Jogo de Máscaras
2 Capítulo 2 - Tire sua máscara de inocente
Notas iniciais
Naruto corria pelos corredores da faculdade como se sua vida dependesse disso. E dependia. Se chegasse atrasado mais uma vez, reprovaria na matéria de Direitos Intelectuais por falta. O terceiro ano da faculdade estava o matando.
Céus, eram seis e quarenta e três... Daria tempo, tinha que dar!
Chegou à sala às seis e cinquenta e seis. Suspirou aliviado pela ausência doo professor e se arrastou até a carteira onde jogou sua mochila. Sentou-se, debruçando-se sobre a mochila e deitando a cabeça sobre os braços. Estava exausto naquela sexta-feira, exausto e dolorido. Se não fosse por sua vó a bater na porta do quarto, duvidava que acordasse a tempo para a aula. Para piorar, estava insatisfeito e de mau humor. Havia esperado, na noite passada, o homem estranho de máscara vermelha o escolher, havia mesmo se interessado por ele! Por aqueles olhos quentes e desejosos, por aquela postura elegante e controlada que emanava uma sensação de auto controle. Mas não. O estranho havia ido embora e abandonado o leilão, deixando Naruto com um cliente que apenas o aborreceu a noite toda.
Naruto Uzumaki. Tinha completado vinte e cinco anos e trabalhava como acompanhante íntimo há cinco anos na Akatsuki. Não tinha muito o que contar sobre si, perdeu os pais aos quatro anos e passou a morar com Tsunade, sua avó por parte de mãe. Estudou em escola particular, mas uma de péssima qualidade. Não podia culpar sua avó, ela fazia o possível para não o deixar em uma escola pública, entretanto não significava que tivera uma boa educação. Aos dezessete anos, época de vestibular, não passou para nenhuma faculdade pública e não podia nem sonhar em pagar uma particular. Viram? Nada muito diferente da história de um garoto de classe média baixa.
Começou a trabalhar para ajudar sua vó, deixando a faculdade de direito para depois para o desgosto dela. Conseguiu emprego como entregador em um restaurante caro graças a um amigo de Tsunade e foi aí que sua história medíocre começou a ganhar doses de adrenalina.
Com um ano e meio de serviço, recebeu um pedido de entrega para um edifício no nome de Jiraya. Do outro lado da cidade, na zona rica... Assim que parou a moto na frente de um prédio magnífico intitulado Akatsuki, soube que algo estava errado. A começar pelo fato de que estava na área nobre da cidade, na frente de um lugar com certeza caro e sendo revistado, além de ter que passar por um detector de metais logo na entrada. Em seguida, um dos seguranças o acompanhou até uma segunda porta onde uma mulher os atendeu.
Ela era linda, uma das mais bonitas que já havia visto em toda sua vida. Os cabelos pretos azulados caíam lisos até a cintura, os olhos perolados davam a ela certo ar de pureza e delicadeza e o corpo... Forçou-se para não reparar como o vestido preto de alça realçava o busto e o quadril avantajado.
— Ainda não abrimos — ela falou rapidamente, sem o olhar.
O segurança o tinha deixado ali com ela e Naruto só a via procurar algo na sala de recepção, andando descalça de um lado para o outro.
— Restaurante Suna — explicou.
Ela parou finalmente, aproximando-se.
— Está tudo aqui? — ela perguntou, conferindo. — Já vou pegar seu dinheiro, um momento por favor.
Naruto assentiu, distraído, vendo alguns homens andarem no andar de cima e descerem as escadas.
— Hinata? — um homem ruivo a chamou enquanto encarava Naruto com desconfiança. — Garoto novo?
— Não, Sasori — ela respondeu, passando por ele. — Jiraya me pediu para pedir o almoço dele. Ele está vindo para cá para avaliar a nova garota. Pode levar para a sala dele, por favor? — ela retirou as sacolas das mãos de Naruto e as entregou a Sasori. — Venha, vou te acompanhar até a porta.... Qual o seu nome mesmo?
— Naruto.
— Ah, sim, Naruto, vamos?
Naruto a seguiu até a porta de entrada, recebendo o pagamento combinado junto de uma gorjeta.
— Sempre eficiente! — ouviram uma terceira voz dizer.
— Seu almoço já está em sua sala, senhor — Hinata explicou.
Jiraya acenou, agradecendo e olhou para Naruto. O terno cinza, de bom corte, junto da gravata vermelha deixava Naruto desconfortável diante do homem que o analisava.
— Quantos anos você tem?
— Faço dezenove em algumas semanas — Naruto respondeu sem entender.
Jiraya estreitou o olhar e Naruto mais uma vez se sentiu medido por completo e sem nenhum pudor. Jiraya retirou o boné que Naruto usava e sorriu de canto ao pegar um cartão de dentro do bolso do terno.
— Caso queira um novo emprego, ligue par esse número e Hinata pode te marcar uma entrevista. Garanto que vai receber bem mais do que como entregador em um restaurante. Digamos que receberá em uma semana, o que demoraria meses onde está.
E foi isso. Eis o dia. É claro que não ligou. Foi chegar em casa e pesquisar um pouco para descobrir que Akatsuki era um estabelecimento para acompanhantes de luxo e que o convite de emprego era para se tornar mais um dos brinquedos daqueles que não tinham com que gastar.
...
...
Mas a recusa durou bem menos do que imaginava.
Seria nobre dizer que sua vó tinha ficado doente e precisavam de dinheiro ou qualquer história do tipo, mas não. Naruto levou seis meses apenas para simplesmente meter os pés pelas mãos e deixar a curiosidade tomar conta de si.
Ligou para Hinata. Ela se lembrava dele e marcou a entrevista para o dia seguinte pela manhã.
Como devia se vestir? Como devia se apresentar e o que diria? Estava mesmo cogitando aquilo?
Diferente do que tinha imaginado, fora submetido a testes no dia seguinte. Testes de etiqueta, de comportamento, de diálogo, de conhecimento de mundo, de tudo! Até encenar como lidaria com uma viúva aos prantos teve que fazer e apenas com palavras e um copo de água com açúcar. Nada do que havia imaginado. Fez até mesmo um exame médico, de sangue e de resistência física! O que era aquilo afinal?
O dono do lugar, Jiraya se ainda lembrava o nome, sentou-se à sua frente no final das avaliações.
— Você, com certeza, não entende nada de modos e não sabe se portar em ambientes sofisticados — ele analisou os papéis em suas mãos. — Mas você passou. Vou explicar como funciona. Há três tipos de serviços aqui. O primeiro se refere ao de acompanhante social. Sua única função seria ir onde o cliente desejar e postar-se conforme a situação pedir, sempre de forma educada ou como o cliente te instruir. Qualquer contato íntimo não está incluso no pagamento, isso só ocorrerá se você quiser, mas será então uma escolha pessoal e não profissional e a Akatsuki não terá nada com isso. O segundo serviço refere-se ao de modelo.
— Modelo?
— Algo do tipo. Você ficará em uma sala sozinho, mas sendo visto através de uma tela digital pelos clientes. É mais para voyeurs, recebemos muitos. O modelo se exibe para eles, excita-os, mas apenas isso. Não há qualquer outra interação, verbal ou física, entre o modelo e os clientes. Mas é importante ressaltar que seu rosto, independente do trabalho, ficará sempre à mostra. O último serviço é o de acompanhante íntimo. Assim como o modelo, você se exibirá em uma sala vazia onde os clientes te verão. A diferença é que farão lances, disputarão para passar a noite com você. Quem pagar mais, ganha. Sua função então é fazer aquilo que o cliente desejar desde que dentro de suas permissões. Não será obrigado a fazer nada que não quiser. Muitos dos clientes procuram sexo, outros procuram quem os ouça, outros vão querer apenas que continue a se exibir, mas agora de forma privada. Os desejos variam muito. O pagamento é de acordo com o serviço. 40% para o de acompanhante social, 10% para o de modelo e 15% para o de acompanhante íntimo. Mas, para trabalhar aqui, é essencial que todos sejam capazes de exercer a primeira função mesmo que não seja essa sua escolha — Jiraya pausou. — Por isso, se quiser trabalhar aqui, terá que fazer seis meses de aula de etiqueta e algumas outras em tempo integral.
Naruto estava nervoso. As mãos juntas enquanto pensava e tentava assimilar tudo o que fora dito. O primeiro serviço não tinha nada demais pelo que entendera. Se visse pelo lado positivo, seria um ator apenas. Mas seis meses em tempo integral para ter aulas? Como pagaria suas contas?
— Não posso largar meu emprego para ter aulas.
Jiraya encostou-se na cadeira, apoiando o cotovelo no braço dela e o rosto na mão.
— Você é bonito e jovem, tem medidas harmônicas segundo a sua ficha médica. Seria um ótimo modelo — disse analítico. — Tenho duas propostas. Você trabalha dois ou três meses como modelo, faturará algo em torno de seis mil por mês, e então começa as aulas de etiqueta usando esses dezoito mil para se sustentar nesses seis meses de aula. Ou então você começa as aulas agora, pede demissão do restaurante, e eu te pago o valor mensal que você recebe lá enquanto tiver as aulas. Contudo, assinaremos um contrato onde você se compromete a me devolver essa quantia e a trabalhar por, no mínimo, dezoito meses.
Seis mil. De tudo o que Jiraya havia dito, Naruto ainda estava em choque com a quantia que ressoava em seus ouvidos. Riu com nervosismo, passando a mão pelos cabelos em um gesto ansioso enquanto mantinha os olhos azuis presos às próprias mãos. Aquilo só podia ser brincadeira... Se como “modelo” ganharia aquele absurdo, um garoto de programa e um acompanhante social ganhavam quanto? Além disso, existia gente para pagar aquilo? Existia mesmo alguém disponível a gastar tanto dinheiro assim com aquele tipo de lugar para uma única noite?
Engoliu em seco, sua perna não parava de tremer compulsivamente, fazendo um barulho contínuo e irritante que o homem a sua frente parecia ignorar. Toda a moral que tinha carregado pela vida toda estava em xeque. Tudo em si gritava para recusar a proposta, cair em si e sair dali o mais rápido possível com algum insulto indignado. Mas... estava indignado? Estranhamente, não se sentia tão indignado ou ultrajado quando achava que se sentiria.
O que sua avó pensaria? Não. Ela não podia saber, ela não podia nunca nem sonhar com aquilo. Mas saberia como? Por quem? Aquele lugar não possuía ligação alguma com sua vida! As pessoas que frequentavam ali nunca nem ao menos deveriam visitar lugares como onde ele morava. Mundos completamente diferentes! A começar pela localização do próprio estabelecimento. Zona ria da cidade, um prédio discreto e luxuoso. Aliás, como um lugar assim pediu comida em um restaurante da periferia?
Enfim, sua avó não saberia. Não tinha nem como. Contudo como explicar o dinheiro? Como explicar a demissão? Como explicar a mudança no comportamento? As aulas?
Apertou uma mão na outra, franzindo o cenho. Mordeu o lábio, confuso, indeciso.
— Esse é o contrato — Jiraya se pronunciou. — Vou deixá-lo sozinho para que leia e se decida.
Naruto respirou aliviado quando Jiraya saiu da sala. Levou as mãos ao rosto, inspirando profundamente. Pegou o contrato na mesa e tentou ignorar o fato de que tremia.
Teria pagamento depositado em conta bancária em seu nome todo dia cinco de cada mês. Exames médicos ocorriam todas as segundas de manhã, incluindo exame de sangue. Teria auxílio em casos de agressão e suporte em processos contra o cliente se ele o obrigasse a algo. Os dias de trabalho variavam com o tipo de serviço, mas não possuíam dias obrigatórios, possuíam dias mínimos de serviço.
É... Muito bom para ser verdade. Tinha que ter algo errado. E tinha! Estava cogitando se vender! O que os outros diriam, como o veriam?
— Com licença — ele ouviu uma voz familiar se pronunciar e olhou para trás assustado.
Hinata sorriu, calma, aproximando-se com uma bandeja que colocou sobre à mesa.
— Quer algo? Trouxe café, chá e água. Jiraya às vezes se esquece de oferecer isso durante a conversa.
Naruto a mediu sem querer. O que será que ela fazia ali, naquele lugar? Ela tinha uma aparência tão delicada, tão doce, não conseguia a imaginar trabalhando com aquele tipo de coisa.
— Água.
— Nervoso? — ela riu de leve. — Depois de um tempo, você se acostuma com... com tudo isso. Não dá para aceitar sem fazer parte e conhecer nosso mundo.
— Posso perguntar o que você faz?
— Sou acompanhante social e, quando tenho tempo livre, ajudo Jiraya com a organização da equipe. E você? Se decidindo?
— Não quero dormir com ninguém — respondeu afoito mesmo que essa não tenha sido a pergunta.
Hinata arregalou os olhos, rindo com leveza enquanto entregava o copo de água a Naruto.
— É só colocar isso na sua ficha. Você precisa preencher uma lista de negações e permissões — aproximou-se, pegando o contrato das mãos dele e o folheando. — Aqui, vê? Tem uma lista pronta já. Você marca sim ou não.
— Eu tenho que dizer se deixo ser amarrado e espancado? — piscou atônito.
— Sim. Há frequentadores de BDSM aqui. E não é espancado, Naruto, não confunda. Essa lista serve para a sua segurança e a do cliente. No caso de acompanhantes íntimos, quando o cliente for dar lances no leilão, ele terá acesso a essa lista de negação e permissões. Assim, ele escolhe se quer mesmo dar o lance ou não, ele verifica se você se enquadra no que ele procura. E, é claro, garante que ele saiba exatamente o que você permite e, mais importante ainda, o que você não permite.
— Obrigado pelas explicações, Hinata. Eu sempre me esqueço dessa parte — Jiraya se pronunciou ao retornar, contornando a mesa para se sentar. — Pode me servir um café, Hinata?
Ela sorriu, assentindo.
— E então, Naruto, trabalhará conosco?
A decisão já estava tomada e parecia que todos na sala sabiam disso. Havia sido desse modo, então, que aceitara trabalhar os três primeiros meses como modelo. Com sorte, passaria a acompanhante social rapidamente.
No primeiro dia no emprego, foi até a Akatsuki às oito da manhã, como mandava o e-mail que recebera, com a máxima relutância, desconfiado e preocupado com o fato de alguém o ver naquela região da cidade apesar da preocupação ser tola e sem sentido. Estava frio, então aproveitou-se disso para colocar o capuz do moletom que usava a fim de esconder parcialmente o rosto. Os seguranças o revistaram, passou pelo detector de metais e Hinata o recebeu na segunda porta.
Ela estava diferente. O cabelo se encontrava ondulado, com um volume gracioso, e a maquiagem era simples, mas dava destaque aos olhos e à boca coberta por um batom vinho em tom escuro. Vestia um vestido creme longo, preso ao pescoço somente, sem alças, e delicadamente preso logo abaixo do busto. Bonita e elegante.
— Você veio — Hinata sorriu, abrindo espaço para que ele entrasse de fato. — Infelizmente, não vou poder te mostrar o local. Um cliente está vindo me buscar para irmos a uma exposição de arte. Mas vou te deixar com um amigo — ela o pegou pela mão. — Ele vai te mostrar tudo e responder suas dúvidas.
Naruto relaxou um pouco, passando a mão pela cabeça para se livrar do capuz. Hinata o levou até o outro lado da sala onde, ao lado da escada, havia uma porta. Ela abriu a bolsa de mão, retirando uma chave prata e abrindo a porta.
— Seguindo esse corredor, terceira porta à esquerda. O nome dele é Gaara. Diga que fui eu que pedi, ele não vai recusar. Agora, tenho que ir — ela consultou o relógio. — Boa sorte e fique tranquilo, você não trabalhará hoje.
Naruto a olhou confuso enquanto ela saía. Gaara? Não trabalharia? Como assim?
Suspirou, inquieto. Caminhou pelo corredor. As mãos suavam à medida que avançava e os olhos não conseguiam passar nada além do nervosismo que sentia e da curiosidade que despertava lentamente. Pelo corredor, havia algumas portas, poucas. Notou uma curva à esquerda e à direita no final dele e se perguntou se haveria mais delas adiante.
Parou na porta indicada por Hinata e respirou fundo, trocando o peso de uma perna para a outra antes de bater. Ouviu os passos do outro lado, quase que arrastados, para então ouvir a voz severa:
— Eu já disse que a Hinata não está, Sasori!
E então a porta se abriu.
— Gaara?
— Você? Ah, merda, o que você está fazendo aqui? Você é o entregador, não é?
Naruto arregalou os olhos. Era... Gaara. Gaara, o filho mais novo expulso de casa do dono do restaurante onde antes trabalhava. Ah, por isso Hinata fez o pedido naquele restaurante! Mas não, esse não era o foco! O foco era o agora, o diante de si, era Gaara!
Não via com frequência os donos do restaurante ou os filhos dele, mas, de vez em quando, eles apareciam com amigos para jantar ou, no caso de Gaara, pediam comida para entregar na casa de quem estivessem. E tinha certeza que o homem que o encarava com irritação era sim o filho caçula do dono do restaurante Suna! Estava mais alto do que se lembrava, mais forte também; os cabelos ruivos estavam espetados e bagunçados, raspados nas laterais. Os olhos verdes eram contornados por lápis de olho preto, ressaltando-os embora a maquiagem estivesse um pouco borrada. Nisso Gaara não havia mudado nada, ainda estava bonito (até mais) do que se lembrava.
— O que está fazendo aqui? — Gaara elevou a voz, dando um passo para frente.
Naruto abriu e fechou a boca, desconcertado, sem dizer nada. Se Gaara estava ali, ele trabalhava ali, certo? Ou não? Não, claro que trabalhava, por que outra razão estaria ali?
— Hinata pediu para você me mostrar o lugar e esclarecer minhas dúvidas — disse, rapidamente, atropelando as palavras umas nas outras.
Gaara o encarou desconfiado, voltando a entrar no cômodo onde estava e procurando o celular com pressa.
— Fique aí. Não te dei permissão para entrar — mandou ao ver Naruto querer segui-lo. — Atende essa merda, Hinata...
— Ela saiu para uma exposição agora a pouco...
Gaara revirou os olhos, desligando o celular e o jogando no que parecia ser uma mesa. Massageou as têmporas, ignorando Naruto à porta.
— Eu odeio quando ela faz isso — resmungou, abrindo uma gaveta da mesa e pegando as chaves que estavam nela. — Vai fazer o que aqui?
Naruto recuou dois passos quando Gaara se aproximou e colocou as mãos nos bolsos da calça de moletom vinho.
— Modelo — respondeu baixo.
— Tá. Vou ser rápido porque daqui a pouco tenho que ir para a faculdade então presta atenção. Aqui ficam salas preparatórias. São salas individuais para todos os que trabalham aqui nessa sede.
— Nessa sede?
— Há outras. Não me interrompa. Como eu dizia, aqui são as salas individuais para todos, independente do que façam. Somos em uns dezesseis ou dezessete, não sei ao certo porque não nos encontramos muito com os outros.
— Por que não?
— Que parte do não interromper você não entendeu? — Gaara o olhou irritado, começando a andar sem esperar que o outro o seguisse. — Não nos encontramos muito porque temos vida fora daqui também. À esquerda, são mais dessas salas e, à direita, é o nosso acesso aos outros andares.
Naruto apressou o passo para conseguir acompanhar Gaara. Subiu os degraus de dois em dois e notou: Gaara estava desconfortável consigo ali, evitava olhá-lo e nem ao menos se virava para falar consigo.
— Pode, por um momento, esquecer que trabalhei para o seu pai e agir normalmente? — resmungou baixo.
Não era para Gaara ouvir na verdade, apenas escapou. Mas tinha sido ouvido.
Gaara estacou no lugar, tirou a mão dos bolsos e massageou a nuca enquanto se virava. Qual era o nome do garoto mesmo? Nem lembrava. Sabia que ele trabalhara para seu pai porque era sempre ele quem entregava a comida que pedia quando ficava até tarde na faculdade. Estalou a língua no céu da boca. Não queria contato com nada que lembrasse seu pai, com nada que o lembrasse da família que o chutara de casa! Mas o garoto parecia tão acuado que se obrigou a respirar mais fundo algumas vezes para se livrar um pouco da irritação.
— Qual seu nome?
— Naruto.
— Ok, Naruto, só não cite mais meu pai de novo, ouviu? Nunca.
Naruto concordou rapidamente e viu Gaara voltar para andar ao seu lado dessa vez.
— É no terceiro andar que trabalhamos. O segundo ficam mais para os acompanhantes físicos. E, antes que faça uma idiotice, as palavras “puta”, “prostituta”, “gigolô”, “garota de programa” ou qualquer variação são proibidas aqui. Extremamente proibidas — ressaltou, sério. — Você vai receber três chaves. Uma é para a porta que dá para o corredor das salas individuais, outra é para sua própria sala, outra é para a sala de apresentação. Vem, vou te mostrar já que estamos fechados.
Naruto o viu tomar a dianteira e o seguiu. Gaara usou uma chave dourada para abrir uma porta discreta que dava acesso a uma sala redonda com uma cadeira ao centro. Andou até lá, olhando tudo ao redor. As paredes eram brancas e havia cinco janelas retangulares de 70cm por 60cm nelas. Aproximou-se. Não dava para ver muito do outro lado já que as luzes de lá estavam apagadas.
— É daqui que...
— Que te assistem? — Gaara completou, cruzando os braços ainda perto da porta de entrada. — Sim.
Naruto cerrou os punhos, correndo os olhos mais uma vez pelo ambiente.
— Relaxa — Gaara sorriu debochado. — Você vai ter um treinamento antes e irá assistir um de nós hoje para entender como funciona.
— Treino? — Naruto quase gaguejou.
— Não achou que aquele velho tarado do Jiraya iria deixar um novato se apresentar sem treino para os riquinhos que vem nos assistir, achou?
Fazia sentido. Fazia muito sentido, mas Naruto não se sentiu muito à vontade quando Gaara o levou até Konan, a mulher que o ajudaria a treinar.
Ah, os treinos. Aquilo havia sido um vexame total, horrível, humilhante! A mulher mais velha havia mostrado como ela fazia, dado dicas, explicado mais de uma vez, mas pelo olhar de desaprovação dela e de Gaara soube que estava fazendo aquilo de uma forma completamente errada.
— Eu tenho aula agora, boa sorte para vocês dois — Gaara enfatizou a palavra “sorte” com deboche. — Volto às três horas caso queira minha ajuda com o novato, Konan.
Konan suspirou, cruzando e descruzando as pernas enquanto encarava Naruto desesperançosa. Era quase duas e meia quando ela bufou e se levantou irritada.
— Você precisa se soltar — ela bagunçou os próprios cabelos curtos azuis. — Toma, coloque os fones, feche os olhos e tente começar desse jeito.
Não. Quer dizer, um pouco. Naruto chegou a ondular o corpo e a iniciar um ou outro movimento mais sensual antes de se lembrar que era observado e travar.
— Desisto — Konan se levantou. — Continue tentando! Eu vou almoçar. Volto em uma hora para ver seu progresso.
Naruto esperou ela sair para se sentar no chão e xingar a si mesmo.
O que estava fazendo ali? Não tinha a mínima chance de aquilo dar certo. O problema não era saber que estava sendo observado como queria dizer que era. Não. O problema era não saber o que as pessoas que o viam estavam pensando. Será que o achavam um depravado? Um vagabundo? Um qualquer sem outra escolha? Tinha medo do julgamento.
Colocou os fones de novo, aumentando o volume e fechando os olhos depois de levantar. A batida eletrônica comandava os passos e cada rebolar. Jogou a cabeça para trás, as batidas da música competindo com a do coração, guiando os movimentos como acontecia quando ia a uma festa qualquer se divertir. Agora, era só fingir que tentava seduzir alguém nessa festa.
Mordeu o lábio, rindo sem graça, deixando que a mão percorresse o próprio pescoço.
“Vá no seu tempo. Os clientes não ligam para isso. Eles só querem te ver, só isso”, foi o que Konan dissera.
Girou os ombros lentamente para trás, um de cada vez, deixando as mãos segurarem a barra do moletom o puxando para baixo com um pouco de força.
“Você tem que tirar a roupa. Enrole, tire as peças devagar, faça-os quererem”.
Abriu os olhos e retirou os fones, desligando a música e girando sobre os calcanhares.
— Para o começo, foi bom — Gaara o surpreendeu, parado encostado na porta. — Tira o moletom, vou te ajudar.
Naruto prendeu a respiração, não obedecendo.
— Konan está almoçando — tentou desconversar.
Gaara não pareceu dar muita atenção àquilo. Colocou a mochila de ombro no chão e tirou a jaqueta pesada que vestia. Pegou o celular, escolhendo uma música e o colocando sobre a cadeira.
— Você não tem que pensar que está dançando, novato — pontuou, encurtando a distância que os separava. — Por acaso é hétero?
— Como é?
— Hétero? Você é hétero? — Gaara repetiu indiferente, ficando na frente do outro e o vendo negar relutante. — Ótimo. Vire de costas.
— Não acho que isso seja necessário, sério, eu...
— Vira logo.
Naruto o obedeceu sem muita confiança, curiosos e apreensivo. Ouviu a música ficar mais alta, batidas fortes, ritmo elétrico. Sentiu uma mão em suas costas, deslizando da nuca à base da coluna, parando em sua cintura onde a outra logo se juntou. A pélvis de Gaara se colou ao seu quadril e a cabeça dele se apoiou momentaneamente em seu ombro. As mãos dele seguraram sua cintura com um pouco mais de força antes de descer às laterais do quadril, obrigando-o a rebolar no ritmo da música. Quando rebolou, a boca de Gaara parou perto de seu ouvido enquanto as mãos seguravam a barra do moletom, deixando clara a sua intenção de arrancá-lo como antes havia pedido a Naruto.
Arfou. Tentou se afastar, contudo Gaara notou e o segurou no lugar, virando-o para si e colando os corpos ao mesmo tempo em que continuava a dançar de modo sensual junto da música. Segurou a nuca de Naruto com uma mão e, com a outra, invadiu o moletom, levantando-o. Rebolou, sorrindo discretamente, arrastando os lábios pelo pescoço dele.
— Não se trata de dança, trata-se de se imaginar sendo tocado — explicou, rouco, vendo a pele do outro se arrepiar. — Levante os braços.
Naruto demorou para assimilar o que tinha sido dito. Baixou o olhar, tentando desviar os verdes que pareciam se divertir com tudo aquilo. Ergueu os braços, ouvindo o coração disparar e sabendo que o rosto enrubescia. Gaara moveu a pélvis contra a sua, chocando os membros de maneira lenta e gostosa. Percebeu o moletom passar por sua cabeça e então semicerrou os lábios de Gaara se fecharem em seu queixo, mordendo de leve antes de apertar com vontade suas nádegas.
Abaixou a cabeça, tentando desse modo diminuir o contato, mas tudo o que conseguiu foi que continuasse a se mover de acordo com a música, passando a mão pelo seu corpo de forma insinuante e parando os lábios em seu ouvido. Arrepiou-se com a respiração dele e sentiu quando os próprios lábios lhe tocaram o rosto devido ao movimento que Gaara fizera.
— Coloque as mãos em meus ombros — Gaara sussurrou arrastando a boca próxima a de Naruto, porém sem beijá-lo. — Você quer — riu baixo, segurando os cabelos da nuca dele para então lhe chupar o lábio inferior sensualmente. — Todos eles querem. É assim, desse modo, insatisfeito, impaciente, querendo mais, que você tem que os deixar — sussurrou, caminhando para frente e fazendo Naruto recuar, preso nos lábios que tocavam sua boca, mas sem nunca o beijar.
Naruto passou a língua pelos lábios, colocando as mãos nos ombros de Gaara como ele havia sugerido. Uma vontade de tocá-lo surgiu, uma vontade de poder acompanhar o ritmo da música como o outro fazia e de se aproveitar para, com isso, sentir o corpo dele. Deixou que seus dedos se infiltrassem nos fios ruivos enquanto Gaara beijava lentamente seu pescoço.
Sua respiração estava acelerada, o corpo, quente e não demorou muito para que gemesse baixo com as mordidas que recebia pelo pescoço e queixo.
— Viu? Faça do modo que estou fazendo com você — Gaara sussurrou, lambendo devagar os lábios de Naruto e o segurando para não o deixar beijá-lo. — Eu não concretizei nada, mas sua imaginação fez questão de me ver te beijando, te tocando onde você está endurecendo, você criou uma expectativa porque eu te dei um pouco de material. E é isso que fazemos. Damos migalhas que ativam a imaginação deles e o resto é fácil.
Naruto o viu se afastar um pouco de si, separando os corpos e retirando as mãos de seu corpo. Simples assim.
— Entendeu?
Ergueu a cabeça, rubro, concordando de pressa apenas para que Gaara saísse dali e o deixasse sozinho com a vergonha que sentia. Maldito.
— Ótimo. Você hoje à noite vai assistir a mim e a Konan como modelos. Tente se lembrar do que eu disse e pratique. Amanhã, se estiver pronto, você começa.
Naruto passou a mão pelos cabelos loiros e girou a cabeça, tentando se livrar da tensão que Gaara havia depositado em si. Viu-o desligar a música e se dirigir à porta, parando no meio do caminho. Gaara balançou a cabeça negativamente antes de girar os calcanhares e parar os olhos verdes novamente no outro. É... não morreria se fizesse o que estava desejando fazer desde que assistira ao outro dançar.
— Só por curiosidade — foi o que Naruto ouviu antes de sentir os lábios de Gaara contra os seus.
A boca era quente, macia, gulosa, e só então Naruto sentiu o piercing que Gaara usava na língua. O beijo era grosseiro, intenso, mas sem cuidado algum. Mesmo assim, só aquele beijo, havia retirado todo o ar de seus pulmões, toda a razão de sua mente, todo o sustento em suas pernas. Aquele havia sido o primeiro, o primeiro de muitos outros.
Naruto se lembrava que, na primeira vez que vira Gaara como modelo, havia acabado com uma ereção dolorida no meio das pernas. Nossa, pensando bem, tirando o desentendimento do começo, ele e Gaara se deram muito bem nos meses seguintes. Era inegável a atração que haviam desenvolvido um pelo outro. Até tentaram um relacionamento, que falhara miseravelmente vale ressaltar. Eram melhores como amigos mesmo. Às vezes, quando o desejo e a atração voltavam, não tinham problema algum em atendê-los de modo intenso e prazeroso.
Isso nos leva a outro ponto: os três meses que Jiraya havia proposto já tinham acabado e agora estava na metade de suas aulas de etiqueta. Como era chato ouvir a professora explicar a diferença entre talheres... Como demorou para aprender a andar com a postura correta e de modo elegante... Como amou as aulas de história, filosofia, geografia política atual e de artes! Ah, essa tinha sido a única parte boa do curso! Apesar de que duvidava que gravaria o nome de todos aqueles pintores famosos antes dos seis meses das aulas se concluírem.
— Não vai mesmo — Gaara disse, entrando em sua sala individual seguido de Naruto que não parava de reclamar. — Até hoje, eu não decorei. A técnica é escolher cinco, de períodos diferente, e qualquer coisa falar algo do tipo “não gosto como esse pinto utilizou os tons mais escuros. Veja, se o compararmos com esse aqui, você verá que ele se utiliza melhor desses mesmos tons”.
Naruto riu, encostando a porta e indo se sentar. As salas individuais eram todas iguais. Uma cama, uma mesa com espelho grande e uma cadeira para as maquiagens e coisas pessoais, uma prateleira para livros e uma pequena cômoda para as roupas casuais.
Gaara se jogou na cama, cada músculo relaxando com o contato com o colchão.
— Você parece exausto — Naruto franziu o cenho, sentando na cama e passando a mão pelos cabelos ruivos do outro. — Ainda com problemas com seu pai?
Gaara revirou os olhos, rejeitando o toque naquele momento e deitando de barriga para cima.
— Ele está morrendo.
— Não fale assim, Gaara — Naruto o repreendeu.
— Não. É sério — Gaara afirmou enfático. — Ele está morrendo, Naruto. Não sei do que, nem quero saber! Mas minha mãe está me mandando mensagem todos os dias para me cobrar uma visita ao maldito!
— Você vai?
— O que? — Gaara riu, ácido. — Ele me botou para fora de casa quando me viu beijar um garoto da faculdade! Imagina se ele soubesse com que eu trabalho, então? Seria ótimo ir lá só para contar isso! Vai que o faz morrer de ataque cardíaco.
— Como veio parar aqui? — Naruto enfim perguntou o que tanto queria saber desde que se tornaram amigos.
— Hinata. Ela estava na mesma faculdade que eu. É claro que tentei algo, né? Mas ela me respondeu com “estou trabalhando, senhor”. Ela estava de acompanhante social para um desses filhinhos de papai. Mas eu insisti. No dia em que eu estava com o garoto que meu pai viu, Hinata estava por perto e presenciou toda a cena. Coração mole do jeito que ela é, foi a primeira a me ajudar a levantar depois do soco que meu pai havia me dado. Expulso de casa e sem dinheiro para pagar a faculdade, ela me trouxe para cá.
— Vai sair um dia?
— Por enquanto, não — respondeu indiferente. — Gosto do que faço. Podem dizer o que quiserem, mas ser modelo ou acompanhante social me dá uma sensação de controle. Como modelo, eu sei que estão todos prestando atenção em mim, pagam para me ver, pagam para que eu os fascine, e eu gosto desse tipo de poder.
Naruto assentiu. Concordava com aquilo. Tinha sido daquele jeito que se sentira! Havia amado saber por Hinata que os mesmos clientes vinham o ver, sem se enjoar de sua exibição! Era algo estranho, talvez vergonhoso para os outros e na primeira vez, mas que não lhe causava mais constrangimento algum.
Foi assim que começou a aceitar o que fazia.
Terminou as aulas e voltou para assinar outro contrato com Jiraya. Trabalharia como acompanhante social e modelo. Não tinha conseguido abrir mão de ser modelo mesmo que não precisasse mais. Não... A sensação de ter todos os olhos voltados a si, de saber que os controlava, era algo que precisava no seu dia a dia. Quando trabalhava como acompanhante social era parecido, mas não a mesma coisa. Ganhava quase a mesma quantia apesar da porcentagem ser maior. Acabou indo a muitos eventos refinados, apertou a mão de pessoas que não acreditava que um dia fosse ver a sua frente.
Tudo mudou.
O dinheiro que levantou o permitiu pagar as dívidas antigas da vó no banco e comprar uma casa em um bairro bom e seguro, mas, ainda assim, um pouco afastado do trabalho. É claro que Tsunade sabia que tinha algo errado, ela era inteligente, mas nunca lhe perguntou nada a não ser:
— Você não está metido em algo perigoso, está?
Fora isso, tudo corria bem, extremamente bem e continuou assim até fazer vinte anos. A campainha de sua casa não parava de tocar, seus cachorros latiam enquanto sua avó saía da sala para atender a porta.
— Gaara?
— Cadê ele? — Gaara perguntou, abalado, ansioso, ao entrar na casa.
— Gaara? O que houve? — Naruto apareceu.
Gaara estava ensopado. A chuva caía forte do lado de fora com força, o que só reforçou a Naruto a ideia de que algo extremamente ruim havia acontecido.
— Vó, nós vamos para o meu quarto, está bem? — Naruto sorriu, calmo, passando o braço pelo ombro de Gaara.
— Vou fazer um chá para vocês.
Naruto arrastou o amigo pela casa, encostando a porta para então vê-lo andar de um lado para o outro com a mão nos cabelos.
— Ele morreu. Meu pai morreu.
— Pensei que não ligasse para isso — Naruto estranhou.
— Não, não ligo para ele — Gaara se apressou em corrigir. — Mas vamos melhorar a história: ele não morreu, mataram ele! No hospital! Foram lá e deixaram dois tiros na cabeça dele junto com um relatório de dívidas.
— Dívidas? Que dívidas?
— O desgraçado vinha jogando a dinheiro há anos! — Gaara gritou, chutando o primeiro móvel que apareceu em sua frente. — Eles o mataram porque sabiam que ele não ia pagar!
— E você é o filho dele. É quem recebe o restaurante, a herança e... as dívidas também — Naruto deduziu em choque, aproximando-se de Gaara para o abraçar com força. — De quanto estamos falando?
A risada de Gaara foi amarga, rouca e melancólica.
— Quinhentos mil. E eu tenho dois meses para entregar ao menos a metade disso a eles. Mesmo que eu desse tudo o que eu ganho trabalhando, demoraria dois anos para pagar esses caras!
— Calma, se acalma primeiro — Naruto pediu quando a vó entrou com os chás. — Beba. Vamos, Gaara, beba, tome um banho e durma aqui hoje. Amanhã pensaremos em um jeito, está bem?
O dia seguinte amanheceu cinza. Nublado e sem vida. Naruto tinha ligado para Hinata e, quando Gaara acordou, ela já estava lá, com os olhos marejados e os braços prontos para o apertar em um abraço confortável e carinhoso.
— Se juntássemos todos os nossos salários, daria quanto? — Naruto perguntou, sentado no sofá com Gaara deitado com a cabeça em seu colo.
— Algo em torno de sessenta mil por mês — Hinata contabilizou, sentada na borda do sofá, passando a mão pelos cabelos ruivos de Gaara e o fazendo suspirar cansado.
— Levaríamos oito ou nove meses, no mínimo, para levantar a quantia total — Gaara explicou, sério.
— Não. Tempo demais. Precisamos de uma forma de conseguir mais em menos tempo — Naruto disse.
— Quanto os acompanhantes íntimos ganham? — Gaara se sentou de repente, olhando para Hinata.
— Uns trinta a trinta e cindo mil por mês. Mas, Gaara, você mesmo disse que não queria isso. Quando entrou, você me disse que nunca seria esse tipo de acompanhante.
— Eu não quero morrer, Hinata. Minha vida custa bem mais que um pouco de dignidade. Seria trinta meu e vinte de cada um de vocês. Já teríamos setenta mil por mês. Reduz para sete meses já!
Naruto jogou a cabeça para trás, passando as mãos sobre os olhos. Aquilo era realmente sério para Gaara cogitar aquela ideia! Respirou fundo, desde o começo daquele trabalho, havia criado uma poupança então usaria o dinheiro nela para se sustentar nos dois meses seguintes. Porém sabia que setenta mil por mês não daria certo...
— Seriam oitenta mil, Gaara — Naruto engoliu em seco ao dizer. — Não vou deixar que faça isso sozinho. Assim, reduziríamos para seis meses, não é?
Gaara o olhou atônito, sem palavras. Abaixou a cabeça, tombando-a para o ombro do amigo em um gesto de agradecimento mudo e de desculpas também.
— Eu trabalho só três dias — Hinata suspirou. — Posso ir nos cinco. Isso vai nos garantir um pouco a mais. Não vamos ter quinhentos mil, mas você disse que pode entregar a metade a eles em até dois meses, não? Acho que conseguiremos ao menos a metade até lá.
— Se todos nós trabalhássemos os cinco dias — Naruto fez a conta no celular. — Eu e Gaara devemos conseguir algo em torno de quarenta a quarenta e cinco mil cada.
— Eu consigo o restante — Hinata disse firme. — Em dois meses conseguimos a metade.
Gaara sentou-se melhor no sofá, estendendo os braços para Hinata e a puxando para seu colo. Ela sorriu, como sempre, acariciando seus cabelos de modo carinhoso.
— Vamos conseguir, não se preocupe.
Naruto odiou participar do leilão. A primeira vez havia sido aterrorizante. Sabia quando os lances eram dados, via luzes acenderem no interior das salas dos que o assistiam, e aquilo o deixava ansioso, nervoso, acuado. Quando o leilão terminou e o vencedor já estava o esperando, não conseguiu andar até a porta. Olhou-a, assustado, com as mãos trêmulas, o coração sufocado.
Será que Gaara estava assim também? Passando por aquele mesmo medo? Não. Com certeza, não. Gaara era mais forte que ele, era mais determinado para as coisas que queria, era mais indiferente ao mundo.
Respirou fundo, tomando coragem para levantar o pé do chão e dar o primeiro passo. Empurrou a porta sem pressa e a fechou com menos pressa ainda. A janela que mostrava a sala onde se exibia estava totalmente escura e o quarto se acendeu por completo quando Naruto deu mais dois passos para seu interior.
A mulher que o havia conseguido no leilão o esperava na cama segurando duas taças de alguma bebida que ele aceitou prontamente. Ela riu com a atitude, mas Naruto não se importou. Sim, havia bebido para diminuir o nervosismo, bebido para não sentir vergonha durante o que fazia, bebido para fingir que aquilo melhorava a situação.
Não saiu de sua sala individual no dia seguinte. Havia ficado lá até anoitecer quando repetira tudo o que havia feito no dia anterior e, assim, seguiu fazendo até sexta-feira, ignorando as batidas de Hinata em sua porta ou as mensagens de Gaara no celular ou as ligações de sua vó.
— Não quero que beba — o homem que o havia conseguido no leilão o interrompeu, quando Naruto se aproximava do mini bar para preparar drinks para si e para outro.
Fechou os olhos e inspirou profundamente, virando-se com um sorriso cordial no rosto.
— O que quer que eu faça?
O homem se levantou da cama sem dizer nada e sem se aproximar. Naruto o viu retirar o terno e desfazer a trança que tinha em seu cabelo longo sem pressa. Era um homem sério, mais alto que Naruto, pele clara, olhos perolados e cabelo liso escuro.
— Temos a noite toda, não é? Me faça companhia apenas nessas primeiras horas.
— Companhia? — Naruto ergueu a sobrancelha sem entender.
— Meu nome é Neji, o seu é mesmo Naruto? — Neji perguntou em um tom monótono, sentando-se em uma cadeira de frente a mesa que havia no centro do quarto. — Sente-se, por favor. Se quiser se vestir para ficar mais à vontade, eu não me importo.
Naruto concordou, vestindo novamente suas roupas e se sentando na frente de Neji, olhando-o com curiosidade.
— Joga baralho? — Neji perguntou, retirando dois baralhos do bolso da calça e começando a embaralhar as cartas.
— Jogo.
— Ótimo. Vamos jogar tranca enquanto conversamos, sim? Você não trabalha aqui há muito tempo, não é?
— Não nessa área.
Os olhos perolados estavam fixos em si enquanto Neji distribuía as cartas.
— Entendo — foi tudo o que tivera como resposta. — Temos algo em comum. Acabei de começar a trabalhar com algo que me deixa desconfortável também.
— Não deve ser pior do que o meu trabalho.
— Não, não é — Neji sorriu de lado. — Mas você pode sair quando quiser, eu não. Assumi um cargo que é meu por herança, mas que odeio e que não posso largar sem ser expulso da minha família. Vê? Todo mundo tem sua tragédia pessoal.
Naruto olhou suas cartas, iniciando o jogo. Vinte minutos. Levou vinte minutos para se sentir mais confortável e começar a conversar de fato com Neji. Quarenta e cinco para começar a sorrir descontraído como fazia normalmente ao ganhar o jogo e debochar de Neji quando ele pediu revanche sem se irritar ou mudar sua seriedade habitual.
Quando Neji o beijou, não foi estranho ou repulsivo. Quando deitou na cama, não quis segurar o lençol com força ou fechar os olhos sem que o outro visse. Quando gemeu e o ouviu gemer, não foi nada além de excitante, nada além de prazer, nada além de sexo.
No dia seguinte, saiu da sala individual discretamente, saindo da Akatsuki apenas para andar pela rua com os fones de ouvido. Ligou para sua avó, acalmando-a e mandou uma mensagem para Gaara e Hinata. Não entendia muito bem o que havia mudado graças à noite anterior, mas não conseguia mais sentir vergonha ao andar pela rua. Estava bem. Caminhando sem se importar com o fato de as outras pessoas poderem saber o que fazia como trabalho. E foi só assim que conseguiu levar os meses seguintes.
Infelizmente, ainda faltava quinze mil quando o prazo de dois meses de Gaara chegava ao fim.
— Você está preocupado — Neji comentou quando Naruto saiu do banho com a toalha em volta do pescoço.
— Estou? — Naruto sorriu abertamente, como se aquilo fosse enganar alguém tão atento quanto Neji.
— O que aconteceu?
Naruto caminhou até o mini bar, preparando as bebidas e voltando como se não houvesse ouvido a pergunta. Entregou a de Neji e o viu beber sem desviar os olhos dos seus.
— Problemas pessoais — respondeu evasivo, vendo Neji sentar nu ao seu lado e beijar-lhe o ombro.
— Acabei de te falar do meu casamento forçado e do quanto odeio minha noiva. Quer algo mais pessoal do que isso? Lembra do que eu te disse? Todos temos nossos dramas pessoais.
Naruto passou a mão pelos cabelos escuros de Neji, brincando com alguns fios antes de enrolá-los nos dedos. Gaara o mataria, mas o que era quinze mil para pessoas como Neji?
Resumiu a história, não citou nomes, e, ao terminar, Neji estava tão impassível quando começara.
— Quanto vocês terão ao final do mês?
— Algo em torno de duzentos e trinta e cinco.
— Para quem seu amigo está devendo?
— Não sei — Naruto balançou a cabeça negativamente. — Para quem matou o pai dele por essa dívida serve como referência?
Neji riu de leve, negando.
— Tenho uma proposta. Eu faço um empréstimo no valor de duzentos e setenta mil para esse seu amigo. Ele salda a dívida e ele, ou vocês, como preferirem, pagam a mim. Garanto que sou menos perigoso. Não matei ninguém ainda. E tenho uma condição. Você precisa ir comigo a alguns eventos. Mas sem ser por trabalho. E tem que continuar como acompanhante íntimo por mais algum tempo... Não quero ter que recorrer a outra pessoa.
É óbvio que Gaara surtou quando Naruto deu a notícia, é óbvio que Hinata quase o matou por sua inconsequência! Mas já estava feito. A dívida toda estava saldada e, em cinco meses, já haviam pago tudo o que deviam a Neji. Viu? Sem problemas, sem complicações, simples assim. Tirando pelo fato de que Naruto ainda tinha que andar com Neji para cima e para baixo em alguns museus que, como não era parte de seu trabalho, confessou que o deixavam entediado.
Mas, para Naruto, a melhor parte não havia sido nada já aqui dito. Não. Havia sido que tinha perdido a total vergonha do fazia. Neji era a prova de que ele tinha poder embora tivesse que ir para a cama com alguém antes. Nunca antes conseguiria aquela quantia de dinheiro, aquela atenção devota, aquela necessidade de o verem, de o tocarem, de precisarem estar com ele.
É claro que se viciou nessa sensação, o que justifica, cinco anos depois, estar ali, depois da faculdade, depois de mais um leilão, entrando no quarto do homem estranho de máscara vermelha. Ah, sim, adoraria aquela noite.
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