Joan Scott
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Como ousou tomar uma decisão dessas sem me consultar?! Charles, eu não acredito que fez isso! Quando mandou nosso filho para longe, para o internato, mesmo com o coração apertado de tanta dor, concordei porque se tratava da educação dele, a melhor que poderíamos dar e ele estava um tanto fora de controle na época! Agora… Mandá-lo embora nas condições atuais!? Como nunca percebi o quanto pode ser cruel, Charles!? Com seu próprio filho!?
Cecille estava descontrolada, gritando com o marido no quarto do casal, e não pôde notar a mágoa transbordando nos olhos do duque enquanto este ouvia em silêncio as acusações da esposa, acusações idênticas as que ouviu de Edward.
– Meu amor, me entristece saber o quanto pensa mal de mim. Acha mesmo que seria cruel com nosso Ed? Acha mesmo que fiz tudo por não suportá-lo? Que ele pensasse desta forma, até compreendo pois conviveu muito pouco comigo. Mas você? Logo você tirar estas precipitadas conclusões?
– O que posso pensar Charles? São conclusões baseadas em fatos, nos fatos que vi e ouvi por mim mesma. Você expulsou nosso primogênito de casa e da família; sem amparos financeiros ou sem ter para onde ir; levando com ele uma pobre moça grávida. Não foi desumano apenas com seu filho, foi tirano com a doce e meiga Joan e com seu próprio neto, seu primeiro neto. Eu quase te odeio, Charles, por tirar meu filho, minha nora e meu lindo netinho de perto de mim!
– Cecille, meu amor! Deixe-me explicar! Você sabe de apenas parte dos fatos! Não diga nada antes de eu explicar o que fiz e porque fiz! Por favor, te imploro!
Cecille tinha uma altivez digna de uma rainha, sem perder a compostura e o orgulho, sentou-se na cama com porte e elegância e apenas acenou afirmativamente, permitindo que Charles iniciasse sua defesa.
– O que Edward fez foi grave, mas e eu sei que em muitas, das melhores, famílias gravidez antes do casamento é algo corriqueiro e simples de se resolver. Um casamento as pressas sempre foi a solução.
Charles se senta ao lado da mulher e pega, delicadamente, as mãos da mesma. Fica aliviado quando sua sempre amada não recua ao toque.
– Porém, nós dois sabemos, que muitos destes casamentos se tornam fracassos. Com uma mulher descontente e deprimida; um marido leviano, libertino e ausente; filhos criados em um ambiente hostil e sem amor… Quer isto para seu primeiro neto? Eu não quero. Não quero que nosso Edward vire este tipo de homem e, lamento ter que dizer-te, ele já estava se tornando.
– E, me esclareça. Como suas atitudes resolvem nosso problema?
– Nas outras famílias, os jovens percebem que seus erros serão abafados, que seus mal feitos serão apagados. Portanto, não precisam se preocupar com nada. Aprendem que podem fazer o que quiserem e, no fim, não precisarão arcar com as consequencias. O que fiz, ensinará ao nosso amado filho como arcar com as responsabilidades dos próprios atos. Me entende agora?
– Entendo, meu amor. Mesmo assim, como conseguiu deixar nosso filho a própria sorte, sem qualquer ajuda?
– Minha querida… Acha mesmo que não faria nada para ajudá-lo? Evidente que facilitei, sem que ele soubesse, é claro! Posso lhe dizer que sei onde ele está passando a noite e em que local se instalará, em definitivo, a partir de amanhã. Criamos um rapaz irresponsável, Cecille, precisamos tentar de tudo para torná-lo um homem melhor. Creio que se ele for um marido e pai ruim, grande parte será por nossa culpa. Não quero isto.
– Eu te amo, Charles! Me perdoe por ter sido leviana e precipitada!
– Eu te amo ainda mais por isso! Foi uma leoa protegendo sua cria! É a melhor mulher do mundo, doce Cecille.
– Não me esconda nada a partir de agora, Charles. Onde Ed está e para onde vai? E como você sabe disto?
– Antes de arrumar as próprias coisas, Ed pediu para que o pequeno Sean fosse até a casa de Madame Josephine, para deixá-la a par da situação, adiantar a visita de Edward e o pedido de abrigo que nosso filho faria.
– Meu Deus! Não acredito que Edward pretendia morar numa casa daquele tipo com a futura esposa grávida!
– Para você ver como nosso filho não tem o mínimo respeito pelos bons costumes. Enfim, interceptei o pequeno Sean, escrevi uma carta, pedi para que o garoto entregasse para Josephine e que mantivesse segredo.
– O que estava na carta, Charles?
– Em resumo, pedi para que Josephine abrigasse Ed e Joan por esta noite; que a partir de amanhã os enviasse para uma residência que possuo no centro da cidade, que dissesse para eles que a casa era dela, para aluguél; que ela não revelasse meu contato ou ajuda; e que viesse para o castelo para termos uma conversa pessoalmente.
– O que pretende com ela?
– Nunca a conheci, mas Quentin sempre me disse que Josephine é uma mulher sábia e de confiança. Acho que podemos contar com ela para nos manter inteirados e servir de meio para ajudarmos Ed e Joan sem que eles percebam. O que acha? Quer participar da conversa que terei com a Madame?
– É claro! Quero saber em primeira mão o que acontece com meu querido filho!
– Te garanto uma coisa, meu amor! Nosso filho voltará para este castelo! E voltará sendo o melhor homem, marido e pai de família que Brock já viu. Sabe que fiquei muito feliz por ter sido a Joan e não uma destas moças de família, fúteis e deslumbradas, que vemos nas festas que frequentamos? Acho que ela ao lado dele, a transformação de Edward será mais possível.
***
Joan quase não dormiu durante a noite. Mesmo com as garantias de Madame de que nenhum cliente conseguiria chegar perto do quarto que a moça ocupava, ela estava com medo. Também estava preocupada em ouvir o que não queria, ainda que estivesse consumida pela curiosidade. Queria ver o que acontecia em um estabelecimento como aquele, queria ver se a dança sensual, vista por ela mais cedo, também ocorreria ali.
Já de madrugada, quando finalmente estava pegando no sono, um barulho na porta assustou Joan. A porta do quarto dela foi escancarada e Edward, com uma garrafa de conhaque em mãos, bêbado e cambaleante entra no quarto.
Joan fica apavorada, não tem ideia do que Edward estava fazendo ou o que iria fazer. Ela, por reflexo, levanta o cobertor cobrindo-se até o ombro e, pelo choque, não consegue dizer nada, apenas mantém seu olhar fixo nos olhos vidrados e desconectados de Edward.
Ele estava com a mão esquerda apoiada na maçaneta da porta, provavelmente para não cair de cara no chão, e com a direita segurava a garrafa, quase vazia. Ficou por alguns instantes parado, sem dizer nada e em nenhum momento olhou diretamente para Joan, ora admirava o teto, ora inspecionava o tapete. Até que se mexeu...
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