Jogo de Máscaras

11 Capítulo 11 - Tire a máscara dos outros


Quatro dias. Havia se passado quatro dias desde Naruto encontrara Sasuke no meio da manifestação. Desde então, não tinha mais encontrado o jornalista, e isso se devia ao fato que a Akatsuki estava um inferno. Depois de ter avisado Neji do ocorrido com o estagiário, voltou para casa. Cumprimentou sua vó, que avisou que Jiraya tinha ligado.

É, devia saber que, para seu chefe ligar diretamente em sua casa, boa coisa não poderia ser.

Bagunçou os cabelos loiros, sentindo os músculos das costas arderem. Naqueles dias, uma onda de políticos havia ido até Akatsuki, e todo mundo sabia o que aquilo significava: suborno. Sentia-se mal por participar daquele jogo sujo, por estar ciente de que alguém estava usando sua profissão para comprar aliados. Mas o que poderia fazer? Dizer não? Discutir com Jiraya sobre quem ele aceita ou deixa de aceitar ali?

Até mesmo Gaara estava estressado por tudo aquilo. Graças ao aumento do número dos clientes, Jiraya havia “solicitado” para que Gaara conversasse com Ino e tirasse alguns dias para permanecer na Akatsuki naquilo que o chefe chamou de “trabalho de verdade”.

Hinata havia ficado tão irritada que se aproveitou da situação para usar suas folgas e, assim, afastar-se daquela sujeira com a qual Jiraya compactuava.

— Diga que não tem nada a ver com isso. — Naruto cruzou os braços, encarando Neji assim que cruzou a porta para entrar no quarto.

— Com o quê? — Neji perguntou, sentado na cadeira que ficava de frente à janela por onde assistia ao leilão.

— Com esse número absurdo de políticos que está aqui hoje, que esteve ontem e anteontem e assim por diante.

Neji se levantou, passando por Naruto e indo em direção ao minibar. Pegou dois copos e preparou duas doses de whisky.

— Assisti ao seu discurso esses dias. Hinata também — Naruto comentou, aceitando a bebida. — Você realmente não teve nada com o desvio de dinheiro do hospital, teve?

Neji suspirou e passou a mão pelos cabelos longos.

— Não vim aqui para falar de política, Naruto. Já me irrito com esse assunto boa parte do meu dia. Quando venho para cá, é para relaxar, não para continuar me estressando.

Neji viu Naruto estreitar o olhar, mas preferiu ignorar e tomou um gole da bebida. Apesar de Ten-Ten tê-lo aconselhado a não ir ver Naruto justamente porque o local estaria cheio de políticos, não conseguiu cumprir o combinado. Seu tio o tinha irritado durante todos aqueles dias, a imprensa não o deixava em paz, e, para piorar, seu discurso sobre o hospital não havia tido a repercussão esperada.

Estava com a cabeça cheia, cansado, exausto, e merecia sim se dar uma folga.

Sentou-se na beirada da cama e olhou para Naruto. O tronco estava exposto, e a calça contornava todos os músculos dele, colando-se a pele praticamente e atiçando seus desejos. O cabelo loiro estava bagunçado e os olhos azuis o miravam com desconfiança. Conhecia Naruto o suficiente para saber que mentiras e jogo sujo não seriam aceitos por ele, muito menos desvio de dinheiro e corrupção. Por isso, não podia contar no que estava metido apesar de querer. Ah, sim... Seria tão mais fácil se pudesse conversar abertamente com Naruto e pedir-lhe ajuda como fazia antes.

Massageou as têmporas e deixou as costas caírem na cama. Ouviu o suspiro de Naruto e os passos dele. O colchão afundou com o peso novo, e Neji sorriu minimamente quando Naruto se sentou sobre ele. Gemeu satisfeito e aliviado quando os lábios se uniram e apertou as coxas de Naruto antes de correr as mãos pelo corpo dele. Ah, como sentia falta daquilo!

Sentir o corpo dele contra o seu era o que Neji mais tinha desejado... Ainda mais depois de ter perdido por duas vezes o leilão na semana anterior.

Afundou os dedos no cabelo loiro e suspirou quando beijos começaram a ser depositados em seu pescoço e Naruto rebolou sobre seu membro.

— Quem foi o cara que pagou cinquenta mil por você semana passada? — perguntou de repente.

— Sabe que não posso falar sobre outros clientes, Neji — Naruto respondeu contra a pele dele.

— Achei que pudesse abrir uma exceção.

Naruto arqueou a sobrancelha, sentando-se sobre Neji e apoiando as mãos no peito dele enquanto brincava com a gravata.

— Você sabe muito bem que não posso falar. Faz parte do trabalho. E você especificamente deveria ser grato por isso, ou todos já saberiam que frequenta esse lugar. Aliás, precisamos falar de um assunto sério.

Neji se apoiou nos cotovelos, percebendo a expressão preocupada de Naruto.

— Precisa ser agora? ­— questionou, movendo o quadril para que Naruto sentisse a ereção que se formava.

— Recebi um recado do seu tio para que ficasse longe de você — Naruto explicou. — Um recado por escrito, com palavras bem escolhidas e que deixaram claro que era uma ameaça. Quero que me diga se devo levar essas palavras em consideração ou se é um blefe.

Neji se sentou de súbito e segurou as costas de Naruto para que ele não caísse. Arregalou os olhos e balançou a cabeça em um gesto de confusão.

— Isso é sério?

— Diga você.

— Falarei com Hiashi, não se preocupe. Ele pode ser um idiota, mas não suja as mãos dessa maneira.

— Ele não, mas pode mandar que outros sujem por ele, não pode?

Neji estalou a língua no céu da boa, e Naruto sentiu os músculos dele se enrijecerem. A tensão no quarto foi o suficiente para que qualquer desejo desaparecesse, e Neji permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Eu resolvo — disse enfim. — Todos temos nossos problemas, não se preocupe com os meus, eles não vão te atingir.

Naruto assentiu, embora sentisse que aquilo era o que Neji esperava que acontecesse. Suspirou, passando as mãos pelos cabelos compridos dele e os livrando do elástico que os prendia. Rebolou lentamente enquanto arranhava a nuca de Neji e, enfim, tirava a gravata que ele usava. Segurou-lhe o queixo e o ergueu para, com a língua, lhe contornar o lábio inferior antes de prendê-lo entre os dentes.

O resultado foi o esperado. Neji o apertou, e as mãos dele logo foram para sua cintura e, depois, entraram pelo tecido da calça a fim de lhe apertar as nádegas.

Embora quisesse tirar toda a história a limpo, não estava ali exatamente para conversar, não é? Neji havia pago para ter prazer, para se esquecer dos problemas, para desfrutar de um momento bom, e era então isso que Naruto lhe daria. Sendo assim, deixou-se deitar e permitiu que a vaidade fosse acariciada pelo olhar faminto que recebia do cliente, lembrando-se de que era exatamente por aquilo, por saber que despertava fascínio e adoração, que simplesmente amava sua profissão.

* * *

Sasuke olhou feio para Pandora assim que ela se sentou no meio da sala de jantar, perto da mesa. Fingiu não perceber e continuou a organizar os papéis.

— Acho que ela está com fome — Deidara pendeu a cabeça para o lado ao ouvir o filhote chorar baixo.

Sasuke não respondeu.

Pandora chorou.

Deidara suspirou.

— Onde você deixa a ração dela?

— Ela já comeu, Deidara — Sasuke revirou os olhos.

Mesmo com essas palavras, Deidara não se convenceu. A cachorra parecia entender sua dúvida e deitou-se, chorando enquanto o colar em forma de abajur que era obrigada a usar a incomodava.

Nesse momento, Sakura saiu da cozinha, equilibrando três xícaras de café. Desviou de Pandora e colocou as xícaras na mesa para, então, arrastar a cadeira e sentar-se.

— Pronto. — Ela sorriu. — Agora, o que temos aqui? — perguntou quando o amontoado de papéis de Sasuke enfim podia ter sua atenção.

— Um resumo de todas as matérias que eu escrevi ou aprovei nos últimos três meses — Sasuke respondeu e levantou-se da cadeira para alcançar a xícara de café quente, porém Deidara segurou-o pelos ombros e o fez se sentar novamente.

— Não de estômago vazio. — Riu, debochado enquanto colocava um sanduíche mal feito nas mãos de Sasuke. — Coma ou falo para Itachi que você está com gastrite de tanto tomar café.

— Não tenho gastrite — Sasuke respondeu irritado.

— Mas seu irmão não sabe disso. — Deidara piscou-lhe. — Aposto que se eu levantar a hipótese, ele vai te obrigar a fazer um monte de exames até estar satisfeito a respeito da sua saúde.

Sakura riu abertamente, acariciando a cabeça de Pandora enquanto via Sasuke respirar fundo e engolir o xingamento que, com toda certeza, tinha lhe subido pela garganta.

— Bom menino — Deidara brincou e, então, se inclinou para afastar o notebook de Sasuke enquanto ele comia. — Você tem cópia dos arquivos aqui?

Sasuke concordou, terminando de enfiar um pedaço de lanche na boca e, quando Deidara se sentou para ver o computador, atirou o resto para Pandora, que rapidamente veio e comeu o que sobrara do sanduíche.

— Nossa. — Sakura prendeu os cabelos no alto da cabeça. — Muito me admira você ter tão poucos inimigos com a quantidade de coisa que escreve.

— Eu separei os arquivos e os dividi em grupos. Temos matérias contra o governo atual a nível federal; matérias contra o governador do Estado; investigações sobre esquemas de suborno e corrupção; críticas sobre o caso do hospital — Sasuke enumerou e apontou para as pilhas de papéis já devidamente catalogadas. — Não houve nenhuma matéria que acusasse diretamente alguém de ser culpado.

— Mas várias que sugerem um ou então que criticam ações e ironizam a situação toda. — Sakura arqueou a sobrancelha ao passo que lia uma das colunas sobre a construção do hospital, ou melhor, sobre, como o título dizia, “Leitos vazios, contas suíças cheias”. — Aquele seu estagiário está aprendendo como ser agressivo e crítico muito bem com você.

— Konohamaru? — Deidara perguntou enquanto colocava o pendrive no computador de Sasuke. — O garoto sobre aquela matéria furada que dizia que Neji Hyuga estava saindo com um garoto de programa?

Sasuke mordeu a parte interna da bochecha e batia a caneta na mesa. Pandora chorou novamente, atraindo a atenção dele.

Itachi, às vezes, conseguia saber exatamente do que ele precisava, tinha que admitir isso. A cachorra estava há mais de uma hora implorando por sua atenção e, por mais estranho que parecesse, não precisava fingir que se importava com ela: realmente se preocupava. E tudo indicava ser recíproco, já que fora só começar a sentir e a amaldiçoar a maldita dor de cabeça que Pandora aparecera ali, debaixo da mesa, tentando novamente conseguir sua atenção.

A pata pesada com unhas cortadas deslizou por sua perna, e Sasuke teve que ser rápido antes de impedir que a cachorra pulasse, uma vez que qualquer movimento brusco poderia abrir os pontos que ela ainda possuía. Com a movimentação, o celular caiu no chão.

Sasuke abaixou-se para pegá-lo de volta e foi então que viu, atrás do celular, entre o aparelho e a capinha translúcida que usava, um papel dobrado.

Aquele papel.

Desdobrou-o, achando o número de Naruto anotado ali. Mordeu o lábio, e seus olhos passaram por todos aqueles papéis.

Sakura o olhou desconfiada ao vê-lo sorrir de canto, mas Sasuke não se importou em se explicar.

“Amanhã à noite, uma cerveja, topa?

Sasuke U.”

Não pensou muito antes de enviar a mensagem. Não é como se estivesse ansioso ou desejando encontrar Naruto novamente, só estava querendo algumas informações. E que local mais adequado do que um bar para isso, não é mesmo?

Bloqueou o aparelho e o guardou. Embora não quisesse que Sakura e Deidara se envolvessem, sabia que tinha que lhes dar alguma coisa, qualquer informação, para que então pudesse pesquisar sobre a invasão em paz. O problema era que, mesmo depois de lhes ter explicado o que havia achado em algumas matérias, nenhum dos dois quis ir embora de seu apartamento. Agora, estavam todos ali, sentados, imersos naquela pesquisa que parecia, à primeira vista, inútil. E, para piorar, a apenas alguns dias de Itachi chegar.

Itachi... Já podia até prever o que seu irmão mais velho faria se descobrissem que estava metido em algo perigoso. Itachi era capaz de dar um jeito de tirá-lo do país e montar-lhe uma guarda pessoal que o vigiaria até mesmo no banho.

É, precisava achar pelo menos algumas respostas antes que Itachi chegasse e decidisse “ajudá-lo” na pesquisa.

— Dá para acreditar que Neji disse que o orçamento para a construção do hospital havia passado por mais de uma revisão? — Sakura estalou a língua no céu da boca. — Toda vez que ele aparece para fazer mais um discurso sobre como não está envolvido nessa fraude ou sobre como os ideais dele permanecem firmes e íntegros, tenho vontade de me dar um tiro.

— Isso é você falando ou seu novo caso romântico? — Deidara cantarolou ao devolver o computador para Sasuke.

— Caso?

— Ah, ela não te contou? — Deidara riu enquanto mexia no celular e se levantava. — Quando Pain te botou de castigo para cobrir a manifestação, Sakura te fez o favor de ir até o debate e saiu acompanhada do que, segundo ela em uma ligação para o seu irmão, aos sussurros devo ressaltar, foi a melhor companhia da noite!

— Deidara! — Sakura cobriu o rosto, vermelha.

— E, para piorar — Ele vestiu o casaco de couro. — ficou lamentando e choramingando por não ter pego o número do cara.

Sasuke lançou um olhar divertido para Sakura enquanto Deidara a imitava, falando e gesticulando como ela normalmente fazia. Sorriu, vendo Sakura perseguir Deidara em uma corrida infantil pelo apartamento. No fim, Deidara a abraçou, aproveitando-se para beijá-la no rosto.

Sakura riu, livrando-se dos braços do amigo e batendo na cabeça dele com algumas folhas.

— Falando em casos, onde você vai todo arrumado, Dei? E me diga que esse couro não é verdadeiro — adicionou com uma careta.

— Tenho um jantar hoje. — Mirou o relógio dourado. —Aliás, estou atrasado já. E couro, minha querida, só se veste se for de qualidade. Boa leitura para vocês dois, fiquem tranquilos que vou ler os arquivos no meu próprio computador quando chegar em casa. Até mais, Sasu!

Sasuke não se deu ao trabalho de responder, apenas esperou a porta se fechar para encarar Sakura.

— Feio admitir, mas invejo Deidara — ela disse.

Sasuke já tinha ouvido aquela frase milhares de vezes...

— Como ele consegue trabalhar, sair todo final de semana, estar sempre de bom humor e saber mais de moda do que eu?

A vibração do celular interrompeu a resposta que sairia pelos lábios dele. Desenhou a senha rapidamente e não conteve a curiosidade e a ansiedade que sentiu ao ler a resposta que aguardava:

No meio da semana?

rsrsrsrrsrs

Onde?”

Naruto devia ser conhecido perto da Akatsuki, então não seria uma boa ideia ficar por lá. Queria discrição, passar despercebido e, para isso, o melhor seria se afastar de lá. Por isso, digitou a localização de um bar que gostava e bloqueou o celular.

O som da caneta grifa texto correndo pelo papel dominou o ambiente graças ao silêncio de Sasuke e, enquanto isso, sua mente procurava a resposta para a dúvida que vinha cultivando: por que Neji Hyuga iria à Akatsuki?

Pelo que as revistas de fofoca contavam, Neji era muito bem casado. Havia fotos do casal sempre que possível, e a esposa dele, Ten-Ten, aparentava ser uma perfeita madame. Roupas bonitas e elegantes, sorrisos para as câmeras, mãos dadas ao andar com Neij, compras toda quinta-feira, jantar romântico uma vez por semana, era um casamento perfeito.

— Onde a esposa de Neji foi vista pela última vez? — perguntou para Sakura assim que se lembrou de que alguma revista estivera falando sobre Ten-Ten nos últimos dias.

— Quem? A esposa de Neji? Hum... — Tirou o celular da bolsa e começou a procurar a informação. — Aqui. Ela foi com Neji para o último discurso, usando um vestido que é quase o dobro do meu salário.

Sasuke pegou o celular e balançou a cabeça em negação.

— Antes disso. Acho que tinha uma matéria que sugeriu uma traição, não foi?

— Anda lendo revistas de fofoca, Sasuke? — Sakura provocou enquanto pesquisava. — Ah, achei. Foi uma revista pequena que publicou. Aqui diz que Ten-Ten Hyuga já foi vista mais de uma vez em um petshop, demorando para sair de lá. E ela nem tem animal de estimação.

— A revista é confiável?

— É uma revista de fofoca, Sasuke. ­— Sakura deu de ombros. — É claro que não é confiável. Além disso, ela pode estar visitando um amigo, uma amiga, um parente. Sem contar que um petshop não é o melhor lugar para você trair seu marido. Alguém com a conta bancária dela pode muito bem pagar um hotel de luxo para essas coisas. Agora, por que o interesse?

— Boa esposa, gentil, faz caridade, cuida da casa, jantares românticos com o marido, bonita, sempre arrumada, isso não te parece nem um pouco forçado?

— É claro que é forçado, chama-se propaganda eleitoral. Neji é o político que representa a moral e os bons costumes, e ela é a esposa que nossa sociedade considera perfeita. É um ponto extremamente positivo, embora hipócrita, para ele na eleição.

— Konohamaru tem certeza que Neji saiu com... — Refletiu por um breve momento. — com o garoto de programa. E não duvido dele. Se o casamento de Neji é assim tão perfeito, para que ele precisaria recorrer a isso?

— Mas nós sabemos que o casamento ideal é apenas propaganda, Sasuke. Neji pode frequentar um bordel como qualquer um.

— O homem com quem Neji saiu custa bem caro para um bordel qualquer. Segundo Konohamaru, o homem com quem Neji sai trabalha na Akatsuki. E, acredite, o preço ali é bem alto para que Neji o frequente só por diversão.

— Já sabe quem é o cara? Bem, então, no que está pensando?

— Neji andou almoçando com políticos da oposição, correto? Pelo que estão falando, o caso do desvio de verbas para o hospital envolveu mais gente do que só o partido dele.

— Sim, ao que parece a oposição também está nisso.

— Exato. — Os olhos de Sasuke brilharam. — E Neji anda almoçando com essa oposição. E se estiverem tentando comprar o silêncio dele? Se estiverem o subornando para que ele não entregue os demais nomes do esquema?

— Com um garoto de programa? — Sakura fez uma careta.

— Um garoto de programa que custa, no mínimo, uns vinte mil reais, Sakura. E não duvido que estejam dando dinheiro a Neji também. Você mesma disse, Ten-ten apareceu com um vestido que custa o dobro do seu salário no meio dessa crise econômica — explicou.

Sakura cruzou os braços e ponderou as palavras que acabara de ouvir.

— Admita, é uma boa teoria — ele disse.

— É... é uma boa teoria. — Ela suspirou. — Mas é justamente por essas teorias suas que estamos aqui, Sasuke. Seu carro já foi quebrado, sua casa, invadida, e nós dois estamos aqui para achar o que gerou essas ações, não para cutucar ainda mais esse vespeiro.

Sasuke tamborilou os dedos na mesa e respirou fundo. Sakura não o entendia. Ele pouco se importava se sua casa poderia ser invadida novamente ou com o perigo que correria, estava ali a graça de tudo afinal. Provocar políticos e expor a verdade para ver as máscaras deles caírem e se quebrarem era o que mais amava em sua profissão. Não pararia só porque havia irritado um ou outro. Se parasse, o que faria da vida? Não tinha outro objetivo que não fosse aquele, não tinha outra coisa que realmente despertasse seu interesse e prendesse sua atenção daquela forma. Dessa forma, tomou o café que Sakura havia trazido antes. O líquido estava um pouco gelado, mas serviu para lhe dar tempo para disfarçar sua frustração com a amiga e colocar, mais uma vez, a máscara de derrota.

— Ok — falou, desanimado. — Você está certa. Vamos continuar analisando os documentos. Quer mais café?

Sakura sorriu de leve, concordando.

Sasuke se levantou e pegou as xícaras. Seu celular vibrou no bolso da calça e trouxe a mensagem que faltava para encerrar aquela noite: Naruto havia confirmado o encontro.

* * *

Não devia estar desconfortável com aquilo, porém também era impossível fingir que não tinha nada errado com aquele encontro. Sasuke era um jornalista e, pelo que Naruto havia pesquisado, um dos que não perdia a chance de desmascarar políticos ou esquemas de corrupção.

Ok. Isso era bom. Não podia negar o sorriso que aparecera ao notar a qualidade do outro, contudo, naquele momento, ela não lhe convinha. Quando Neji havia dito que, talvez, um dia, o relacionamento deles pudesse vazar ao público, não se preocupou porque achava a ideia um absurdo já que Neji não era tão conhecido, e ele era um ninguém, apenas mais um dos que trabalhavam na Akatsuki. Entretanto, ali estava ele, estacionando seu carro distante do bar enquanto tamborilava os dedos no volante com medo sem saber se ia ou não ao encontro do jornalista.

Relutante, abriu a porta do carro. Eram seis horas, tinha que voltar à Akatsuki apenas às dez quando teria que se apresentar somente como modelo naquela noite, o que, com certeza, havia sido uma exigência de Neji a Jiraya. Infelizmente, Neji estava começando a achar que podia interferir em seu trabalho e fazer exigências. O pior de tudo era ter que admitir que Gaara estava certo... O amigo já o havia alertado que Neji, uma hora ou outra, ultrapassaria os limites do bom senso.

Avistou o bar depois de certa caminhada. O vento frio da noite o fez arrumar o casaco e colocar as mãos no bolso antes de prosseguir. Não foi difícil achar Sasuke. Assim que entrou, seus olhos correram pelo local e encontraram Sasuke sentado em uma das mesas do canto, razoavelmente perto de onde um artista tocava violão e cantava lentamente.

Antes que pudesse reparar mais no ambiente, Sasuke o olhou. Cerrou os punhos e tomou coragem para ir até ele.

— Boa noite — cumprimentou ao se sentar.

— Boa noite. Foi difícil achar o lugar? — Sasuke perguntou e bebericou o copo de cerveja à sua frente.

— Até que não. Conheço um pouco essa parte da cidade — Naruto respondeu.

— Vai beber algo?

— Ah... Sim — Naruto coçou a nuca e se ajeitou melhor na cadeira.

— Com licença — Sasuke chamou o garçom. — Pode nos trazer a garrafa? — Apontou para a cerveja em seu copo.

— Está esperando há muito tempo?

— Não. Faz uns dez minutos. Mas confesso que achei que você desistiria. — Apoiou o rosto na mão.

— Não é como se a ideia não tivesse passado pela minha cabeça. — Naruto riu sem graça. — Ainda mais depois de saber que você e sua equipe ficam tentando me fotografar com Neji — falou para então arregalar os olhos. — Ah, merda! Eu não devia ter falado isso.

— Não estou com um gravador se é o que está pensando.

— Claro que não — ironizou. — Porque é claro que me diria se estivesse.

— Naruto, eu te chamei para uma cerveja, não para uma entrevista.

Naruto mordeu o lábio enquanto a perna tremia involuntariamente sob a mesa. Assim que a garrafa de cerveja foi posta sobre a mesa, pegou-a e encheu o copo.

— Ok, o que quer então? Desculpe, mas dizer que me chamou só para uma cerveja não cola.

Sasuke sorriu de canto, bebendo um gole da bebida, e lambeu os lábios em seguida.

— Curiosidade. Os dois passes que consegui para ir até a Akatsuki foram presentes de um amigo e, por isso, não vou mais voltar lá. O salário de jornalista não paga o absurdo que é cobrado lá. Mas me interessei por você, e foi por essa razão que te chamei para beber. E você se interessou por mim, ou então não teria me dado seu número, boneco. — Sorriu malicioso.

Naruto passou a mão pelo cabelo, deixando-o ainda mais bagunçado, enquanto a lembrança do apelido fazia um arrepio subir pelas costas.

— Quanto a Neji, já sei o suficiente por enquanto. Ele almoça com você e, para isso, ele já foi a Akatsuki. Isso, é claro, se ele ainda não continua frequentando... Mas minha área no jornal é política, não fofocas. — Ergueu as mãos em rendição quando notou Naruto ficar na defensiva novamente. — A menos que haja alguma coisa envolvendo política ali dentro, pouco me importa com quem Neji dorme ou não. Você deu azar só. Na época em que Konohamaru, meu estagiário, fez a matéria em que te citava, Neji estava almoçando muito com alguns membros da oposição. No começo, achamos que você era mais um, e, quando descobrimos que não era, e Konohamaru fez a matéria expondo Neji com um caso fora do casamento.... Bem, eu estava um pouco frustrado por ter um adultério e não um esquema de corrupção em mãos, acabei aprovando a matéria sem pensar muito.

Naruto abriu a boca, incrédulo.

— Está dizendo que tenho um pirralho na minha cola por causa do seu mau humor? — Naruto perguntou um pouco exaltado.

Sasuke deu de ombros.

— Não tinha como eu saber no que isso viraria, não é?

— É por isso que odeio gente da mídia! Vocês ficam perseguindo as pessoas, infernizando suas vidas e criando todo esse alvoroço só para ter algumas linhas mal escritas para apresentar na segunda-feira de manhã — indignou-se. — Pouco se importam com o mal que podem fazer!

Sasuke viu Naruto abrir a carteira e jogar algumas notas sobre a mesa. Segurou-o antes que ele se levantasse, em um gesto involuntário. Naruto o olhou irritado, e Sasuke franziu o cenho enquanto mirava a própria mão no braço do outro. Soltou-o, elevando o rosto e mergulhando nos olhos azuis que o encaravam.

— Não é bem assim. Não é como se Neji Hyuga fosse um santo.

— Ah é? — Naruto riu, sem humor. — Que provas você tem contra ele?

— As invest-

— Investigações que ainda não acharam a assinatura dele em nada; nem gravações; nem ligações; nem contratos; nada! O que eles têm são políticos pequenos que citaram o nome dele. Isso para você é prova o suficiente?

Sasuke encostou na cadeira. Passou a mão pelo cabelo, jogando-o para trás enquanto os dedos tamborilavam sobre a mesa.

— Não. E é por isso que nenhuma matéria minha fala que ele é culpado.

— Mas passa perto, não? — Naruto debochou. — Ou você acha que chamar ele Coringa é um elogio? Sua última coluna só faltou dizer que ele deveria entrar em um circo pelo número de mentiras que você afirma que ele conta.

— Você acredita na inocência dele? — Sasuke arqueou a sobrancelha. — Realmente olha para ele e o julga inocente?

Naruto bufou, cruzando os braços. Não, não acreditava fielmente que Neji era de todo inocente. Tinha algo errado, sabia que tinha. Assistira ao discurso de Neji junto de Hinata, e a revolta da amiga foi tamanha que sentiu vergonha por estar tão envolvido com o político. Óbvio que preferia mil vezes defender Neji e acreditar que, todas as vezes que o nome dele era citado no caso do hospital, tudo não passava de uma tática da oposição. Contudo, ficava cada dia mais difícil. Para piorar, além de tudo isso, seria hipócrita se dissesse que Neji ainda era a mesma pessoa que conhecera antes de ele se envolver na política.

Massageou as têmporas antes de apoiar os dois braços na mesa e se inclinar na direção de Sasuke.

— Não cabe a mim julgar isso, não é? Se ele for culpado, acharão provas contra ele. Qual a necessidade de infernizar a vida dele então?

— Você sabe muito bem porque se faz isso. Pessoas sob pressão cometem erros, tomam medidas desesperadas. Neji não é exceção. O último discurso dele foi horrível. Parecia que ele tinha decorado cada palavra, montado uma linha de defesa inteira e vestido uma armadura só para enfrentar as câmeras. Se ele fosse inocente, não precisaria daquilo tudo.

— Não é assim, Sasuke. Quando todos já possuem uma ideia sobre você, quando apontam o dedo na sua direção, ninguém vai respeitar o seu silêncio e achar que você se cala porque é inocente e, portanto, não precisa se defender. Quando te julgam por algo, a menos que você convença Deus e o mundo de que é inocente, ninguém nunca vai te deixar em paz.

— Devo supor que é a experiência própria falando? — Sasuke ironizou, bebericando a cerveja.

Naruto riu, balançando a cabeça negativamente.

— Eu? Não. — Sorriu de canto. — Aceitei quem eu era antes daquilo que eu faço ser conhecido por mais de três ou quatro pessoas. Não tenho problema algum de ser parado na rua e chamado de puto ou então de ficar ouvindo sussurros de deboche, piadas ou risadas. Para ser sincero — Apoiou o rosto na mão. —, nessas situações, até aceno para pessoa se ela for interessante. Vai que ganho uma noite extra. — Deu de ombros.

Sasuke colocou o copo de cerveja sobre a mesa. O tom da conversa parecia ter mudado, e se esqueceu de que deveria sim estar investigando Neji. Em vez disso, o sorriso malicioso adornava-lhe os lábios e via-se a malícia no olhar quando a pergunta saiu de seus lábios:

— Cobra de todos?

— Isso depende — Naruto devolveu o sorriso, inclinando-se sobre a mesa.

— Depende? — Arqueou a sobrancelha, e Naruto o chamou para mais perto como se fosse lhe contar um segredo. — Do quê?

Naruto mordeu o lábio inferior e segurou a camisa de Sasuke para puxá-lo para mais perto.

— Do meu interesse.

As palavras mal haviam entrado direito no cérebro de Sasuke quando a boca de Naruto se colocou a sua. O gelado da bebida ainda estava presenta, mas era totalmente eclipsado pelo calor que nascia em seu corpo. Sem que notasse, uma de suas mãos adentraram os fios loiros do cabelo deles; os dedos se enrolaram nas mechas, e foi impossível não as puxar para ouvir o gemido, baixo e fraco, de dor contra seus lábios.

Não quis se separar embora soubesse que estavam no meio de um bar e que os olhares de todos deviam estar agora voltados para si. Continuou saboreando, deslizando a língua contra a de Naruto em um ritmo mais brando, porém sensual. Com o tempo, o ímpeto foi passando, ainda que a vontade continuasse.

Naruto suspirou, soltando o ar perto da boca de Sasuke antes de lhe direcionar um sorriso ébrio e se afastar.

A fala que diria morreu quando sentiu a vibração do celular no bolso da calça.

— Só um momento — Naruto pediu, atendendo o celular. — Alô?

Jiraya te quer aqui em meia hora, Naruto. — Ouviu a voz de Gaara soar apressada.

— Por quê? Só tenho que estar aí mais tarde. — Conferiu o relógio no pulso.

Alguém bem importante chegou. Ninguém sabe quem é, mas Jiraya veio conduzir o cara pessoalmente pela Akatsuki. Se eu fosse você, me apressava.

Tá, tá. — Revirou os olhos. — Já to indo. Até.

Sasuke não disfarçou muito bem o desagrado pela interrupção. Naruto sorriu sem graça.

— Ossos do ofício. Desculpe. Fica para a próxima. — Levantou-se e contornou a mesa para, rapidamente, despedir-se do jornalista com um breve selinho.

Naruto não ficou para ver a reação do outro. Saiu do bar e colocou as mãos no bolso enquanto caminhava pela rua em direção onde havia estacionado o carro.

A noite já havia chego, e a lua mal daria conta de iluminar a rua se não fosse pela grande quantidade de postes e bares ali.

Passou por um bar lotado, com mesas ocupando a calçada e pessoas rindo alto. Uma delas, um homem alto e pálido, saiu da multidão e veio em sua direção.

— Hey, você!

Preferiu não olhar e continuou seu trajeto. Tudo de que menos precisava era se atrasar. Pelo canto do olho, percebeu que o homem ainda o seguia com uma garrafa pequena na mão. Amaldiçoou o semáforo de pedestre que se fechou bem na hora que atravessaria e quis se virar na direção do estranho apenas para deixar claro que dispensava companhia. Contudo, quando olhou para trás, percebeu que ele não estava sozinho.

— Naruto, não é?

Os olhos azuis passaram pelo grupo, não identificando nenhum dos cinco presentes. Recuou um passo, o suficiente para o homem que o seguira assentir e gesticular aos demais.

— É, é ele sim. Vamos logo com isso. O chefe pediu para não demorarmos.

Notas finais
Reviews? Recomendações? Estão curtindo? No facebook, eu estou divulgando as atualizações, ideias para novas fics, promoções dos livros e essas coisas, então fica o link para quem quiser: https://www.facebook.com/mypieceofdream/ Ah, e é claro, fica o link para quem quiser meu livro (tá indo autografado rsrsrrs): http://editoradelphi.com/index.php?route=product/product&product_id=50