João e Maria

17 De volta à velha forma


Dandara já havia se vestido e caminhava de um lado para o outro da sala, ansiosa para a conversa que sabia que teria com seu filho. O menino estava jogado no sofá e encarava a mãe quando sabia que ela não estava olhando. Sem demoras, Gael saiu do quarto da morena com a mochila nas costas e deu um selinho rápido em Dandara. Suas bocas pediam mais tempo de contato, mas ambos sabiam que não era a hora.

'Tchau, João! É... Hm... Muito obrigado.'

O menino encarou a mãe, repetindo as palavras do lutador com os olhos arregalados, sem emitir som. Sem conseguir conter um riso de leve, Dandara seguiu com Gael até a porta do elevador. Enquanto esperavam ela tocou a mão dele com a sua e entrelaçaram os dedos. Um gesto simples, mas que significava muito para eles. Ela queria dizer que estava feliz em tê-lo por perto e ele sentiu o impulso de dizer mais... Apenas três palavrinhas... Três poderosas palavras que pareciam ter vida própria e buscavam escapar seu corpo de qualquer maneira. Ele procurou o olhar da morena, mas ela não o encarava.

Encostada no vão da porta, Dandara observava João e o lutador se conteve, decidindo esperar.

'Boa sorte, morena...' Ele segurou a mão dela nas suas e ela voltou sua atenção para ele.

'Obrigada, meu amor, pelos dias...'

'E pelas noites...' Ele adicionou e eles trocaram um sorriso cúmplice. Sem jeito, ele não sabia se ainda tinha autorização para beijá-la como gostaria. Dandara recomendou que Gael entrasse logo no elevador para não deixar Duca esperando, e ele quase entrou quando ela passou um braço pelo pescoço dele e beijou-o os lábios com uma mistura de ardor e ternura.

Enquanto a porta do elevador se fechava, Gael concluía que nunca mais gostaria de se separar daquela mulher...

'Oi, meu amor...' Dandara trancava a porta antes de seguir em direção ao filho. 'Desculpa, eu não queria que você descobrisse assim...'

'Descobrisse o que?' Cínico, ele respondeu de imediato, sentando-se para dar espaço para a mãe ao seu lado. 'Você e meu ex-futuro-padrasto que pelo visto não é mais ex?'

Ela olhou pra baixo e não conteve um riso de leve.

'Eu sei, é confuso.'

'É, não é não... É só estúpido mesmo. Você mentiu pra mim pra ficar com o cara que te magoou.'

'João, eu não menti pra você...'

'Ah, não? Você falou um montão de vezes que não tava namorando ninguém, e eu ficava no ‘a-ham’ mas eu não sou idiota eu sabia que cê tava saindo com o lutador só não sabia que ele já tava dormindo na minha casa né? Se isso não é um namoro então—'

'Nem ouse continuar, João!' O tom de voz de Dandara se elevou. 'A gente já cometeu esse erro uma vez, não vamos fazer isso de novo, me respeita.' O menino olhou pra baixo e ela continuou, mais suave. 'Eu não menti para você, filhote, eu omiti. O que é tão ruim quanto, eu sei. Mas é isso, até hoje eu não tinha nada com o Gael.'

'Até hoje?'

'Até poucas horas, se você quer ser específico.' O menino não respondeu. 'Filhote...' Ela passou a mão nos cabelos dele. 'Eu gosto do Gael.'

Ele deu um muxoxo.

'Eu sei. Só não sei por quê.'

'A gente não tem nada a ver, eu sei, mas eu gosto dele e... Não dá pra evitar, sabe? Ele me faz feliz, me faz sentir bem, viva. Eu não quis te falar antes porque eu não queria te magoar, não queria que você me visse quebrar a cara de novo. Queria saber o que era antes de te envolver de novo – da outra vez foi rápido demais...'

'Mas se eu não soubesse como é que eu ia poder te proteger?' Ela sorriu enterrando o rosto no pescoço do menino. 'Esse lutador de quinta te faz feliz?'

'Faz...'

'E você não tá com nenhuma doença de memória, você lembra que ele já te machucou uma vez? Uma não, várias!'

'João, eu já te disse, eu machuquei ele também...'

'Quando você tava com o meu p-, com o René?' Ela faz que sim com a cabeça. 'Então ali não tem mais chance?'

'Filhote... Eu acho que nunca teve.'

'Não sei o que é pior, o drogado que abandonou a gente ou o troglodita que me prometeu que ia te fazer feliz e fez justamente o contrário! Você voltou pra casa chorando...'

'Ele te prometeu?'

'É, mas não cumpriu.'

'Não, filho, cê não entendeu, ele te prometeu?' Os olhos de Dandara estavam marejados 'Vocês conversaram sobre mim?'

'Claro! Você acha que eu deixo qualquer um se aproximar assim da minha mãe? Quem tem mãe gata tem que aprender as mandin--'

Sem deixa-lo concluir o raciocínio Dandara puxou o menino em seu peito e abraçou-o fortemente. 'Meu amor, você não precisa se preocupar comigo... Eu sei que eu sempre te envolvi nessas coisas quando você era mais novo, mas foi um erro e as coisas agora são diferentes'

'Você disse isso da última vez.'

'E se eu me lembro bem você concordou.' Ela fez cócegas de leve no menino.

'Tá, o mestre Cruel nem parecia tão cruel assim com você, ele parecia maneiro, mas no final foi igual a todos os outros.'

'Meu filho, eu já te expliquei. Deixa o passado no lugar dele... Eu e o Gael estamos recomeçando e gostaria muito de ter o seu apoio, meu filho. Você é a pessoa mais importante pra mim.'

'Mesmo com o lutador?'

'Mesmo com mil lutadores! Vai ser sempre eu e você em primeiro lugar.'

'Uuuh, mestre Gael tá de volta à velha forma!' Bianca brincou, abraçando o pai. 'E aí, como foi? Conseguiu a Dandara de volta?' Ele fez que sim com a cabeça e anunciou que eles estavam namorando. Bianca esticou o braço em comemoração e Karina e Pedro bateram as mãos.

'Mandou bem, mestre!' Duca cumprimentou enquanto Gael sentava ao lado dele no carro, no banco de trás Pedro entre Karina e Bianca, que não se olhavam.

'Estou muito feliz por você, pai! A Dandara é o máximo! Até valeu a pena aturar o João durante um fim de semana se vocês voltaram!'

'É, o lado ruim é que agora você vai ter que aturar o João por mais tempo ainda, né?' Duca brincou

'É, Duca, não se pode ter tudo na vida, moleque...' Completou Gael, divertido.

'Ei! O Johnny é meu melhor amigo, tá? Eu sei que ele foi meio mala ontem, mas ele é maneiro.'

'Meio mala? Esse garoto é insuportável, fica no meu pé o tempo inteiro.'

'Porque você não deixa ele subir mais.' Duca encarou Pedro do retrovisor e o menino engoliu em seco. 'Não tá mais aqui quem falou.'

'Ka...' Gael percebeu a menina quieta 'Tudo bem? Você não gostou da notícia?'

'Nah, tá tudo bem, pai. Só não tô muito a fim de conversar com a sua filha... Mas parabéns, pai, eu gosto da Dandara.'

'Ai, meu saco, só me faltava essa agora.' E se dirigindo a Bianca 'O que é que você fez agora?'

'Eu fiz? Porque eu que tenho que ter feito alguma coisa? A Karina fica de raivinha e a culpa é minha? Paizinho, eu não fiz nada... Essa aí que é maluca, bruta, fica arrumando briga por nada.'

Gael abriu a boca para rebater e foi interrompido por Duca, em voz baixa.

'Mestre, acho melhor você ficar fora dessa...' Gael ignorou e aumentou o tom de voz, causando um solavanco no carro que Duca estacionava.

'Fora por quê? O que é que está acontecendo?' Bianca e Karina se entreolharam e Karina abriu a porta, saindo do carro, Pedro a seu encalço.

'Ei! Aonde você pensa que vai?'

Agora Gael e Bianca também estavam fora do veículo.

'Vou deixar meu namorado em casa.'

'Ah, mas não vai não, ele é perfeitamente capaz de andar até lá sozinho.'

'Mas pai...'

'Sem mais! Vocês já tiveram mais tempo do que o suficiente juntos, Karina, pra casa, agora!'

'Que saco! Eu achei que com a Dandara você ia entender—'

'Achou certo! Eu exatamente o que é, você não acha que eu prefiria estar com a morena nos braços ao invés de estar aqui gritando com você?' Bianca soltou um risinho e Gael a repreendeu. 'Se eu não posso ficar com a minha namorada ninguém mais pode. Vambora!'

Karina bufou e seguiu para dar um beijo de despedida em Pedro. Gael pensou em interrompê-los mas tocar no nome de Dandara despertara um desejo de tê-la ali, pressionar o corpo dela contra a parede do carro e subir as mãos por debaixo do vestido dela. Ele podia imaginar o colo da morena arfando de encontro ao seu—

'Ô PAI!'

'Oi.'

'O casal Duanca tudo bem, pode fazer o que quiser?' Karina apontou para Bianca, de volta no carro, aos beijos com Duca. Passando um braço por Karina, Gael gritou.

'Biancá! Aqui. Agora.'

Pedro se despediu novamente de Karina enquanto Gael empurrava as duas filhas para dentro e acenava para Duca.

'Agora nós vamos subir e vocês vão me explicar exatamente o que aconteceu nesse final de semana.'