Jogo de Máscaras
8 Capítulo 8 - Vista sua máscara de felicidade
Notas iniciais
Naquela dia, Neji estava insuportável. Ten-Ten tinha visto o marido chegar tarde, batendo as portas com força naquela madrugada. Ainda acordada, com o notebook sobre o colo enquanto terminava de mandar os últimos e-mails para a equipe de gravação da campanha de Neji, observou-o se livrar da gravata extremamente irritado, jogando-a no chão junto do terno.
Colocou o computador sobre a cama, levantando-se e indo até ele.
— O que aconteceu? — perguntou, empurrando-o para que se sentasse na cama.
Neji respirou profundamente, apertando o tecido da calça entre os dedos, encarando o nada. Ten-Ten estalou a língua no céu da boca, ajoelhando-se na cama atrás dele. Enfiou a mão no bolso da calça que ele vestia, retirando o prendedor de cabelo que ele sempre mantinha ali. Passou a mão delicadamente pelas mechas castanhas, desembaraçando-as com suavidade. Viu a postura de Neji mudar gradativamente, ficando menos tensa, e continuou. Amarrou o cabelo dele em um rabo de cavalo alto, inclinando-se para deixar um beijo leve no pescoço dele.
— Naruto não estava lá hoje? — perguntou, ciente de que aquele era o único motivo para Neji estar naquele estado depois de voltar da Akatsuki.
Antes que ele se levantasse irritado, pousou as duas mãos nos ombros dele, aplicando certa pressão em movimentos lentos.
— Estava — Neji respondeu, gemendo baixo quando Ten-Ten massageou abaixo do seu pescoço. — Mas um outro qualquer fez um lance maior que o meu.
— Quanto?
— Trinta e cinco mil. Quem gasta isso em um lugar como a Akatsuki? — exasperou-se, tencionando se levantar.
Ten-Ten o forçou para baixa, abraçando-o pelas costas.
— Ou alguém com muito dinheiro ou então apaixonado pelo puto — ela explicou, calma. — Sabe que é assim, você mesmo já ouviu Naruto falando sobre alguns idiotas que aparecem naquele lugar pagando quantias exorbitantes para ficar conversando com ele. Sem contar nos presentes que ele recebe. Você sabe que é irracional ter ciúme dele considerando essa profissão, não sabe?
Neji fechou os olhos e girou a cabeça, desconfortável, cansado. Deixou a cabeça pender entre as mãos antes de se endireitar, olhando para o lado. Ten-Ten arqueou a sobrancelha e se inclinou para selar os lábios aos dele levemente.
— Esqueça isso — ela sussurrou, encostando o rosto no dele, vendo-o fechar os olhos. — Terá outra oportunidade, sabe que sim. Venha, precisa de um banho e de descanso, teremos um dia cheio amanhã.
Ela se levantou, puxando-a pela mão para o banheiro da suíte que dividiam. Ele se Livrou das roupas com certo tédio e, quando entrou debaixo da água quente do chuveiro, notou que Ten-Ten fazia o mesmo. Ela piscou um olho, divertida, passando os braços pelo pescoço dele enquanto o beijava com nada mais nada menos que desejo. As mãos dele foram para a cintura dela, apertando-a antes que ele prensasse o corpo feminino contra a parede fria do banheiro.
Beijos quentes, carícias ousadas, toques que não tinham nada de puro e que apenas os excitavam. Não tinham pressa, não tinham pudores, não tinham motivos para se reprimirem e se repreenderem pelo que faziam. Eram casados, não? Casamento envolve cumplicidade, cumplicidade envolve ser, ambos, o pilar de que o outro precisava. E, naquela hora, Ten-Ten estava precisando mais do que ele.
Não. Se achou que ela estava ali para confortá-lo pela noite que dera errado, errou. Ela estava ali por ela. Sua cabeça latejava, relembrando-a de tudo o que tivera que fazer naquele dia horrível. As câmeras não paravam de segui-la, registrando tudo o que a “esposa de Neji Hyuga” fazia. Tinha um encontro marcado com Kiba, seu amante, amigo e paixão, mas que fora desmarcado às pressas quando notara que os malditos repórteres não parariam de segui-la! Em vez de aceitar, de entendê-la, Kiba fez algo que nunca tinha feito até então: questionar.
Quantas horas havia perdido no telefone tentando explicar a ele que sua vida não era tão fácil quanto ele supunha? Quantas vezes repetira que não podia dar brechas para que estipulassem sobre sua vida e a de Neji? Quantas malditas vezes pedira para que ele a entendesse, repetindo sofregamente que o amava? Talvez o mesmo número de vezes que Neji investia contra seu corpo naquele momento, fazendo-a gemer enquanto arranhava as costas dele e o puxava para mais um beijo exigente.
Aquela vida era uma droga, os dois sabiam bem disso e, por isso, ajudavam-se. Quando souberam que se casariam, foi uma revolta. Mas o tio de Neji tinha sido irredutível, afirmando que Ten-Ten era a melhor opção por ter sido criada na política, filha de uma senadora e de um deputado, ambos influentes e que podiam ajudar Neji a conseguir o posto que desejava. Quer dizer, que lhe era desejado porque, de política, ele só gostava do salário. Quando se conheceram, não foi mesmo na melhor das circunstâncias. Ten-Ten estava pronta para sair de casa, teria um almoço com Kiba e já estava atrasada. A mão de sua mãe foi mais rápida em fechar a porta.
— Teremos visitas importantes hoje — ela disse, deixando claro que Ten-Ten não deveria desobedecê-la. — Seu noivo chega em instantes. Faça companhia a seu pai enquanto isso.
As objeções não foram ouvidas. Ten-Ten mandou uma mensagem rápida ao namorado enquanto encaminhava-se para o jardim, notando o carro a entrar na residência. Se não estava contente, piorou ao ver quem era o noivo. Não que o conhecesse, não fazia ideia de quem era aquele homem e duvidava que alguém no mundo soubesse. Um qualquer, filho de algum político menor que, por alguma razão, seus pais se achavam na obrigação de ajudar e ainda a envolviam naquilo.
Em poucos minutos de conversa, percebeu que sua vontade de casar com Neji era a mesma da dele. Nula. E era só isso que tinham em comum. O homem a sua frente seria um político? Sério? Duvidava muito. Ele não sabia metade do que deveria saber, não atuava para as câmeras e ainda fazia questão de ser antipático com todos. Não se casaria com ele.
Odiaram-se durante todo o noivado, mas foi no dia do casamento que se entenderam. A discussão com Kiba havia sido bem pior naquele dia. Não o culpava, não tinha como ele entender o motivo de ela se submeter àquilo, de aceitar o que os pais impunham daquela forma, nem ela entendia. Em síntese, ele praticamente deixara claro que nãos se veriam mais, que, se ela dissesse sim no altar, seria dizer não a eles dois.
Neji percebeu quando a noiva pareceu procurar alguém dentre os convidados e soube quem seria, contudo, sua futura sogra o tinha alertado que os seguranças já haviam sido avisados para impedir a entrada do ex-namorado de Ten-Ten. Apesar da implicância que tinha com ela, não gostou quando os olhos castanhos marejaram. Podia jurar que ela desistiria de tudo, que faria um escândalo, mas não... Ela vestiu uma máscara de felicidade que ele não sabia de onde vinha e se virou ao padre para dizer as duas palavras finais:
— Eu aceito.
As fotos do dia mostraram um casal feliz, amigos e família comemorando, mas não mostraram Ten-Ten na banheira da suíte de sua lua de mel, a quilômetros de casa, completamente vestida como haviam chegado em Paris, com a maquiagem borrada e os cabelos molhados enquanto virava contra os lábios uma garrafa de alguma bebida qualquer que pedira pelo serviço de quarto.
Talvez fosse o contraste entre aquela mulher quebrada e a mulher imponente que vinha se mostrando até então, talvez fosse só porque também estava querendo gritar o quão insatisfeito estava, talvez fosse porque, apesar de não admitir em voz alta, achava certa graça em como Ten-Ten debochava de sua falta de habilidade na política, talvez fosse tudo isso junto, mas o que realmente importa é que, seja lá por qual motivo, Neji apenas retirou os sapatos, o relógio, o celular e a carteira do bolso antes de caminhar até a banheira ampla.
Ten-Ten se assustou ao vê-lo entrar e tentou se afastar, porém o toque em seu braço não era possessivo, não era autoritário, e os olhos perolados não mostravam nenhum desejo como ela temia. Em vez disso, eles eram o mais puro reflexo do seu. Perdidos, agoniados, infelizes...
Deixou-se ser abraçada pelas costas e se manteve entre as pernas do então marido. Apoiou a cabeça no peito dele, sentindo-o deslizar os dedos por seus cabelos. E, assim, permaneceram, sem se importarem com as horas ou com a água que já esfriava.
— Trégua? — ele perguntou baixo.
— Trégua — ela respondeu.
— Então, pode chorar à vontade, ficará entre nós.
— Não quero mais chorar.
— Sua mãe não o deixou entrar na Igreja e nem na festa — confessou, sentindo as mãos dela se fecharem no tecido de sua camisa. — Tente falar com ele depois.
— Está louco — Riu, descrente, afastando-se para o olhar. — Kiba não seria o amante, e você com certeza não quer seu nome ao lado da palavra traído, quer?
Neji deu de ombros.
— Podemos dar um jeito nisso, é só sermos discretos. Quanto ao seu namorado, bem, pessoas fazem coisas idiotas por amor, não é o que dizem? Proponha e veja se ele aceita. Você é boa em persuadir as pessoas, por que seria diferente com ele?
— Está dizendo que não se importa?
— Estou dizendo que, para esse casamento funcionar, precisamos nos ajudar. Tenha os seus amantes, eu terei os meus; conte comigo para o que precisar e quando precisar, e deixe-me contar com você. Preciso da sua ajuda e, pelo pouco que entendi, sua mãe precisa de um aliado dentro do partido, então me ensine a ser um bom político. Tenho certeza que você pode me ajudar nisso.
Ten-Ten piscou, incrédula, tentando assimilar a proposta. Kiba não aceitaria aquilo, aceitaria? Meu Deus, estava cogitando aceitar?
É, não só cogitou, como também aceitou, e Kiba também depois de alguma insistência. Em poucos meses de convivência com Neji, percebera o que teria sido melhor ter percebido antes: não era só a não vontade de se casar que tinham em comum, era quase todo o resto. Suas personalidades não eram iguais, mas se encaixam de modo único. Era fácil conduzir o marido, ensiná-lo, divertia-se para ser sincera. Podia até arriscar a dizer o que, naquela época, não sabia: casara-se para ganhar um amigo, um aliado tão bom quanto ela. Além disso, estavam casados e permaneciam por um bom motivo: não se amavam. A amizade que tinham construído era ótima, a cumplicidade desenvolvida só ficava mais forte, e agradeciam por não haver outro sentimento que não esse quando se tocavam, quando usavam de seus corpos para aliviar a tensão do dia, o desejo contido.
— No que tanto pensa? — Neji perguntou quando saíram do banho, voltando à realidade.
Ten-Ten negou com a cabeça, fazendo um gesto de descaso enquanto vestia uma camisola. Retirou a toalha da cabeça, sem se importar em dormir com os cabelos molhados da mesma forma que via Neji fazer. Deitou-se, com ele a puxando para si e a abraçando.
— Sairá amanhã? — ele perguntou, beijando-lhe o ombro enquanto ela se ajeitava melhor.
— Não. Temos muito a fazer amanhã.
— Muito...? — ele repetiu pesaroso.
— Temos que cuidar da sua imagem, não? Depois que aquele jornal de quinta quase te fotografou na Akatsuki, precisamos garantir que você ainda seja o candidato mais correto e digno dessa eleição.
Ela o ouviu suspirar, sentiu a respiração dele contra a pele e sorriu, batendo palmas duas vezes para que as luzes se apagassem e o sono pudesse enfim os fazer reféns.
Era engraçado ver Neji dormir, principalmente pela manhã. Ten-Ten sempre acordava antes dele ao primeiro toque do despertador. Olhou o relógio na tela do celular e resmungou algo ao perceber que já eram oito horas. Tentou se mover, sentindo o aperto a sua volta ficar mais forte. Girou o corpo, ficando de frente para Neji, observando-o desacordado. Tão sereno... Tão pacífico... Tão diferente da personalidade verdadeira.
Riu baixo, levando as mãos ao rosto dele em uma carícia leve enquanto o chamava.
Dizer que não queria levantar era eufemismo para Neji. Apesar de ter ouvido o celular de Ten-Ten, fingiu não ouvir e rezou para que ela perdesse a hora. Iludido... Isso nunca havia acontecido, não seria aquela a primeira vez.
— Meu tio virá? — perguntou, sonolento, escondendo o rosto no ombro da esposa enquanto ela assentia. — Droga...
Não que odiasse seu tio, mas Hiashi era severo, rígido, e acompanhava todos os detalhes de sua campanha, uma vez que eram do mesmo partido. Como prefeito, não podia vacilar naquele ano, não quando visava se candidatar à reeleição e, dessa forma, apoiar a campanha do tio quando as eleições para governador começassem, afinal, seu tio não queria deixar o cargo tão cedo. Sendo assim, levantou-se e deixou que Ten-Ten começasse a orientá-lo sobre o dia.
Ela dissera “dia cheio”? Não, aquilo estava mais para insano! Não só gravação, como também entrevista e visitação a uma região específica. Como odiava aquilo tudo! Arrumou-se, seguindo as recomendações dela. Saíram juntos para o café da manhã e não disfarçou o desgosto ao encontrar o tio sentado à mesa, bebericando o café enquanto lia o jornal.
— Bom dia, Hiashi — Ten-Ten saudou. — Pensei que nos encontraria no estúdio de gravação.
Neji percebeu a feição rígida de Hiashi não se alterar. Os olhos perolados mostravam descontentamento enquanto os braços cruzados em frente ao corpo já eram um bom sinal de que havia algum assunto sério a ser debatido. Com seus cinquenta e oito anos, Hiashi ainda não perdia a imagem imponente que sempre possuíra.
— Algumas notícias me fizeram mudar os planos — Ele estendeu o jornal para Ten-Ten. — E não foi só pelos jornais que fiquei sabendo — acrescentou, olhando Neji com reprovação. — Pensei já tivesse tomado providências quanto ao jornal, Ten-Ten.
Ten-Ten abriu o jornal e folheou com calma, embora pudesse sentir os olhos de Hiashi queimando sobre si. Separou o caderno de política e achou o que tanto o incomodava. Era uma foto muito mal tirada, em um ângulo e a uma distância que dificultava a identificação, mas ela sabia muito bem que era Neji conversando com dois membros do partido de oposição. Leu rapidamente a notícia e procurou por alguma coluna que tocasse mais uma vez no nome do marido. Nenhuma daquela vez, como já esperava.
— Não dá para o reconhecer — ela pontuou, passando o jornal para Neji. — A notícia mesmo diz “especula-se”. Especular podemos todos, não há motivos para ficarmos alarmados.
— Já vi oportunidades sendo perdidas por muito menos — Hiashi retrucou irritado. — Neji já está com a imagem manchada! Estão investigando o caso de desvio na construção do hospital, fotografaram ele e aquele inútil do outro partido perto da Akatsuki, algumas revistas afirmam terem fotos de um almoço dele com aquele puto que ele tanto gosta! E não é razão para nos alarmarmos?
Neji massageou as têmporas, suspirando enquanto jogava o jornal no chão e se servia um suco de laranja. Ignorando a discussão ao seu redor, colocou as frutas em seu prato e começou a comer como se nada o afetasse. Não sabia lidar com Hiashi a não ser para o colocar para fora daquela casa, então, era preferível deixar Ten-Ten cuidar do assunto.
— Já disse que não temos mais que nos preocupar com o jornal, tomei duas providências a respeito já — ela falou tranquila, mas firme. — Neji, passe o chá, por favor.
— O que fez? — Hiashi questionou irritado.
— Acionei alguns contatos e pedi que dessem um susto no responsável pelo caderno. Não mataram ninguém e nem têm provas contra nós — ela se adiantou. — Foi só um susto mesmo: invadir casa, quebrar algumas coisas, e pedi para que procurassem o computador dele para verificar se tinha mais alguma matéria, porém não o encontraram.
— Ele estava lá na hora? — Neji perguntou, não gostando do rumo daquela conversa.
— Não. Eu me assegurei que invadissem quando a casa estivesse vazia. Me informo antes de agir — ela se defendeu, ofendida.
Neji estalou a língua no céu da boca, atraindo a atenção do tio.
— Não ouse reclamar! Se você tivesse juízo e um pouco de bom sendo para não ficar correndo atrás de um gigolô e não se meter em esquemas mal planejados, não teríamos que subornar ninguém ou apelar para o que Ten-Ten teve que fazer — Hiashi se levantou, ajeitando o terno e parando ao lado de Neji. — Encontro vocês no estúdio. Não se atrase, Neji.
Foram dez segundos para que Neji não ouvisse mais o som do sapato do tio contra o piso. Ten-Ten o viu respirar fundo, terminando de beber o suco antes de se levantar e arremessar o copo na direção por onde Hiashi tinha saído.
— Eu. Realmente. Vou. Perder minha paciência. Com ele — disse entredentes, com a respiração acelerada. — Por favor, mantenha-o bem longe de mim hoje.
— Bem longe — Ten-Ten repetiu, limpando a boca com o guardanapo. — Sente-se e coma, você precisa estar bem hoje. Deixe que, com Hiashi, eu lido — falou, estendendo um outro copo para Neji.
Ele respirou fundo, bagunçando os cabelos em um gesto exasperado. Sentou-se na mesa, na ponta, onde sempre havia sentado, e jogou a xícara de Hiashi no chão. Aceitou o copo de Ten-Ten e voltou a enchê-lo com suco, estendendo-o, então, para um brinde.
— Ao nosso longo, exaustivo e tediante dia!
Ela riu, suspendendo a xícara de chá e brindando com ele.
— Ao dia em que não teremos que ouvir mais Hiashi.
— Ah, isso eu quero — Ele sorriu. — Isso eu quero muito...
* * *
Ino não demorou acordar, embora sua preguiça implorasse pelo contrário. Sentou-se, coçando os olhos, sentindo o corpo reclamar por ter dormido no chão frio do ateliê. Olhou ao redor, vendo as tintas e os pincéis esparramados no chão, largados em diferentes lugares. Os rascunhos estavam salvos, nos cavaletes a um metro de distância dela. Pelo menos isso, pensou. Levantou-se, passando a mão no rosto e sentindo a tinta seca no rosto.
A noite anterior, ou melhor, a madrugada havia sido até que proveitosa. Dos rascunhos que tinha, conseguira aperfeiçoar dois, percebendo que havia mesmo escolhido as telas corretas, de tamanho certo. Conseguira encontrar a mistura perfeita das tintas e já até começara a pintar um. Essa seria sua rotina maluca e desaconselhável: rascunhar durante o dia e a tarde quando o modelo estivesse disponível, chegar em casa, aperfeiçoar os desenhos e colorir como sua mente pedia. Só uma coisa não a deixava confortável... A pintura não estava completa em sua mente.
Quando se colocava a colorir um quadro, sua mente já formava uma imagem toda dele, já selecionava as poucas cores, já sabia onde inserir os detalhes, quais partes seriam preto e branco, quais fugiriam desse estilo monocromático. Contudo, dessa vez não. Sua cabeça estava um tanto quanto perdida, procurando a melhor forma de utilizar sua técnica.
Suspirou, erguendo os braços em uma tentativa de aliviar a dor nas costas.
Seria tão mais fácil pintar os quadros com Gaara também presente. Infelizmente, imaginava já que ele não fosse aceitar e, portanto, era melhor aproveitá-lo apenas para os rascunhos.
Na cozinha, ligou enfim seu celular. Havia o deixado desligado porque sabia que seu empresário ligaria para perguntar e cobrá-la sobre os quadros. Como esperava, quatro ligações perdidas dele, uma outra de sua mãe, várias mensagens sem muito nexo. Depois resolveria isso. Não tinha tempo a perder, precisava aproveitar cada minuto! O relógio na parede já dizia que estava atrasada para se encontrar com o modelo. Correu para o banho, tentando tirar todo o resíduo de tinta que havia em si.
Arrumou suas coisas, xingando-se ao tropeçar nos pincéis. Recolheu tudo o que precisava e amaldiçoou-se por saber que, para levar tudo ao carro, teria que ir e vir umas duas vezes. Separou primeiro a maleta com as tintas, os pincéis e as roupas que queria. Seria tão fácil se Gaara fosse ao ateliê... Levou ao carro, abrindo o porta-malas. Voltou ao apartamento para buscar o cavalete e as telas, repetindo o processo.
Dez minutos atrasada já.
Ligou o carro e saiu com pressa. Sem café, sem maquiagem, com cabelo preso por falta de tempo de penteá-lo corretamente. E sem a confirmação de que Gaara compareceria. O modelo não havia confirmado presença naquele dia, quer dizer, haviam meio que combinado o mesmo horário, mas, quando o dia anterior tinha acabado, ele não dera muita certeza sobre aquilo.
Os seguranças da Akatsuki pediram seus documentos e, ao conferirem, liberaram a passagem do carro para o estacionamento no subsolo. Como nas outras vezes, dois deles se aproximaram, ajudando-a a retirar tudo do carro e subir para o quarto reservado.
Meia hora atrasada. Isso porque nem havia pego trânsito. Bateu na porta, e não obteve resposta. Usou das chaves que possuía para entrar, deixando que os seguranças colocassem suas coisas no meio do quarto.
Gaara não estava ali.
Será que ele havia desmarcado? Desistido? Só de pensar, seu estômago revirava e aproveitava para roncar, lembrando-a do café não tomado. Mordeu o lábio, ansiosa, agradecendo aos seguranças e fechando a porta. Começou a arrumar os cavaletes e as telas, dispondo-as na ordem que queria. Havia levado apenas dois dos rascunhos já feitos e o resto eram telas em branco para novos esboços. Puxou um dos bancos do bar e o colocou na frente do cavalete que continha o quadro já com a pintura iniciada. Podia começar a colorir aquele enquanto o modelo não chegava.
Resultado? Nada. Nem rascunhos, nem pintura, nada. Não conseguia prosseguir sem o modelo para guiá-la, e essa constatação a deixou levemente irritada quando, depois de quarenta e cinco minutos, Gaara entrou pela porta.
— Atrasado — não se impediu de dizer.
Ele parou ainda com a mão na maçaneta. Os cabelos ruivos estavam bagunçados, como sempre, e ele vestia uma roupa simples, comum, como se tivesse acabado de voltar da rua.
— Não. Eu estava aqui na hora. Você se atrasou — ele respondeu em defesa. — Já começou? — Estranhou, caminhando até ela para verificar o quadro.
— Não — ela resmungou, insatisfeita.
Gaara parou ao lado dela, observando o pincel na mão direita e a palheta de cores na esquerda. O quadro só tinha o fundo pintado, sua imagem continuava em traços de carvão. Olhou novamente para a palheta, notando que poucas cores estavam ali. Poucas? Eufemismo. Só havia quatro. Preto, branco, vermelho e verde. O que ela esperava com tão poucas cores?
Antes que perguntasse, ouviu o estômago da artista roncar e a olhou com a sobrancelha arqueada. Ela arregalou os olhos, balançando a cabeça incrédula enquanto o rosto ficava rubro e os lábios convergiam em um bico de descontentamento. Havia tinta preta no cabelo loiro e perto da orelha assim como na ponta dos dedos, e as olheiras que ela não cobrira terminavam de fazer o diagnóstico: ela trabalhara até tarde naquilo. Óbvio que tinha. O rascunho não era o mesmo que havia visto antes, estava com traços mais firmes, mais detalhados.
Suspirou, ouvindo em seu subconsciente a voz de Hinata o repreendendo se não fizesse algo.
— Vem, vamos comer algo — sugeriu, dando as costas à artista.
— Não temos tempo — ela rebateu.
— Falamos disso enquanto comemos.
Ino se levantou e abriu a boca para contestar, mas o modelo já havia saído do quarto. Praguejou alto, saindo atrás dele. A Akatsuki de dia era bem diferente do que estava acostumada a ver durante a noite. Pelos corredores, podia ver as pessoas que trabalhavam ali conversando normalmente, rindo alto, andando com roupas confortáveis. Se encontrasse com qualquer um deles na rua, não saberia dizer em que trabalhavam.
— Perdida? — Ouviu uma voz doce perguntar.
Encarou os olhos perolados que lhe observavam com certa dúvida. Já havia visto aquela garota em alguns eventos sociais e se lembrava dela na entrada daquele estabelecimento, recebendo os clientes. Como era mesmo o nome?
— Hinata, ela está comigo — Gaara apareceu ao seu lado, tocando sua cintura com leveza. — Você não tinha uma festa para ir?
—Desmarcaram — Hinata sorriu, aliviada. — Era um casamento e parece que a noiva fugiu com o amante durante a madrugada. Você é Ino Yamanaka, não é? — perguntou, olhando para a artista. — Eu e um amigo nosso adoramos os seus quadros.
— Ah, obrigada — Ino respondeu sem jeito.
— Nós vamos tomar café aqui perto. Qualquer coisa, avise Jiraya, Hina — Gaara se adiantou, beijando a testa da amiga antes de se afastar com a mão na cintura de Ino, guiando-a entre tantas pessoas.
Ino não perguntou nada até pararem a poucos metros da Akatsuki, em uma cafeteria bonita, onde um atendente, logo que os viu, saiu para atendê-los.
— Era sua namorada? — perguntou, enfim, curiosa.
Gaara franziu o cenho, como se perguntasse do que ela estava falando.
— A garota, era sua namorada? Ela não se incomoda? Quero dizer, como lidam com esse trabalho e...
— Hinata não é minha namorada — ele respondeu ao entender.
—Já sabem o que vão pedir? — o atendente parou ao lado deles, esperando.
— Um suco de laranja sem açúcar e com gelo e um croissant de chocolate, por favor — Ino falou sem muito pensar. Precisava de chocolate naquele dia.
Gaara deixou um sorriso de leve aparecer, olhando para o atendente.
— Um pedaço de torta de limão.
— Bebida?
— Não.
— Ok, já trago.
— Por que não tomou café antes de vir? — Gaara perguntou, sorrindo debochado quando o estômago dela roncou baixo.
— Não deu tempo. Perdi a hora porque desliguei o celular para não ter que lidar com o chato do Kakashi.
— Kakashi?
— Meu empresário — ela explicou. — Sabe quando uma pessoa simplesmente não entende que demora para produzir um quadro? Ainda mais uma série inteira! Kakashi quer que eu morra de exaustão, só pode.
— Qual seu prazo?
— Curto — Riu-se, desviando o olhar para o atendente que trazia os pedidos. — Obrigada.
Gaara a viu fechar os olhos e gemer deliciada ao morder o croissant. Ela abriu os olhos, corando ao se perceber observada.
— Quer? — ofereceu, vendo-o negar.
— Seu prazo está tão corrido assim?
— É complicado — Ela bebeu um pouco do suco. — Tenho que te rascunhar aqui em pouco tempo, depois tenho que aperfeiçoar cada desenho, vendo se escolhi ou não a tela adequada. Se não tiver, tenho que passar o rascunho para outra, refazendo-o todo. Depois ainda preciso colori-los.
— Mas não é mais fácil quando se usa poucas cores?
Ino suspirou, apoiando o queixo na mão.
— Mais ou menos. A maioria dos meus quadros tem pequenos detalhes coloridos, algo que dá minha assinatura à obra e chama a atenção para o que quero destacar, mas, não sei por que, não estou conseguindo fazer essa parte. Fiquei ontem e hoje pensando em que parte colorir ou como fazer isso e nada me veem à mente. E isso é tempo perdido, fico ansiosa, aí fico nervosa, aí me acabo no chocolate! — Apontou para o croissant.
Gaara concordou, levando um pedaço da torta aos lábios enquanto pensava.
— Sem contar no trabalho que é vir para cá — ela desabafou, frustrada, e ele achou melhor não a interromper. — Dá um trabalho enorme colocar tudo no carro. Tinta, pincel, tela, figurino. Isso quando não esqueço algo e tenho que voltar. Essa série vai se chamar “A SAGA”, porque a dificuldade que está sendo para termina-la é algo inacreditável. Seria muito mais fácil se fosse no ateliê, já estaria tudo lá, tudo no seu cantinho, onde deixei meio que organizado.
— Meio que organizado? — ele ironizou, lembrando-se do descaso da artista ao arrumar as coisas dentro do quarto, preferindo deixar tudo espalhado.
Ela riu, suave, dando de ombros.
— Artista, querido, queria o que? Nossos ateliês só não são mais confusos que nossas mentes — Piscou, rindo em seguida.
Com certeza, iria se arrepender do que faria, mas não estava muito preocupado com as consequências. Sendo sincero, era até que divertido assistir Ino o desenhando ou tendo pequenos acessos de raiva quando algo não dava sério. Analisou mais uma vez, repreendendo-se por fazer tanto aquilo. Os olhos azuis dela brilhavam animados, embora fosse visível o cansaço que a abatia. Os lábios rosados eram contornados pela língua toda vez que ela abaixava o copo de suco ou mordia o salgado pedido. As mãos finas, com resíduo de tinta que ela não deveria ter notado, não paravam quietas, ora tamborilando na mesa, ora exibindo o relógio de pulso para que ela conferisse o horário.
— Podemos fazer diferente — Gaara limpou a boca no guardanapo. — Hoje, como já trouxe as coisas, fazemos aqui. Amanhã, se quiser, posso ir até seu ateliê.
Ino o olhou, surpresa, deixando o copo vazio sobre a mesa.
— Sério? — perguntou, animada. — Sério mesmo? Ah, obrigada, obrigada! — vibrou.
Gaara sorriu de leve quando ela terminou de comer. Segurou o braço dela, mantendo-a sentada. Os olhos azuis voltaram-se para si confusos e se arregalaram de leve quando perceberam que ele se inclinava na mesa. Segurou o rosto de Ino com uma mão, aproximando o seu do dela devagar, dando tempo para que ela o rejeitasse se assim quisesse. Baixou os olhos para os lábios rosados, vendo o chocolate que permanecia no canto. Semicerrou os olhos, deixando a língua percorrer a boca de Ino, recolhendo o doce antes morder sutilmente o lábio inferior dela, sugando-o sem pressa.
Ela arfou, fechando os olhos inconscientemente, arrepiando-se quando a mão dele acariciou sua nuca.
Gaara se afastou, como se nada tivesse acontecido, olhando divertido para Ino enquanto se dirigia ao caixa para pagar a conta.
Aquilo prometia... Prometia muito...
* * *
Sasuke acordou às cinco da manhã, quando seu despertador havia tocado. Virou-se para o lado, encontrando o calor do outro corpo.
Ah, é, tinha que ir para casa se arrumar antes de ir ao trabalho...
Abriu os olhos, sorrindo malicioso ao ver seus arranhões e marcas nas costas do homem ao seu lado. Se tivesse tempo, poderia aproveitar mais uma vez antes de ir embora. Poderia, mas não tinha tempo. Sentou-se na cama, gemendo de dor com cada movimento feito.
Não exagere, otouto. Seu irmão ficaria irritado se soubesse que tinha feito o exato oposto não uma, mas duas vezes. Levantou-se da cama, dirigindo-se ao banheiro, sorrindo ao sentir seu corpo inteiro reclamar dolorido. Ignorou a banheira e abriu o chuveiro mesmo, deixando que a água quente massageasse seus músculos. Doía, doía tanto que o fazia ter plena consciência de cada parte de seu corpo, fazia-o lembrar-se da noite, fazia-o sentir-se vivo, completamente vivo. A dor sempre era melhor forma de marcar uma memória, de fazer que não só a mente se lembrasse, mas o corpo também!
Gemeu dolorido quando sentiu Naruto o abraçar pelas costas.
— Eu disse que isso ia te machucar — Naruto resmungou, analisando as marcas roxas, extremamente roxas, na pele antes pálida do outro.
Sasuke riu, lambendo os lábios antes de se livrar do abraço e prensar Naruto contra a parede.
— E eu disse que não me importava, boneco.
Naruto engoliu em seco ao ouvir o apelido, sentindo um arrepio passar pelo corpo quando os olhos negros o mediram com fome.
— Não caia — Sasuke mandou, ajoelhando-se.
Naruto fechou os olhos, apoiando a cabeça na parede enquanto Sasuke manuseava seu membro a fim de excitá-lo. Apertou o cabelo dele entre os dedos, gemendo baixo quando a língua quente percorreu a extensão de seu pênis. Não o pararia, já havia entendido bem com a noite anterior que o cliente era muito bom em fazê-lo se dobrar às vontades dele. Por isso, só coube então gemer, tentando manter os olhos abertos para assistir à cena, irritando-se com as pernas trêmulas, com o prazer que tão fácil se rendia à boca alheia.
— Sasuke!
Não demorou para gozar, e parecia que esse era justamente o intuito de Sasuke. As sucções fortes, os dedos estocando de modo firme seu interior, torturando sua próstata, deixando-o mais sensível! Gemeu alto, gozando na boca do outro e vendo-o cuspir, deixando que a água do chuveiro carregasse o gozo para o ralo e lavasse o rosto dele.
Sasuke segurou a cintura de Naruto ao se levantar, impedindo-o de cair.
— Fala que você vai vir outra vez — Naruto riu, deixando a cabeça se apoiar no ombro dele.
— Dificilmente — Sasuke confessou, ciente de que Deidara não conseguiria aqueles passes para sempre.
Naruto resmungou algo incompreensível, fazendo-o sorrir presunçoso. Terminaram o banho rapidamente, vestindo-se sem muito conversarem. Quando Sasuke estava terminando de arrumar suas coisas, notou a movimentação estranha de Naruto.
— Aqui — Ele correu em sua direção com um papel rasgado de um caderno qualquer. — Ligue se quiser sair um dia.
Sasuke pegou o papel e sorriu de canto ao colocá-lo dentro da carteira.
— Até a próxima, Naruto — desejou, selando os lábios uma última vez, pelo menos naquele dia.
— Até, Sasuke.
O som da porta se fechando foi o suficiente para Naruto se deixar cair na cama, rindo enquanto abraçava o travesseiro. Pela primeira vez, havia ficado estupidamente feliz por Neji não ter ganhado o leilão. Mas isso o lembrava que precisava mandar uma mensagem a ele, perguntando se estava tudo bem.
Levantou-se, pegando o resto de suas coisas e deixando o quarto para que a faxina fosse feita. Entrou no seu quarto particular apenas para organizar alguns cadernos na mochila e sair da Akatsuki. Chegaria cedo na faculdade, porém seu ânimo permitia isso. Encontrou Hinata na saída, discutindo pacificamente com um cliente no telefone. Sentou-se em uma das cadeiras da recepção, esperando a amiga terminar.
— Tudo bem? — questionou assim que ela lhe sorriu animada.
— Desmarcaram o evento de hoje!
— Isso é bom. Vai poder ir naquele debate que queria ver, não é?
— Sim. Parece que alguns ministros vão se reunir para dar à imprensa explicações sobre os últimos escândalos sobre o desvio nas obras do hospital e a falta de recursos e equipamentos!
— Boa sorte — ele desejou. — Vou para a aula, agora. Divirta-se nessa chatice — Brincou, recebendo uma risada da amiga.
— Boa aula.
Aula. Hinata não entendia mesmo como Naruto conseguia manter aquele ritmo insano. Voltou para o interior da Akatsuki, para seu quarto, despindo-se da roupa social que havia colocado e jogando os saltos longe. Retirou a maquiagem com cuidado e programou o despertador para às dez horas. A coletiva seria só perto do meio dia, daria tempo para que descansasse, se arrumasse, almoçasse e então dirigisse até o local. Com sorte, Gaara poderia acompanha-la. O que só descobriu não ser possível quando o viu, mais tarde, acompanhando a artista até a cafeteria.
Bem, iria sozinha mesmo. Almoçou e se aprontou, podendo daquela vez abrir mão do salto, dos vestidos longos e da maquiagem pesada para escolher uma sapatilha simples, uma blusa sem alças bonita e uma calça. Como era bom não ter que trabalhar naquele dia...
Ligou o carro, colocando o pen-drive no rádio para ouvir o piano e o violino preencher todo o automóvel. Dirigiu sem pressa, estava no horário, não havia razão para acelerar, embora essas escolhas sempre fizessem Gaara e Naruto rirem quando ela tinha que os levar a algum lugar.
Não teve muita dificuldade em achar o lugar, já o conhecia, era o mesmo das outras coletivas a que havia comparecido. Estacionou na área comum e não se importou quando sua bolsa foi revistada na entrada. Agradeceu à segurança e entrou no evento, procurando um lugar para se sentar e que desse para ouvir bem o debate que ocorreria. Alguns jornais já estavam ali, podia ver os microfones das emissoras de TV, outros políticos passeavam por ali, conversando entre si, e, atrás, excluídos, os comuns como ela. Mas não se sentaria ali. Não ligou para os olhares atravessados quando entrou na quarta fileira, sentando-se onde provavelmente alguns jornalistas também se sentariam.
— Eu vou matar o Sasuke! — Ouviu uma mulher dizer enquanto se sentava ao seu lado.
Com discrição, percebeu a desorganização da outra e até quis oferecer ajuda, mas se conteve, jornalistas eram extremamente grossos às vezes, e não queria ser alvo do mau humor de ninguém ali.
— Ele não pode vir? — o homem que estava com ela perguntou.
— O desgraçado me mandou uma mensagem às cinco da manhã dizendo que Pain o mandou para outro evento e que não tinha ninguém para o cobrir aqui. Ai, já viu, né? Sobrou para mim.
— Sakura, você nem é do caderno de Política.
— Jura? Nem sabia! — ela respondeu com ironia, afastando de vez o outro. — Eu vou te matar, Sasuke Uchiha, ah se vou...
Hinata a olhou quando ouviu o barulho do estojo caindo no chão, espalhando as canetas pelo chão. Inclinou-se, solícita, ajudando-a a recolher as coisas.
— Aqui.
— Obrigada — Sakura sorriu, colocando as canetas de volta no estojo. — Pode segurar para mim? Só até eu achar o gravador na minha bolsa, eu juro!
Hinata concordou, segurando o estojo enquanto via a outra começar uma luta contra a bolsa. Ela não era de política pelo que o outro homem havia comentado, e Hinata chutava que fosse de cotidiano, entretenimento. Sentiu pena por vê-la ali. Os cabelos rosas, os óculos vermelhos com uma armação bonita, as roupas elegantes, tudo fazia com que aquela jornalista se destacasse entre os outros que vestiam o costumeiro preto ou cinza, optando pela discrição. Ah, e, claro, além disso tudo, ela era bonita, devia ser, sem dúvidas, a mulher mais bonita do local.
— Você é jornalista também? — Ouviu-a perguntar quando, enfim, achou o gravador e o apoiou sobre a coxa.
— Ah, não, estou só interessada no assunto. E você?
Sakura riu, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha.
— Parece que meu chefe quer por um amigo meu de castigo e, então, não tinha ninguém para vir cobrir aqui hoje. Ele me ligou — Revirou os olhos. — e pediu que eu viesse, garantindo que cobriria minha parte no trabalho.
— Posso perguntar de qual caderno faz parte?
Sakura sorriu, virando-se para a outra e a analisando. Os cabelos azulados caíam soltos de forma graciosa, combinando com a imagem que lhe era apresentada. Parecia que estava diante de uma boneca de porcelana, uma das mais delicadas, das mais frágeis. Entretanto, tinha algo nos olhos perolados e no tom de voz doce, mas sem hesitar, que colocavam a suposta fragilidade em cheque.
— O que você acha?
— Dia-a-dia?
Sakura negou, suspirando enquanto apoiava o queixo na mão.
— Economia — corrigiu a outra, vendo-a juntar as mãos em um gesto encabulado. — É, eu sei, não sigo muito o perfil, não precisa se desculpar. Ouço muito isso — Sorriu. — Mas acho que nem sempre precisamos nos enquadrar nos padrões sociais, não concorda? Aliás, Sakura, prazer — Estendeu a mão.
Hinata a encarou, descendo o olhar para mão estendida e sorrindo ao apertá-la.
— Hinata.
Fale com o autor