Jogo de Máscaras
16 Capítulo 16 - Vista sua máscara de Sasuke
Sakura olhou ao redor. Pela terceira vez, Deidara sumia e a deixava andando sozinha pelo evento. Para piorar, estava diante de um quadro há mais de cinco minutos e tentava achar alguma coisa de belo nele. Técnica? Havia? Significado? Tinha? Tudo bem que não entendia de arte, mas aquilo ali era mesmo um quadro de alguém importante o suficiente para reunir toda aquele gente ali?
Na entrada, podia ver os flashes sendo disparados, as vozes repetindo um nome enquanto os seguranças se aglomeravam para garantir a passagem de ninguém menos que a pintora Ino Yamanaka. Até ela? Sakura olhou novamente para o quadro. Aquilo ali não chegava aos pés dos quadros de Ino, por que ela estava ali?
— Gostando? — Deidara apareceu ao seu lado, sorrindo de orelha a orelha.
— Sinceramente? — Sakura bufou. — Superestimado. Não achei a menor graça nesses quadros e, com certeza, eles não enfeitariam minha sala de estar.
Deidara revirou os olhos e estalou a língua no céu da boca.
— Isso porque você é pobre demais para comprar um e porque não tem bom gosto — ele respondeu, incomodado.
A franja loira caía graciosamente ao lado do rosto dele, diferente do cotidiano quando ele a deixava cobrir quase que metade da face. Os olhos azuis correram o salão, e Sakura viu quando se arregalaram. Acompanhou o trajeto e percebeu que, finalmente, o amigo havia achado sua pintora favorita ali, no meio de todos, sorrindo para um fotógrafo abraçada com seu acompanhante.
— Vamos. — Deidara enlaçou sua cintura e não esperou uma resposta para começar a andarem direção a Ino.
— Vai ser um dos seus momentos fanboy? — debochou, achando graça pelo modo quase que desesperado como Deidara desviava das outras pessoas.
— Não enche, Saky!
— Acho que está atrasado, ela já está acompanhada. Ual, onde se encontram homens como aquele?
— Diz a mulher que está enrolada com Itachi Uchiha, não é?
Sakura riu, desistindo de corrigir os amigos quanto ao seu novo “relacionamento” com Itachi.
Pararam a alguns metros de Ino. Ela parecia se divertir, cochichando algo no ouvido do acompanhante que sorria, discreto, e se esforçava para não rir. Contudo, de repente, percebeu os olhos verdes dele sobre si e Deidara. Não foi difícil ver como o cenho se franziu, como a postura mudou e como ele pareceu olhar com certo desagrado para Deidara antes de sussurrar algo para Ino. Será que Deidara realmente havia dado uma de fã alucinado e irritado a pintora de alguma forma?
— Acho melhor.... — tentou alertar Deidara, mas não conseguiu, o amigo já havia pego sua taça de champanhe e a puxava para acompanhá-lo.
Ino os olhou, sorrindo suave e educada, enquanto o acompanhante estava sério, quase que... na defensiva?
— Boa noite. — Deidara sorriu, abertamente.
— Boa noite — Ino respondeu. — Parece que nos encontramos antes mesmo da minha exposição. Pelo que vejo, não é só da minha arte que gosta. Amante dos pincéis também?
— Com toda a certeza — ele respondeu, animado. — Não sabia que viria hoje.
Sakura viu Ino bebericar o champanhe, parecendo extremamente à vontade. Será que tinha imaginado as reações do acompanhante dela? Não. A forma como ele estava atento a cada movimento de Deidara não parecia muito natural...
— Tive que vir. Fui desafiada — Ino falou, risonha, como se segredasse algo.
— Desafiada? — Sakura deixou escapar, em dúvida.
— Sim. O pintor de hoje disse em entrevista que se considera meu rival. Acredita? Ganhei um rival sem nem saber como ou por que. Ainda vou ver a exposição toda, mas os primeiros ali — Apontou para o lugar onde Sakura antes estava. — são uma nítida referência ao início da minha carreira.
— Sério? — Sakura se virou, tentando ver o quadro a distância.
— Sim, não notou a torre do relógio que pega todo o canto esquerdo da tela? — Deidara perguntou quase ofendido pela amiga não ter percebido algo tão óbvio. — Uma homenagem, talvez?
— Achei horrível — Gaara falou, sem pensar, e Ino riu.
Deidara arqueou a sobrancelha e, então, olhou melhor para Gaara. Já o havia visto, ele era o mesmo homem que jantara com Ino quando a encontrara no restaurante, mas tinha mais... Estava com a impressão de que, com certeza, o vira em outro lugar também.
— Ah, também entende de arte? — perguntou.
— O suficiente para diferenciar quadros bons dos ruins — Gaara respondeu, seco.
— Ainda não vimos a exposição, então não há muito o que falar sobre o pintor ainda — Ino falou, colocando-se sutilmente entre os dois. — Mas não acho que tenha sido uma homenagem a mim. Se for, ele começou errado ao se chamar de meu “rival”. Enfim, se nos permitem, eu e Gaara vamos começar nosso tour. Com licença, espero que possamos nos ver ao final do evento para conversar.
Sakura sorriu em resposta, puxando levemente Deidara para o lado para que Ino e Gaara pudessem passar.
— Se quer minha opinião, você não deveria comprar briga com a acompanhante da sua pintora favorita para defender um pintor qualquer. — Sakura riu baixo, mas Deidara se soltou dela com certa violência.
— Já volto — ele respondeu e se afastou antes de ela contestar.
Sakura piscou, incrédula, sem entender. Olhou o celular, sorrindo com a mensagem de Hinata. Mordeu o lábio inferior ao responder e, então, viu. Aquele era Orochimaru, o ex prefeito, conversando com Hiashi?
Não, você não está à trabalho. Não, essa é área do Sasuke, não sua. Repetiu o mantra por um minuto ou dois, contudo, a curiosidade a venceu. Caminhou, devagar, amaldiçoando o salto que marcava seus passos. O celular em sua mão já estava aberto na câmera enquanto os ouvidos se atentavam no ambiente. Não podia chegar muito perto, eles a notariam, mas queria tanto saber sobre o que conversavam!
De repente, frio, tecido úmido.
— Oh, me desculpe!
Sakura ergueu a cabeça, encontrando ninguém menos que Ten-Ten Hyuga a sua frente com uma taça de champanhe agora vazia por ter sido derramada em seu lindo e caro vestido azul. Olhou na direção de Orochimaru e Hiashi, percebendo que eles se afastavam.
— Tudo bem. — Sorriu para a primeira dama que já sinalizava para alguns dos garçons se aproximarem. — Essas coisas acontecem.
— Ten-Ten, aconteceu algo?
Sakura engoliu em seco ao perceber Neji parando ao lado da esposa e travou o celular em um gesto automático.
— Um idiota me empurrou e acabei derramando minha bebida na... Perdão, querida, não sei seu nome...
— Ah, é Mikani. — Estendeu a mão. — Muito prazer em conhecê-la pessoalmente, primeira dama.
— Mikani... O prazer é todo meu, mas é uma pena que tive que sujar um pouco a barra do seu vestido para isso.
— Não se preocupe, não sujou tanto. Bem, preciso encontrar meu acompanhante, então, se me dão licença...
— Claro e, mais uma vez, desculpe-me.
Sakura sorriu em resposta e saiu rapidamente por entre as pessoas. O coração batia forte e apressado, as mãos suavam e não queria nem falar sobre o frio que havia sentido por quase ter sido tão facilmente pega. Agora, onde eles estavam? Para onde tinham ido? Com mais cautela dessa vez, olhou sempre para trás, verificando se Neji ou Ten-Ten estavam próximos. Respirou bem mais aliviada quando algumas pessoas os cercaram e aproveitou para enfim procurar pelos outros dois políticos.
Nada no térreo. Bateu os dedos contra a coxa enquanto observava a escada que levaria ao segundo andar e se perguntou o quanto deveria estar parecida com Sasuke naquele momento. Exato. Sasuke. Estava parecida com ele. Encrenqueiro. Suicida. Definitivamente não era uma boa ideia subir as escadas, como Sasuke faria, como infelizmente estava fazendo.
Não se demorou, subiu e virou logo o corredor. Salas e salas. As portas estavam abertas embora uma faixa na entrada restringisse a entrada. Sakura pode ver outros quadros e até algumas esculturas dentro delas e procurou, mesmo de longe, alguma sala com a porta fechada.
Duas.
Ao final do corredor.
Péssima ideia.
Se alguém abrisse a porta, não dava nem para correr de volta até a escada ou se esconder. Valia o risco por uma matéria? Não. Entretanto, Orochimaru havia incendiado o carro de Sasuke uma vez e, coincidentemente, havia voltado a aparecer publicamente quando a casa de seu amigo havia sido invadida. Não valia a pena se arriscar por uma matéria, mas por Sasuke sim. Retirou os saltos e olhou para trás antes de caminhar até uma das portas fechadas. Desbloqueou o celular e abriu o aplicativo do gravador de voz. Com a orelha colada à porta, tentou ouvir algo.
Nada.
Suspirou. Olhou na direção das escadas e foi até a outra porta, mas, antes que pudesse se aproximar como queria, a porta se abriu, e um Deidara sorridente saiu por ela.
Os olhos azuis se arregalaram em surpresa, mas logo se recompuseram, voltando à mesma alegria que o sorriso exibia. Atrás dele, a porta já estava fechada.
— O que faz aqui? — ela perguntou, sem entender.
— O mesmo que você, não? Também veio conhecer o pintor?
— O pintor? — Sakura piscou. Ela olhou para a porta e então para Deidara. — O pintor está aí dentro?
— Sim. — Deidara franziu o cenho. — Não percebeu que ele não estava no evento? Ao que parece, ele não gosta da mídia e, depois de muita insistência minha, consegui vir cumprimentá-lo! Não é demais?
Sakura soltou o ar dos pulmões, decepcionada. Hiashi e Orochimaru deveriam ter ido embora ou então Ten-Ten e Neji deveriam tê-los alertados.
— Por que seu vestido está molhado e por que está descalça? — Deidara perguntou, trazendo a amiga para a realidade.
Sakura fez um gesto de descaso, usou o amigo como apoio e calçou os sapatos. Desceram as escadas juntos, e ficou feliz por não terem chamado atenção com isso.
— Quer ir para casa? — Deidara perguntou. — Posso te chamar um táxi, quer? Ainda vou demorar aqui.
Sakura massageou a nuca e, numa última tentativa, procurou Hiashi ou Orochimaru no salão.
— Posso mesmo ir? — ela perguntou, derrotada, cansada do evento.
Deidara beijou-lhe o rosto e a acompanhou até a saída. O táxi não demorou a aparecer, e Sakura se despediu com um abraço de Deidara antes de entrar no carro. Depois, se lembraria de nunca mais ir a uma exposição com o amigo. Além de frustrada por ter perdido os políticos, havia passado a maior parte do tempo entediada e sozinha diante de quadros horrorosos.
Entediada. Não era uma reação incomum. Ino mesmo estava entediada ao olhar para as telas. Gaara fazia comentários ácidos sobre as pinturas, e esses eram os únicos momentos em que ria, divertindo-se naquele evento.
— Meu Deus, isso era para ser abstrato mesmo ou eu que não estou entendendo nada? — Gaara tombou a cabeça para o lado, procurando ver algo que, à primeira vista, não vira.
Ino riu e repetiu o gesto.
— Acho que é um quarto e... aquilo é um balcão ao fundo? — ela perguntou, confusa. — Ah, meu Deus! — Riu. — Gaara, não sei quem é o pintor, mas ele com certeza já foi na Akatsuki.
Gaara analisou melhor o quadro de pinceladas confusas e tentou ver o que Ino tinha falado. Nome do quadro: prazer. Ah, não... Agora que reparava, podia ver entre a confusão de traços e cores uma representação mal feita de um dos quartos da Akatsuki. O balcão, a tela, a poltrona, a cama, a porta para as apresentações.
— Bom saber que não sou a única a frequentar aquele lugar pela arte. — Ela riu, beijando o rosto de Gaara antes de puxá-lo para o próximo quadro.
Era até que engraçado, e Gaara se divertia com aquilo. Tirando a visão de um cliente ou outro da Akatsuki, nada ali o desagradava de fato. Ah! E, melhor, ainda não havia sido reconhecido por ninguém, então estava no lucro. Ousava até mesmo a segurar Ino pela cintura, recebendo com uma naturalidade surpreendentemente estranha os toques em seu rosto e mão, a preocupação daqueles olhos brilhantes que sempre se voltavam a ele para questionar se ele estava gostando da exposição ou, pelo menos, achando divertida.
Só havia um problema, e ele começou quando Gaara sentiu uma mão em seu ombro, segurando-o com certa força. Virou-se, atraindo a atenção de Ino, e quis se xingar ao perceber quem estava à sua frente.
— O que faz aqui? — Neji perguntou, sério.
— Gaara? — Ino o chamou, aproximando-se curiosa.
A expressão de Gaara estava séria, fechada, e Ino percebeu o quanto o sorriso direcionado a Neji era frio.
— Devo satisfações a você? — Gaara perguntou, sarcástico.
Neji olhou para Ino e, então, balançou a cabeça enquanto a voz saía carregada de deboche:
— Está de serviço, Gaara? Ou ela não sabe com que você trabalha exatamente?
— Não sou eu que minto para as pessoas com quem saio. Aliás, como vai Naruto? Ah é, esqueci, acho que o convenci a não sair mais com você por um tempo, não é?
— Acha isso engraçado? — A voz de Neji soou perigosa, e Ino apertou a mão de Gaara em um pedido mudo para que saíssem dali. — Você deve ser Ino Yamanaka, não é? Se fosse você, pesquisava um pouco mais sobre seu acompanhante, não vai ser interessante para você se a mídia souber que está saindo com alguém que se deita com estranhos para pagar as contas.
— Assim como não vai ser interessante saberem que você não só sai com alguém como eu como também paga várias de nós para divertir aqueles que você suborna — Gaara respondeu, colocando-se levemente à frente de Ino.
— Sabe que se vazar qualquer coisa minha, você será demitido, não sabe? Alguém como Jiraya não iria perdoar você por fazê-lo perder um cliente como eu.
— Não é como se eu precisasse muito desse emprego. — Gaara deu de ombros. — Estou lá só para garantir que pessoas como você não passem tempo demais com Naruto. Ele pode ser ingênuo demais quando quer e sabemos que pessoas como ele não duram muito nesse meio.
Neji riu, irônico, coçando discretamente a têmpora enquanto se aproximava de Gaara e falava em tom mais baixo.
— Entenda que Jiraya pode apenas te demitir, mas eu posso fazer bem pior. Não queira entrar nesse jogo, Gaara, você é inferior a um peão neste tabuleiro. E, quanto a Naruto, não é da sua conta, não se intrometa.
— Você acha que pode me ameaçar? Acha que...
— Ok, cavalheiros, ok. — Ino respirou fundo, colocando-se entre eles ao perceber que algumas pessoas já começavam a acompanhar a discussão. — Estamos em público e imagino que nenhum de nós queira ser manchete, não é? — Sorriu, forçadamente. — Foi um prazer conhecê-lo, Neji, espero que também venha na minha exposição, garanto que será bem melhor que essa. Gaara, nós temos um jantar para ir, lembra-se? Não quero me atrasar.
Gaara desviou o olhar para Ino, percebendo a súplica nos olhos azuis. Recuou um passo e passou o braço pela cintura dela, pronto para sair dali. Deixou-a conduzi-lo por entre as pessoas e acelerou o passo quando viu Deidara no salão. Não, não precisava de mais um cliente da Akatsuki ali!
— Vou pegar o carro, me espere — pediu ao soltar Ino, porém o som do salto indo atrás de si o fez parar na rua para olhar para trás.
— Não estacionamos longe. Posso ir andando com você, a sandália não machuca — Ino respondeu, calma, como se não houvesse acontecido, mas foi só se afastarem um pouco mais do evento, que a curiosidade venceu a educação. — O que há entre você e o prefeito?
Gaara riu anasalado, brincando nervosamente com as chaves do carro em sua mão.
— Nada. Ele só é um imbecil.
— Não me pareceu exatamente “nada”, Gaara. Ele te ameaçou ali e até acho que fui ameaçada por tabela.
Gaara apertou o alarme do carro e parou com a mão na maçaneta ao ouvir o que Ino tinha dito.
— Eu disse que não era boa ideia me trazer — respondeu, nervoso. — Eu te avisei que não era também uma boa ideia me usar nos seus quadros, lembra? Eu te avisei e cansei de te lembrar disso!
Ino o viu entrar no carro e bater a porta com força. Mentiria se dissesse que estava tudo bem. Não estava. Não pela profissão de Gaara, mas pela rixa que ele parecia ter com Neji. Não era como se o prefeito não tivesse como sabotar sua exposição... Kakashi a mataria se soubesse disso, seu empresário não permitiria que continuasse a retratar Gaara ou que mantivesse contato com ele caso descobrisse.
Abriu a porta do carro e se sentou no banco. Silêncio. Embora quisesse conversar, desejasse falar para Gaara que estava tudo bem, a voz não saía, não parecia certo dizer qualquer coisa. Aliás, ele nem ouviria. Tinha certeza que ele estava nervoso o suficiente para não levar a sério suas palavras, para continuar afogado em seus pensamentos.
Quando o carro parou em seu prédio, quis convidá-lo para subir ao apartamento, mas, pela forma que segurava o volante, com tanta força...
— Você é um idiota — soltou sem perceber.
Gaara balançou a cabeça, irritado, e olhou para Ino.
— Ah é? Bom saber. Pode sair do carro agora se não se importa.
Ino se espreguiçou e pegou a bolsa, conferindo o horário no celular.
— Estou com fome, vou pedir pizza, quer?
— Ino...
— Ah, cala a boca e estacione o carro. Eu odeio terminar o dia brigada com as pessoas. E se você for embora agora, eu vou ficar te ligando e, se você não me atender, eu não vou conseguir dormir. E nossa! Sério, eu fico horrível quando não durmo! Sério, não queria ver, você não aturaria meu mau humor amanhã quando fôssemos trabalhar nos quadros. É uma pizza só, você também deve estar com fome, não? Juro que não pergunto sobre Neji Hyuga...
Ela continuou falando, mas Gaara já não ouvia. Será que ela não percebia onde estava se metendo? Será que ela não percebia que insistir naquilo seria ruim depois? Não só para ela, mas para ele também! Não deviam continuar daquela forma. Era inteligente o suficiente para entender que tinha gostado mais do que deveria de um ter passado o dia em um evento sobre coisas com que não tinha a menor afinidade, e isso porque ela estava lá. Vê-la sorrir para os quadros, responder os fãs, posar para fotos, analisar as pinturas e as técnicas usadas, tudo aquilo havia feito com que ele sorrisse, com que ele se sentisse bem, e isso era perigoso! Perigoso demais porque era admitir que estava se apaixonado, e isso sim seria um absurdo.
— Gaara? — Ino o chamou baixo, notando o olhar melancólico que ele lhe direcionava.
Ele tirou o cinto de segurança e desligou o carro, mas, em vez de sair do carro, Ino o viu se inclinar em sua direção. A mão deslizou para sua nuca e as bocas se encontraram em um toque tão suave e carinhoso que nem parecia ser Gaara quem a beijava. Suspirou, fechando os olhos enquanto os lábios se arrastavam docemente uns sobre os outros.
Gaara sorriu de canto, cessando o beijo sem se afastar.
— Deixa a pizza para a próxima. Amanhã volto para os quadros.
Ino assentiu, vencida, e saiu do carro contrariada enquanto Gaara a observava em silêncio.
Como podia ser tão tolo para querer ter uma chance com alguém como ela? Dirigiu com a dúvida devorando o coração e fazendo questão de destruir-lhe a mente. Socou o volante quando notou onde os pensamentos o haviam levado e estacionou o carro mesmo que não quisesse sair dele. Infelizmente, já havia sido visto, e, assim, forçou uma expressão minimamente amigável quando a avó de Naruto abriu a porta da casa e ficou ali o esperando.
— Boa noite, Tsunade.
— Boa noite, Gaara, meu neto está no quarto com uma cara tão péssima quanto a sua, então se resolvam por favor. Tem bolo na geladeira e café novo no bule. E se vocês não chegarem a um acordo, vou ligar para Hinata.
Gaara assentiu, só então tendo permissão para entrar na casa. Massageou a nuca enquanto caminhava pelo corredor. Naruto não estava no quarto, então continuou até o fundo da casa, onde havia um espaço que a avó de Naruto usava para jardinagem. Havia canteiros e alguns vasos espalhados, mas, ao centro, uma mesa de pedra com bancos fixos na terra.
— Hey...
Naruto o olhou rapidamente e respondeu:
— Hey...
Gaara bagunçou o cabelo e deixou-se deslizar pelo batente da porta que separava a casa do jardim, sentando-se no chão. Naruto o olhou pelo canto do olho, mas não parou o que fazia. Sentado à mesa, revirava duas ou três livros ao mesmo tempo em busca de informação enquanto anotava partes importantes em folhas do seu fichário.
— Prova essa semana? — Gaara perguntou baixo.
— Três. A sorte é que presto atenção na aula... Perdi uma prova por causa do... acidente... Mas, como tenho atestado e o boletim de ocorrência, o professor deixou que eu fizesse uma prova substitutiva. Só que é na próxima segunda já.
Gaara assentiu e, por quase uma hora, apenas assistiu a Naruto estudar. Como ele conseguia? No mundo em que estavam, no mundo em que trabalhavam, como Naruto conseguia pensar em algo como fazer faculdade, se formar e ainda sorrir daquele jeito? Ele não se sentia sujo? Ele não se sentia sem valor? Ele não se sentia vazio como Gaara se sentia em todos os momentos quando não estava ao lado dos amigos?
— Está com aquele olhar de novo — Naruto acusou, preocupado. — O que houve?
— Por que continua trabalhando na Akatsuki, Naruto? Você tem dinheiro o suficiente para se manter até o final da faculdade, achar um outro emprego legal, e sei que investe boa parte do dinheiro, então daria até mesmo para continuar morando aqui, manter o padrão de vida... Então, por quê?
Naruto tirou os óculos e apontou para o banco vago. Gaara caminhou até lá e sentou-se, enterrando a cabeça nas mãos.
— Primeiro que não vou deixar você e Hinata ali sozinhos, não é? Nós já combinamos que, quando o seu contrato acabar, nós três vamos sair, não combinamos? — Naruto franziu o cenho.
— Isso não responde, Naruto. Hinata odeia o que fazemos, mas ela, pelo menos, não faz nada demais, não é? Fico feliz por ela apenas comparecer a eventos e distribuir sorrisos falsos, mas nós dois... Por que não saiu depois de termos saudado a dívida com Neji? Eu fui ambicioso, por isso não sai e me arrependo, mas você...
— Eu não tinha motivos para sair. Por dois anos, dividi a cama com não mais que dez pessoas, sempre as mesmas graças ao vício de Neji e de alguns políticos até que suportáveis. Além disso, como modelo, me divirto, sabe disso... Gosto da sensação de ser desejado, de ser admirado, e saber que as pessoas pagam apenas para me ver me deixa realmente envaidecido.
— Poderia ter parado de ir para a cama com eles...
— Podia. — Naruto pareceu pensar. — Mas acho que por isso mesmo não parei. É uma escolha, Gaara, não uma obrigação. Toda vez que tinha que dormir com alguém, o primeiro pensamento que se passava na minha cabeça era que eu era como uma joia, algo valioso pelo qual aquelas pessoas pagaram fortunas para poderem desfrutar por poucas horas. A diferença entre mim e você, Gaara, é que, para você, você está se humilhando por deixarem usar seu corpo; para mim, eles estão se humilhando ao terem que me pagar quantias absurdas para poderem ter apenas uma noite do meu corpo e saírem pela manhã sem que eu nem ao menos lembre o nome deles. Quando o seu contrato acaba?
— Quatro meses e cinco dias — respondeu de prontidão.
— Gaara... Se você quiser sair hoje, podemos arcar com a multa pela quebra do contrato. Sabe disso, não sabe?
— Não farei você e Hinata terem que me ajudar mais uma vez. Não, Naruto, nem começa, faltam só quatro estúpidos meses.
— Se você está bem com isso, por que está tão abatido?
Gaara cruzou os braços na mesa e apoiou o rosto neles. Olhou para os livros de Naruto, lembrou-se de Ino...
— Será que vamos conseguir voltar a viver normalmente? Sem sermos reconhecidos pelo que já fizemos? Podendo andar livremente sem ficar com medo de encontrar com um antigo cliente na rua?
— Gaara, o que aconteceu? Você não é de falar tanto, sabe? — Naruto riu, tentando animar o amigo. — Pera! Você veio do evento com Ino, não é? Aconteceu alguma coisa lá? Alguém te reconheceu?
Gaara riu, sarcástico, enquanto respondia:
— Seu adorado Neji Hyuga.
Naruto bateu a lapiseira na mesa, olhou para o céu já escuro e coçou o curativo do rosto antes de perguntar:
— O que ele fez?
— Me ameaçou caso eu dissesse algo sobre ele frequentar a Akatsuki. Ele está bem irritado com o fato de vocês dois não estarem se vendo.
— É realmente incrível como as pessoas mudam... — Naruto sussurrou, e Gaara percebeu a tristeza na voz dele. — Eu realmente não quis acreditar que ele estava envolvido nos desvios do hospital, ele não era assim... Quando eu perguntei para ele da última vez, ele nem ao menos negou, e eu sei que ele só não nega para não ter que mentir para mim. E isso me deixa ainda pior! Saber que ele não quer mentir, mas, mesmo assim, se mete numa filhadaputagem dessas!
— Isso se chama política, Naruto.
— Não, Gaara, isso se chama ser humano e sua ambição desenfreada! — rebateu, irritado. — Além disso, descobri que foi Hiashi que mandou me darem aquela surra.
— Como? — Levantou a cabeça, interessado, e Naruto lhe estendeu o celular.
— Olhe a foto, foi tirada há pouco no evento em que você estava. O segurança da direita, ao lado de Hiashi, o nome dele é Sai. Ele que estava no comando aquela noite. Reconheceria em qualquer lugar.
— Isso significa que Hiashi não quer que você se encontre com o sobrinho dele.
— Eu sei, mas, se Neji for a Akatsuki, não tenho como fazer nada, não vê? Já mudei de celular, estou ignorando Neji, porém não vou ter escolha se ele for até a Akatsuki. Por enquanto, está tudo bem porque Jiraya não me quer lá desse jeito todo quebrado, mas, quando eu voltar...
— Falamos com Jiraya, é a sua segurança em jogo, Naruto!
— É, eu sei... Mas não estávamos falando de mim, não é mesmo? Como foi a exposição? Você não veio até aqui por causa de Neji, veio? Tem a ver com Ino?
Gaara se levantou, e Naruto o viu andar de um lado para o outro enquanto passava a mão pelas flores nos vasos suspensos.
— Se, hipoteticamente, eu estivesse...
— Se envolvendo com ela? — Naruto perguntou e sorriu, animado. — É isso? Hinata me contou que você dormiu lá. Diz que fez sexo com ela, por favor, por favor...
— Cala. A. Boca. Naruto. — Gaara revirou os olhos.
— Eu sabia!! Você dormiu com ela! E agora tá se envolvendo! Ah, qual é, Gaara, você nunca iria numa exposição de arte sem estar sendo pago para isso! Aliás, nem pagando você tava indo!
— Naruto!
— Ok, ok, continue, então.
— Ah, quer saber? Esquece.
Naruto riu e se aproximou do amigo só para prender a cabeça dele numa chave de braço enquanto lhe bagunçava o cabelo com a mão livre.
— Larga de ser idiota, Gaara! Pense menos. Pense pelo lado positivo, ela não é uma jornalista em briga com Neji. — Sorriu ao soltá-lo e desviar do tapa. — Aproveite enquanto durar e, se não der certo, não deu. Vida segue.
Gaara concordou e, como sempre acontecia, as palavras de Naruto tinham um enorme efeito sobre ele a ponto de realmente se sentir mais calmo e seguro quanto ao que estava fazendo.
— Vou dormir aqui — avisou.
— Sempre será bem-vindo na minha cama, Gaara. — Naruto piscou um olho em provocação.
— Na sua e na de meio mundo — Gaara ironizou. — Vou tomar um banho, vê se faz a janta, a comida da sua vó é horrível.
Naruto girou a lapiseira entre os dedos enquanto Gaara voltava para dentro da casa. Pegou o celular e mandou uma rápida mensagem para Hinata, avisando que Gaara estava bem, e, depois, foi impossível não checar o aparelho de novo atrás de uma mensagem de Sasuke.
Bufou, frustrado, e apoiou o rosto na mão. Silenciou e travou o celular, voltando aos estudos. Se Sasuke não o respondia, também agora iria ficar esperando quando respondesse!
* * *
Sakura não estranhou quando chegou em casa e encontrou Sasuke ainda dormindo em seu sofá. O celular dele tocava, mas, muito provavelmente pelo cansaço, Sasuke nem ao menos parecia ouvi-lo ou se incomodar. Rapidamente, Sakura pegou o aparelho, pronta para desligar, mas a foto de Itachi na chamada fez com que atendesse.
— Oi, é a Sakura.
— Ele está aí?
— Dormindo que nem uma pedra. Quer vir pra cá? Ainda não jantei, seria ótimo você aqui para cozinhar algo, sabe? — sugeriu, e Itachi riu.
— Tô indo. Não acorda o Sasuke. Ele não tem dormido bem, é importante que descanse um pouco.
— Pode deixar, doutor, palavra de médico é lei — respondeu enquanto tirava o salto e ia para o quarto.
Mudou de roupa e lavou o cabelo. Sobre sua cama, o celular de Sasuke ainda vibrava. Não resistiu. Destravou o aparelho de mesma senha há mais de dois anos e então, como uma boa amiga curiosa, abriu a conversa da pessoa que tanto clamava pela atenção do amigo.
— Ah, eu lembro de você — sussurrou ao ver a foto da pessoa que falava com Sasuke.
Sorriu, voltando para a sala e se ajoelhando ao lado do sofá. Digitou rapidamente um “oi”, que não foi respondido, e então começou a enviar várias fotos de Sasuke dormindo, finalizando com “Sasuke Uchiha, morto há algumas horas, ordens médicas, ligue mais tarde. Beijos, Saky”.
* * *
Neji afrouxou a gravata e retirou a camisa. Olhou para a cama, Ten-Ten olhava para a tela do computador em seu colo, concentrada demais. Sentou-se ao lado dela e beijou o ombro exposto pela alça fina da camisola.
— O que está fazendo? — perguntou, deslizando os dedos pelo braço dela, subindo até o ombro para descer a alça da camisola.
— Pesquisando — ela respondeu. — Lembra-se da exposição, da mulher em que esbarrei?
— Sim — sussurrou, voltando a beijar a pele desnuda até o pescoço.
— Tenho certeza de que ela estava indo atrás de Hiashi e Orochimaru naquela hora.
— Por isso derramou a bebida? — perguntou ao morder-lhe o lóbulo da orelha.
— Ela disse que o nome era Mikani, mas não acho ninguém com esse nome e com a aparência dela.
— Veja as fotos do evento. Ache uma em que ela apareça e pesquise sobre a foto. Talvez outras fotos dela apareçam na busca, todo mundo tem perfil em rede social hoje, não vai ser difícil achar o dela com a foto.
— Tem razão, eu vou...
— Amanhã — ele falou, pegando o computador do colo dela e o fechando. — As fotos do evento não estão todas postadas ainda, olhe amanhã. Por hora — Voltou-se a ela, sentando-se com as costas apoiadas na cabeceira e oferecendo a mão para puxar a esposa para seu colo. —, vamos esquecer um pouco do meu tio e de política, sim?
Ten-Ten sorriu, e seu corpo se arrepiou quando as mãos de Neji subiram pela camisola até os cabelos, desfazendo o coque que usava para que o cabelo caísse livremente por suas costas.
— Animado? — Ela lambeu os lábios dele lentamente.
— A exposição correu bem, aquele pintor está feliz e nos passando informações, meu tio está tão envolvido com Orochimaru que me esqueceu por um tempo, você estava e ainda está deslumbrante, e eu infernizei uma pessoa que estava me irritando, então, sim, estou animado.
Ten-Ten arqueou a sobrancelha e suspirou com o beijo que recebeu. Neji estava certo, tudo estava indo bem, até mesmo sua vingança contra Hiashi e, sendo assim, a pesquisa sobre a pequena bisbilhoteira poderia esperar um pouco...
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