Notas iniciais
Então... Esse é o capítulo que ou vocês vão me amar muito, ou vão querer me matar... Torço pela primeira opção. Eu trollei geral de novo. E devo avisar que eu já tinha falado que vocês iriam se surpreender. Sem mais delongas...
Enjoy!

Eu não devia ter voltado pra pegar a minha carteira. Se eu soubesse que iria escutar toda aquela conversa absurda, eu com certeza não teria voltado.


Meu coração estava doendo, sangrando, mais uma vez sendo despedaçado. E tudo porque eu o entreguei nas mãos da pessoa errada.


Minha única vontade era chorar, gritar até que toda aquela angústia desaparecesse. O chão simplesmente parecia ter sumido sob meus pés, e o ar se esvaído de meus pulmões. Eu já não sabia como respirar.


– Yuu... — aquela voz cheia de falsa dor fazia uma raiva absurda borbulhar dentro de mim.


– Você mentiu pra mim — acusei.


– Não! Eu só não queria estragar tudo que nós estávamos vivendo.


– Um relacionamento baseado em mentiras?! Você é o ser mais desprezível e irônico que eu conheço, Uruha.


Seus olhos também estavam marejados, ameaçando deixar as lágrimas escorrerem a qualquer momento. Mas aquilo não importava. A única coisa que eu via a minha frente era o homem que fez minha vida dar uma volta de 180° graus por conta de uma maldita aposta.


– Takanori, me diz que isso não é verdade.


Eu estava tão absorto em minha própria dor que esqueci o fato de Reita estar comigo. E o namorado dele parecia estar profundamente envolvido na história.


– Eu... Me desculpe, Aki.


– Me desculpe?! Você por algum acaso tem noção do que fez?


Ruki abaixou a cabeça, envergonhado.


– Uruha, com você eu converso depois. No momento eu preciso ter uma conversa muito séria com o Takanori, então peço encarecidamente que vocês saiam — o pedido soou mais como uma ordem.


Lancei um longo olhar a Uruha, deixando claro que eu queria ser seguido, e saí da sala.


Pensei em um lugar suficientemente privativo para conversarmos e me lembrei do terraço, nosso antigo esconderijo pra jogar conversas fora e beber qualquer coisa que nos fizesse esquecer dos problemas.


O acesso até lá era feito por escadas, quatro andares de quinze degraus cada um. Eu costumava dizer que aquilo era para esportistas profissionais, mas a vista com certeza valia a pena.


Cheguei ao meu lugar preferido ofegante, indo me debruçar sobre a murada de concreto, admirando toda a Tokyo.


Kouyou encostou-se ao meu lado, se mantendo em um silêncio que só seria quebrado quando eu assim o desejasse.


– Por quê? — perguntei longos minutos depois.


– Eu te contei tudo hoje da manhã, Yuu. Tudo que passava pela minha cabeça e pelo meu coração foi dito enquanto nós estávamos na sua cama, no momento em que eu me declarei apaixonado por você.


– Doces mentiras.


– Eu não menti em nenhum momento, Yuu. O máximo que você pode me acusar é de ter trocado a palavra desafio por capricho, e eu sinceramente não considero isso algo tão grave.


Sorri, incrédulo.


– Então você acha que apostar os sentimentos dos outros não é nada demais? É isso mesmo que eu estou ouvindo?


– Esse desafio foi um grande erro, Aoi. Se eu pudesse voltar no tempo jamais teria aceitado uma ideia tão descabida. Por outro lado me pergunto todos os dias se sem essa aposta nós teríamos ficado juntos.


E a resposta estava na ponta da minha língua.


– Não. Será que você tem a mínima noção do quanto eu estou machucado nesse momento? Do quanto eu estou decepcionado com você?


– Plenamente. E eu respeito isso, mesmo estando tão machucado quanto você. Talvez você não saiba, mas durante todos esses dias eu tenho remoído esse fato o tempo inteiro, me condenando de hora em hora por não poder te contar a burrada que eu estava fazendo.


– E se sua consciência é assim tão altruísta, por que você não me contou?


– Eu sabia qual seria sua reação, Aoi. Não queria correr o risco de te perder.


– Bom, não adiantou muita coisa. No fim o seu esforço nem valeu a pena.


Um sorriso de canto surgiu em seus lábios.


– Na hora que você entrou na sala eu estava dizendo ao Ruki que o desafio já não tinha mais sentido porque eu havia me apaixonado. A questão é que eu sei que sou correspondido. Então quando toda essa sua raiva absurda passar, talvez depois de você quebrar todo o seu apartamento, seu coração vai se abrandar e nós voltaremos a conversar.


– O nosso elo se rompeu quando você quebrou a confiança que havia entre nós — eu queria acreditar totalmente nas minhas palavras.


Meu rosto foi segurado com força, me fazendo grunhir de dor pela força empregada.


– Então olha nos meus olhos e diz que não sente nada por mim. Eu faço questão de ouvir olhando pra você — suas íris demonstravam uma raiva contida.


– Me solta! — senti as lágrimas quentes rolarem por meu rosto, demonstrando o quanto eu era fraco.


E eu sinceramente não sabia o que me machucava mais: o fato dele ter apostado meus sentimentos em um jogo sem sentido, ou o fato do meu coração disparar vergonhosamente a cada vez que ele me tocava.


Meu rosto foi solto e suas mãos limparam minhas lágrimas gentilmente.


– Me desculpe.


– Pelo quê? — murmurei.


– Por tudo.


Meneei a cabeça, querendo reforçar minha negativa.


– Não.


Fui abraçado com força, ficando bem acomodado entre seus braços.
E era impossível não corresponder, pois minhas mãos formigavam, loucas para tocá-lo.


Suspirei profundamente, deixando meu orgulho de lado e apertando suas costas, escondendo o rosto na curva do seu pescoço, deixando os soluços rasgarem minha garganta e permitindo que um pouco daquela dor fosse colocada pra fora.


Uruha também estava chorando, eu podia sentir as lágrimas encharcando minha pele.


– Eu te amo mais do que tudo — sussurrou contra meu ouvido.


Me perguntei mentalmente se havia forma pior de descobrir tal sentimento, mas eu sabia que também o amava com todas as minhas forças. E esconder algo tão forte seria uma grande perda de tempo.


– Eu também te amo.


Ele suspirou, quase como se estivesse aliviado.


– Me dá um beijo? Se for o último eu quero ter certeza que o seu gosto vai ficar gravado na minha memória pra sempre.


Umedeci os lábios inconscientemente, a vontade insana de beijá-lo entrando em conflito com a raiva e a tristeza que me consumiam.


Me afastei minimamente, encostando nossas testas, sentindo sua respiração bater próximo à minha boca.


– Isso deveria ser um término.


– Vamos dizer que é apenas um afastamento temporário.


Enlacei minhas mãos em volta do seu pescoço.


– Eu devia quebrar a sua cara.


Sua mão esquerda acariciou minha cintura, puxando-me para perto.


– Tão perto da turnê? Kai te mataria.


Era a mais pura verdade. Provavelmente nosso líder iria arrancar nosso couro.


Deixei que meus lábios roçassem os seus, sentindo sua respiração ficar irregular. E só de pensar que talvez eu nunca mais pudesse beijar aquela boca perfeita meu coração já ficava apertado.


Uruha segurou minha nuca e acabou de vez com nossa distância, sua língua forçando passagem por entre meus lábios, quase não me dando tempo de absorver um fato tão repentino.


Correspondi ao meu modo, de forma mais calma e cadenciada, apertando seu braço pra que ele soubesse que estava indo rápido demais.


Era estranho ver que em tão pouco tempo uma intimidade tão grande surgira entre nós. Quase não precisávamos mais usar as palavras para nos comunicar, um breve toque ou um olhar mais profundo eram o suficiente.


Conseguimos sincronizar o beijo sem dificuldade, aproveitando bem o ósculo intenso e as sensações que ele nos proporcionava. Nossas mãos não tinham rumo certo, vagavam por qualquer pedaço de pele descoberta, eriçando a cútis sensível. E simplesmente não nos importava se alguém poderia chegar.


Porque era o nosso momento. O nosso mundo. A nossa realidade.


Nos separamos algum tempo depois, ainda mantendo os rostos próximos e as testas coladas.


– Eu não vou desistir de você, Yuu. E quero que isso fique bem claro. Mas eu vou respeitar o seu espaço.


– Assim espero.


Ele me beijou na testa.


– Se cuida.


– Você também.


Desci as escadas calmamente, pensando se eu deveria ir pra casa ou não. Decidi ir, pois não havia clima para resolver nada, afinal, nenhum dos integrantes estava em condições de ensaiar.


Seria uma fase complicada, principalmente com o lançamento do CD e a turnê tão próximos, mas nós somos profissionais, vamos superar esse obstáculo... Eu tenho certeza disso.



U&A



Nos dias seguintes eu e Uruha praticamente não nos falamos, a não ser sobre o trabalho. Estávamos vivendo em uma constante correria, então encontrar qualquer membro da banda para sentar, conversar e tomar um café era algo raro.


Mas em uma manhã ensolarada — na qual eu fui obrigado a acordar mais cedo — acabei cruzando com Reita tomando seu café da manhã ali mesmo, na gravadora.


Sentei-me em frente a si, esperando-o notar minha presença.


– Ohayo, Aoi.


– Ohayo.


Reparei que seus olhos estavam com enormes olheiras, sinalizando noites mal dormidas.


– Você e o Ruki terminaram mesmo? — resolvi ser direto.


– Terminamos.


Suspirei. É claro que eu estava com raiva de Ruki. Saber que foi ele quem propôs a tal aposta não havia me deixado nem um pouco feliz, e ferira meu orgulho profundamente.


Mas o vocalista estava destruído. Quase não falava, se recusava a comer e também carregava enormes olheiras. O Ruki feliz e saltitante já não existia mais. Do homem sempre vaidoso e sorridente sobrara apenas um espectro. E eu me perguntava constantemente se ele tinha condições emocionais de encarar uma turnê.


– Reita, você não acha que está exagerando? Os dois estão sofrendo, pra quê continuar com isso?


Ele ergueu a sobrancelha.


– Você não está chateado?


– É claro que eu estou! Meu coração dói e eu choro todas as noites, mas não pretendo me matar aos poucos só por ter terminado um namoro. De qualquer maneira, isso é entre mim e o Uruha, vocês não têm nada a ver com isso.


– Quem teve a bela ideia de propor esse desafio foi o Takanori, esqueceu?


– Não! Só que o maior prejudicado fui eu, lembra? Então pare de tomar as minhas dores e faça as pazes com o seu namorado. Eu não consigo imaginar a clara e a gema separadas — sorri.


Ele meneou a cabeça.


– Olha o que o amor nos faz! Veja você! Ex heterossexual convicto, me aconselhando a fazer as pazes com o Takanori. Uruha realmente te mudou.


Isso era um fato inegável. Eu havia me tornado um homem mais flexível, mais aberto a possibilidades, menos preconceituoso... E irrevogavelmente apaixonado por aquele idiota.


Akira riu sonoramente.


– Você o ama, não é?


– Com todas as minhas forças.


– E eu sei que ele também te ama demais. Pode ter começado de forma errada, e terminado de um modo não muito agradável, mas o sentimento é verdadeiro. Eu conheço o Kouyou há anos, e sei muito bem quando ele está arrependido.


– Você o está defendendo mesmo estando chateado.


– E não foi isso que você fez há minutos atrás?


– Hai.


– Estamos quites então.


Aquilo soou como " nossa conversa está encerrada", então me contentei em pedir um capuccino e ficar observando as pessoas transitarem, cumprimentando algumas que me eram conhecidas.


Eu via os olhares desejosos que as garotas lançavam em direção a mim, mas já não fazia diferença alguma. Não conseguia imaginar minha vida ao lado de outra pessoa que não fosse aquele maldito guitarrista de coxas grossas, com um lado meio sadomasoquista e completamente ninfomaníaco.


E bastou-me pensar no indivíduo pra que ele aparecesse. Lindo — como sempre -, e acompanhado do nosso vocalista.


– Aoi, façamos um trato — disse Reita de repente.


– Que trato?


– Eu volto com o Ruki quando você voltar com o Uruha.


Sorri de canto.


– Isso pode demorar.


– Acho que não. E aí, topa? — estendeu-me a mão.


– Feito!


Eu só não sabia se o chibi aguentaria até lá.

Notas finais
É. Mais três capítulos e fim. Espero que vocês não estejam com muita vontade de me matar ok?
Reviews e chocolate me fazem feliz *-*
Até segunda amores ♥