Jogo de Máscaras

25 Capítulo 25 - Vista sua máscara de bom entendedor


Notas iniciais
Capítulo não betado porque não consegui conter minha ansiedade. Desculpem :x

Naruto havia agradecido aos céus quando sua vó anunciou que faria uma viagem com algumas primas e familiares de que ele mantinha distância. Esperou que a viessem buscar e se despediu com um sorriso no rosto. Já era noite e nem Hinata nem Gaara atendiam os celulares. Estava preocupado. Dirigiu até a casa de Hinata e percebeu a luz da sala e do quarto acesas.

Tocou a campainha e esperou do lado de fora do portão. Tentou ver se havia algum movimento na casa, mas não conseguiu perceber muita coisa. Ligou novamente para o celular da amiga e suspirou pesadamente quando a secretária eletrônica o atendeu. Retirou a chave do bolso e abriu o portão. Seguiu até a porta da casa e a encontrou destrancada.

— Hinata? — chamou, ansioso.

A sala estava vazia. Fechou a porta e caminhou pela casa recém decorada. Sorriu, Hanabi deveria ter passado alguns dias com Hinata e aproveitado para decorar alguns cômodos e, sem bem conhecia a amiga, ela deveria ter ficado mais do que feliz com a presença da irmã mais nova ali.

— Hina? — chamou novamente.

Seu corpo paralisou ao perceber um vaso caído no chão da sala, quebrado. A terra ainda estava espalhada pelo piso, as flores pareciam pisadas e havia duas marcas diferentes de pegadas até a porta. Arregalou os olhos, e o coração disparou na mesma velocidade com a qual ele começou a correr pela casa. Abriu a porta do quarto de Hinata com violência e se deixou encostar na parede e levar a mão ao peito, aliviado, ao encontrar a amiga deitada na cama de costas para si.

— Você podia ter atendido o telefone, Hina... — ele resmungou, e ela o ignorou, puxando a coberta até acima da cabeça.

— Me deixe sozinha...

Naruto franziu o cenho e estudou o quarto ao redor. Também estava decorado e havia algumas fotos novas de Hanabi e Hinata coladas em um quadro metálico na parede.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ao se aproximar e se sentar na ponta da cama.

O celular dela estava sobre o criado mudo, e Naruto o pegou quando a tela brilhou de repente. Havia suas ligações perdidas e uma mensagem de Hanabi: “estou bem, mas acho que ficarei sem celular por um tempo”. O celular estava com volume no máximo, o que mostrava que Hinata havia escolhido ignorá-lo naquele dia.

Levantou-se, dando a volta na cama, e se ajoelhou ao lado de Hinata enquanto tocava a coberta para afastá-la do rosto da amiga. Ela não resistiu, e Naruto baixou o olhar ao vê-la. O rosto estava molhado pelas lágrimas, os olhos avermelhados, alguns fios do cabelo grudavam na face, e ela parecia extremamente cansada, triste. Contudo, além disso, havia uma marca avermelhada no lado direito do rosto, na bochecha, e Naruto a tocou com cuidado enquanto esperava que Hinata parasse de encarar os lençóis e resolvesse lhe explicar o que tinha acontecido.

— Me deixe sozinha... — ela pediu em um fio de voz, tão derrotada que Naruto engoliu em seco ao saber que negaria ao apelo.

— Me explique o que houve. Depois, te deixo sozinha enquanto preparo algo para comermos. O que acha?

— Não estou com fome.

— Hinata...

Ela fechou os olhos, derrubando duas lágrimas que estavam presas. Naruto acariciou-lhe o cabelo, e as mãos dela lentamente se arrastaram pelo colchão para segurarem a camisa que ele vestia. Com cuidado, ele deitou-se ao lado dela e deixou-se ser abraçado. Ela escondeu o rosto no peito dele, encolhida, e, quando ele voltou a lhe acariciar o cabelo, o choro rompeu forte, mais alto que ela previra.

O silêncio que se seguiu após o choro intenso foi confortável, quase que uma dose de paz no meio de uma tempestade. Naruto beijou a testa de Hinata, e ela abriu os olhos, fixando-os na camisa de Naruto para não ter que o encarar enquanto falava.

— Meus pais estiveram aqui — ela disse, baixo. — Eles estavam com uma cópia do meu contrato na Akatuski, Naruto, e vieram aqui gritar todas as coisas possíveis. Minha mãe me bateu. Eles me ofenderam tanto, gritaram tanto... Eu pensei que já não me importava com a opinião deles, mas... quando começaram a falar todas aquelas coisas, eu... — Ela soluçou. — Hanabi estava no quarto, escondida, mas ela não aguentou ouvir tudo e saiu do quarto para me defender. — Riu sem humor. — A coisa piorou então. Eles não sabiam que ela mantinha contato comigo, que estava aqui, e, quando viram.... Meu pai fechou a mão tão forte no braço dela que eu comecei a gritar enquanto tentava fazê-lo parar e acabei o empurrando contra a parede. O vaso ao lado caiu no chão e quebrou... Ele me olhou com tanto ódio, Naruto. Eles obrigaram Hanabi a entrar no carro e me proibiram de chegar perto dela de novo, disseram que chamariam a polícia até, acredita? Ela é minha irmã!

— Sh... Calma... Eles não podem fazer isso, calma. — Abraçou-a com mais força. — E Hanabi é esperta, vai dar um jeito de vocês continuarem a se falar.

— Tiraram o celular dela...

— Eu vi, mas tenho certeza de que ela vai dar um jeito — Naruto garantiu. — Nem que a gente dê um celular novo para ela usar escondido.

— Pensei que eles nunca mais fossem aparecer na minha frente... Por que eles tinham aquele contrato? Como eles conseguiram? Aquilo era só para eu e Jiraya termos acesso!

— A minha faculdade também recebeu uma cópia do meu — Naruto confessou, e Hinata se afastou dele de súbito.

Os olhos perolados piscaram, e ela se sentou enquanto limpava o rosto com as costas das mãos.

— O quê? Por quê? — ela perguntou sem entender.

Naruto inspirou profundamente e coçou a nuca ao se sentar. Sentia-se culpado. Hinata estava sofrendo, um efeito colateral por ele ter provocado Hiashi. Como dizer a ela? Como explicar sem que se sentisse o pior dos amigos? Retirou o celular do bolso e procurou a gravação que havia feito na casa de Neji. Colocou o celular no centro da cama e deu play enquanto não conseguia encarar a amiga diretamente.

A expressão dela passou de surpresa para indignada enquanto a gravação prosseguia e, no fim, ela se levantou.

— Hinata...

— Pare — ela mandou, séria, mas sem soar rude. — Não acredito que isso tudo está acontecendo por causa de Neji... Eu te avisei que não devia se envolver com ele! Pelo amor de Deus, Naruto, eu cansei de repetir para você que Neji ainda iria te causar problemas!

— Eu sei, mas, Hina-

— Não! — ela o interrompeu, exasperada. — Você não sabe! Você acha que a gente vive em um conto de fadas! Acha que o mundo é uma fantasia onde finais felizes existem para todos, mas o mundo não gira assim, Naruto! Você vive sua vida, estuda e age como se não se importasse com quem se deita à noite para pagar suas contas, confia cegamente em pessoas que mal conhece, se mete em problemas que não são seus e, para piorar, arrasta a mim e a Gaara junto! O quão ingênuo você é para acreditar que Hiashi não iria atrás de você depois de ter ido até o amante da primeira dama? — ela elevou a voz sem perceber. — Onde conseguiu a gravação?

Naruto pegou o celular e o guardou no bolso ao se levantar.

— Naruto, onde você conseguiu essa gravação? — ela repetiu, enfática.

— Na casa de Neji.

— Você foi até lá? Depois de tudo?

— Eu quis esclarecer tudo! — ele respondeu, magoado. — Quis falar com Neji e terminar de uma vez com essa confusão, deixar claro que não mais existiria algo entre nós e que não queria mais interferências na minha vida. Só que ele não estava e acabei ouvindo a conversa de Hiashi e Orochimaru...

— Meu Deus... — Hinata murmurou com as mãos na cabeça. — Então, vazaram nossos contratos para ferrarem nossas vidas... E Gaara?

— Ele não atende o telefone, assim como você não estava atendendo.

— Não, não foi isso que quis dizer — ela se corrigiu e franziu o cenho, preocupada. — Não tem para quem vazarem o contrato dele, ele e a família não possuem mais contato, nem sei se a mãe dele está viva.

Naruto refletiu por um momento. Se a ideia fosse destruir as vidas pessoais das pessoas que ele amava, Gaara também seria atingido, mas como? De fato, a família de Gaara não mantinha contato algum com ele, não havia muitos amigos e Gaara se mantinha isolado do mundo na maior parte do tempo.

— Onde ele está agora? — Hinata perguntou.

— Se eu não me engano, hoje ele iria para a Akatsuki.

— Então, nós vamos para lá — ela decidiu. — Vou tomar um banho e me vestir, não demoro. E nós vamos conversar depois sobre Neji e aquele jornalista, ouviu? Eu, você e Gaara, já que nos colocou nessa confusão.

Naruto concordou em silêncio e esperou que Hinata entrasse no banheiro para então se jogar na cala dela e suspirar pesadamente. Encarou a tela do celular e abriu a conversa que estava tendo com Sasuke horas antes. Passou os olhos pelas fotos que Sasuke havia lhe mandado e sorriu, com certa malícia, ao vê-las novamente. Como sempre fazia com fotos daquele tipo, selecionou-as e as apagou do celular, não dando qualquer chance de outra pessoa ver aquelas imagens tão... íntimas. Apagou também as que havia mandado para Sasuke e só então se pôs a digitar o que realmente importava no momento.

“Hiashi divulgou o contrato de Hinata na Akatsuki para a família dela. Tome cuidado”, digitou rapidamente. E o som do aparelho não demorou para indicar uma resposta recebida:

“Sakura recebeu uma cópia dele também. Onde você está?”

“Com Hinata”

“Cuidado, não saia sozinho à noite. Hiashi pode não se contentar em só te mandar ao hospital dessa vez”

“Não se preocupe. Qualquer coisa, vou para sua casa ;)”

“Não seria má ideia”

Naruto riu de leve e suspirou enquanto abraçava o travesseiro de Hinata, sem tirar os olhos da última mensagem. Hinata estava certa, ele era ingênuo, idiota, burro talvez, porque, apesar de tudo o que estava acontecendo, ainda queria ficar perto de Sasuke... Mesmo que aquela confusão toda fosse por Sasuke tê-lo convencido a ir até Kiba, não conseguia o culpar exatamente; para ser sincero, lamentava que Hinata e que Gaara estivessem sofrendo as consequências, mas, se fosse só ele, Naruto, a recebê-las, faria tudo de novo. Queria aquilo resolvido, queria entender por que Neji mentira e se deixara corromper daquele modo...

“Preciso de te ver. Pode ser amanhã?” digitou apressadamente e enviou antes que a coragem desaparecesse.

“Tenho que ir a um lugar amanhã. Se não se importar de ir comigo...”

“Irei. Que horas?” perguntou, sem de fato pensar.

“Passo na sua casa às onze. Esteja pronto”

— Naruto? — Hinata o chamou pela terceira vez, enfim conseguindo a atenção do amigo. — Vamos?

Ele levantou ao vê-la já vestida e com a bolsa no ombro direito. Assentiu e bloqueou o celular.

No carro, não conversaram. Hinata estava chateada, muito, mais do que um dia imaginou que poderia ficar com Naruto. Entendia que a culpa não era especificamente dele, contudo, isso ainda não era o bastante para acalmar a raiva por ter visto a irmã sendo tirada de si de forma tão cruel. As palavras de seus pais ressoavam em sua cabeça, como uma maldição, uma terrível maldição... Além disso, estava com um pressentimento ruim à medida que se aproximava da Akatsuki.

Ao estacionar o carro, olhou ao redor, confirmando que parara em uma área movimentada e que ninguém poderia simplesmente cercar Naruto e ela ali sem levantar suspeitas. Entraram no estabelecimento, caminhando diretamente para o quarto privado de Gaara, mas sem o encontrar ali.

­— Pelo horário, ele deve estar se apresentando — Naruto comentou. — Vamos falar com Jiraya primeiro.

Hinata concordou e fechou a porta do quarto. Subiram as escadas em silêncio, algumas mulheres passaram por eles, apressadas, e alguns seguranças pareciam discutir com elas enquanto as seguiam. Nada fora do normal.

Diferente do que a educação pedia, Naruto não bateu na porta do escritório de Jiraya. Ele abriu a porta e, então, arregalou os olhos, parou e limpou a garganta para chamar atenção do grupo presente.

— Hinata — ele chamou ao reconhecer Sai, o homem que havia coordenado a surra que tinha levado sob ordens de Hiashi. —, chame os seguranças e procure Gaara.

Jiraya estava de pé, em frente à sua mesa, e levava a mão a fronte, como se estivesse em uma situação delicada. Do outro lado, Sai e os homens que o acompanhavam estavam calmos, e um deles deixou um breve riso escapar ao ouvir o nome de Gaara ser pronunciado.

Naruto viu Hinata arregalar os olhos e sair apressada ao compreender o problema.

— Bem, isso não nos deixa dúvidas de quem ofereceu a Hiashi nossos contratos — Naruto acusou, irritado.

— Oferecer não é o termo correto — Jiraya o corrigiu. — Digamos que não tive como recusar a oferta.

As mãos dos homens que acompanhavam Sai estavam vermelhas, eles possuíam diversos machucados pelo rosto e pareciam mudar o peso de uma perna para outra com frequência. Um em particular estava com uma faixa em torno da perna, e dava muito bem para ver a mancha de sangue nela. Aquilo eram marcas de briga, uma briga bem feia e perigosa, e Naruto engoliu em seco ao pensar em como Gaara estaria.

— Avisem Hiashi que ele vai se arrepender por isso — ameaçou, baixo, sentindo a raiva se manifestar aos poucos. — Quanto a você — Olhou para Jiraya. —, eu, Hinata e Gaara nos demitimos.

— Isso é quebra de contrato, Naruto — Jiraya gritou quando Naruto lhe deu às costas

— É, eu sei. — Olhou-o com nojo por sobre os ombros. — Mas também sei que a segurança de Gaara era uma cláusula do contrato que você quebrou! Assim como o sigilo do meu contrato e o de Hinata! Podemos levar isso adiante, aos advogados, caso queira nos cobrar alguma multa, duvido que Hiashi vá gostar de ter o caso exposto, não é? Espero mesmo que tenha feito um bom negócio, Jiraya...

Naruto saiu da sala e bateu a porta com força. Correu pelos corredores da Akatsuki, precisava encontrar Gaara, saber como eles estava. Apesar de o amigo saber lutar muito melhor que ele, ainda assim temia que algo houvesse acontecido com ele.

— Naruto! — Ouviu a voz de Hinata no térreo e desceu as escadas depressa. — Ele não está aqui. Os seguranças já vasculharam cada quarto pelas câmeras e...

— Gravaram Gaara no quarto com Sai? — perguntou, afoito, e Hinata lhe mostrou um pendrive.

— Só o começo. Alguém desligou a câmera quando eles começaram a lutar e desativaram o botão de segurança do quarto também — ela falou, trêmula. — Tem uma imagem da sala de apresentação. Parece que Gaara correu para ela para fugir, depois uma outra câmera o mostrou do lado de fora da Akatsuki. Ele pegou um táxi e achei o telefone dele no quarto!

Naruto processou as informações e pediu para que Hinata guardasse bem o pendrive no bolso. Passou os braços pelos ombros dela e os conduziu o mais depressa possível para fora dali até o carro. Pegou as chaves da mão dela e, assim que ela se sentou no banco e pôs o cinto, deu partida no veículo.

— Como ele estava? — indagou, apreensivo.

— Machucado. O braço dele... acho que quebraram. Ele vomitou na saída da Akatsuki. Não dava para ver bem, o vídeo estava escuro.

— Ele não deve ter ido longe. Qual o horário do vídeo?

— Faz exatos trinta minutos que ele pegou o táxi. Ele tem que ir para o hospital...

— Liga para a casa dele, a minha ou a sua. Ele pode ter ido para uma delas — Naruto falou e acelerou o carro, ignorando o farol vermelho à frente.

Gaara era muito melhor que ele em brigas, provavelmente achara uma brecha para conseguir fugir antes que se machucasse seriamente. Mesmo assim, as ligações em vão o deixavam desesperado e foi assim que conseguiu estacionar o carro na frente da casa do amigo em menos tempo e com mais multas do que o comum.

Hinata já havia aberto a porta do carro antes mesmo de ele estar parado, e Naruto a viu tirar as chaves e destrancar o portão e a porta da frente sem nem se importar de trancá-los de volta.

— Gaara! Gaara! — ela gritou ao encontrá-lo deitado no chão da sala. — Naruto! Aqui! Acenda a luz!

— Para que tanta gritaria? — Gaara ironizou, com um sorriso de canto.

Ele estava deitado no chão da sala, acordado, com um saco de gelo contra o rosto e o braço esquerdo em um ângulo estranho e completamente fora da anatomia original. Estava sem camisa, o que deixava à vista os hematomas e um pequeno corte na altura do abdômen que Hinata observava atônita.

— Hey, Hinata... relaxa, acredite em mim quando digo que enfiei a faca que fez esse corte em um daqueles filhos da puta.

Ela não pareceu se acalmar com aquilo, e Naruto se abaixou para abraçá-la enquanto trocava um demorado olhar com Gaara.

— Você precisa de um hospital.

— Eu preciso é chutar a sua bunda por isso — Gaara rebateu, irritado.

— Eu sei — Naruto sorriu, sem graça. — Mas antes vamos pro hospital, ok? E relaxa que eu pago. Aliás, é... falando em dinheiro...

— O quê? — Gaara indagou e retirou o gelo do rosto, abrindo e fechando a boca com dor.

— Eu pedi demissão... para nós três... Jiraya não vai nos cobrar quebra de contrato até porque ele fez isso antes, então, eu meio que disse que nós três nos demitimos.

Gaara suspirou e voltou a colocar o gelo no rosto enquanto Hinata afundava as mãos nos cabelos e os bagunçava na tentativa de organizar os pensamentos.

— Não é como se desse para ficar lá depois de hoje — ela sussurrou.

— Não é como se quiséssemos também — Gaara acrescentou e estendeu o braço bom para Naruto para que o ajudasse a se sentar. — Vocês pegaram meu celular?

— Sim. — Hinata entregou a ele.

— Eu vou jogar uma água no corpo e então vamos ao hospital. Depois conversamos sobre isso tudo. — Apoiou-se no sofá e se levantou do chão. — Ah, e, Naruto, ligue para aquele jornalista.

—Sasuke? Por quê? — perguntou, curioso.

— Por quê? Porque foram vocês dois que me colocaram nessa situação com Hiashi, então quero, e muito, saber como vão arrumar essa merda.

— Pode ser amanhã? Vou... — Olhou discretamente para Hinata. — Sair com ele amanhã.

Gaara viu Hinata encarar Naruto com descrença e suspirou. Pigarreou para atrair a atenção para si novamente.

— Deixem a discussão pro hospital, pelo menos assim não morreremos de tédio — ironizou de mau humor. — Pode sim ser amanhã, Naruto. Quanto antes começarmos, antes nos livramos de Neji e de qualquer outro que esteja com ele.

Naruto assentiu e, mais tarde, já no hospital, enquanto Hinata estava com Gaara na sala de gesso para imobilizarem o braço dele, ele sentou-se, isolado, olhando para o ambiente branco e monótono a sua volta. Tudo estava desabando, sua faculdade, a segurança de seus amigos, seu emprego, tudo... Mas, se fosse cair daquele jeito, levaria Hiashi, Neji, e quem mais fosse junto.

* * *

Sasuke ouviu o porteiro do condomínio anunciar sua chegada e mal terminou de ouvir o que ele dizia antes de seguir direto ao elevador. Itachi estava ao seu lado, havia acabado de ligar para a casa de Sakura, e, só quando ela atendeu telefone, ele desistiu de ir até lá verificar se ela havia chego bem.

Itachi entrou no elevador com o irmão e franziu o cenho quando Sasuke apertou um dos últimos botões no painel. Esperaram, impacientemente, até que o andar chegou. Duas batidas na porta foram mais do que o suficiente para que Deidara abrisse a porta e os deixasse entrar no amplo apartamento.

— O que aconteceu com a sua cara? — Sasuke perguntou, surpreso, quando viu o lábio inchado e cortado de Deidara assim como o leve roxo na maçã do rosto.

— Cortesia sua me disseram — Deidara respondeu irritado ao fechar e trancar a porta.

Itachi colocou as mãos nos bolsos enquanto Sasuke e Deidara conversavam. Havia conhecido Deidara por meio de Sasuke e tinha sido essa rápida amizade entre eles que fez com que Deidara passasse a ajudá-lo a manter Sasuke sob vigilância. Mais de uma vez havia recebido uma ligação de Deidara para avisar que Sasuke estava começando a exagerar no trabalho ou então a ser imprudente. E, mesmo com todos esses anos de amizade, era a primeira vez que entrava no apartamento dele.

De fato, comparado ao apartamento de Sakura, Deidara vivia em um palácio. Era um apartamento grande, com móveis extravagantes que combinavam com a personalidade do dono e quadros pelos corredores. Reconheceu os artistas, Deidara já havia lhe falado da maioria deles como Ino Yamanaka, Sai Uzura, Temari Sabaku, mas parou na frente de dois desconhecidos. Um dos quadros era realmente belo, os traços eram impecáveis e combinavam com os outros que havia na casa, mas o outro... O que era aquilo? Não parecia conversar com nenhum dos quadros ao redor e estava ao centro, em posição de destaque. Deidara, às vezes, era excêntrico demais.

Caminhou de volta à sala e concordou silenciosamente quando Sasuke lhe pediu para olhar os machucados de Deidara.

— O que houve? — Itachi perguntou ao se sentar na frente dele.

— Estava voltando para casa quando dois caras me pararam na rua. Achei que seria um assalto, mas eles começaram a me bater do nada. Depois, disseram que era para “saldar o débito do meu amigo curioso”.

Itachi olhou tocou devagar as áreas feridas e negou com a cabeça.

— Gelo. Tem sorte, já tive brigas na faculdade piores — debochou

Deidara bufou e pegou o celular que tocava, espiou o número rapidamente e recusou a chamada.

— Por que vieram aqui? Aconteceu algo? — ele indagou, recusando mais uma vez a chamada.

— Pode atender, a gente espera — Sasuke respondeu, incomodado.

— Não... É apenas um problema pequeno. Depois resolvo. — Ele sorriu forçado, e tanto Itachi quanto Sasuke não acreditaram. — Vamos logo! Não temos a noite toda.

— Quero que você veja se consegue rastrear o IP desse e-mail — Sasuke falou ao mostrar a tela do celular de Sakura.

— Sakura sabe disso? — Deidara perguntou e balançou o aparelho.

Itachi o viu se ajeitar no sofá quando ele começou a ler e percebeu o modo como o sorriso desapareceu do rosto dele à medida que deslizava ao dedo pela tela. Ele bloqueou o celular e fitou o chão, em silêncio, com o cenho franzido no que Itachi deduziu ser preocupação e medo.

— Sakura já leu, não é? E ela não sabia sobre Hinata, certo, Sasuke? Ela deve estar bem chateada por descobrir desse modo.

— Algo assim — Sasuke respondeu evasivo. — Pode rastrear o IP? Quero saber quem enviou o e-mail.

Deidara balançou a cabeça de um lado ao outro em um gesto nervoso, esticou o braço para pegar o notebook esquecido sobre algumas almofadas e estalou a língua no céu da boca.

— Pode demorar — ele avisou.

— Não tem problema — Itachi respondeu e tocou Sasuke no ombro. — Vamos vasculhar sua cozinha um pouco, tudo bem? Acabamos saindo de casa sem comer.

Deidara assentiu, e Sasuke não contestou Itachi quando percebeu que o irmão queria falar com ele a sós. Virou-se para Itachi assim que entraram na cozinha e se deparou com o olhar de censura do irmão antes de ele lhe acusar:

— Não acredito que contou a Deidara sobre Hinata e Sakura, Sasuke!

— O quê? — Piscou, confuso. — Não falei nada sobre elas para ele!

— Sasuke, em tese, Sakura só disse para você e para mim que é lésbica, ela não queria contar para Deidara ainda e não tem como ele deduzir isso só por ela ter recebido o contrato de Hinata por e-mail! — ele sussurrou com raiva.

— Eu. Não. Contei. Nada — Sasuke falou, pausadamente. — Por que eu contaria? Aliás, que diferença o fato de ela ser lésbica faz na minha vida a ponto de eu ficar falando disso para outros?

Itachi soltou o ar pela boca e andou pela cozinha enquanto pensava até que, de repente, uma imagem específica de Sakura lhe surgiu na mente.

— O quadro... — sussurrou. — Fique aqui. Diga a Deidara que fui ao banheiro se ele perguntar.

Itachi não esperou a resposta do irmão e saiu pelo corredor até onde estavam expostos os quadros de Deidara. Pegou o celular do bolso e procurou as fotos que Sakura lhe havia enviado no dia em que ela e Deidara tinham ido em uma exposição de arte. Lembrava-se muito bem de Sakura ter odiado a exposição e de ter enviado algumas fotos do local para ele numa das várias vezes que Deidara a tinha deixado sozinha. Uma foto em particular era a que queria. Sakura havia reclamado que Deidara tinha passado horas na frente do notebook querendo comprar um quadro, que ele havia falado por boa parte da noite sobre como a pintura era bonita, mas que, quando ela chegou na exposição e viu o quadro, não era grande coisa. Para provar, ela havia lhe enviado uma foto. Agora, Itachi tinha quase certeza de que era o mesmo quadro que estava à sua frente.

Achou as fotos do evento e passou rapidamente até a que queria. Praguejou e xingou baixo ao comparar as imagens e atestar que, sim, era a mesma pintura, a original, uma que Deidara não teria condições nenhuma de pagar e que Itachi queria entender como estava ali.

Guardou o celular no bolso e, como bem sabia fazer, colocou a máscara de serenidade no rosto enquanto caminhava até a sala. Deidara estava de pé, de costas e ao celular, conversando em voz baixa e parecia nervoso. Não conseguia ouvi-lo e lamentou que Deidara o tivesse visto pelo reflexo na janela e, então, finalizado a ligação.

— Estamos te atrapalhando, não é? — Itachi perguntou e sorriu, sem jeito. — Deixa isso quieto, eu disse para Sasuke que não deveríamos vir tão tarde — acrescentou e se aproximou, ligeiro, para pegar o celular de Sakura sobre o sofá.

— Ah, não, não se preocupe. — Deidara deu de ombros e estendeu a mão. — Eu já resolvi o que precisava, posso ver o celular enquanto vocês jantam, que tal?

— Negativo, você e Sasuke precisam aprender a palavra “descanso”, sabia? — Riu, suave. — Sasuke! Vamos embora — gritou. — Qualquer coisa, voltamos amanhã, Deidara.

Sasuke apareceu na sala confuso, mas disfarçou a dúvida assim que percebeu o modo artificial como Itachi estava agindo. Assim, fez o mesmo e se despediu de Deidara ainda sem entender o que se passava. Subiu na moto e esperou que Itachi fizesse o mesmo atrás de si.

— Explico em casa — Itachi sussurrou ao colocar o capacete.

Sasuke não precisou de mais nada antes de acelerar a moto. Conhecia o irmão. Itachi havia descoberto ou entendido algo e bastava esperar para que ele lhe contasse.

* * *

Neji tinha que ser sincero: aquela ideia não lhe agradava. A conversa com o pai de Ten-Ten havia sido longa, extremamente longa. A mãe dela não parava de interromper, apontando todos os erros do suposto plano, mostrando cada detalhe que poderia levar tudo por água abaixo e, enquanto isso, ele não sabia mais o que dizer. Ten-Ten, ao seu lado, segurava sua mão gentilmente, garantindo que estava tudo bem, já seus olhos... A expressão dela era cansada, os olhos baixos, parecia uma garota perdida e não a mulher decidida com quem era casado. Contudo, não demorou a entender o porquê daquilo. O pai dela parecia se compadecer, e muito, pela filha...

Toda vez que o nome Hiashi era dito na mesa, ele se levantava, xingava alto e maldizia o dia em que tinha prometido o ajudar. A discussão toda levou horas, e nada fora resolvido. Só uma coisa estava clara: os pais de Ten-Ten odiavam Hiashi e a apoiariam no que ela precisasse ou no que planejasse.

Massageou as têmporas, exausto. Queria ir para casa, mas saber que Kaguya e Orochimaru haviam ido para lá conversar com Hiashi lhe tirara qualquer ânimo. Olhou o celular mais uma vez e sentiu raiva pelo registro das ligações de Naruto.

— Preocupado? — Ouviu Ten-Ten perguntar ao entrar no banheiro.

Moveu-se na banheira, acomodando-se melhor, e estendeu a mão para ela. Ten-Ten retirou o roupão que vestia e entrou na banheira com cuidado, sentando-se entre as pernas de Neji e deitando a cabeça no ombro dele.

— Estressado — Neji respondeu e depositou um beijo leve no cabelo dela.

— Minha mãe tem o dom de estressar a todos, normal. — Ela sorriu, cansada. — Mas não negue que ela é uma boa aliada.

Ele a abraçou e tombou a cabeça no ombro dela, suspirando quando sentiu os dedos dela em seus cabelos. Por hábito já, sua mão repousou sobre a barriga dela e o polegar passou a fazer círculos na região.

— Quero te perguntar algo... — ele murmurou contra a pele dela.

— Sei o que quer me perguntar — ela disse, pousando uma mão sobre a dele.

— Irá me poupar a pergunta? — ele sussurrou, inseguro.

Ten-Ten se virou, com cuidado, e sentou sobre as coxas dele, os braços passaram pelos ombros de Neji até que as mãos se perdessem nos cabelos castanhos lisos dele.

— Qual resposta você quer ouvir? — ela perguntou, séria, e Neji apertou-lhe a cintura, trazendo-a para mais perto.

— Não é óbvio? — Ele pareceu confuso.

— Não. Você não queria isso, então como saber qual resposta você quer ouvir?

— Não me importo muito com a resposta para ser sincero, será nosso afinal, é mais curiosidade. E, é claro, não nego que ficarei mais contente se não tiver que aturar Kiba, mas, se ele for o pai... prometo não falar mal dele... na maior parte do tempo.

— Não durmo com Kiba há mais de dois meses, Neji — ela respondeu. — É seu.

A expressão dele suavizou instantaneamente, e Ten-Ten viu o sorriso discreto que lhe moldou os lábios.

— Pensei que não queria... — ela falou, baixo.

— Não era a melhor hora, mas agora já não há como voltar atrás, há? E-

Ele não terminou a frase. A boca de Ten-Ten havia se colado a dele em um beijo intenso, desesperado e profundo. As mãos dela seguraram seus cabelos, e ela colou ainda mais os corpos enquanto o beijava, aliviada. Ela queria aquele filho, mas não só... ela queria que Neji amasse aquela criança porque ela os amava e não queria colocar uma mácula naquela relação.

Neji correspondeu ao beijo e, quando Ten-Ten se afastou, rindo de alívio, entendeu a preocupação dela. Beijou-a de leve e depois a abraçou com força.

— Boba... — falou e encostou a testa à dela para poder encará-la nos olhos. — Eu sempre vou amar tudo que lembrar você, principalmente se for um filho nosso. Você é minha aliada, amiga, amante, confidente, tudo, estamos juntos nessa.

Ten-Ten deixou-se ser conduzida novamente aos braços de Neji, deitando a cabeça no ombro dele.

— Amanhã, não terei como estar em casa à tarde e acho que Hiashi estará lá te esperando — ele anunciou.

— Não se preocupe, ficarei bem. Se Hiashi inventar qualquer coisa, darei um jeito de escapar. Mas mantenha o celular ligado.

— Como quiser. Mais algum pedido?

— Sim. — Ela sorriu contornando as linhas do queixo dele com a ponta dos dedos. — Me beije.

Neji sorriu de canto e acariciou o rosto dela antes de se inclinar para perto dos lábios.

— Com prazer...

Notas finais
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