoltado com a frieza demonstrada daquele que tanto julgara ser compreensivo.
− Como pode se considerar digno do posto que tem se nem ao menos se importa com os que estão abaixo de você? – O mais novo, tomado por uma enorme ira, deixa seu tom se elevar, esquecendo-se que Loki estava poucos metros à frente.
Bauhir o fita severamente por longos segundos, surpreso com aquela atitude antes nunca vista por ele. – Quer que eu sinta pena de todos os selvagens, é isso? – Questionou, imponente, tentando manter a frieza de sempre. – Desculpe, irmãozinho, mas não farei isso. – Sorriu forçado, engolindo a seco, vendo a eminente tristeza se apoderar dos olhos de Bálder.
Se ele sentia-se um cretino por desvalorizar o povo da garota que salvara seu irmão da morte? Sim, ele se sentia-se o pior dos cretinos. Contudo, para o bem deles e de todos que eles amavam, era melhor manter-se neutro sobre aquele assunto, pelo menos até chegarem em casa, tendo assim total privacidade para conversarem sobre o ocorrido com mais privalidade.
− Isso tudo, essas leis idiotas estão erradas e, mesmo que tente negar com todas as suas forças, você sabe que eu tenho razão. – Seu tom raivoso não passou despercebido pelo Deus da trapaça, fazendo-o ficar atento ao que eles conversavam.
− Quer calar essa boca? – Bauhir já não estava tão paciente como antes, mas mesmo assim tentava manter a compostura com o irmão.
− Não me calarei. – Bálder, transtornado, para de cavalgar abruptamente. – Você não tem o direito de ser o general da guarda real. – Se é nisso... − Apontou para o mais velho. – Que eu irei me tornar conforme o tempo passar, eu rejeito meu cargo. – Após desonrar seu próprio irmão perante os outros cavaleiros, Bálder cavalga para o lado oposto, não se importando com as prováveis consequências que sofrerá futuramente.
− Droga! – Praguejou o general, irritado.
Deleitando-se com a intriga que, infelizmente não fora causada por ele, Loki sorria discretamente, feliz com a desunião de dois irmãos que eram tão unidos, algo diferente de como era a relação entre ele e Thor, seu irmão mais velho.
A sua maior satisfação naquele momento, mesmo querendo matar o segundo comandante por ter renunciado ao título dado por seu pai, Odin, era ver que a garota que o salvara da morte fora responsável por fragilizar o laço fraternal uma vez existente entre eles.
“Um Demônio em forma de anjo.”
Pensou o Deus da trapaça, passando pelos enormes portões do palácio real, cavalgando até os estábulos. Guardou seu corcel negro de olhos azuis, fechando a porta da última vaga restante, caminhando tranquilamente em direção ao castelo, arquitetando uma armadilha para os filhos de Braehen Excalibur, um dos soldados mais importantes nos tempos juvenis de seu pai.
− Eles não perdem por esperar. – Seu tom era baixo, repleto de maldade, como se seu único propósito de existência fosse trazer desgraça para àqueles que o cercava.
♞♞♞ A s g a r d — U n o h t u n e e n M e t s ä n ♞♞♞
Sigyn chegou cansada de sua caçada, jogando a bolsa com as aves abatidas sobre a mesa de madeira, permitindo-se se sentar um pouco em uma das cadeiras vagas para descasar.
− Como foi a caçada de hoje? – Uma senhora de longos cabelos loiros, olhos chocolate, pele alva totalmente descuidada e marcada pelo tempo, com dificuldade por conta sua doença, pergunta ao entrar na pequena e humilde cozinha.
− Foi... – Ao se lembrar da amarga experiência que teve com o príncipe Loki, a jovem engole a seco, tomando uma postura mais rígida. – Não foi das melhores. – Respondeu, desviando seus pensamentos do Deus da trapaça. – Mas consegui aves para todos. – Sorriu forçado, sabendo que suas mãos estavam manchadas de sangue.
− Muito bom, minha criança. – Como um mimo, a mulher acaricia a face pálida da filha rapidamente, abrindo a sacola logo em seguida.
− O filho de Johair perguntou sobre você, sabia? – A matriarca jogou a indireta muito direta no ar, esperando que a jovem compreendesse o que aquilo significava.
− Mãe... – Sigyn, com muita paciência e doçura em sua voz, até tentou argumentar com a senhora, mas de nada adiantou.
− Chega! – Seu tom era alto, alterado, como se não estivesse conversando com a própria filha, mas sim com uma escrava de suas vontades. – Não temos dinheiro para ter uma vida descente. – Suspirou pesadamente. – Acha que essa vida selvagem me agrada? – Acha que quero viver nessa maldita miséria até o fim de meus dias?
A jovem nada disse, apenas abaixou a cabeça, magoada, mas entendendo o desespero de sua mãe. Contudo, apesar de não gostar da miséria, de ter que manchar suas mãos delicadas com sangue de animais que deveriam viver por um longo tempo, ela não era capaz de reclamar, muito menos amaldiçoar a vida que vivia, afinal. Apesar das dificuldades, da fome que lhe apertava o estomago todos os dias por ser incapaz de comer a carne das aves que matava, a miséria havia lhe ensinado algo bom, algo que somente os puros de coração conseguiam aprender. A pobreza havia lhe ensinado a amar e a zelar por todos aqueles que precisavam.
− Eu sei que você deseja se casar apaixonada, Sigyn, mas a vida não é assim. – A mulher nem ao menos fazia questão de encarar a jovem, bastava lhe jogar a verdade como uma bomba prestes a explodir. – Mas engana-se muito ao acreditar que o amor é algo real. – Complementou com severa frieza, acendendo o fogão a lenha.
Para a jovem arqueira, uma moça sonhadora que acreditava com todo o seu coração no amor, ouvir aquilo da boca de sua própria mãe era algo doloroso, cruel demais. Todavia, mesmo pensando diferente da matriarca, ela não exporia o seu lado de ver as coisas, já que ela respeitava muito a mulher que lhe dera a vida.
Tudo o que lhe restava fazer era escutar calada.
− Espero que perceba que o que faço é para seu próprio bem. – Murmurou a mulher, dando por encerrado a conversa unilateral.
♞♞♞ A s g a r d — P y h ä T e r ä ♞♞♞
Chegou em casa, ainda abalado, jogando suas coisas em um canto qualquer. Bálder era incapaz de ser como seu irmão mais velho, totalmente apático em relação ao sofrimento alheio, focando-se somente em seu próprio bem.
− Aquele... – Murmurou no ar, deixando a última palavra morrer no silêncio.
Suspirou, tentando se acalmar, mas era algo impossível para ele. A pessoa que ele mais admirava em toda Asgard mostrou-se um verdadeiro egoísta, incapaz de se sensibilizar com o que ambos haviam visto na sacola da garota.
Aquilo não era uma vida digna, Bauhir sabia disso, mas parecia não se importar nenhum pouco.
Fitando o teto de mármore, o segundo comandante se perde em pensamentos, relembrando da atitude nobre da jovem selvagem, soltando várias perguntas para o nada. – Por quanto tempo ela anda comendo só aquilo? Será que ela tem uma família para alimentar?
Enquanto sua mente vagava para longe das províncias nobre de Asgard, Bauhir entra no quarto totalmente transtornado, humilhado com a atitude do mais novo perante o príncipe Loki.
− Tem ideia do que me fez passar hoje? – Seu tom era alto. – Sujar o nome da família por uma selvagem? – Pegou o menor pela gola de suas roupas, levantando-o no ar como se fosse uma leve criança.
Castanhos nos azuis, azuis nos castanhos. Ambos se encaravam com seriedade, mas nenhum deles abria a boca para dizer o que queriam.
Minutos se passaram arrastadamente, tornando o clima do ambiente pesado demais.
Bálder enrijeceu seus lábios, abaixando o olhar em tristeza. – Você viu o quão magra ela é? – A pergunta atingiu o Bauhir com força, fazendo-o soltar o irmão. – Com todas aquelas aves mortas em sua sacola, é impossível ter aquele peso tão desnutrido.
Sentindo o coração pesar com a eminente verdade que ele tentou negar por orgulho, o mais velho se senta na cama, soltando um suspiro logo em seguida.
− Não é nossa culpa. – Murmurou, coçando a nuca. – Odin deveria ser justo com todos, mas...
E antes que o mais alto pudesse terminar, o segundo tenente o interrompe, completando o que o irmão iria dizer. – Parece que Odin pouco se importa com o povo sem leis.
Pensativo, ainda meio chateado com o mais novo, o homem de barbas trançadas levanta-se de supetão, assustando o irmão. – Eu acho que...
− Que...? – Perguntou o jovem, curioso, esperando que ele lhe mostrasse uma luz em meio à escuridão.
− Podemos, claro que com muita discrição, pegar um pouco de nossa abundante fartura e dar para a garota em forma de agradecimento.
− Claro! – Seu tom era feliz, orgulhoso, como se nada pudesse dar errada naquela arriscada ideia.
− Então vão cometer mesmo esse ato de traição? – Murmurou Loki para si mesmo, em forma de corvo negro, fitando os irmãos planejando tudo com tanta certeza de que aquele plano ridiculamente estúpido seria realizado. – Perfeito.
Ao obter a informação necessária para destruir aqueles soldados medíocres, Loki volta em direção ao castelo, feliz por ter novas vítimas de suas trapaças e mentiras.
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