João e Maria
24 Tudo ideia dele
Gael sentia sua garganta vibrar e encarava Bianca, que engoliu em seco.
'Meu amor...' Dandara tentou chamar a atenção dele, mas não tinha como segurá-lo. Ele se levantou e se aproximou das filhas, ralhando.
'O que deu em vocês? Como é que vocês entram aqui perguntando isso, vocês tem problemas?! Larga isso agora,' ele se direcionava somente a Bianca 'larga isso e volta pro quarto.' Ao contrário das meninas, os olhos de Gael não o obedeciam e estavam marejados, uma mistura de raiva e dor.
'Paizinho,' Bianca se aproximou, preocupada.
'Sem conversa, Bianca! Vocês não deviam ter se metido nisso!'
'Mas por que, qual é o problema?' Argumentou Karina, lembrando a Gael que ainda estava presente. 'Se eu vou ter um irmão eu tenho o direito de saber.'
'Você tem o direito é de ficar calada antes que eu perca a cabeça!'
'Ninguém vai perder a cabeça, Gael.' Dandara se levantou, enxugando as lágrimas que tinham escorrido e se impondo para o lutador. 'Elas não tem culpa, meu amor, eu não devia ter deixado isso aqui e—'
'Então é verdade?!' Perguntou Karina.
'Vocês já sabem se é menino ou menina?!'
'Cala a boca, Bianca!' Gael ordenou entre dentes, abafando a empolgação da menina.
'Bi, minha flor, depois a gente conversa direito... Da licença que agora eu converso com seu pai?'
'Comigo? Elas se metem na nossa vida, achando que estão no direito delas,' ele debochou ' você precisa conversar comigo?'
'Amor, não vamos arrumar problema agora...'
'Mas qual é o problema?' Bianca questionou.
'Foi mal, gente, mas tava no chão do banheiro, eu não ia mexer se tivesse no lixo, sei lá'
'Eu devo ter separado para jogar fora e esquecido.' Dandara adicionou, calma, tentando tranquilizar Karina. A morena passou um braço pela cintura do lutador e ele sentiu seu corpo se acalmar. Protetor, passou um braço pela morena também, e beijou seu ombro. Bianca e Karina se entreolharam.
'Eu não to entendendo' Bianca se virou para a irmã em voz baixa. 'Qual a questão? O teste é deles—'
'Minha linda,' Dandara deu um passo a frente em direção às meninas e se amparou em Gael. 'é que na verdade não tem bebê... O teste deu negativo.' O olhar melancólico de Dandara brigava com o sorriso que ela tentava expor para as meninas.
'Ai.'
'Foi mal...'
'Foi péssimo!' Resmungou Gael, mas Dandara virou-se para ele sorrindo.
'Não tem problema.' Ela falava para as meninas e também para o lutador. 'Não tinha como vocês saberem... É só chato porque a gente ficou feliz assim, que nem vocês...'
'Ia ser uma ótima ideia!'
'Bom saber que vocês gostam.'
Bianca assentiu com a cabeça mas Karina forçou um sorriso não muito convincente.
'Bem, agora que isso já foi esclarecido, eu to indo pra minha aula.'
'Ka, eu acho que eu vou com você.'
Gael segurou os ombros da morena e virou-a para si.
'Mesmo?'
'Eu to sem fome, acho que vou voltar pra Ribalta... A gente almoça outro dia.'
'Não, Dandara, por favor, fica.' Pediu Bianca. 'Vou me sentir culpada de ter estragado o almoço de vocês.'
'Com razão, né?'
Dandara beliscou Gael e ele revelou que estava brincando.
'Vocês não fizeram nada, eu não consegui comer nada o dia todo, nada tá batendo muito bem...'
'Eu te vejo de novo mais tarde?'
'Eu passo na academia antes de ir pra casa.'
Ela reconfortou o lutador e eles trocaram um beijo suave antes da morena sair com Karina. Bianca sentou-se de frente para Gael e começou a se desculpar enquanto ele ainda encarava a porta. O lutador respirou fundo antes de sentar-se de frente para a filha.
'Paizinho, eu juro que não imaginei que pudesse ser isso, se não eu nunca ia ter falado-'
'Esse é o problema, né, Bianca? Você nunca imagina que nada pode dar errado!' Gael continuou a ralhar com a filha mais velha e mandou-a descer para trabalhar na academia, ele precisava ficar sozinho.
Gael não entendia ao certo porque aquele assunto o deixava tão exaltado, mas ele e Dandara estavam conseguindo se entender e suas filhas resolveram essuscitar o assunto.. Avistando a caixa do exame, deixada por Bianca sobre a mesa, ele segurou-a pensando na expectativa de um futuro com a morena. Enquanto caminhava com aquele pacote nas mais, ele tivera certeza de que iam começar novamente, os dois...
Ainda reparando na caixinha, seus pensamentos seguiram até a lembrança do aniversário de Dandara e o que ele poderia fazer para reparar a situação e ainda tornar o dia seguinte especial quando avistou sobre a caixa uma numeração que antes não havia percebido.
'Não pode ser...' Ele não conseguia esconder o sorriso que iluminou seu rosto.
Na sala de música da Ribalta, João avistou o lutador fazendo sinal para que ele se aproximasse por detrás da parede de vidro.
'Ah, não...' O muxoxo de João chamou a atenção de Pedro.
'Tem visita pra você, Johnny?'
'Cê não aprontou nada com a Karina não? Não existe a possibilidade do lutador ter vindo aqui te executar?'
'Acho que hoje a forca é sua.'
Pedro deu um tapinha nas costas de João que seguiu após pronunciar um sonoro 'Saco.' 'Tudo bem com minha mãe?' Foi a primeira coisa que o menino perguntou.
'Se você me ajudar, eu prometo que sim.'
'E por que eu faria isso?'
'Porque vai deixar a sua mãe feliz, ô, menino esquisito. Quer dizer, menino maravilhoso, incrível'
'Bonito, inteligente, bem dotado...'
'Também não exagera, vai.'
'Tá, você me explica o que aconteceu e eu decido se vou ou não ajudar.' João estava curtindo a situação de ter o lutador nas mãos. 'Vamos começar do começo, o que você fez pra ela que agora você quer consertar?'
Temendo pela reação do menino, Gael considerou se deveria ou não contar para João sobre o bebê. Ou a inexistência de um.
'Foi só um mal entendido, mas eu preciso ver a Dandara hoje e ela não vai aceitar outro pedido meu.'
'Se ela não vai aceitar, não sou eu que vou convencer. Ficar entregando a mãe pra lutador?'
'Vou te mostrar o que eu faço com a mão—'
'Ô-ou. Achei que você precisasse de mim? Vivo.' Gael assentiu e respirou fundo.
'Amanhã é aniversário da sua mãe, né? E ela já disse que não quer celebrar, mas eu acho que é desânimo e eu sei como resolver o humor dela' João tapou os ouvidos e Gael bateu no braço do menino, 'deixa de pensar besteira! Eu só preciso que ela me escute então eu queria que você marcasse de jantar com ela--'
'Só que quem vai aparecer é você. Criativo. Curti. Nunca vi essa ideia antes – só em todos os filmes de comédia romântica.'
'Você quer me dar uma chance?'
'Eu? Não, eu to solteiro mas não to topando qualquer coisa não...' Gael se virou como se desistisse e João chamou-o de volta. 'A Dona Dandara anda meio pra baixo mesmo e se você tá dizendo que pode ajudar... O que você quer fazer?'
Gael contou do plano para João e convenceu o menino a ajudá-lo.
'Eu não to fazendo isso por você, sim pela minha mãe.' Gael assentiu e sinalizou para o menino andar. Ele, por sua vez, seguiu para a academia.
'Vamo lá, cambada! O ultimo dia fácil foi ontem!'
Passando no aquário, avistou Bianca tristonha.
'Filha, é... Se você quiser, pode ir pra sua aula na Ribalta, eu te ajudo a terminar isso depois.'
'E o meu castigo?'
'Tá suspenso. E se eu fosse você eu subia antes que eu mude de ideia.'
'Sim, sim, sem questionar!' ela passou erguendo os braços e ele riu, dando um beijo em sua menina. 'Obrigado.'
'Obrigado por que?'
'Depois.' Ele adicionou em tom de mistério e recomendou que ela saísse novamente. O final do dia na academia foi mais leve, com um professor sorridente e engraçado. A outra façada de Gael se mostrava enquanto ele ordenava seus alunos, ainda sem tirar os olhos da escada da Ribalta, torcendo para que sua morena passasse, mas o destino não lhe deu esse presente.
À noite, de banho tomado, Gael segurava o celular, ansioso pelo contato de João. O menino, por sua vez, enfrentava dificuldades para cumprir sua parte do plano.
'Mas meu filho, não consigo entender o que te deu pra querer sair essa hora!' Dandara estava deitada no sofá tentando ler um livro. 'A gente sempre comemora num almoço, eu e você, você e eu...'
'Mãe, sem cantoria agora, pode ser? Temos uma questão mais urgente.' E adicionou em voz baixa 'Eu mesmo possivelmente tenho uma questão mais urgente, mas uma coisa de cada vez'
'O que você disse, meu filho?'
'Nada, nada não, só que você já tinha me prometido, o Pedro já avisou a tia Delma... Até a Tomtom tava empolgada de comemorar seu aniversário.'
Dandara ergueu a sobrancelha estranhando a insistência do menino, mas a verdade é que qualquer coisa que o entusiasmasse a socializar, ela apoiaria.
'Tá bom, João, a gente vai. Só preciso tomar um banho e ligar pra Delma pra marcar a hora'
'Não!' ele se jogou por cima dela, impedindo-a de pegar o telefone 'A gente chega lá de surpresa, muito mais emocionante'
'João, o que é que você tá aprontando?'
'Eu? Nada, que isso, sou um anjinho, não tá vendo? Agora vai se arrumar que eu to com fome.'
'Quando que você ficou com essa marra toda, posso saber?'
'Aprendi com a melhor.'
Ela o abraçou, 'Te amo, meu amor.' mas o menino não deu bola e cobrou-a que eles iam se atrasar. 'Atrasar pro que? A noite, ao contrário da sua mãe que está ficando mais velha, é uma criança!'
Quando o táxi de Dandara parou em frente ao Perfeitão, ela não acreditou no que estava vendo. Em frente à entrada do restaurante estava Gael, na beca, segurando algumas rosas embaladas individualmente e uma caixa de presente. Dandara olhou para João embasbacada e o menino sorriu.
'Não é muito meu tipo, mas eu acho que você vai gostar…' Ela sorriu de volta, carinhosa, ainda sem acreditar. 'Bem, tá entregue, eu to indo pra casa do Pedro.' João disparou, segurando a porta pra sair do veículo mas Dandara colocou uma mão na perna do menino, prendendo-o no táxi com ela. 'Respira fundo, dona Dandara, que essa noite promete fortes emoções.'
Ele se soltou da mãe e se despediu com um beijo enquanto Gael terminava de pagar o taxista. O lutador abriu a porta do carro para a morena sair e ela jogou os cabelos para o lado, numa mistura de timidez e provocação. Ela usava mais um de seus vestidos longos que marcava os contornos de seu corpo. Gael olhou-a de cima a baixo e considerou-se o homem mais sortudo do mundo.
'Boa noite, meu amor.' Ele estendeu a mão para ajuda-la a sair do carro.
'Boa noite, meu amor.' Ela repetiu, sorrindo, e ele lhe ofereceu uma rosa. Sorrindo, ela aceitou e puxou-o pela camisa 'Seu maluco! O que você está fazendo?'
'Em breve é seu aniversário, não é? Eu tô te dando ainda mais motivo pra comemorar.'
Ela franziu a testa sem entender e ele fez sinal para que entrassem. Dandara o seguiu em direção a uma mesa no canto, que estava iluminada por algumas velas. Seu olhar procurou pela amiga, Delma, que do outro lado do balcão incentivou a amiga murmurando 'tudo idéia dele'. Gael chamou novamente a atenção de Dandara tirando a cadeira para que ela sentasse e lhe entregou uma segunda rosa antes de sentar-se também. Imeditamente, fez sinal para Lincoln que surgiu com duas taças e retirou as rosas restantes dos braços de Gael, espalhando-as em volta deles, entre as velas.
'Obrigada, Lincoln' ele agradeceu e ela fez o mesmo.
'Eu não tô acreditando a transformação que você fez com esse lugar…'
'Você gostou?'
'Não tem como não gostar… E você ainda convenceu o João a participar disso? Vou querer saber cada detalhe dessa história…'
'Depois. Antes vamos brindar.' Gael pegou sua taça e Dandara fez o mesmo. 'Um brinde à mulher que, com o passar dos anos, só se torna ainda mais deslumbrante e me faz perder o controle da respiração – mesmo com todo o meu condicionamento físico' Ele adicionou em voz baixa e Dandara deu uma breve gargalhada. O sorriso dela o encorajou e ele continuou. 'Que você continue a me deixar assim por todos os dias da minha vida.' Eles brindaram e levaram a taça à boca. Dandara, contudo, afastou seu copo, surpresa.
'Mas isso é água.' Sem entender, ela encarava Gael que sorria de canto.
'Então,' Ele adicionou em tom de mistério 'isso me traz ao seu presente...' O lutador entregou a caixa à Dandara, que seguiu abrindo, curiosa. Mas ao retirar a tampa da pequena caixa, os olhos da morena imediatamente marejaram ao se deparar com o exame de gravidez. Ela encarou Gael e ele ainda sorria.
'Você acha isso engraçado?' Ele tocou sua mão de leve e pediu, suavemente.
'Olha de perto.'
Dandara tirou a embalagem de dentro da caixa e revirou-a nas mãos, até notar um círculo marcado de caneta vermelha. Seu coração deu um salto ao ver o que estava escrito ali: o exame estava vencido há quase dois anos.
'Me desculpe.' Gael voltou a falar 'Eu deveria ter olhado para isso imediatamente, mas eu estava nervoso e nem pensei nisso...'
'Gael…' Ela levantou o olhar em direção ao lutador e ele pensou que nunca vira alguém tão belo em sua vida. O colo de Dandara arfava, ela tentava seguir com sua respiração normal. 'O que isso quer dizer?'
'De verdade? Nada. Só que a gente não precisa sofrer, meu amor... Toda essa história...' Ele esticou a mão, segurando a dela. 'Foi uma surpresa, uma surpresa ótima, que te deixou bem nervosa,' ela riu 'e depois bem triste... Mas a gente não sabe mais com certeza que você não tá esperando um bebê...' Ela entendeu aonde ele estava querendo chegar.
'E você acha que tem alguém... Alguém esperando aqui?’ Ela perguntou, olhando para sua barriga. Ele assentiu e ela respirou fundo antes de concordar.
'Eu também acho.'
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