'Não acredito!'

'Pai, olha o que ele tá fazendo!'

'João!'

'Gael...'

Se alguém perguntasse a Gael como foram os primeiros meses após a descoberta que seria pai de novo, ele não saberia responder com uma só palavra. Foi, sem dúvida, um tempo de adaptação. Não só pra ele, mas para toda a família. Bianca e Karina tiveram que relembrar, com a ajuda de Gael, que não deviam andar de pijama pela casa – volta e meia Bianca acabava esquecendo, o que causava mini ataques cardíacos em João.

'Um dia você ainda mata ele do coração!'

O menino, por sua vez, teve de se acostumar a habitar um quarto pequeno, em uma casa que não era só sua. Dandara e João tiveram alguns embates sobre roupas jogadas pelo caminho e a relação do menino com a tecnologia – agora havia ficado muito mais difícil restringir o menino de qualquer jogo, uma vez que haviam quatro celulares diferentes para ele tentar malocar. Mas principalmente, João discutia pelo tamanho de seu quarto e a falta de janelas.

'Eu vou morrer de alergia. Vocês já sabiam, né? Por isso encomendaram mais um pra me substituir.'

'João, para de ser dramático, meu filho! Já falei que nada, nem ninguém, vai substituir meu amor filhotinho da mamãe!' Dandara segurou o menino um dia no café da manhã e beijou-o até Bianca entrar na sala e João se desvencilhar da mãe.

'Não na frente dela.'

Dandara revirou os olhos e Gael prometera abrir um basculante do quarto do menino para a área, mas ainda não tivera tempo de cumprir. Isso porque tempo era algo que ele não conhecia mais. Entre a constante vigilância da alimentação de Dandara, as aulas de Muay Thai, os exames de sangue recorrentes e as mudanças no apartamento, ele ainda controlava o namoro das filhas e arrumava tempo para implicar com João. Os dois vinham se bicando desde o primeiro dia, quando após carregar a mudança de Dandara, Gael dormira exausto e acordou logo cedo louco para tomar banho.

'Esse menino já está no banheiro há quase meia hora!' Ele reclamava entre dentes para Dandara que, cheia de sono, fazia sinal para que ele voltasse a dormir. 'Não pode ser normal uma coisa dessas, não pode.'

'Esquece o João, Gael...' Dandara gemeu e se virou para o lado, mas Gael permaneceu inquieto, de olho no relógio. Sem conseguir dormir de novo, a morena se virou e passou uma mão sobre o abdômen do lutador. 'Vem pra cá, vem' e puxou-o em direção a um beijo.

Essa era a única parte que Gael gostou de ter de se adaptar... O fogo da morena havia aumentado desde a descoberta da gravidez e ele estava aproveitando cada segundo.

'Isso está ficando perigoso...' Comentou Gael uma noite em que eles estavam assistindo televisão, as crianças em seus respectivos quartos.

'Não consigo resistir.'

'Tá falando isso pra mim?' E ele segurou-a no colo, a morena ainda mantinha sua forma leve, e levou-a para o quarto. Outra coisa que eles tiveram de aprender foi a serem mais silenciosos durante os momentos íntimos. As paredes de Gael não eram grossas o suficiente para abafar os sons do quarto e em pouco tempo as noites do casal já haviam virado assunto no almoço.

'Foi boa a noite ontem?' Perguntou Bianca chegando na mesa ainda de pijama.

'Ô.' Respondeu Karina. 'Boa pra você que conseguiu dormir até agora... Pra quem teve que acordar cedo pra ir pra escola... Sério, pai, eu não posso nem dormir no mesmo quarto que o Pedro, com a porta aberta e vocês...'

'Aquela gritaria toda... Era vocês? Ai, meu Deus, minha analista vai ficar rica com tanta análise que eu vou precisar.' João tapou os ouvidos e Bianca riu do menino.

'Sua analista não vai ganhar um tostão se depender de mim.'

'Gael, eu falei que a gente falava sobre isso depois...'

'O que? Tá me querendo tirar a analista também?'

Bianca, que sabia da história, interviu pelo pai.

'João, você já está ficando bem grandinho... Não precisa de uma mulher pra te dizer as coisas.'

'Ah preciso sim... Você é uma mulher né? Não quer me dizer nada não?'

'Ou!' Gael exclamou e Bianca riu.

'Vou te dizer pra enfiar—'

'Tá bom, Bi.' Dandara interrompeu a menina. 'A gente entendeu, não é, meu filho?'

'Entendi... Entendi é que eu tenho sorte do meu quarto ser lá no fim do mundo, sem nem janelas, desse jeito não preciso ficar ouvindo vocês.'

'Ai, meu saco, essa história de janela não!'

'Ué, você quer que eu morra sufocado pra você poder ficar fazendo—não quero nem pensar nisso.'

'Esquisito, você por acaso sabem como são feitos os bebês?'

Karina soltou um riso e Dandara ficou vermelha. Apesar do fogo renovado, ela ainda mantinha a timidez. Esse balanço entre mulher fatal e recatada intrigava Gael e o mantinha fascinado pela morena... Mas logo eles descobriram maneiras de burlar o barulho... Gael percebera que Dandara estava particularmente sensível a toques leves, e ele a provocava até que ela estivesse implorando para tê-lo. Ele gostava de fazê-la perder o controle e ela curtia o prazer prolongado. Eles se amavam como um casal de namorados que tinham o apartamento dos pais livre. Gael chegou a brincar que produziriam gêmeos ou trigêmeos, se a fábrica estivesse em melhores condições...

Isso porque apesar de tudo, Gael era extremamente preocupado com a saúde da morena. Ele tinha decorado o horário de cada remédio, e estudado qual vitamina era melhor absorvida com o que. Já virara rotina o suco verde das nove da manhã e o chá de camomila antes de dormir. Esse último era motivo de discórdia entre Bianca e o pai, pois Gael insistia que somente Bianca conseguia fazer o chá de uma maneira que Dandara bebesse sem reclamar. Bianca argumentava que Gael devia ser sincero e se impor perante a professora de canto, mas ele não conseguia.

Segundo Karina, ele estava irreconhecível. Para João, ele era bobo e fora de moda, mas para Dandara ele era o homem ideal. Em nenhuma altura de seus pensamentos ela imaginara tanto carinho vindo daquele homem...

'Ainda não tem ninguém aí, Gael!' Dandara ria do lutador tentando sentir sua barriga.

'Tem, tem sim! Tem o meu garoto.'

'Ou garota...' Ela corrigiu.

'É, ou garota. Mas ele tá crescendo, né moleque? E eu vou continuar cuidando de você e da sua mãe.' Dandara acariciou os cabelos de Gael. Ela tinha acabado de chegar da Ribalta e Gael estava a sua espera para poderem jantar juntos.

'E as crianças?'

'Você quem está perguntando isso?' Gael zombou e Dandara riu, sentando-se à mesa. 'A Karina ficou pra fechar a academia, a Bianca, eu não sei, deve estar com o Duca? E o esquisito—quer dizer, o João' Gael se corrigiu ao receber o olhar da morena 'Ele tinha terapia hoje, né?'

O lutador pronunciou essas últimas palavras com cautela. Desde seu desentendimento com Olga ao telefone, ele vinha querendo pedir para Dandara afastar João da analista. Ele temia que ela pudesse interferir na relação que estava se formando, como havia interferido no bem estar dele. Olga tentara ligar, fazer contato com ele, mas ele não queria ouvir a psicanalista.

'Gael?' Dandara tocou o braço dele.

'Desculpa, amor, eu...' Gael se sentou em frente à morena e entregou-a dois comprimidos.

'Obrigada.' Dandara agradeceu, antes de tomá-los.

'Amor, eu queria falar com você sobre a Olga.'

'A psicanalista do João?' Dandara ergueu a sobrancelha. 'Sua ex-namorada?'

'Ela não foi minha—' Gael parou e considerou se valia a pena iniciar um conflito agora. 'Nada, besteira.' Ele desconversou, mas Dandara não iria deixar passar.

'Gael, o que é que tem a dra. Olga?'

'Nada, eu pensei alto.'

'A-ham.' Ela concordou, descrente. 'Agora aproveita e divide comigo. Você tem se encontrado com ela?'

'Não!' Gael respondeu súbito. 'Não, não, não, se depender de mim eu não tenho mais nada a ver com essa mulher. Eu só...' Ele respirou fundo e considerou que causaria mais stress em Dandara que ele não falasse. 'Eu acho que o João deveria trocar de psicanalista.'

Neste instante a porta se fechou num estrondo e Gael e Dandara se viraram para ver João boquiaberto.

'Você acha o que?'

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.