João e Maria
11 Não resisti
Abrindo a porta do banheiro, os cabelos molhados ainda pingando no chão, Dandara encarou João, que estava deitado na cama da mãe olhando o teto.
'Olha aqui, cê me respeita, hein?' ele se virou, deitando de frente para a mãe e apoiando a cabeça com uma mão. 'Eu não estou indo me exibir pra ninguém, muito menos pra aluno de academia.'
'Ah, esqueci, é só para o professor mesmo.'
Dandara foi até o filho com a toalha apoiada na ombro e ameaçou jogá-la em João. O menino ensaiou uma risada, mas se conteve para não perder a pose. A mãe reparou no tom divertido, e aproveitou para provocar o ciúme.
'O que é que eu já falei sobre falar comigo desse jeito, filhote? Poxa, João, você me magoa pensando essas coisas de mim... E além do mais.' Ela pausou, certificando-se de que ele estava prestando atenção. 'Você sabe que eu não preciso de vestido nenhum pro Gael me olhar.' João arregalou os olhos e Dandara riu do menino. 'Na verdade acho que ele até prefere sem vestido algum!' E deu de ombros. João levou as duas mãos aos ouvidos e Dandara se levantou, ainda rindo. 'Agora vambora que eu não posso me atrasar por causa do senhor, anda!'
Ele estendeu a mão para que ela ajudasse-o a se levantar e ela reparou que ele ainda estava febril.
'Filhote...' Ela trouxe o menino num abraço 'Eu achei que a febre já tinha passado, o René me prometeu...'
'Olha em quem você foi confiar, né? O paistel não sabe de nada, mãe...' E adicionou, mais baixo. 'Não sabe cuidar nem dele mesmo.'
'Mas ele veio aqui cuidar de você ontem sem nem titubear.' A morena beliscou de leve, o menino, mas João continuou sem expressão. 'Nossa meu filho, quando é que você ficou tão amargo, hein?'
'Quando você me trocou por aquele lutador ontem a noite.' Ele aproveitou o deixa e entrou em seu quarto para se vestir.
'Eu não troquei ninguém, João! Eu só fui jantar, lembra? E já estou aqui de volta, não estou?'
'Agora né? Mas e a noite? Você passou a noite aonde?' Ele foi até a porta para olhá-la, antes de adicionar 'Você não ia deixar seu filho doente, sozinho em casa com o pai irresponsável, pra escolher ficar com o lutador Cruel que quebrou seu coração, né?' Ela reparou o tom sincero de João nessa última frase. 'Ou você já esqueceu?' Ele continuou antes de entrar novamente no quarto. 'Porque eu não esqueci. Ele me prometeu que não ia te machucar.'
Olhando para o espaço onde instantes antes seu filho ainda estava, Dandara parou um pouco, pensando no que acabara de ouvir. Não era o ciúme bobo que seu filho costumava ter, ele estava preocupado com ela.
Estranhando a falta de resposta, João voltou a aparecer na porta.
'Vou precisar perguntar de novo? Você não dormiu com o Gael, né, mãe?'
'João, larga desse assunto, para de falar besteira!' Mexida, ela seguiu até a cozinha, ficando fora do campo de visão dele. 'Eu vou te fazer um ovo mexido de café da manhã. Anda, se arruma que a gente precisa sair em cinco!'
**
Desde a hora que se despedira de Dandara na porta de casa, Gael ficou desejando que ela voltasse. Ele estava em êxtase de saber que ela era sua novamente. Sentado em sua poltrona favorita, Gael se perguntava se aquela noite havia sido um sonho e desejava não ter que acordar jamais. Ele queria poder beijá-la quando tivesse vontade e ouvi-la cantar toda manhã ao acordar.
Sem nenhuma disposição para voltar a dormir sem o corpo dela para abraçar, decidiu encontrar Karina na academia e, para a alegria da menina, ajudou-a a treinar. Quando Karina partiu para a escola, ele passou a checar o relógio a cada minuto. Estava decidido a não perder mais tempo e contabilizava os minutos para o momento em que a morena chegaria à fabrica para dar aula.
Assim que avistou-a descer do taxi, deu um aviso a Panda que assumisse a aula e se encaminhou para recebe-la na porta. A professora de canto vinha com o filho aninhado nos braços. 'Lá vamos nós,' pensou Gael imaginando ter que lidar com o menino, enquanto interceptava-os na porta de entrada.
'Bom dia, Dandara! João…' Adicionou fazendo um sinal com a cabeça ao que o menino respondeu levantando a mão, num ato irônico.
'Bom dia, Gael.' Faziam poucas horas desde que eles se despediram mas Gael se impressionava com a energia que o sorriso da morena despertava em si. Sorrindo de volta, de forma quase cúmplice, ele se aproximou para cumprimenta-la com um beijo de leve, mas ao aproximar seu braço da cintura de Dandara, foi interrompido pela reação exagerada de João.
'Ei, ei, ei, ei, ei!' Exclamou o menino e Dandara deu um passo para trás, fugindo dos braços do lutador.
'Ai meu saco!' Gael não se repreendeu e resmungou. 'De novo?'
Tensa, Dandara procurava encontrar o olhar de Gael para se justificar, avisa-lo de que o menino não sabia do que se passava entre eles.
'O que foi isso que acabou de acontecer?' João apontava de um para o outro.
Cruzando os braços, Gael finalmente encontrou o olhar de Dandara.
'Você não falou..?' Ele perguntou em voz baixa, quase como uma recordação, mas João, atento à troca de olhares dos dois, não deixou passar.
'Falou o que?'
'Me falou, uma vez, lembra, Dandara? Que você me falou que tinha alergia a picada de abelhas, não foi? Tinha uma voando perto de você, só isso.'
'Uma abelha? Tem certeza que não era outro bicho não tipo um besouro, ou um outro predador?
'Filhote, vamos parar de implicância, pode ser?' e voltando-se para o lutador ela agradeceu através de movimento labial. 'Obrigada.'
O menino ainda olhava de um pro outro quando Gael tentou, novamente, estabelecer uma conversa com os dois.
'É... João... Ontem sua mãe me falou que você estava doente... Como você tá, melhor?' Mas o menino não prestou atenção.
'Ontem?' Questionou..
'É, ontem, filhote. No jantar na casa do Gael que eu te falei que eu fui, lembra?'
'Então quer dizer que hoje vocês não se falaram ainda?'
Gael lançou um olhar confuso à Dandara que se desculpou, puxando o menino pelo braço.
'A gente termina essa conversa depois, pode ser? Vamos João, lembra que eu já estou atrasada!' e adicionou, em voz baixa, para o menino 'E eu já te disse que foi só um jantar, para de ser implicante e sobe, vai.' Ela deu um tapinha de leve na lombar do menino fazendo-o subir as escadas na sua frente. Assim que João ultrapassou-a, a morena aproveitou para fazer um sinal de 'me liga' direcionado ao lutador que voltou a dar aula, sem entender o que estava acontecendo.
**
'Então quer dizer que você não contou pro esquisito? Quer dizer, pro seu lindo, adorável, educado e sempre conveniente filho, que estamos juntos?'
Dandara aproveitou que João estava na aula e inventou um exercício de aquecimento vocal para seus alunos para poder fugir e telefonar para Gael.
'Não consegui, amor... Cheguei em casa e ele ainda estava febril, manhoso, me fazendo um monte de perguntas... E a gente não tá junto, né? Eu também não sabia o que falar...'
'Não estamos juntos?'
'Tivemos uma noite ótima.' Ela conseguia sentir a decepção do lutador do outro lado da linha 'Mas eu te disse, vamos com calma... Não quero que o João tenha que lidar com isso até a gente saber no que isso vai dar, sabe?' Silêncio. 'Ah, Gael, você sabe que eu já tive muitos relacionamentos ruins e, já aconteceu tanto de ele se apegar a alguém e depois quando terminava ele tinha que cuidar de mim enquanto ele também estava sofrendo... Não quero fazer ele passar por isso de novo... A gente já não deu certo uma vez, vai que não funciona de novo, sabe?'
Apreensiva, Dandara se surpreendeu ao escutar um leve riso do outro lado da linha.
'Bom, se esse é o problema então não temos problema nenhum.' Constatou Gael, seguro.
'Não temos?'
'Não. Primeiro porque o João nunca vai se apegar a mim' agora foi a vez de Dandara rir de leve 'e segundo porque ontem mesmo eu já te provei que a gente dá certo. Quatro vezes, se me recordo bem.'
'Gael…' ela argumentava pela força do hábito. A verdade é que andando de um lado para o outro na sala dos professores, ela tentava encontrar desculpas para seu comportamento e não encontrava. Por que ela não conseguia contar para o filho? A lembrança das palavras dele 'você já esqueceu? Porque eu não esqueci' ecoavam em sua cabeça. Mais dúvidas.
'Morena,' Gael parecia adivinhar que ela procurava argumentos 'não adianta tentar negar — você sabe disso também. Você sabe que a gente dá certo... Pelo menos seu corpo inteiro eu sei que já sabe.'
'Meu corpo sabe?'
Mesmo sem vê-la, Gael tinha certeza que Dandara tinha a sobrancelha erguida, desafiando-o e não aguentou ficar ali, somente imaginando-a quando ela estava tão próxima. Saindo do aquário sem fazer barulhos, ele continuou a provocá-la enquanto seguia em direção à escola de artes.
'Sim, seu corpo tem certeza. Sua pele faz questão de demonstrar que sabe toda vez que minha barba passa por perto do seu pescoço...'
Dandara sentiu suas pernas amolecendo com a voz rouca dele ao telefone. Ele sabia exatamente o efeito que estava causando nela.
'Dandara…' Ele sussurrou e ela sentou-se no braço do sofá, deixando seu corpo relaxar. 'Eu não vou te perder de novo... Sabia que ainda sinto o cheiro dos seus cabelos? Ah, eu não quero parar de sentir esse perfume tão cedo. Quero te prender e te provar tudo isso que você duvida...'
Ela fechou os olhos, se permitindo imaginar o que ele falava. Gael seguiu descrevendo, detalhadamente, o que desejaria fazer com ela enquanto subia, lentamente, a escada que ligava a Ribalta e a Academia. Ao avistá-la, sorriso estampado no rosto e olhos fechados, quase deitada no sofá da sala dos professores, ele perdeu a fala.
Estranhando, Dandara abriu os olhos e avistou-o vindo em sua direção. Gael desligou o telefone e jogou a cabeça para o lado, charmoso.
'Não resisti.'
Ela se levantou, caminhando lentamente em direção a ele. Seus lábios ardiam pelos dele. Seu colo arfava, a respiração profunda. Ela assentiu, permitindo o avanço do lutador. Eles estavam prestes a se beijar quando uma voz chamando Dandara ecoou do corredor.
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