João e Maria: Porque Eram Amigos
3 Maria
Notas iniciais
Maria
Ultimamente tenho estado muito atolada em diversas coisas, e quando vejo as horas já não tenho tempo nem para dormir direito. Ok. Exageros à parte, mas tá quase isso mesmo.
Escola semi-integral é pesado, afinal de contas. Saio de casa às 7h da manhã e volto pra casa as 17h da tarde todas as segundas/quartas/sextas. Nos demais dias eu tinha a tarde de folga, mas eu acabava preenchendo elas indo estudar na casa do João ― só que a gente não estudava muito, a gente mais assistia a séries e filmes do que realmente estudar ―, mas agora nas terças e quintas depois do almoço eu tenho me ocupado de outra maneira...
Minha mãe me arrumou um emprego, que na verdade não é bem um emprego, já que eu estou trabalhando para a própria. Fico no brechó dela nas tardes que não tenho aula depois do almoço, até as 18h da tarde. E quando chego em casa eu me atolo nos estudos. Pois é, eu tenho que estudar mesmo. E, por um milagre muito milagroso ― na verdade o que aconteceu foi que eu passei a madrugada toda acordada com uma insônia repentina ―, eu consegui terminar um dos livros que o João me emprestou há algumas semanas atrás.
E falando no João, me sinto culpada por nunca mais ter ido a casa dele. Queria dividir com ele toda essa novidade que é minha nova rotina. Mas não o encontrava nas aulas que compartilhávamos e muito menos na biblioteca, que eu sei que ele frequenta muito. Queria dizer que finalmente ele havia me convencido de que o mundo Harry Potter era mágico de verdade e, que a história de varinhas que eu dizia ser de criancinha (e escrota) era algo superfoda. Queria dizer que com certeza minha Casa em Hogwarts seria Lufa-Lufa! Mas, as inúmeras mensagens que mandava para ele, quando eu me via livre de clientes no brechó da mãe, não faziam efeito algum em seu WhatsApp.
[14/04/2016 12:37pm]
João! Porque saiu correndo daquele jeito?
Tenho que te contar umas coisasssssssssss!
[15/04/2016 06:32pm]
Garoto, você tá ai?
Não vou poder mais ir na sua casa e nem te acompanhar quando for ao dentista nas terçasssssssssss. :’(
[16/04/2016 08:11am]
John, é a Marie, tá? Você tá bem?
Cara, preciso te contar uma coisa!!
[19/04/2016 12:40pm]
Você tá faltando muito.
[20/04/2016 03:27pm]
Mano, vou te arrancar dessa sua casa quando eu puder ir aí.
Anota o que eu to dizendo, mané.
[21/04/2016 05:25am]
Queria dizer que agora eu estou num novo emprego.
Bem que você tinha me avisado que ficaria à mercê daquele brechó da minha mãe algum dia. Até que não é tão ruim, agora eu só não tenho tempo de ir a sua casa.
Desculpa D:
Mas faça o favor de me responder, porque não tem como eu ir na sua casa e você faltou toda essa semana.
TODA A SEMANA!
[22/04/2016 12:44am]
Consegui terminar o primeiro livro de HP com muito sufoco agora. É capaz de eu nem ir à escola hoje, mas te entrego o primeiro livro na segunda, tudo bem?
E, eu estou no chão pelo Harry, sério. Se eu fosse o Harry eu me matava (ainda bem que eu não sou ele, e nem você).
[25/04/2016 06:58pm]
Você por acaso está aí? Estou começando a ficar preocupada (eu devo?) e irritada com você.
Me sentindo sozinha. Apareceeeeeeeeeeeeeeeeeeee.
Vou bater muito em você quando eu te encontrar -.-
Eu já estava ficando maluca pelo fato dele não me responder todos aqueles dias. WhatsApp não tinha jeito, já que nem dava mais pra ver a hora em que ele visualizou o aplicativo pela última vez. O Facebook nem se fala ― eu não o encontrava de nenhum jeito, acho até que o safado me bloqueou. Twitter era o que ele mais usava, mas quando procurei por ele... só dava erro ou encontrava outros João’s. Instagram era a última opção, mas logo soube que por lá eu não o encontraria também, mesmo que desse para acessar sua página no insta, eu não ia ver nada, pois ele não tinha nenhuma foto por lá. Será que o safado andou me bloqueando nas redes sociais? Ele vai se arrepender, ah, se vai, porque não há motivos para isso. Eu não tinha desaparecido que nem ele! Eu só me ocupei de uma forma diferente e avisei, e ele nem sinal de vida andou dando.
Acabei decidindo que no final de semana o couro do meu amigo não se salvaria. Eu iria na casa dele saber os motivos por faltar tanto a escola e não responder minhas inúmeras mensagens, pois ser ignorada por muito tempo não rola comigo. Mas quando tudo já estava certo para eu ir em sua casa, minha adorável mãe inventa uma viagem de última hora para a casa da vovó, que fica num interior aqui de Minas Gerais, e eu tive de ir com ela.
Vovó já tem uma idade um pouco avançada, e quase não ouve mais o que a gente diz; temos que gritar, literalmente, para ela nos ouvir. Minha mãe receia de que a hora dela esteja prestes a chegar. E ela, minha mãe, gostaria muito de passar os últimos momentos da vida da vovó com ela e comigo também. Então, não pude deixar de não ir com ela.
Resultado: vovó está muito bem. Ela me colocou no colo e tudo só para contar uma história da mamãe de quando ela era moça. Fiquei todo o final de semana sem internet, por lá ser justamente um interior que mal pegava o sinal da operadora, até esta segunda-feira, aliás, até a noite de segunda-feira, pois fui para escola direto da casa da vovó e o meu querido celular havia descarregado por eu ter ficado ouvindo músicas até a bateria morrer durante a viagem de volta a Belo Horizonte.
E finalmente, na escola (e na segunda-feira também) eu pude avistar o João. Acho que ele não me viu. Quando o vi achei que ele estivesse olhando pra mim, mas pareceu que não depois que o vi olhar fixamente para um ponto perto de mim, e não exatamente em mim. Procurei o que era, mas quando fui observa-lo de novo ele parecia abrir os cadernos e anotar alguma coisa.
Eu estava conversando com o Lúcio e a Marina sobre como era puxado a parte trabalhar precocemente ― eles também trabalhavam nas tardes que tinham folga da escola. Lúcio trabalha com o pai na oficina de carro e moto que eles têm, enquanto Marina fica de babá de cinco crianças, revezando os dias com sua irmã mais velha Michelle. E eu, agora, virei uma funcionária multifuncional da minha mãe. Pois é.
Minutos depois de que eu havia visto o João, eu não vi mais sua face daquela janela, e logo a supervisora apareceu para nos informar que não haveria mais aulas de Química, que eram as primeiras duas aulas no meu horário, por hoje. Ela disse também que todo mundo estava liberado, para esperar as outras aulas em outro lugar. E essa foi a minha chance de pegar as orelhas do João e arrocha-las muito ― ou arranca-las, se fosse possível ― caso ele ainda estivesse pela sala. Mas quando iria fazer isso, quando maioria já tinha entrado e saído da sala quando eu entrei nela, pude constatar de que ele estava dormindo, e de verdade, já que eu não acreditei logo de cara.
Algumas pessoas que ainda estavam por ali riram do João dormindo. Mas eu achei supernormal alguém dormir na sala de aula, eu até já tinha feito isso diversas vezes, e principalmente nessas últimas semanas, e também não era a primeira vez que eu o via dormir, e era até celestial o modo como ele dormia. Eu sorri. Não um sorriso zombeteiro, mas sim um sorriso que indicava que estava feliz por ver ele dormindo tão bem.
O fato de dormir é bom, e o de sonhar mais ainda, pois criamos nosso próprio mundo com nossas próprias regras. E o João dormindo ali, como se nada fosse capaz de acorda-lo, parecia fazer exatamente isso: sonhar.
Fiquei esperando um longo tempo até ele acordar, mas ele não acordou. Fiz algumas anotações no meu bloco de notas sobre a próxima aula, que era de Inglês no meu horário. Peguei o celular de João, que estava na mesa ― para não falarem que eu estava invadindo toda a sua privacidade pegando escondido de dentro de suas coisas ― quando cansei, e vi se tinha músicas novas ― não tinha ― e depois ouvi as que eu gostava no meu fone de ouvido.
Fiquei muito tentada em ver sua caixa de mensagem do João e o WhatsApp dele também, mas notei que eu estava invadindo muito sua privacidade no ato de pegar um celular que estava largado na carteira de alguém. Mas a culpa é dele, que me deixa saber sua senha de bloqueio de tela e tudo mais. E enquanto ouvia os Red Hot Chili Peppers, eu tirei delicadamente os óculos de João de seu rosto e os coloquei em mim.
Lembrei-me quando a gente foi escolher seus óculos. Foi realmente engraçado. Eu provava todos os óculos como se eu fosse a pessoa que estava comprando, enquanto João me dizia se a tal armação combinava ou não comigo, me fazendo escolher outros modelos para serem provados por mim. Eu havia escolhido uma armação para ele, que, por muita insistência minha, ele aceitou ficar com o tal óculos na cor cinza nas laterais, que não era muito “nerd” e nem muito “sou modinha”. Não queríamos rótulos.
Tirei algumas fotos do João dormindo, e disso eu ri muito, pois iria ficar tudo guardado no seu celular. Tirei também fotos minhas fazendo careta e com o óculos dele, com ele dormindo ― as vezes do lado, as vezes atrás de mim.
Fiz também uma plaquinha com uma folha que arranquei de meu caderno, escrito “não sou obrigado a aturar a Maria pela manhã” e colei com minha fita adesiva (Quem é que traz fita adesiva pra escola? Sim, eu, Maria. O prazer é todo meu ― e como.) no vidro atrás dele e tirei uma selfie nossa. Agora imaginem só a foto: ele dormindo com um sorriso idiota no rosto ― o sonho deve estar sendo muito bom ― e eu com uma cara de tédio na frente dele. Bem hilário, né?
O sinal tocou para o terceiro tempo, e no meu horário era uma aula horrível de Inglês. João sequer se mexeu quando o sinal tocou, e eu decidi que iria deixar ele ali mesmo, sozinho e dormindo. Ele devia estar realmente com muito sono para não acordar depois daqueles dois toques que haviam soado, e me preocupei com isso. E se ele também estivesse trabalhando no tempo que estava de folga e não encontrava tempo para dormir? E seria por causa disso que não me respondia e nem dava as caras direito, por estar dormindo em algum lugar da escola? Mas sua bateria estava totalmente completa quando dei uma última olhada no aparelho para verificar se o sinal bateu na hora certa... estava um pouco estranho isso, mas deveria ter algum motivo.
Peguei o Harry Potter e a Pedra Filosofal (a pedra que filosofa?) e coloquei embaixo de seus óculos e celular, junto com o caderno dele e uma apostila de química dele. Peguei meu bloco de notas de novo e escrevi um recado para ele. E, tenho que dizer que ele tem muita sorte por eu não estar mais com raiva dele.
Bem, eu peguei você dormindo e pintei e bordei aqui enquanto isso ;P (veja sua galeria quando tiver tempo).
Você tá usando o WhatsApp? Te mandei um monte de mensagens e não consigo ver qual a última vez que você viu ele, enfim. E queria que me respondesse ou sei lá, pra eu poder te contar as novidades, já que não te encontrei acordado e nem vou poder te encontrar mais hoje pela escola (diferente de você eu estou acordada e pretendo assistir todas as minhas aulas). Iria te acordar, mas achei que precisasse dormir. Por acaso você está bem?
Ah, terminei Harry Potter e a Pedra que Filosofa! Queria te contar o que eu achei, então amanhã fique acordado pra eu poder te falar tudo que eu achei.
Beijos, Maria.
PS: Se acordar antes do intervalo de almoço, me encontra na biblioteca. Ou se acordar depois, me encontra na saída pra gente poder ir pra casa juntos.
PPS: Seu número fixo ainda é esse? xxxx-xxxx
Deixei meu pequeno recado, dobrado em duas partes, dentro do livro que ele havia me emprestado. Saí da sala de química e fui para a de inglês. Não era muito longe.
Logo de cara eu encontro Paçoquinha ― um apelido carinhoso que deram à Fernanda ― que me recebeu na sala com um sorriso daqueles enormes e pidões. Bem, não sou fluente no inglês nem nada, eu só detesto a professora, mas sou boa. E digamos que hoje é um teste superimportante, e em dupla. Deu pra sacar o motivo do sorriso de Fernanda Paçoquinha direcionado a mim? Pois é.
― Cadê aquele seu amigo, o João e o Pé de Feijão? ― perguntou ela, ainda sorrindo e olhando para trás de mim, como se procurasse o João.
― Não sei. ― menti pra Fernanda e me afastei dela com um sorriso (um pouco forçado e um pouco verdadeiro; não tinha como não sorrir com o sorrido da Fernanda, mesmo sabendo que havia interesse no dela), e me direcionei para minha carteira, sentando-me nela e depositando minha mochila na cadeira ao lado, a de João, para que ninguém do fundão sentasse ali (ou até a própria Fernanda) para fazer dupla comigo no teste.
Paçoquinha era a pessoa mais feliz que eu conhecia, e fazia pouco tempo que eu a conhecia. Acho que ela era pessoa que menos se magoava na face da terra, por isso falei seca daquele jeito pra ela; ela entenderia se eu não quisesse fazer dupla com ela ou conversar com ela, ainda mais sobre João, que é o meu melhor amigo. Não me arrependo.
Ela recebeu esse apelido, Paçoquinha, porque ela é, simplesmente, fascinada por paçocas. Existia paçoca em todos os lugares que pertenciam à ela: nos armários, nos bolsos, no estojo de lápis, dentro do caderno e etc. Ela era bem maluquinha também, e por isso ela era do tipo de pessoa que falava a verdade na cara das pessoas, sem medo das reações delas. E era por isso e outras coisinhas que ela não tinha amigos íntimos ― nunca soube que ela tinha esse tipo de amigos próximos a ela. Mas todo mundo adora a maluca dos cabelos brancos que dançava ballet e estava no time de futsal da escola, até mesmo eu.
O teste nem estava tão ruim assim do jeito que Paçoquinha tinha dito. Só encontrei dificuldades nas perguntas de marcar. Aposto que errei alguma daquelas pegadinhas miseráveis da professora Dorinha. Detestava aquela mulher porque ela achava que eu era fluente só por ter a maior nota da sala nos bimestres anteriores, e por isso não me dava atenção, como se eu não merecesse aprender do mesmo jeito que os demais alunos. Mas o que ela não sabia é que eu já tinha feito um curso de inglês, e por isso eu sabia de uma boa parte das coisas que ela nos passava. Por isso não foi tão difícil assim o teste, e saí da sala antes do sinal para o almoço bater. Fiquei só um instante rindo do modo como Paçoquinha queria me matar por não salva-la no teste, assim como as pessoas que saiam da sala também entravam na brincadeira dela.
Pensei em João num momento, como se eu estivesse esquecido o leite no fogão. Paçoquinha tinha acabado de dizer que tinha de resolver uma coisa num outro lugar (mistérios também eram uma característica de Paçoquinha), parando assim a brincadeira, fazendo todos se afastarem e seguirem um caminho diferente. Iria tentar um SMS para João, mas se ele estivesse ainda dormindo não iria funcionar, caso meu celular estivesse com bateria ― e nesse momento senti muita inveja da bateria do João. Arrastei uma cadeira da sala de aula para fora dela, e fiquei lá até o sinal soar.
Fiquei quase o tempo todo do intervalo de almoço sozinha, fazendo praticamente nada. Primeiro fui almoçar, sentando-me na mesma mesa em que Lúcio e Marina estavam. Nem conversamos tanto, eles só me faziam perguntas de como eu me virava pra estudar. Fácil, ué: a noite é uma criança, manés. Quando terminamos nossos almoços cada um foi para um lado: Lúcio foi ver se o professor de Educação Física liberava a bola para que os meninos jogassem futsal no resto do intervalo (pois a próxima aula seria de Educação Física na quadra, e os meninos na quadra já adiantava muita coisa), Marina foi procurar seu namorado na ala dos terceiros anos, e eu fui vagar na biblioteca da escola.
Eu tinha trazido somente o livro do João, e de certa forma isso não queria dizer nada para alguém que quisesse fazer amizades numa biblioteca ― não que eu quisesse fazer amizades por ali, mas conversar com alguém naquele momento seria legal, mas o João nem água... ― ou simplesmente conversar sobre livros com Edmundo (ou só Ed), o homem que cuidava da biblioteca, já que eu tinha entregado o único livro que li em toda minha vida. Eu não tinha assunto algum para conversar com alguém daquele lugar, realmente. Pegar um livro naquela biblioteca sem um guia (o João) era o mesmo que ir para um planeta novo sem conhecer nenhum ser que existisse lá e procurasse o que comer. Eu me sentia assim na biblioteca, além de me sentir perdida. Eu não era muito de ler. Na verdade eu não conhecia muito bem o fato de ler e ficar viciada no que estou lendo, e por isso João estava me ajudando a sair da ideologia de que brasileiro tinha preguiça de ler ― e estava funcionando, devo admitir ―, eu não sabia o que procurar, além de não ter mais nada para fazer no resto escola nesse resto de intervalo.
Optei por só andar pelas prateleiras dos livros, como se eu tivesse procurando um livro qualquer ― nem isso eu sabia fazer, Ed notou minha presença lá e o vi rir de mim; sim, com certeza era de mim ―, até o sinal bater para eu poder trocar rapidamente de roupa no vestiário e ir pra aula de Educação Física.
E sem meu celular e o João, a segunda foi embora. Na hora da saída eu ainda procurei pelos ares o João, depois de um banho super-rápido para tirar aquele suor de mim, mas não vi sinal algum dele. Fui pro ponto de ônibus e esperei minha linha passar, e já dentro dele eu descobri uma coisa que nunca tinha passado pela minha cabeça ou acontecido comigo: quando você está sem fones de ouvido num ônibus, as senhoras perguntam a você se você gostaria de ceder seu lugar para elas.
Dica de ouro da Maria: Nunca saia de casa sem fones de ouvido. E caso o seu celular descarregue e você queira ficar sentada na sua cadeira lá no fundão do ônibus, coloque os fones de ouvido assim mesmo. Garante que você fique sentada no fundão sem ser incomodadas por senhoras oferecidas.
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