Jogo de Máscaras
23 Capítulo 23 - Vista sua máscara de traído
Notas iniciais
Gaara não fora embora como Ino temia que ele fizesse. Quando, pela manhã, ela acordou, encontrou-o dormindo tranquilamente no sofá da sala e não quis o acordar.
O relógio marcava nove horas. Na cozinha, ao abrir a geladeira, percebeu que precisava fazer compras. Colocou água na cafeteira e esperou que o café ficasse pronto para encher a garrafa térmica. Depois disso, pegou a carteira na bolsa e colocou o cartão no bolso de trás do short. Saiu do apartamento o mais silenciosamente possível e caminhou em direção à padaria mais próxima.
Embora tentasse ocupar a mente com a lista de tarefas do dia, foi difícil não se lembrar da discussão que tivera com Gaara. Havia extrapolado os limites quando tentou empurrar o cheque para ele, tinha noção do significado de sua atitude, contudo ter consciência do que fizera não era suficiente para que fosse perdoada. Além disso, havia gritado com ele, feito-o perder o dia e a noite cuidando dela, nem queria imaginar o que se passava na cabeça de Gaara naquele momento, quer dizer, não estranharia se ele simplesmente dissesse que não queria mais vê-la.
O cheiro agradável de pães quentes e frescos roubou seus pensamentos. Ino entrou na padaria e, pelo reflexo na porta de vidro, pôde muito bem ver que uma mulher a seguia com uma câmera na mão. Escolheu por ignorá-la.
Com calma, fez seu pedido, esperou que tudo fosse entregue, pagou e saiu do estabelecimento com três sacolas. Pelo canto de olho, percebia a movimentação daquela que a acompanhava e revirou os olhos antes de se virar de supetão e encará-la.
— Sério? Você não tem mais nada para fazer? — perguntou com tédio.
A mulher não respondeu, e Ino bufou ao apressar os passos até o prédio. Parou perto do porteiro e deu instruções claras para que ele lhe relatasse qualquer pessoa ou carro suspeito parado por perto do edifício.
No elevador, apertou com força as sacolas e, por um momento, pensou na possibilidade de Gaara já ter ido embora. Não… ele não faria isso. Gaara parecia o tipo de pessoa direta, que prefere resolver logo um assunto a fugir dele. Assim, tranquilizou-se. Pelo espelho do elevador, ajeitou o cabelo e contemplou as olheiras um pouco melhores naquele dia. Estava pálida, um aspecto quase que doente. Mas a culpa não era dela!
Por Deus, quando demitira Kakashi, não esperava que ele fosse se vingar, não esperava que ele fosse levar tão para o lado pessoal ao ponto de tentar sabotá-la. O que podia ter feito senão dar tudo de si para completar a coleção? E só de imaginar que havia perdido um dia… um dia inteiro, vinte e quatro horas que não tinham mais como ser repostas!
Saiu do elevador. O apartamento continuava silencioso quando entrou. Ino deixou as compras sobre a mesa antes de se aproximar de Gaara no sofá. Ele ainda dormia, sem se incomodar com a luz do sol que já quase lhe atingia o rosto sereno. Abaixou-se. Os dedos se ergueram para tocá-lo e não se inibiram mesmo quando Gaara respirou mais profundamente sob o toque na face. Desenhou-lhe o rosto com a ponta dos dedos e gravou mentalmente, através do toque, cada medida, cada traço, cada singularidade no fundo de sua mente para que pudesse o desenhar sempre que quisesse.
Os cabelos ruivos estavam bagunçados, extremamente bagunçados, e Ino sorriu para aquilo, deslizando a mão com carinho.
Ela apoiou um braço no sofá, e a cabeça não demorou a deitar nele enquanto continuava perdida admirando seu modelo. Kakashi podia tê-la prejudicado, mas valia a pena porque era Gaara seu modelo, era ele, tinha que ser ele, não poderia ser qualquer outro senão ele e, a cada vez que o olhava, que o observava mais de perto, sentia essa certeza aumentar. Gaara era único, pelo menos para ela. E só isso importava. A arte era dela afinal, ela tinha o mínimo direito de retratar aquilo que lhe encantava!
Suspirou, apaixonada, e não se moveu quando os olhos de Gaara se apertaram para fugir da luz que os atingia. Ele iria acordar e, por isso, ela se levantou e tocou-lhe o ombro com mais firmeza.
Ele acordou quase que de imediato, olhou para ela parecendo confuso e então uma sombra de lucidez transpassou sua expressão, trazendo consigo todas as respostas de que precisava.
— Eu comprei nosso café da manhã — Ino disse e sorriu, sem jeito. — Vou colocando a mesa, tudo bem? Tem uma escova de dentes nova na gaveta do armário do banheiro se quiser.
Gaara se sentou e apoiou os braços no sofá enquanto bocejava. Assentiu para Ino e se dirigiu ao banheiro. Sua cabeça doía. Havia passado boa parte da noite acordado para garantir que ela dormisse e, por isso, estava cansado, irritado e com dor. A água fria trouxe certo alívio ao lavar o rosto e, por isso, repetiu o ato três vezes enquanto rezava para que uma aspirina resolvesse o caso. Tinha que trabalhar aquele dia, não podia faltar por estar indisposto.
Saiu do banheiro após a higiene matinal e viu Ino andar de um lado para o outro da cozinha com uma expressão aflita. Queria se sentir com raiva dela, queria se sentir irritado e dizer palavras cruéis como seu lado egoísta exigia que fizesse, mas o cérebro se esqueceu de mandar tais comandos quando Ino o encarou diretamente.
Ela ainda não parecia cem por cento, mas sorria de modo contido, como uma criança que sabe que fez algo grave e agora não sabe como se desculpar apropriadamente. Aquilo o desarmou. Não que não estivesse angustiado pelo que tinha acontecido, estava, e muito!, mas não tinha vontade alguma de repreender Ino ou de iniciar uma discussão. Se fosse sincero consigo mesmo, Gaara admitiria que queria esquecer a noite anterior, fingir que nada havia ocorrido, sentar-se, tomar café da manhã junto de Ino e ir embora sem preocupações.
— Não vai se sentar? — ela perguntou, ansiosa.
— Você tem algum remédio para dor de cabeça? — Sentou-se.
Ino assentiu e foi até o armário ao canto da cozinha e retirou de uma das prateleiras altas uma caixa azul claro pequena. Ela pegou o remédio e guardou a caixa para então voltar à mesa.
— Aqui. — Entregou-o.
Gaara agradeceu e tomou a medicação em silêncio.
— Está melhor? — ele perguntou, calmamente, enquanto se servia de café.
— Sim… obrigada por ontem, pela comida e… todo o resto. — Ela suspirou pesadamente. — E me desculpe também… Descontei em você e agi… bem, agi muito mal, me desculpe.
— Não é como se eu não estivesse acostumado a receber dinheiro para fazer o que as pessoas querem, mas acho que foi a primeira vez que me ofereceram para ir embora e não para ficar — ele ironizou e viu Ino parar de cortar o pão e engolir em seco. — De toda forma, vamos fazer um trato.
— Vamos? — Ino o encarou, surpresa e confusa.
— Vamos. Eu finjo que nada daquilo aconteceu, que você não tentou me comprar de forma tão baixa e que quase me expulsou da sua casa a gritos — ele pontuou estrategicamente. -, e você vai se cuidar. E quando digo se cuidar, quero dizer que você vai comer direito, que vai dormir no mínimo seis horas por dia e que vai me avisar caso esteja perto de surtar de novo.
— Gaara, eu não posso, a exposição tem data e eu tenho uma meta a cumprir.
— Esse é o meu único acordo. Quanto aos quadros, vamos pensar numa saída. Então, não se desespere. Pinte o máximo que puder desde que isso não afete sua saúde. Depois, quando já não houver prazo, nós calculamos o prejuízo.
Ino riu, nervosa, e balançou a cabeça negativamente.
— Você não entende…
— Não, é você que não entende que não vai ter nenhuma exposição se você não estiver viva e bem até lá. Por favor, faça o que estou pedindo — ele tentou mais ameno.
— Gaara…
— Faça ou saio por aquela porta e não volto — blefou.
— O quê? — Ino piscou, atônita, e se levantou com o dedo apontado para ele. — Você não pode fazer isso!
— O que eu não posso é ficar me preocupando com você o dia todo! Ficar achando que vai se negligenciar ou então se machucar por causa desses quadros, Ino! — Ele se levantou.
— Não, não, não! — Ela contornou a mesa e empurrou-o pelos ombros com as duas mãos. — Não, você não pode simplesmente dizer que está apaixonado por mim em um dia e no outro me ameaçar dizendo que vai embora!
— Eu… — Gaara se odiou ao se lembrar de que quase havia realmente dito aquilo na noite anterior. — Eu não disse que estava apaixonado por você.
— Disse sim — ela respondeu prontamente. — Quando te entreguei o dinheiro, você disse, não com palavras, mas eu vi, eu sei ler cada parte de você, cada expressão, cada maldito gesto, eu passei dias te observando e mais dias te desenhando, Gaara! E eu sei exatamente o que você quis dizer e não verbalizou! Então, não! Você não pode fazer isso! Não pode! Não… pode…
Gaara emudeceu. A voz de Ino foi perdendo a força conforme ela dizia as últimas palavras, como se ela própria quisesse se convencer. Os olhos azuis estavam levemente avermelhados, e ele notou como o rosto dela ficou um pouco mais rosado pela agitação e raiva. A mão estava em punho, e ela toda parecia ansiosa, à espera de uma resposta, de uma confirmação, mas, como ele havia se calado pelo choque, Ino recuou um passo e cruzou os braços numa postura protetora antes de desviar os olhos do dele.
A partir daquilo, Gaara soube que tinha duas opções, somente duas. Na primeira opção, ele podia dar às costas a ela e evitar que aquele envolvimento se aprofundasse. Desse jeito, nunca mais se veriam, e ambos se obrigariam a se esquecer. O envolvimento deles não viria à público e seria um escândalo a menos para Ino após a exposição. Ele… bem, ele daria um jeito de esquecê-la, viajaria, ou qualquer outra coisa. Já na segunda opção…
— Negue… Se não for isso, negue com todas as letras — Ino pediu, sem olhá-lo, a voz tão baixa que Gaara mal ouviria em outra situação.
Era trapaça. Vê-la fragilizada tanto física quanto emocionalmente e pedir a ele que negasse tudo aquilo que já vinha tentando negar sem sucesso era uma armadilha. E ele não pensou muito bem antes de cair voluntariamente nela.
Com poucos passos,Gaara venceu a distância que os separavam e segurou o rosto de Ino com as duas mãos antes de beijá-la desesperadamente. Não demorou a ser correspondido. Ela o puxou pela camiseta amassada enquanto ele a segurava pela nuca e cintura. O beijo era urgente, as bocas se encontravam sôfregas como se o contato entre elas pudesse substituir tudo aquilo que deveriam dizer.
E para Gaara era quase isso. Beijava Ino como se só com aquilo todo o seu mundo se descomplicasse em um único instante, como se seus problemas se desfizessem voluntariamente conforme a boca doce se movimentava com a sua apaixonadamente.
Ainda se preocupava com ela, com a crítica que talvez viria, com tudo, porém seu coração insistia em vendar seus olhos quando Ino estava consigo, ele o deixava perdido ao ponto de só poder se guiar por Ino e ninguém mais. Se ela lhe pedisse algo, qualquer coisa, naquele momento, cederia sem pensar duas vezes. E admitir isso era assustador.
Ino também tinha essa noção, afinal, havia acabado de passar por esse medo. Quando se lembrou da não dita confissão de Gaara, quis esquecer por um tempo, guardar em um pequeno e precioso baú, como um tesouro, para que pudesse abrir e fazer uso dela quando tudo estivesse mais calmo, mais nos eixos. Entretanto, a ideia de ele a deixar, de sair pela porta e não voltar, de não estar com ela naquele momento tão difícil, apavorara-a de um jeito que o coração simplesmente tomou as rédeas de seu cérebro e a fez dizer tudo!
Ou quase tudo... Ela não havia dito se correspondia, porém, não era óbvio? Não estava impresso em todas as suas telas o quanto Gaara havia mexido com ela?
O beijo se acalmou, diminuindo gradativamente o ímpeto a despeito do ritmo frenético das batidas do coração. Ino suspirou, apaixonada, e não soltou Gaara mesmo quando os lábios deixaram de se tocar. Em vez disso, passou os dois braços pelo pescoço dele e o abraçou enquanto sentia as mãos dele em sua cintura.
— Temos um trato — ela sussurrou, olhando-o diretamente nos olhos. — Mas, se quer que eu coma direito, vai ter que vir cozinhar para mim... — brincou, na tentativa de garantir que ele continuasse a vir vê-la.
Gaara sorriu discretamente e colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
— Sem objeções da minha parte.
E diria mais se o estômago não despertasse naquele momento, lembrando a ambos do café da manhã que esfriava sobre a mesa.
* * *
Ten-Ten havia acordado no hospital logo pela manhã. Neji estava dormindo desconfortavelmente na cadeira para acompanhantes ao seu lado, coberto com o próprio terno. O cabelo dele estava levemente bagunçado, e ela quis rir, mas o ânimo morreu assim que identificou a voz de Hiashi a conversar com alguém do lado de fora do quarto.
Ok. Eles tinham um problema. Precisava saber rapidamente o que a mídia havia divulgado, se Kiba estava bem, o que Hiashi sabia.
— Neji... Hey, Neji...
O Hyuuga abriu os olhos contra a vontade e piscou várias vezes até limpar a visão.
— Bom dia — ela falou.
Ele tirou o terno e o deixou na cadeira quando se levantou. Aproximou-se dela com a típica expressão preocupada e pareceu examiná-la com os olhos para saber se tudo estava em seu devido lugar.
— Dormiu bem? Está sentindo dor? — ele questionou e logo olhou para o soro que há muito havia acabado, mas ainda estava conectado à veia dela. — Preciso chamar um médico ou uma enfermeira.
— Estou melhor. Sem dor. E, antes disso, me dê o seu celular. Precisamos combinar o que falar antes de Hiashi entrar por aquela porta.
— Ele não vai — Neji ditou. — Ela não chegar nem perto de você. Hiashi vai tirá-la do sério, e você não pode com emoções fortes por enquanto.
— Neji, me dê o celular — ela repetiu, e ele entregou. — Vou precisar sim ver Hiashi, e duvido que ele traga informações tão chocantes a ponto de me desestabilizar. Ah, ótimo... Ele vai querer confirmar isso — ela comentou olhando para o celular. — Aqui, leia.
Neji leu rapidamente as notícias e sua face enrijeceu. Especulavam sobre o que tinha acontecido e uma ou outra fonte citava a provável gravidez de Ten-Ten, contudo, todos tinham absoluta certeza de que ela estava naquele hospital.
— Vai estar um inferno quando sairmos daqui....
— Nada que um sorriso no rosto e uma pequena encenação não resolva. — Ela deu de ombros. — Mas Hiashi vai querer confirmar a gravidez, e eu não quero que ele fique sabendo ainda. Não tive tempo para me preparar para proteger ninguém além de nós dois.
— Vamos negar e explicar que foi para despistar os seguranças, o que de fato aconteceu. Ele já sabe que tiramos Kiba daqui. Não se preocupe, falei ontem à noite com meu amigo, ele vai me ligar assim que Kiba estiver devidamente instalado lá. Pronta para sair daqui?
— Mais do que pronta. Você tem algo agendado para hoje?
— Agenda livre — ele respondeu ao se dirigir à porta.
— Tem certeza? Eu lembro de ter marcado algo e....
— Desmarquei — ele esclareceu. — Ficarei em casa com você hoje. Pronta?
Ten-Ten sorriu, agradecida, e então concordou. Neji abriu a porta e falou algo para o segurança. Hiashi entrou no cômodo logo em seguida. Ten-Ten ouviu Neji fechar a porta e esperou até que ele voltasse a ficar ao seu lado.
Hiashi os olhava num misto de fúria e curiosidade, era difícil imaginar o que ele pensava, no entanto, mais difícil ainda era adivinhar o que ele planejava fazer.
— Vocês têm noção do que fizeram ontem? — ele perguntou, ríspido.
— Nada demais. — Ten-Ten bocejou.
— Nada demais? — Hiashi elevou a voz. — Vocês armaram uma cena enorme, atraíram a atenção de toda a mídia que está lá fora, esperando que saiam, e você diz que não foi nada? Aliás, o que você tem?
— Eu? — Ten-Ten arqueou a sobrancelha. — Nada. A gente só queria afastar os seguranças de Kiba. Fui assim tão convincente? — Ela olhou para Neji, rindo, divertida. — Por acaso se preocupou comigo, Hiashi?
— Aquele médico e Neji estavam preocupados demais para o seu “nada”. — Hiashi riu, sem humor.
— Neji estava fingindo, como a gente sempre faz. O médico... bem, você sabe melhor do que eu o que o dinheiro pode fazer, não sabe?
— Por que está escondendo aquele idiota? Eu ainda tinha perguntas a fazer para ele! — irritou-se.
— Os seguranças eram seus? — Neji franziu o cenho. — Achamos que eram de Orochimaru...
— E eram! — Hiashi elevou a voz.
— Então! Achamos que Orochimaru estivesse tramando algo e, por isso, resolvemos tirar Kiba de lá. Você não me falou que estava junto de Orochimaru nessa, tio.
Hiashi estreitou o olhar e andou na sala como uma fera enjaulada. O sorriso calmo que Ten-Ten lhe exibia deixava todas as suas defesas em alerta. Mentiam para ele, ela sabia que sim, mas não sabia exatamente qual era a mentira.
— Enfim, nós podemos sair desse lugar? — Ten-Ten questionou depois dos minutos de silêncio.
— Ainda não. Trouxe algo — Hiashi falou e tirou do bolso o celular. Desbloqueou o aparelho e o entregou primeiro a Ten-Ten. — Achei que fossem gostar de saber quem foi interrogar seu amante.
Ten-Ten suspirou, irritada, e revirou os olhos ao receber o aparelho. Sentou-se melhor na cama, então, engoliu em seco ao se deparar com o que Hiashi mencionara. Olhou para Neji ao reconhecer as duas pessoas que a tela do celular exibia.
Aquilo só podia ser uma piada...
Neji pegou o aparelho em seguida e arregalou os olhos.
— Naruto? — perguntou, confuso. — Quem é esse com ele?
Hiashi encarou Ten-Ten, e Neji fez o mesmo ao perceber a troca de olhares. Ela balançou a cabeça em descrença e estalou a língua no céu da boca antes de responder:
— Bem, te apresento Sasuke Uchiha, o jornalista que tanto estava nos infernizando.
Neji ficou visivelmente pálido. A expressão ficou séria, tensa, e os olhos claros analisaram a foto com cuidado, buscando cada pequena informação que pudesse tirar dela. Naruto olhava para a câmera, parecia preocupado, enquanto Sasuke lhe dizia algo com uma postura descontraída.
Mil e uma hipóteses passaram por sua cabeça, assim como sabia que ocorria com Ten-Ten, mas não queria as verbalizar ainda, não na frente do tio, não sem pensar melhor, não enquanto o gosto da traição lhe descia pela garganta como garras a rasgarem todo o caminho pelo qual passavam.
— Disse que tinha cuidado do jornalista, Hiashi — foi tudo o que pronunciou.
— E fiz. Mas ele é persistente. Está caçando histórias por conta própria, ou a própria cova, eu diria.
Ten-Ten permaneceu quieta. Kiba havia aberto a boca justamente para alguém que não poderia ter informação alguma deles! E o pior era ver Naruto com ele. Neji não o perdoaria se Naruto o tivesse traído, se tivesse contado seus segredos... Olhou para Hiashi. Ele estava com um sorriso maldoso, divertia-se ao ver a dor do sobrinho, e Ten-Ten o odiava ainda mais por aquilo. Tinha que intervir antes que ele quisesse se aproveitar da situação e tentar controlar Neji.
— Vamos pensar em casa sobre o que fazer a respeito — ela falou e segurou a mão de Neji.
— Eu já pensei em algo. — Ele sorriu. — Pedi que os investigassem para mim.
— Investigassem? — Neji repetiu.
— Sim. Nós os atacamos diretamente, os dois, e eles não se intimidaram e continuaram a se meter onde não devem. Então, temos que ir além, entender o que importa para eles, o que de fato os fará parar.
Tanto Ten-Ten quanto Neji sabiam o que aquilo significava: Hiashi queria envolver mais gente, aumentar o raio de impacto. E não tinham tempo para negar a ideia porque não haviam pensado em outra. Neji apertou a mão de Ten-Ten, ela encarava Hiashi, provavelmente buscando uma saída, porém sabia que era impossível fazer seu tio desistir àquele ponto.
— O que descobriu? — ela indagou, contrariada.
— Há poucas pessoas que cercam o jornalista, ele não é muito sociável. A família está longe, apenas o irmão mais velho que está atualmente na casa dele. Fora isso, mantém contato com dois amigos do trabalho e agora com Naruto. Eu já sei como lidar com Sasuke. — Fez um gesto de descaso. — E vou precisar de uma pequena ajuda sua, Ten-Ten, mas, quando chegar a hora, explico. Já Naruto é um caso diferente, contatos demais embora o círculo próximo seja mais restrito à avó e alguns poucos amigos.
— E deixe-me adivinhar, você também sabe como lidar com ele, não é? — ela ironizou, cansada.
— Não quero que o machuque de novo, Hiashi — Neji falou, enfático.
— Naruto sairá fisicamente ileso dessa vez. Vou tentar outra abordagem, mais eficaz eu acho.
— Tenha cuidado para não associarem o que quer que faça a nós diretamente — Ten-Ten falou. — Quero ir para casa, podemos?
— Pedi que trouxessem roupas limpas. Pedirei que as tragam — Neji avisou.
— Deixarei vocês em casa.
— Não é preciso, Hiashi, iremos à casa dos meus pais primeiro. Pode ir para sua casa; estaremos na nossa mais à noite se tiver mais alguma coisa a tratar conosco. — Ten-Ten sorriu friamente e assentiu quando Neji a avisou que iria sair para buscar as roupas.
Hiashi cruzou os braços e esperou a porta ser fechada. Os olhos claros se fixaram em Ten-Ten como se a scaneassem.
— Ele desmarcou uma reunião importante. Convença-o a ir. É uma reunião com os secretários, e Neji precisa falar com o Secretário da Saúde. Se você não está doente, não vejo porque ele ficar em casa.
— Não vejo porque não. — Ela se sentou melhor na cama, colocando as pernas para fora. — Ele ter que cuidar de mim é uma boa desculpa e, além disso, meu pai realmente quer falar com Neji.
— Seu pai sabe estabelecer prioridades, vai entender.
— Meu pai, Hiashi — ela elevou a voz. —, é a prioridade. Não se esqueça que foi o meu pai que ajudou Neji a conseguir uma rápida e calma ascensão. Então, se ele pede para ver o meu marido, o mínimo que ele pode fazer é ir até lá. Além do mais, estou curiosa para saber o que meu pai quer com Neji, pois esse pedido veio muito fora de hora. Você sabe como meu pai gosta de sua agenda sempre planejada.
— Não sabe do que se trata? — Hiashi estranhou.
— Não. Apenas me ligou e pediu que eu e Neji fôssemos lá.
Ten-Ten ouviu a porta sendo aberta. Neji entrou junto de uma enfermeira e segurou a porta enquanto olhava para Hiashi.
— Passarei na casa de vocês à noite para discutirmos sobre Orochimaru — Hiashi decidiu antes de sair do cômodo.
Neji trancou a porta e se aproximou de Ten-Ten enquanto a enfermeira lhe retirava a agulha do braço e fazia um pequeno curativo. Ele permaneceu perto e ouviu atentamente as instruções que a enfermeira passava sobre a gravidez de Ten-Ten.
— E, o mais importante, tente não se estressar. Se trabalha, seria interessante reduzir a carga horária ou pedir uma licença. Se ficar em casa, nada de trabalhos pesados ou de se abaixar muito. Exercícios físicos leves somente e alimente-se bem. Vou dar privacidade para que se vista, mas, qualquer coisa, estarei do lado de fora.
Ten-Ten concordou e, assim que a porta fechou, estendeu os braços para Neji para que ele a ajudasse a sair da cama. Vestiu-se rapidamente, uma vez que Neji havia lhe trazido um vestido solto e leve. Deixou que ele arrumasse seu cabelo, solto, e lamentou não poder fazer um dos penteados que gostava.
— Trouxe minha maquiagem?
— Você está linda assim se quer minha opinião, porém pedi que trouxessem algumas coisas sim — ele respondeu e lhe entregou um pequeno espelho de mão.
— Vamos à casa dos meus pais, minha mãe não vai se conter em me infernizar caso eu pise lá sem um batom ao menos. — Ela revirou os olhos.
Neji riu, suave, e entregou o batom vinho que Ten-Ten mais usava. Saíram do quarto e caminharam pelo hospital com os seguranças em volta deles. À frente do hospital, viam-se os jornalistas, as câmeras, os curiosos. Os seguranças foram primeiro para abrir espaço, Neji apertou o ombro de Ten-Ten e a segurou enquanto saíam pelo caminho liberado.
Ten-Ten sorriu, como sabia que tinha que ser. Acenou para algumas pessoas e apoiou a cabeça no ombro de Neji enquanto seguiam para o carro. Ignoraram as perguntas e, quando alguém chegou perto o suficiente para colocar o microfone a poucos centímetros de Ten-Ten, foi Neji que respondeu.
— Ela acabou de sair do hospital e está exausta. Podem, por favor, esperar até que ela se sinta bem?
— Só queremos saber o que aconteceu. É verdade que desmaiou no aeroporto?
Ten-Ten colocou a mão no peito de Neji para impedi-lo de responder grosseiramente.
— Responderei a tudo que quiserem depois, mas, agora, tudo o que quero é descansar. Sei que vão entender e priorizar a minha saúde e não uma matéria que pode esperar ao menos eu conseguir ficar em pé sozinha.
O repórter recolheu o microfone e um segurança rapidamente se colocou entre ele e Ten-Ten. Neji andou depressa até o carro, sentou-se no banco de trás com Ten-Ten e aguardou, impaciente, que o carro começasse a se mover.
— Você dormiu mal. — Ela riu. — Está com um humor péssimo, achei que fosse tacar o microfone no jornalista.
Ele não respondeu, havia muita coisa em sua cabeça para conseguir responder alguma coisa.
— Vamos para a casa dos meus pais. Meu pai não estará lá esse horário e, então, podemos descansar decentemente até a hora em que ele chegar. O que acha?
Neji fechou os olhos e levou a mão dela aos lábios.
— Seria ótimo...
* * *
Sakura andou pelo apartamento, irritada, não conseguia falar com Hinata há algum tempo e, embora ela não devesse nada a si, era horrível não ter nem ao menos notícia dela. Desistiu e jogou o celular longe.
— Que é? — perguntou para Sasuke, sentado no sofá, com o artigo que ela tinha escrito em mãos.
— Nada — ele respondeu, monótono.
— Ah!!! Sasuke... — ela resmungou, manhosa, e se jogou no sofá para abraçar uma almofada enquanto apoiava as costas no braço dele. — Acho que ela perdeu o interesse...
— Ou ela não está com o celular ou trabalhando ou ocupada ou o celular descarregou ou ela o perdeu ou ele foi roubado ou outras inúmeras possibilidades, Sakura. — Ele revirou os olhos.
Ela sorriu e puxou o braço dele para que passasse por seus ombros à medida que ela se acomodava. Ele a encarou, sério, mas não disse nada, voltou a ler o artigo já no fim.
— E então? O que achou? Está digno da pena afiada de Sasuke Uchiha? — Ela riu quando ele devolveu os papéis.
— Nunca vai estar igual ao meu — ele disse, prepotente. — Mas está bom. Com certeza, Orochimaru vai ficar bem irritado.
— E quem o está apoiando também — ela completou, animada.
— Sim, e isso é ótimo. Se Hiashi ou Neji estiverem apoiando ou de acordo feito com Orochimaru, eles não vão deixar o texto passar. Só que… — interrompeu a si mesmo.
— Só que...? — ela repetiu ao perceber o cenho franzido de Sasuke e o modo preocupado com que ele a olhava.
— Você esbarrou em Ten-Ten enquanto tentava seguir Hiashi e Orochimaru num evento, Sakura, e agora está publicando uma matéria para abalar a campanha de Orochimaru. Eu fui demitido, minha casa invadida, Pandora ferida.
— Não — ela o cortou, rapidamente. — Vou publicar isso. Todos corremos riscos, não?
— Você mora sozinha, Sakura, e se algo acontecer?
— Vou morar com você. — Ela sorriu e riu da expressão de desagrado dele. — Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Só não conte para Itachi.
— Definitivamente, não contarei a ele — resmungou.
— É impressão minha ou está fugindo do seu irmão?
— Ele quer que eu coma de três em três horas, analisa cada horário meu e reclama quando faço algo “não saudável”.
— Deveria agradecer por isso! — Ela se levantou para ir à cozinha pegar a travessa de brigadeiro que havia feito horas antes do momento que Sasuke chegou. — É bom termos pessoas que se importam conosco.
Sasuke abaixou a cabeça e se lembrou da tatuagem no punho do irmão. Aceitou a colher que Sakura lhe estendia e deixou que ela sentasse ao seu lado se acomodando em seu peito.
— Não sou fã de doces...
— Todo mundo gosta de brigadeiro, Sasuke. E, se não comer, vou contar para Itachi. — Ela sorriu ao pegar a primeira colherada.
Sasuke arqueou a sobrancelha e pegou um pouco do chocolate. Quando percebeu, Sakura já havia destravado seu celular e o apontava para eles dois, fotografando o momento em uma selfie.
— Gostei! Vou mandar para mim e postar mais tarde — ela falou e comeu mais um pouco do doce.
Ele sorriu, minimamente, e pegou o celular de volta, mas sem qualquer intenção de apagar a fotografia.
— Irritante...
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