Jogando Com Prazer
1 Aoi
Notas iniciais
Agradecimentos especiais à keka-GMR, minha mana e melhor amiga, é à Calista por ler o 1° e me incentivar a postar...
Sem mais enrolação... Divirtam-se!
–Pessoal, podem parar. Por hoje é só — disse Kai se levantando e espreguiçando.
Ruki se jogou em um dos sofás.
–Cara, essa rotina de gravar cd, ensaiar e dar entrevistas o tempo todo está acabando comigo. Querido líder, você tem que dar um jeito nisso.
Kai passou a mão pelos cabelos.
–Eu sei. Mas pense: quanto mais rápido nós terminarmos de gravar, melhor pra nós. Aoi, Uruha, como vocês estão indo com a nova música?
O loiro revirou os olhos.
–Estou esperando o Aoi me entregar o pendrive.
Meu sangue ferveu sem motivo aparente, talvez fosse o stress.
Me levantei e encarei o outro guitarrista que ainda guardava seu instrumento.
–Eu estou tentando consertar a merda que você fez, Takashima.
Por um segundo vi a raiva perpassar seu olhar, mas logo seu rosto estava impassível de novo.
–O que você chama de "merda" eu chamo de solo, Shiroyama. Então se você quer me humilhar, me superar ou qualquer outra coisa idiota, trate de fazer uma "merda" melhor. Até amanhã pessoal.
Ele se retirou e eu senti meu rosto queimar de raiva. Como esse anormal pode ser tão atrevido? Quem ele pensa que é? Algum tipo de Deus inatingível? Maldito! Ah, como eu o odeio!
–Yuu, cuidado pra não se engasgar com o ódio e morrer sufocado — brincou Ruki.
–Chibi! — advertiu Reita.
–Akira, tire o Takanori daqui antes que a gente fique sem vocalista — ameaçei.
O loiro de faixa assentiu e logo os dois estavam fora da sala
Kai colocou a mão sobre meu ombro, fazendo-me olhá-lo.
–Eu sei que tudo isso está sendo muito exaustivo e estressante, mas você precisa se controlar! Yuu, você é o mais velho da banda, tem que dar o exemplo!
Suspirei e me encostei à parede.
–Ele me irrita.
–Mas ele não é o errado da história.
–Eu sei disso, mas sou orgulhoso, não vou pedir desculpas.
–Mesmo com a banda sendo afetada?
Mordi o lábio inferior com força.
–Eu posso dar uma trégua até nós terminarmos a gravação do cd, depois volta tudo ao normal.
–Isso já ajudaria muito, Aoi. Nós prometemos que a banda não seria afetada por conflitos internos, lembra? Independentes de quais fossem.
–Lembro, claro.
–Ótimo. Então é melhor você ir pra casa, tomar um banho e trabalhar na música.
–Vou fazer isso. Você fica?
–Hai. Tenho umas coisas pra resolver aqui ainda.
–Ok. Até amanhã então.
–Yuu? — chamou-me.
Fitei-o mais uma vez.
–Sim?
–Posso te dar uma dica?
–Claro.
–Sabe, pode não parecer, mas o Kou não gosta dessa situação entre vocês. Ele não é o tipo de cara rancoroso, então seria legal se você baixasse a guarda e conversasse com ele civilizadamente.
Sorri de lado.
–Um dia, talvez. Até amanhã, Kai.
–Até.
Peguei a chave do meu carro, minha guitarra e saí.
O céu estava escuro, e eu tremia, mas não era de frio. Raiva? Talvez. Frustração? Provavelmente.
Entrei no carro, liguei a chave na ignição e saí em seguida. Não via a hora de chegar em casa.
Coloquei os pés dentro do meu apartamento vinte minutos depois, e logo segui as orientações de Kai. Tomei um banho relaxante, vesti uma roupa confortável e tentei me concentrar na música. Difícil, muito difícil. Eu não conseguia pensar em nada que combinasse com o que Uruha havia feito. Não havia harmonia entre nós, aquela melodia era a prova disso.
Peguei um maço de cigarros e fui para a varanda. Acendi o cilindro de nicotina e levei-o à boca, prendendo a fumaça durante alguns segundos e expirando-a lentamente, quase como um ritual.
As gotas de chuva finalmente resolviam desprender-se das nuvens. Começou com uma leve garoa, mas logo tornou-se intensa.
Fitei o céu negro e suspirei, pensando em Uruha. Como nós havíamos chegado àquele ponto? Ah, claro. Culpa minha.
Fechei os olhos e mais uma vez levei o cigarro à boca, repetindo o ritual. Eu me lembrava com clareza de como tudo havia ocorrido...
Eu e Uruha nunca fomos próximos fora da banda, eu nunca pude chamá-lo de amigo. Talvez a melhor palavra para descrever nosso antigo relacionamento seja coleguismo. Sim, pois também não éramos inimigos. Conversávamos numa boa, saíamos pra beber ou jogar boliche algumas vezes, mas nada além disso. Nunca conversamos sobre gostos pessoais, família ou qualquer coisa do gênero. E sinceramente? Eu não me importava. A banda ia bem, nós tínhamos uma relação tranquila e tocávamos em harmonia. Pra quê tentar uma aproximação?
Mas um belo dia tudo mudou.
No dia em questão eu estava chegando à PSC, atrasado por pura culpa do meu celular, quando avistei Uruha conversando com um garoto, nada de mais... Até o momento seguinte, no qual o outro puxava o loiro para perto e beijava-o lascivamente.
Meu queixo caiu. Que merda de irresponsabilidade era aquela? E desde quando Kouyou era gay? Decidi voltar pro carro e esperar.
Minutos depois, quando o estacionamento já estava vazio, saí e entrei no prédio.
Naquele dia não houve ensaio, apenas uma briga entre os dois guitarristas da GazettE. Foi mais um monólogo, já que Uruha não revidou uma única vez enquanto eu lhe gritava todo tipo de infâmias. Seus olhos não desgrudaram dos meus um segundo sequer, mas não havia expressão em seu rosto, e aquilo só fazia minha raiva aumentar.
Ao final de tudo as únicas palavras que deixaram seus lábios foram: "Eu nunca te contei porque sabia que essa seria sua reação". Pronto. Fim da história.
Desde então nós nunca mais nos falamos, a não ser sobre coisas relacionadas ao trabalho.
Os fanservices continuaram rolando normalmente, mas fora do palco nós éramos completos desconhecidos. A linha tênue que ainda nos prendia era a banda, porém, até isso estava começando a se tornar um problema.
Bom, eu poderia — e deveria — pedir desculpas, mas eu já disse que sou orgulhoso, certo? Então isso está totalmente fora de cogitação.
Abri os olhos e voltei a fitar o céu, frustrado. Mas o motivo de tamanha frustração tem nome e sobrenome: Takashima Kouyou.
Eu queria vê-lo descontrolado, queria que ele largasse aquela maldita pose e discutisse comigo de igual pra igual. Sua passividade me irrita! Eu queria ver a raiva fluindo por cada um de seus poros. Não me importaria se ele gritase comigo ou me batesse, seria ótimo! Pelo menos eu teria algum tipo de reação.
Nesses quase dez anos de banda eu nunca o vi brigar, discutir ou erguer o tom de voz, ele é extremamente comedido em suas ações... E é exatamente isso que desperta a minha frustração. Eu preciso vê-lo perder a linha, descer do salto, rodar a baiana ou qualquer coisa do tipo. É praticamente uma necessidade.
Será por isso que eu o provoco tanto? Sim, óbvio... Mas também há a raiva. Raiva por ele não ter me contado que era gay, raiva por ele ter sido tão irresponsável e ter colocado a imagem da banda em risco...
"Três anos, Yuu? É tempo demais, não acha?"
Frase do Kai dita um dia desses.
É. Talvez ele esteja certo, afinal, a banda já está começando a sofrer as consequências da minha teimosia...
E a GazettE é minha vida.
Eu jamais sacrificaria o nosso sonho por conta de um capricho besta. Se eu perceber que as coisas estão saindo do controle eu paro com tudo. As provocações, as discussões por besteiras, etc. Se bobear até peço desculpas! Tudo pra não destruir o que nós construímos até agora.
Bagunçei meu cabelos — agora loiro-acinzentados — e acendi mais um cigarro. Por que tudo tinha que ser tão complexo?
Algum tempo depois decidi entrar e voltar a trabalhar na música.
Eu juro que tentei, mesmo! Mas não consegui. Depois de 14 cigarros, 4 doses de sakê e muitos ataques de nervos, eu desisti. O melhor que eu tinha a fazer era dormir, e era isso que eu faria. O resto...
Bom, o resto Uruha que resolvesse.
Notas finais
Até segunda!
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